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09/05/2018

A DINASTIA DOS ASMONEUS ou MACABEUS


De Antíoco IV Epifânio a Herodes

O domínio ptolemaico (o rei do sul como é designado em Daniel 11) sobre a Judeia desabou frente ao ascendente poder selêucida (o rei do norte), na sequência da batalha de Panias no ano 200 a.C., quando Antíoco III o Grande incorporou a Judeia na Síria selêucida.

No tempo do domínio ptolemaico sobre a Judeia, não havia indícios fortes de uma política de helenização na Judeia, mas a situação mudou com a dominação selêucida. O modo de vida helenístico é introduzido na Judeia e observa-se no uso do idioma grego, na introdução dos deuses gregos, na educação, nos ginásios, no entretenimento. O novo modo de vida provoca o afastamento da religião e gera divisão entre o povo. A corrupção grassa entre os sacerdotes. O sacerdote legítimo da descendência de Zadoque, Onias III, é afastado e substituído por um sumo-sacerdote ilegítimo, com a conivência de muitos dos sacerdotes. Os sacerdotes profanaram o templo, deixaram de cumprir os ritos nomeadamente o sacrifício contínuo. Estes são os “violadores do concerto” (Dn 11:32). Com tudo isso estava estabelecida a abominação desoladora (Dn11:31). No topo disso, Antíoco Epifânio (ver post anterior), profana o templo, mata muitos milhares, proíbe a prática do judaísmo e persegue os fiéis.

Indignado com esta situação, um sacerdote chamado Matatias, da linhagem de Joiaribe (1Mac 2:1), recusou oferecer sacrifícios pagãos, matou o emissário de Antíoco que o quis obrigar a tal e fugiu para as montanhas com os seus filhos. Muitos juntaram-se a eles e revoltaram-se contra a ocupação síria sob a liderança militar de Judas, cognominado Macabeu (martelo), um dos filhos de Matatias.
Judas e seu exército conseguem retomar Jerusalém e purificar o templo. Mas não satisfeitos com isto, prosseguem a luta para conseguir a liberdade política. Luta que é continuada pelos seus irmãos após a sua morte. Estabelecidos como chefes pelo povo deram início a uma dinastia que governa na Judeia, inicialmente sob o domínio sírio, mas que se consegue estabelecer com governação independente no tempo de João Hircano. Isto foi possível porque o poder sírio enfraqueceu devido às lutas internas pelo poder enquanto Roma estava a expandir o seu domínio em volta do Mediterrâneo.

Segue agora uma lista dos governantes da dinastia Asmoneia, assim chamada pelo nome de um antepassado de Matatias, Asmon. São talvez mais conhecidos pelo nome de Macabeus, com referência a Judas Macabeu e o nome dos livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus.
A dinastia Asmoneia abrange o tempo desde a morte de Antíoco IV Epifânio até à chegada ao poder de Herodes, um período de cerca de 120 anos.

1.      Judas Macabeu          (164-160)

Antíoco V Eupator (164-162) (filho de Antíoco IV Epifânio)
2.      Jonatas (160-142)

Demétrio I Soter (162-151) (filho de Seleuco
Alexandre Balas (151-146) (filho de Antíoco Epifânio)
Demétrio II Nicator (146-145)
Antíoco VI (145-143) (filho de Alexandre Balas)
3.      Simão (142-134)

Diódoto Trifão (143-139)
Antíoco VII (139-131)
4.      João Hircano (134-104)

Demétrio II Nicator (131-129)
Alexandre II (129-127)
Seleuco V Nicator (127-126)
Antíoco VIII (126-114)
Antíoco X de Cizico (114-97)
5.      Aristobulo I (104-103)

6.      Alexandre Janeu (103-76)

Seleuco VI (97-95)
Antíoco XI (94-93)
Filipe Demétrio III (93-84)
Tigranes (84-69
7.      Salomé Alexandra (76-66)
8.      Aristobulo II (66-63)
Antíoco XII (69-63)
9.      Hircano II (63-40)
Em 63 a Síria torna-se uma província romana.
10.  Antígono (40-37)


Não há menção expressa das figuras desta dinastia no cânone da nossa Bíblia. Mas podem ser eles a que se refere o “pequeno socorro” (Dn 11:34) (ver mensagem anterior).

Quando lemos a história nos livros dos Macabeus (até à morte de Simão) e nas Antiguidades de Josefo, todo aquele período é de contínuas guerras pelo poder, tanto a nível externo como a nível interno. Só no tempo de Simão atinge-se uma certa estabilidade – “a terra gozou de repouso” (1Mac 14:4) - e no tempo de João Hircano, um elevado nível de prosperidade (Ant.13.10.4-5). Depois de João Hircano, em cujo tempo Israel consegue a independência da Síria, começa, com Aristobulo, uma monarquia profana e tirânica até à tomada do poder por Herodes (Dn 11:36 – este rei). Tudo parece dar a entender que os versículos de Daniel 11:32-35 cobrem todo aquele período, culminando no tempo de Herodes.

Não é meu intento fazer um relato extenso da história dos acontecimentos no tempo da dinastia Asmoneia. Mas da sua história, que podemos ler com pormenor nos livros de 1 e 2 Macabeus e nas Antiguidades de Josefo, importa salientar alguns aspetos que têm relação com o caso bíblico e que ajudam a compreender as visões de Daniel e as particularidades daquele último período antes da (primeira) vinda de Jesus.

O sumo-sacerdote, o “príncipe do concerto”

Na mensagem anterior vimos que com a usurpação do sumo-sacerdócio por Jasão e Menelau, no tempo de Antíoco Epifânio, e o assassinato do legítimo sumo-sacerdote Onias III, o príncipe do concerto foi quebrado (Dn11:22) e nunca mais foi restaurado.

Jasão teve de fugir. Menelau acabou por ser executado por Antíoco Eupator. Depois dele, um sacerdote (mas não da linhagem de Zadoque) chamado Alcimo procurou o sumo-sacerdócio para si, junto do rei Demétrio, e incita este contra Judas Macabeu.

Desde que Jasão e Menelau compraram de Antíoco Epifânio o cargo de sumo-sacerdote, que não lhes pertencia de direito, os governantes estrangeiros passaram a nomear o sumo-sacerdote de Israel. Jónatas, que sucedeu a Judas Macabeu no comando da resistência armada, foi nomeado sumo-sacerdote por Alexandre Balas, rei da Síria, em 152 a.C., e simultaneamente foi-lhe concedido o título de “amigo do rei” (1Mac 10:20). Dois anos depois, Jonatas é nomeado sumo-sacerdote, bem como estratego e meridarca (1Mac 10:65). O meridarca governa uma mérida, isto é uma “parte” de um território maior que a região administrada por um estratego, no caso a Judeia, acrescida de Galileia e Samaria[1].

A partir de então, o cargo “religioso” de sumo-sacerdote passou a confundir-se com o de líder político. Quando Simão assume o comando, o rei Demétrio o confirma como sumo-sacerdote, estratego e etnarca dos judeus (1Mac 14:38-47). João Hircano, com a morte de Antíoco VII, torna-se praticamente independente.

À morte de João Hircano, seu filho mais velho Aristobulo I, resolveu mudar o governo numa monarquia e colocou um diadema na sua cabeça. Chamou-se a si mesmo “rei” (Ant.13.11.1). Era cruel e reinou apenas um ano, sucedido pelo seu irmão Alexandre Janeu, outro déspota da pior espécie.

Duas coisas observam-se aqui:

Na mensagem anterior já vimos que desde Jasão e Menelau nunca mais um sacerdote legítimo da linhagem de Zadoque desempenhou a função de sumo-sacerdote. O sumo-sacerdote, que é também chamado o “príncipe do concerto” (Dn 11:22), foi quebrado. Os Macabeus/Asmoneus, que ocupavam o cargo de sumo-sacerdote, não eram legítimos. Eram de linhagem sacerdotal, mas não de Zadoque (Ez 44:15). Num certo sentido, a abominação desoladora continuou, apesar da “purificação do templo” levada a efeito no tempo de Judas Macabeu. Os sacerdotes normais podiam fazer determinados serviços no templo, oferecer os sacrifícios, mas não os do Dia da Expiação, estes deviam ser oferecidos pelo sumo-sacerdote (Lv 16, especialmente v.32). Jesus esteve em Jerusalém para várias festas durante o seu ministério, mas nunca é mencionado o dia da Expiação.

Além de sumos-sacerdotes fraudulentos, também eram “reis” fraudulentos sobre o trono de Israel, não sendo da linhagem de David.

O sacrifício contínuo

Em Daniel 8:11 e 11:31 lemos que foi tirado o contínuo sacrifício.
O que era o sacrifício contínuo? Era a oferta sobre o altar de dois cordeiros de um ano, cada dia, continuamente, um pela manhã, o outro cordeiro à tardinha (Ex 29:38-39). É interessante ler o porquê deste holocausto contínuo: “Este será o holocausto contínuo por vossas gerações, à porta da tenda da congregação, perante o Senhor, onde vos encontrarei, para falar contigo ali. E ali virei aos filhos de Israel, para que por minha glória sejam santificados. E santificarei a tenda da congregação e o altar; também santificarei a Aarão e seus filhos, para que me administrem o sacerdócio. E habitarei no meio dos filhos de Israel, e lhes serei por Deus. E saberão que eu sou o Senhor, seu Deus, que os tenho tirado da terra do Egipto, para habitar no meio deles: eu, o Senhor, seu Deus (Ex 29:42-46).

O capítulo 29 de Êxodo fala da santificação dos sacerdotes para que possam ministrar diante de Deus (1-35), depois fala da expiação pelo altar (36-37) e a seguir fala do sacrifício contínuo. A santidade do sacerdote e do altar, e a oferta contínua todos os dias de manhã e da tarde significavam a presença de Deus no meio do povo.

Todos estes elementos estavam corrompidos desde o tempo de Antíoco Epifânio: os próprios sacerdotes deixaram de oferecer os sacrifícios e o sacrifício contínuo foi tirado (o que é corroborado por Daniel e pelo livro dos Macabeus) e os sumos-sacerdotes, a partir de Jasão, eram todos ilegítimos. Creio que podemos entender aqui que, por tudo isso, Deus abandonou o seu templo. Apesar de Judas Macabeu ter purificado o templo e restaurado os sacrifícios, a presença de Deus já não regressou ao templo.

Do mesmo modo como Ele abandonou o tabernáculo quando a arca foi levada pelos filisteus, em consequência das profanações dos sacerdotes, os filhos de Eli (1Sam 2-6). E do mesmo modo, como Ezequiel viu em visão as abominações feitas pelos sacerdotes de Israel no templo e em consequência viu a glória de Deus levantar-se e sair do templo (Ez 8-10). Os sacrifícios continuaram a ser oferecidos no tabernáculo, mas a arca nunca mais lá voltou. Cerca de 70 anos depois, David levou a arca para uma tenda especialmente montada em Jerusalém e mais de 100 anos depois de ter sido capturada pelos filisteus, a arca foi finalmente colocada no templo de Salomão e a glória de Deus encheu o templo. Quando Ezequiel estava no auxílio, Jerusalém e o templo foram queimados por Nabucodonosor e Israel foi para o exílio. Deus estava com eles, no exílio. Quando regressaram a Jerusalém, autorizados pelo decreto de Ciro, o templo foi reconstruído e dedicado no 7º ano de Dario, e embora já não houvesse arca, Deus estava no meio deles (Ageu 1:13). No templo visionário de Ezequiel – que representa espiritualmente a época pós-exílica (ver mensagem O TEMPLO DE EZEQUIEL 40-48 dezembro 2016)– a glória de Deus encheu o templo (Ez 43:1-4; 44:4).

Anos mais tarde, no tempo de Antíoco Epifânio e dos Asmoneus, entendemos que Deus abandonou novamente o seu templo. Malaquias, o último profeta do Velho Testamento, anunciava “eis que eu envio o meu anjo, que preparará o caminho diante de mim; e, de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto, a quem vós desejais; eis que vem, diz o Senhor dos Exércitos” (Mal 3:1). Jesus, a presença de Deus (Emanuel, Deus connosco), voltou ao templo onde ensinou durante o seu ministério terreno. Mas o seu sacrifício não foi compreendido, e depois da sua ressurreição, os sacrifícios continuaram a ser oferecidos pelos sacerdotes no templo enquanto este ficou de pé (até ao ano 70 quando foi destruído definitivamente), embora a obra de Cristo na cruz tivesse abolido o sistema sacrificial.
A continuação dos sacrifícios e das ofertas significava a rejeição do Senhor e do seu Messias e era, por conseguinte, idolatria (estabelecimento da sua própria religião e justiça). Idolatria é abominação (Is 44:19). Os falsos sacrifícios eram abominações.
Por exemplo, relativamente às ofertas pacíficas, Levítico 7:17-18 estipula que o que restava da carne do sacrifício ao terceiro dia devia ser queimado no fogo. E, se da carne do seu sacrifício pacífico se comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será aceite, nem lhe será atribuído o sacrifício: coisa abominável será, e a pessoa que dela comer levará a sua iniquidade (Lv 7:21). Quem comia do sacrifício ao terceiro dia era porque não aceitava a validade do sacrifício. O terceiro dia é o dia que simboliza a ressurreição de Jesus. Os judeus continuaram a comer dos sacrifícios depois do terceiro dia (literalmente e simbolicamente), significando que não aceitavam o sacrifício feito por Ele, o que se pode considerar abominação.

Roma

Desde o tempo de Nabucodonosor, Israel perdera a sua autonomia e a sua terra, e foi governada por quatro sucessivos impérios mundiais: Babilónia, Pérsia, Grécia e Roma. O Senhor assim o determinou. Era para a sua proteção, para preservação da vida (Jr 27:12-15). Os judeus seriam governados e protegidos por impérios mundiais até à vinda do Messias (Dn 2).

Portanto, a revolta política dos Asmoneus para obter a independência era na verdade contrária aos ensinamentos de Jeremias e Daniel. Contudo, nunca chegaram a ser rigorosamente independentes.
Dantes eu pensava que o tempo do quarto animal (que representa o império romano) começava com Herodes, porque ele foi nomeado rei da Judeia pelo senado de Roma.

Mas desde Judas Macabeu que existiam alianças com Roma e que através delas a Judeia estava debaixo da proteção do império romano, que estava em expansão, apesar de o domínio sírio ainda persistir por algum tempo.

Acontece que, tendo ouvido falar da fama dos romanos, Judas Macabeu enviou uma embaixada a Roma para travar relações de amizade e aliança, e para conseguir que os libertassem do jugo, visto que o reino dos gregos queria manter Israel na servidão (1Mac 8:17-18).

“Judas tomara conhecimento da fama dos romanos. Dizia-se que eram poderosos e valentes, que se compraziam em todos os que se aliassem a eles, e concediam sua amizade a quantos a eles se dirigissem. Falaram-lhe também de suas guerras e das valorosas proezas que tinham realizado entre os gauleses, e como os tinham dominado e tornado seus tributários. E do que haviam feito na Espanha para se apoderarem das minas de prata e de ouro que lá se encontram, e como se tornaram senhores de todo esse país pela sua prudência e perseverança embora a região fosse muito distante deles. Ouviu falar também dos reis que tinham vindo contra eles das extremidades da terra, como eles os destroçaram e lhes infligiram graves derrotas, enquanto os outros lhes pagam um tributo anual … Também Antíoco, o Grande, rei da Ásia, que marchou contra eles para enfrentá-los com cento e vinte elefantes, cavalaria, carros de guerra e um enorme exército, foi por eles esmagado. Capturado vivo, obrigaram-no a pagar ele e seus sucessores, um pesado tributo, além da entrega de reféns e da cessão de territórios …. Tendo os da Grécia conjurado para ir exterminá-los, os romanos, sabendo do plano, enviaram contra eles um só general para os debelar …Quanto aos outros reinos e às ilhas que lhes tinham resistido, os romanos os destroçaram e submeteram. Com os seus amigos, porém, e com os que se fiavam no seu apoio, eles mantiveram sua amizade (1Mac 8:1-11).

A aliança de amizade recíproca com os romanos por Judas Macabeu foi renovada com Jonatas (1Mac 12:1), depois com Simão (1Mac 14:16; Ant.13.7.2), e com João Hircano (Ant.13.9.2).

Entretanto, a partir de Simão, Israel passou a gozar de uma semi-independência da Síria, mas isto chegaria ao fim com Aristobulo II. Quando Alexandre Janeu morre, ele é sucedido no trono pela sua mulher Salomé Alexandra, que reinou 9 anos. Como ela não podia ser sumo-sacerdote, nomeou o seu filho Hircano sumo-sacerdote. Com a morte de Salomé Alexandra, o seu outro filho, Aristobulo II, ascendeu ao trono. Mas seu irmão Hircano, incentivado por Antipater (governador da Idumeia e pai de Herodes), inicia uma guerra civil pelo poder na Judeia. Antipater, com a ajuda de Aretas rei da Arábia, ajuda Hircano a conquistar o trono. Nesta guerra civil, tanto Aristobulo como Hircano procuram obter o apoio de Roma. Mas aproveitando a desordem, o general romano Pompeu toma Jerusalém, e restaura o sumo-sacerdócio a Hircano enquanto Aristobulo é preso em Roma. Em 63 a.C. Judeia passa a ser governada por Roma através de um procurador, mantendo-se o no trono Hircano, como rei.

Depois de poucos anos, Hircano é destronado por Antígono, filho de Aristobulo, e este mantém-se no poder na Judeia até que Roma designa Herodes como rei da Judeia em 40 a.C.

Considerando que a Judeia, com os Asmoneus, esteve em aliança com Roma, e debaixo da sua proteção, já no tempo de Judas Macabeu e finalmente integrada no império romano em 63 a.C., e que, até à nomeação de Herodes como rei dos judeus, houve 10 governantes na dinastia dos Asmoneus, proponho a seguinte hipótese: que as 10 pontas que se levantaram do quarto animal (Daniel 7:7-8, 24) são os 10 “reis” dos Asmoneus que governaram em Israel. A outra ponta que se levanta é Herodes. É diferente dos primeiros, porque não pertence à mesma dinastia. Diante dele, 3 foram arrancados: Aristobulo, Hircano e Antígono. Quando lemos a história contada por Josefo, Herodes já está no palco político na Judeia desde o tempo de Aristobulo, chegando a ter mais poder do que eles.

Na próxima mensagem, vamos ver mais de perto a história de Herodes para ver se esta hipótese tem pés para andar.



[1] Nota da Bíblia de Jerusalém

22/04/2018

O IMPÉRIO GREGO (4). Antíoco IV Epifânio


Nota: A secção sobre Antíoco IV Epifânio ocupa os vs. 21 a 32. O rei do v.36 já não pode ser o mesmo. Antíoco é selêucida, rei do norte. A certa altura, o rei do v.36 entra numa luta com o rei do sul e o rei do norte (v.40), portanto é outra personagem.

Lembramos que Antíoco III, o Grande, tirou a Judeia do domínio do rei do sul (Egipto) e integrou-a no reino do norte (Síria). Antíoco III foi durante um tempo um rei bem-sucedido, mas meteu-se com Roma e sofreu grande derrota: a redução dos territórios sob seu domínio e uma pesada indemnização a pagar a Roma. Além disso, foi obrigado a deixar o seu filho Antíoco (que passaremos a conhecer na história como “Epifânio”) como refém político em Roma.

Com a morte de Antíoco III, Seleuco IV Filopater sucedeu o seu pai no trono em 187 a.C.. Este é o arrecadador de impostos de Dn 11:20. Os impostos eram para pagar a indemnização a Roma.
21- Depois, se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente, e tomará o reino com engano.
Antíoco Epifânio não era o herdeiro legítimo do trono. Subiu ao trono de maneira irregular. Ainda durante o reinado de Seleuco IV, o filho deste, Demétrio, o herdeiro legítimo, foi enviado para Roma, trocando de lugar com Antíoco como refém. Seleuco foi assassinado por Heliodoro, um alto oficial do seu reino, em 175 a.C., e este foi por sua vez aniquilado por Antíoco Epifânio. Com o legítimo herdeiro do trono em Roma, Epifânio aproveitou a oportunidade para tomar o poder com a ajuda do rei de Pérgamo, proclamando-se co-regente com outro filho de Seleuco, ainda criança, que manda assassinar. Ele nunca é referido como rei do norte, mas é o que ele é na realidade.

É qualificado como “vil” (desprezível, abjecto, ignóbil). Não respeitou os costumes dos judeus como o fez seu pai, Antíoco III, que permitiu que os judeus vivessem segundo a seu Lei e costumes. Josefo relata várias cartas de Antíoco III que testemunhavam da amizade e estima que ele tinha para com os judeus. Epifânio, pelo contrário, apoiou os corruptos entre os judeus, “os violadores do concerto” (v.32), deixando que lhe comprassem o posto de sumo-sacerdote por dinheiro.
Em 173 a.C. Antíoco pagou o restante da indemnização de guerra imposta pelos romanos e fortaleceu o seu poder: com os braços de uma inundação arrancou os seus inimigos diante dele (v.22). Também fez prosperar económica e socialmente o seu reino: 24- Virá, também, caladamente, aos lugares mais férteis da província, e fará o que nunca fizeram seus pais, nem os pais de seus pais; repartirá entre eles a presa, e os despojos, e a riqueza, e formará os seus projetos contra as fortalezas, mas por certo tempo (v.24). “Por certo tempo”, porque haveria um limite ao seu poder e em certo momento o seu domínio sobre a Judeia (que é o que sempre está em foco) passará para outro.
“Quando Antíoco se viu consolidado no seu trono, pretendeu apoderar-se também do Egipto, a fim de reinar sobre os dois reinos. Invadiu, pois, o Egipto á frente de um exército poderoso, com carros, elefantes e cavaleiros e uma grande esquadra, e travou combate com o rei do Egipto. Ptolomeu, o qual recuou diante dele e fugiu, muitos tombando feridos. As cidades fortificadas do Egipto foram tomadas e Antíoco apoderou-se dos despojos do país” (1Mac 1:16-19).
Dn 11:25 a 27 falam desta primeira campanha, bem-sucedida, contra o Egipto.
25- E suscitará a sua força e o seu coração contra o rei do sul, com um grande exército, e o rei do sul se envolverá na guerra, com um grande e mui poderoso exército, mas não subsistirá, porque formarão projetos contra ele. 26- E os que comerem os seus manjares o quebrantarão; e o exército dele se derramará, e cairão muitos traspassados. 27- Também estes dois reis terão o coração atento para fazerem o mal e a uma mesma mesa falarão a mentira; ela, porém, não prosperará, porque o fim há-de ser no tempo determinado.
O que é que aconteceu?
Em 170-169 a.C. o Egipto quis reconquistar a Celessíria (região onde fazia parte a Judeia), e envolveu-se numa guerra com Antíoco que invade o Egipto. O Egipto tem um exército poderoso, mas não subsiste e o exército egípcio é derrotado pelo poderoso exército de Antíoco, que é como “uma inundação que arranca os inimigos diante dele” (v.22). Antíoco ocupa o país (exceto Alexandria) e captura o rei Ptolomeu VI Filometor (que é seu sobrinho) apresentando-se como o seu protetor. Em Alexandria, fora da influência de Antíoco, Ptolomeu VII (irmão de Ptolomeu VI) é proclamado rei do Egipto.
Agora, os dois reis (Epifânio e Ptolomeu VI) tinham uma coisa em comum: derrotar Ptolomeu VII e segurar o poder sobre o Egipto. Chegaram a um acordo, Ptolomeu VI foi colocado no trono como co-regente do Egipto com Antíoco. Mas na mesma mesa onde selaram o acordo, falaram mentira. Isto é, cada um tencionava trair o outro. Mas isto não prosperaria. No inverno de 169/168, os governantes ptolemaicos reconciliam-se, o que põe fim à ambição de Antíoco de manter os dois irmãos em guerra um contra o outro.
Antíoco veio a saber que o rei do Egipto havia tomado uma atitude hostil aos seus interesses e dirige novo ataque contra o Egipto, sitiando Alexandria (168 aC). Mas esta segunda campanha tem um desfecho muito diferente da primeira (vs.29-30).
29- No tempo determinado, tornará a vir contra o sul; mas não será na última vez como foi na primeira. 30- Porque virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza;
Entretanto, os Ptolemeus tinham feito uma aliança com Roma. Roma declarou o Egipto zona interdita, e enviou contra Antíoco “os navios de Quitim”. Antíoco foi humilhado e forçado a retirar os seus exércitos do Egipto e regressar.

Antíoco e os judeus
Vamos agora ver como a história de Antíoco se interliga com a dos judeus
22- e serão quebrantados, como também o príncipe do concerto. 23- E, depois do concerto com ele, usará de engano; e subirá, e será fortalecido com pouca gente.
Quem é o príncipe do concerto do v.22?

A palavra traduzida “príncipe” é NAGIYD. É utilizada para um líder e chefe do povo, um rei, como David (1Sam 9:16; 2Sam 5:2 etc.), Jeroboão (1Rs 14:7), Ezequias (2Rs 20:5); para líderes de tribos (1Cr 27:16) e outros altos oficiais (1Cr 27:4).

A mesma palavra também é utilizada para líderes religiosos, nomeadamente o sumo-sacerdote, ou o filho do sumo-sacerdote, e outros cargos de supervisão no templo como o maioral dos tesouros. A palavra NAGIYD nem sempre é traduzida com a mesma palavra em português: maioral (1Cr 9:11;2Cr 31:13; Ne 11:11); sumo-sacerdote (2Cr 31:10); guia (1Cr 9:20); presidente (Jer 20:1); chefe (1Cr 12:27).

O príncipe do concerto aqui é o sumo-sacerdote. Qual é a história?

O sacerdote em funções no início do reinado de Antíoco Epifânio era Onias III. Onias é caluniado diante do rei por um filho de Tobias (descendente do Tobias do tempo de Neemias) como “grande amante de dinheiro” por ter recusado pagar impostos ao predecessor de Antíoco (Josefo conta a história em Ant.12.4). O irmão de Onias, que adotou um nome grego Jasão, começou a manobrar para obter o cargo de sumo-sacerdote, prometendo a Antíoco muito dinheiro se ele fosse nomeado. Antíoco consentiu e Onias é deposto (174 a.C.). Jasão torna Jerusalém numa cidade grega, com a conivência dos outros sacerdotes e dos liberais entre e povo. Diz no livro de 2Macabeus 4: “tão logo assumiu o poder, começou a fazer passar os seus irmãos de raça para o estilo de vida dos gregos. Suprimiu os privilégios reais benignamente concedidos aos judeus … abolindo as instituições legítimas, introduziu costumes contrários à lei … construiu a praça de esportes…Verificou-se desse modo tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros, por causa da exorbitante perversidade de Jasão, esse ímpio e de modo algum sumo-sacerdote, que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, ….”.

Três anos depois (171 a.C.), Jasão envia um certo Menelau, irmão de Simão o benjamita, levar o dinheiro do tributo a Antíoco. Mas não contou que Menelau aproveitasse a oportunidade para comprar o sumo-sacerdócio para si próprio, mesmo não sendo de descendência sacerdotal. Agora Jasão é afastado. Menelau continua a política de Jasão. Subtraiu objetos de ouro do templo para enriquecimento próprio e para pagar subornos e manter-se no poder. Onias III, que estava exilado, ficou a saber e repreendeu-o publicamente, o que levou a que Onias fosse assassinado a mando de Menelau (2Mac 4:23-35).

Por esta altura, Antíoco conduzia a sua primeira campanha contra o Egipto, que lhe rendeu muito despojo de guerra.
28- Então tornará para a sua terra, com grande riqueza, e o seu coração será contra o santo concerto; e fará o que lhe aprouver, e tornará para a sua terra.
Porque, depois disto, se dirigiu Antíoco à Judeia com o coração contra o santo concerto?

Circulavam falsos rumores que Antíoco tinha morrido. Jasão, que tinha sido afastado do sumo-sacerdócio aproveitou isto e reuniu mil homens e desferiu um ataque contra a cidade, entregando-se sem piedade à chacina dos seus concidadãos, na tentativa de retomar o controlo. Mas não conseguiu no seu intento e foi obrigado a fugir. Chegando estas informações a Antíoco, este ficou com a impressão de que a Judeia estava em revolta contra ele. Dirigiu-se com o seu exército a Jerusalém “enfurecido em seu íntimo como uma fera” e apoderou-se da cidade à força das armas. Executou uma grande matança, oitenta mil pessoas foram mortas no espaço de três dias, e outros muitos milhares vendidos como escravos. Não contente com isso, Antíoco teve a ousadia de penetrar no templo, guiado por Menelau, e roubou parte dos tesouros do templo para encher os seus cofres do dinheiro necessitado para as suas campanhas militares. Após o que se apressou para regressar à sua terra, deixando superintendentes em Jerusalém para manter a ordem e Menelau como sumo-sacerdote, que dominava sobre os seus concidadãos de modo ainda mais atroz que os outros (a história é contada em 2Mac 5; e por Josefo em Ant,12,5).

Dois anos depois, de regresso da desafortunada segunda campanha no Egipto, Antíoco volta-se novamente contra Jerusalém.
30- […] e voltará, e se indignará contra o santo concerto, e fará como lhe apraz; e ainda voltará e atenderá aos que tiverem desamparado o santo concerto. 31- E sairão a ele uns braços, que profanarão o santuário e a fortaleza, e tirarão o contínuo sacrifício, estabelecendo a abominação desoladora. 32- E aos violadores do concerto, ele com lisonjas perverterá,
Antíoco enviou um oficial com a missão de forçar os judeus a abandonarem as leis de seus pais e mandou profanar o santuário. O templo encheu-se de lascívias e das orgias cometidas pelos pagãos que se divertiam com meretrizes, introduzindo coisas ilegais nos átrios sagrados. O altar estava coberto de oferendas proibidas pela lei. Não se podia mais celebrar o sábado, nem guardar as festas, nem simplesmente confessar que se era judeu … (2Mac 6:1-8).
A “abominação desoladora” estava instalada. Não porque Antíoco entrou no santuário para roubar o ouro ou porque mandou sacrificar porcos no altar, como muitos interpretam, mas porque foram os próprios sacerdotes ao violarem a aliança. Descuidavam-se dos sacrifícios, permitiram a profanação do templo e foram coniventes com a nomeação de um sumo-sacerdote fraudulento. Abominações desoladoras são os atos cometidos pelos próprios judeus no templo.

Daniel 11:31 diz que braços saíram que profanaram o santuário e tiraram o sacrifício costumado e estabeleceram a abominação desoladora. Estes braços não são de Antíoco, mas dos violadores da aliança claro que lisonjeados por Antíoco porque serve a sua política. Os violadores da aliança só podem ser aqueles que são da aliança. A transgressão dos sacerdotes fez com que Antíoco impusesse a remoção do sacrifício contínuo – mas não era nada que já não estivesse a acontecer desde o tempo de Jasão – e proibisse os judeus de praticarem a sua religião (sacrifícios, a circuncisão, etc.) e trouxesse o exército para executar matanças.

Quando estes atos abomináveis são trazidos para dentro do santuário, é o lugar santo onde Deus habita (ou que representa a sua habitação) que é profanado. Deus não recebe coisas abomináveis. Quando estas entram no seu templo, Deus abandona o seu santuário e quando não há mais nada a fazer, destrói-o.

Há várias ocorrências disto na Bíblia. Os sacerdotes filhos de Eli trouxeram o pecado bem dentro do tabernáculo. Não se importavam com o Senhor (v.12). Não só roubavam do que o povo vinha sacrificar, como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação, e fizeram transgredir o povo (1Sm 2:12-25). Em consequência, Deus trouxe um inimigo contra Israel, os filisteus, e abandonou o seu santuário (a arca da sua presença foi levada pelos filisteus), e o sumo-sacerdote Eli e os seus filhos foram mortos e os seus descendentes como que “vomitados” do serviço no santuário (1 Sm 2:30-34; 3:11-14).

No tempo de Ezequiel, o mesmo aconteceu. Ezequiel viu em visão (Ez 8-11:13) as abominações cometidas dentro do templo pelos sacerdotes. Vês o que eles estão fazendo? As grandes abominações que a casa de Israel faz aqui, para que me afaste do meu santuário (Ez 8:6-18)? Os próprios sacerdotes trouxeram religiões estranhas (idolatria) dentro do templo. Em consequência, Ezequiel viu a glória do Senhor levantar-se e sair do templo (Ez 9:3; 10:18). E também viu na sua visão Deus ordenar ao homem vestido de linho para espalhar brasas acesas sobre a cidade. Deus trouxe os caldeus e Nabucodonosor contra Israel, para destruir o templo e a cidade, levar o povo para o exílio e matar o sumo-sacerdote (Jr 4:1;7:30; 13:27; 52:24-26; Ez 5:9,11;6:11; 8:1-18; 2 Cr 36:14-17).

Foram as abominações cometidas no templo pelos sacerdotes de Israel que contaminaram o lugar santo e fizeram com que Deus retirasse a sua presença e desolasse a sua casa. Abominações não são ações cometidas por estranhos à aliança, mas são cometidas na presença de Deus pelo próprio povo de Deus, representados pelos seus sacerdotes. Porque os filhos de Judá fizeram o que era mau perante mim, diz o Senhor: puseram os seus ídolos abomináveis na casa que se chama pelo meu nome, para a contaminarem (Jr 7:30).

Israel era separado das outras nações para serem sacerdotes diante de Deus. Deus habitava no meio deles. Na terra, tanto israelitas como estrangeiros e outros habitantes podiam cometer abominações. Mas no templo, apenas israelitas (representados pelos seus sacerdotes) tinham acesso, por isso só eles podiam cometer atos abomináveis. Como sacerdotes e levitas, o seu dever era “guardar” a santidade do santuário, assim como Adão fora incumbido de guardar o jardim para não deixar entrar a corrupção que o contaminaria. Adão não guardou o jardim/santuário e foi expulso. Os sacerdotes e levitas não guardaram o tabernáculo, também não guardaram o templo, mas estabeleceram nele a abominação que resultou na desolação.

Assim, não era a presença de exércitos inimigos no templo, quer filisteus, quer Nabucodonosor, quer os porcos sacrificados por Antíoco, mas esta presença e a ação profanadora do inimigo era a consequência visível da abominação cometida por Israel. A abominação trazia um juízo, executado mediante o exército de um povo estranho.
Eis o dia, eis que vem (v.10) … o dia da indignação do Senhor (v.19) … De tais preciosas joias fizeram o seu objeto de soberba e fabricaram suas abomináveis imagens e seus ídolos detestáveis; portanto eu fiz que isso lhes fosse por sujeira, e o entregarei na mão dos estrangeiros, por presa, e aos perversos da terra por despojo; eles o profanarão. Desviarei deles o meu rosto, e profanarão o meu recesso; nele entrarão profanadores, e o saquearão (Ez 7:20-22)
Mas ainda não era o “tempo do fim”. A invasão de Antíoco foi só um aviso.

Os macabeus
Antíoco submeteu, com suas lisonjas, os violadores da aliança, mas o povo que conhece o seu Deus se tornou forte e fez proezas (Dn 11:32). Os violadores da aliança não se preocuparam em estar a quebrar as leis de Deus. Mas quanto aos outros, o livro de Macabeus relata histórias de coragem, de como judeus fiéis, coagidos a violarem a lei, enfrentavam perseguições e torturas.
Entretanto, a resistência é organizada pelos macabeus, uma família sacerdotal que, sob a liderança inicial de Judas Macabeu, conseguiram juntar um grande número de homens e formar um exército de guerrilha, “o pequeno socorro” (v.34). Sendo poucos, lutaram contra o exército sírio muito maior. Conseguiram purificar o templo e restaurar o culto, o que levou à instituição da festa de Hanukkah. Dizem os livros de 1 Macabeus que a purificação do santuário sucedeu no 25º dia do mês de Quisleu, no mesmo mês e dia em que três anos antes, Antíoco havia feito construir, sobre o altar dos holocaustos, a Abominação da desolação e que os pagãos o tinham profanado (1Mac 1:54; 4:52-54).
Nota: Os livros dos Macabeus não fazem parte do cânone da Bíblia, mas são uma fonte importante para a história daquele tempo. Josefo segue 1Mac nas suas Antiguidades. 1Macabeus é um livro que canta as proezas dos Macabeus em muitas (demasiadas) palavras lisonjeiras, tentando mostrá-los como verdadeiros herdeiros do trono de David e legítimos sumos-sacerdotes.
Ajudados com poucos, ou com pequeno socorro- o exército dos macabeus eram poucos e com poucos ganharam do exército sírio muito maior. Esta é uma interpretação. Outra interpretação diz que o socorro foi pequeno, ou insuficiente, porque os macabeus, embora conseguissem restaurar o templo e reconquistar por algum tempo a independência de Israel, tomaram para si o trono (que não lhes pertencia de direito porque eles não eram descendência de David, nem da casa de Judá) e tomaram também para si, ilegitimamente, o cargo de sumo-sacerdote, ao qual também não tinham direito, não sendo da linhagem de Zadoque.
Desde Menelau, nunca mais um sumo-sacerdote legítimo da casa de Zadoque ministrou em Israel. É isto o que significa o príncipe da aliança foi quebrado.
Mesmo quando o templo foi purificado depois da profanação pelas forças de Antíoco, a abominação foi só parcialmente resolvida. O legítimo sumo-sacerdote nunca mais foi reinstalado no cargo. Verdadeiros abusos introduziram-se desde o tempo do rei Herodes, nomeando e destituindo arbitrariamente os sumos-sacerdotes. Quando, depois da deposição de Arquelau (6 d.C.), a Judeia passou a ser uma província romana, cada novo procurador nomeava um novo sumo-sacerdote. Josefo (Ant.20) escreve que o número de sumos-sacerdotes, desde os dias de Herodes até ao dia em que Tito tomou e queimou o templo e a cidade (cerca de 107 sete anos), foi de 28, alguns dos quais só ocuparam o cargo durante escassos meses. A maior parte deles eram familiares de Anás que, embora tivesse efetivamente sido sumo-sacerdote durante cerca de 7 anos (7-13 d.C.), conservou na prática a autoridade até à sua morte.
Note-se que em Daniel 11, contrariamente ao livro de Macabeus, não há menção de uma restauração depois do estabelecer da abominação desoladora. Esta restauração só acontecerá com Jesus.
Os vs.32 a 35 fala de “entendidos entre o povo que ensinarão a muitos, mas cairão, e serão provados e purificados, ….

33- E os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia cairão pela espada, e pelo fogo, e pelo cativeiro, e pelo roubo, por muitos dias. 34- E, caindo eles, serão ajudados com pequeno socorro; mas muitos se ajuntarão a eles com lisonjas. 35- E alguns dos entendidos cairão, para serem provados, e purificados, e embranquecidos, até ao fim do tempo, porque será ainda no tempo determinado.
Isto caracteriza a condição dos judeus desde os dias de Antíoco Epifânio ao tempo de Herodes (11:36) e depois até à vinda do reino com Jesus.



16/04/2018

O IMPÉRIO GREGO (3). Antíoco III o Grande


O fim de Antíoco III o Grande e o seu sucessor Seleuco Filopater

17-E porá o seu rosto para vir com a força de todo o seu reino, e com ele os retos, e fará o que lhe aprouver: e lhe dará uma filha das mulheres, para a corromper; mas ela não subsistirá, nem será para ele.
NIV- He will determine to come with the might of his entire kingdom and will make an alliance with the king of the South. And he will give him a daughter in marriage in order to overthrow the kingdom, but his plans will not succeed or help him.
Como vimos na mensagem anterior, Antíoco III marchou com sucesso contra o Egipto – isto enquanto Roma fez guerra a Filipe V na Segunda Guerra Macedônia (200-196), e por isso o Egipto não podia contar com o apoio de Roma.
Ptolomeu assinou um tratado de conciliação com Antíoco em 195 a.C., cedendo ao rei selêucida a posse da Celessíria. Antíoco deu também a sua filha Cleópatra em casamento a Ptolomeu V. O Egipto tornou-se praticamente um protetorado selêucida.
Mas Antíoco não seria para sempre vitorioso.
18- Depois, virará o seu rosto para as ilhas, e tomará muitas; mas um príncipe fará cessar o seu opróbrio contra ele, e ainda fará tornar sobre ele o seu opróbrio.
NIV- Then he will turn his attention to the coastlands and will take many of them, but a commander will put an end to his insolence and will turn his insolence back upon him.
Depois de ser vitorioso contra o Egipto, Antíoco III queria alargar as suas fronteiras para a Ásia Menor e Europa, “as ilhas”. Conquistou cidades costeiras que faziam parte dos domínios ptolemaicos e cidades gregas independentes. Em 192 a.C. invadiu a Grécia. Roma não gostou e exigiu a sua retirada. Antíoco recusou, insolente, e travou uma guerra de vários anos contra Roma, mas foi definitivamente vencido nas Termópilas (191 a.C.) e em Magnésia (190 a.C.). Com o tratado de Apameia (188 a.C.), entre Antíoco III e a República de Roma, que se seguiu às vitórias navais romanas e rodenses sobre a marinha selêucida, o império selêucida perdeu toda a Ásia a oeste do Tauro (Ásia Cistáurica), deixando de ter influência no Mediterrâneo.
O tratado também obrigava o rei a pagar uma indemnização a Roma, a ceder os elefantes que tinha no exército e a entregar o seu filho Antíoco IV (que será mais tarde Antíoco Epifânio) como refém.
19- Virará, então, o seu rosto para as fortalezas da sua própria terra, mas tropeçará, e cairá, e não será achado.
After this, he will turn back toward the fortresses of his own country but will stumble and fall, to be seen no more.
Para tentar obter parte do dinheiro da indemnização que tinha que pagar aos Romanos, Antíoco III voltou-se para a sua própria terra. Terá sido assassinado em 187 a.C. num templo de Baal, ao procurar apoderar-se dos seus tesouros.
20- E, em seu lugar, se levantará quem fará passar um arrecadador pela glória real; mas em poucos dias será quebrantado, e isto sem ira e sem batalha.
His successor will send out a tax collector to maintain the royal splendor. In a few years, however, he will be destroyed, yet not in anger or in battle.
Em seu lugar, levantou-se o seu filho e sucessor, Seleuco Filopater. Para obter dinheiro para pagar a pesada indemnização a Roma, Seleuco envia o seu comandante Heliodoro como arrecadador para obter dinheiro no templo de Jerusalém. O sumo-sacerdote Onias opôs-se, e com ele todo o povo. 2 Macabeus 3 relata a história de como Heliodoro acaba por regressar sem o tesouro do templo, mediante uma narrativa que recorre a uma intervenção sobrenatural de anjos.
No mesmo ano, em 175 a.C., no seu regresso a Jerusalém, Heliodoro mata o rei Seleuco.
Seleuco reinou apenas doze anos, o que foram “poucos dias” comparados com os 37 anos do reino de Antíoco III, seu antecessor.


07/01/2018

O IMPÉRIO GREGO (2). Os Ptolemeus

DE PTOLOMEU I A ANTÍOCO III O GRANDE

Nesta mensagem vamos ver o que se seguiu à morte de Alexandre, no tempo do “rei do sul”.
Para podermos seguir melhor a história, segue primeiro uma lista dos reis do norte e do sul. Com fundo azul, é indicado quem domina sobre a Judeia.

Dinastia Ptolemaica
“rei do sul”
Dinastia Selêucida
“rei do norte”
Sumos-sacerdotes em Israel
Ptolomeu I Soter  (305-285)
Seleuco I Nicator (312-282)

Onias I
Simão I o Justo
Ptolomeu II Filadelfo (285-246)
Antíoco I Soter (282-262)
Eleazar (irmão de Simão I)

Antíoco II Theos (262-247) x Berenice
Manassés (tio de Eleazar/irmão de Onias)
Ptomoleu III Evérgeta (246-221)
Seleuco II Calínico (247-227)
Onias II (filho de Simão)

Seleuco III Soter (227-224)

Ptolomeu IV Filopater (221-205)
Antíoco III o Grande (224-187)
Simão II
Ptolomeu V Epifânio (205-180)
195 a.C.
Onias III

Seleuco IV Filopater (187-176)


Antíoco IV Epifânio (176-164)
Jasão
Menelaus

Antíoco V (164-146)


Na primeira coluna retomo os versículos da tradução de João Ferreira de Almeida Edição Revista e Corrigida. Por vezes, a leitura é um pouco confuso. Por isso, usei também outras versões. Em alguns casos, juntei o versículo em inglês da New International Version (NIV) e/ou da Bíblia de Jerusalém (BJ), Nova edição revista e ampliada, Paulus Editora 2002.

Como fontes históricas, usei Josefo, Antiguidades e Guerras dos Judeus (tradução de William Whiston), e os livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus.

Informações históricas foram retiradas de vários sites. Ver bibliografia no fim do artigo.

5- E se fortalecerá o rei do sul, e um dos seus príncipes; e este se fortalecerá, mais do que ele, e reinará, e grande será o seu domínio.

BJ- O rei do sul tornar-se-á poderoso. Mas um de seus príncipes o ultrapassará em poder e seu império será maior que o dele.

Depois da morte de Alexandre em 323 a.C., segue-se um período de vários anos pela disputa do poder entre os seus generais. Não tendo Alexandre um sucessor, um regente foi indicado e as várias regiões governadas pelos generais na forma de satrapias. Na conferência de Triparadisus (320 a.C.) Ptolomeu é confirmado sátrapa do Egipto, Seleuco é nomeado sátrapa da Babilónia.
Depois de várias guerras entre os generais, a batalha decisiva foi disputada em 301 a.C., em Ipso, entre Antígono I Monoftalmos e uma coligação formada por Seleuco, Ptolomeu, Lisímaco, governador da Trácia, e Cassandra, da Macedónia. Ganhou a coligação. A maior parte dos territórios asiáticos foram atribuídos a Seleuco I Nicator. No entanto, antes que ele pudesse estabelecer o controlo sobre a Celessíria, a região foi ocupada por Ptolomeu I Soter, que se tinha estabelecido, em 305, como rei do Egipto (rei do sul).
Ptolomeu I Soter (o rei do sul) estabeleceu o seu domínio sobre a Celessíria em 301.
A Celessíria (área formada pelo Israel atual, os territórios Palestinianos, o Líbano e o sul da Síria), onde se incluía a Judeia, era uma região estrategicamente importante e ponto de conflito entre o norte e o sul.
Portanto, fortaleceu-se o rei do sul.
No período inicial destaca-se o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, que durou cerca de 40 anos. Ele libertou os judeus que tinham sido levados para o Egipto e que estavam numa situação de escravidão (Ant.12.2.11). Foi no seu tempo que se formou a biblioteca de Alexandria; e que foi feita a tradução do Pentateuco para Grego por 70 anciãos (a Septuaginta) designados pelo sumo-sacerdote Eleazar, a pedido de Ptolomeu, para a biblioteca de Alexandria.
Josefo testemunha da existência de um bom relacionamento entre o rei do Egipto e o sumo-sacerdote dos judeus.
O mesmo v.5 fala de um dos seus príncipes, do rei do sul, que se fortalecerá mais do que ele. Quem é?
É aquele que será o “rei do norte”.
Na conferência de Triparadisus (320 a.C.), Seleuco, um dos generais de Alexandre, fora nomeado sátrapa da Babilónia. Mas em 316, ele teve de fugir da Babilónia quando Antígono Monoftalmos, outro dos generais de Alexandre, a conquistou. Seleuco encontrou refúgio no Egipto onde reinava Ptolomeu I Soter. De 316 a 312 Seleuco esteve ao serviço de Ptolomeu como general do seu exército. Em 312 (batalha de Gaza), Seleuco reconquistou a Babilónia, com o apoio de Ptolomeu, tornando-se Seleuco I Nicator.
Seleuco e sua dinastia, que é o “rei do norte”, começou como um dos príncipes do rei do sul. Mais tarde, o rei do norte haverá de fortalecer-se mais do que o do sul e reinar com grande domínio.
Durante todo o tempo do domínio egípcio sobre a Celessíria, os Selêucidas não deixaram de reivindicar o controlo da região, conduzindo a várias “guerras sírias”. São assim chamados os vários conflitos que opuseram os reinos Ptolemaico e Selêucida para o controlo da Celessíria, região estratégica para o acesso ao Egipto.
Na 1ª guerra síria (274-271), Antíoco I Soter (rei do norte) ganha temporariamente o controlo de territórios ptolemaicos na costa da Síria, incluindo a Judeia, mas perde-os rapidamente em 271. O domínio do rei do sul continua forte.
Quando Antíoco II Theos sucede ao seu pai, ele inicia a 2ª guerra síria (260-253).
6- Mas, ao cabo de anos, eles se aliarão; e a filha do rei do sul virá ao rei do norte para fazer um tratado; mas não conservará a força do seu braço; nem ele persistirá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e os que a tiverem trazido, e seu pai, e o que a fortaleceu naqueles tempos.
BJ- Alguns anos mais tarde, eles celebrarão uma aliança, e a filha do rei do sul virá para junto do rei do norte para se ratificarem os acordos. Mas a força do seu braço não a sustentará, nem a sua descendência subsistirá; ela será entregue, ele com os da sua comitiva e o seu filho, bem como o que teve poder sobre ela.
A maior parte da informação sobre esta 2ª guerra síria (260-253) perdeu-se, mas o resultado da guerra não parece ter sido conclusivo. Para selar a paz, uma aliança é feita entre norte e sul através do casamento de Antíoco II com Berenice, filha do rei do sul Ptolomeu II Filadelfo. Para casar com Berenice, Antíoco rejeita a sua primeira mulher Laodice.
Quando Ptolomeu Filadelfo, pai de Berenice, morre, ela (o sul) não conserva a força do seu braço – isto é, a influência de Ptolomeu na corte síria – e Berenice é deixada sem proteção. Antíoco também morre e levanta-se um conflito pela sucessão entre o filho de Laodice e o filho, ainda criança (a descendência), de Berenice. Berenice e seu filho, bem como a sua comitiva, são assassinados.

7- Mas, do renovo das suas raízes, um se levantará em seu lugar, e virá com o exército, e entrará nas fortalezas do rei do norte, e operará contra elas, e prevalecerá.
8- E também os seus deuses, com a multidão das suas imagens, com os seus vasos preciosos de prata e ouro, levará cativos para o Egipto; e, por alguns anos, ele persistirá contra o rei do norte.
NIV- For some years he will leave the king of the north alone.
BJ- Por alguns anos manterá distância do rei do norte.
9- E entrará no reino do rei do sul, e tornará para a sua terra.
Para vingar a morte de Berenice, Ptolomeu III Evérgeta (o Benfeitor), irmão de Berenice (o renovo das suas raízes), declara a guerra ao recém-coroado filho de Laodice, Seleuco II Calínico, dando início à 3ª guerra síria (246-241).
Ptolomeu invade a Síria com um grande exército e levou os deuses e riquezas da Síria para o Egipto. Mas dificuldades no seu país impedem-no de conservar o controlo sobre a Síria, e ele torna para a sua terra e mantém a distância.
Seleuco Calínico consegue restabelecer o seu poder e faz uma tentativa de invadir o Egipto em 242 a.C., mas ele sofre uma derrota e retira-se (v.9).
10- Mas seus filhos intervirão, e reunirão grande número de exércitos: e um deles virá apressadamente, e inundará, e passará; e, voltando, levará a guerra até à sua fortaleza.

11- Então o rei do sul se exasperará, e sairá, e pelejará contra ele, contra o rei do norte; ele porá em campo grande multidão e a multidão será entregue na sua mão.
NIV- Then the king of the south will march out in a rage and fight against the king of the North, who will raise a large army, but it will be defeated.

12- E, aumentando a multidão, o seu coração se exaltará; mas, ainda que derribará muitos milhares, não prevalecerá.
NIV- When the army is carried off, the king of the South will be filled with pride and will slaughter many thousands, yet he will not remain triumphant.
Mas os seus filhos (v.10) continuarão a contender pela Celessíria e acabarão por vencer.
Os filhos de Seleuco II Calínico são Seleuco III Soter e Antíoco III o Grande. Seleuco III Soter reinou apenas 3 anos e foi assassinado. Depois da sua morte, o reino passou para o seu irmão, Antíoco III o Grande.
Os filhos (plural) - os irmãos - prepararam-se para a guerra e juntaram um exército. Mas foi um deles, Antíoco III que invadiu e conquistou grandes partes da Celessíria na quarta guerra Síria (219-217).
Ptolomeu IV Filopater, o rei do sul, reage e sai com um grande exército contra as forças selêucidas de Antíoco III. Com um exército de 68.000 homens Antíoco luta contra o exército de 75.000 de Ptolomeu IV Filopater. Antíoco acaba por ser derrotado na batalha de Ráfia (217), na faixa de Gaza, e perde o controlo da Celessíria nas condições de paz.
Para Ptolomeu seria uma vitória apenas temporária (não prevalecerá), porque o Antíoco III haveria de voltar alguns anos mais tarde (v.13) – ao cabo de anos).
O seu coração se exaltará” pode ter a ver com a atitude de Ptolomeu Filopater descrita numa história contada no livro apócrifo de 3 Macabeus. Depois da vitória na batalha, regressando ao Egipto, Ptolomeu decidiu entrar no templo em Jerusalém, no santo dos santos. O sumo-sacerdote Simão opôs-se, bem como o povo. E em consequência Ptolemeu iniciou uma perseguição aos judeus, de que foram milagrosamente salvos. A historicidade desta história é questionada, no entanto, é bem possível que algo tenha acontecido.
E ajuda a explicar porque os judeus se apartaram dos egípcios para apoiar a vinda de Antíoco.
13- Porque o rei do norte tornará, e porá em campo uma multidão maior do que a primeira, e ao cabo de tempos, isto é, de anos, virá à pressa com grande exército e com muita fazenda.
NIV- For the king of the North will muster another army, larger than the first; and after several years, he will advance with a huge army fully equipped.
14- E, naqueles tempos, muitos se levantarão contra o rei do sul;
e os filhos dos prevaricadores do teu povo se levantarão para confirmar a visão; mas eles cairão.
NIV- In those times many will rise against the king of the South. The violent men among your own people will rebel in fulfillment of the vision, but without success.
A morte de Ptolemeu IV Filopater em 204 a.C. foi seguida por um sangrento conflito interno pela regência, sendo Ptolomeu V ainda uma criança, o que deixou o país enfraquecido e num estado próximo da anarquia. Aproveitando as vantagens desta agitação, Antíoco III prepara a 5ª guerra síria (202-195).
Antíoco III alia-se com Filipe V, rei da Macedónia, com o objetivo de conquistarem e repartirem entre eles as posses egípcias fora do Egipto.
Mas não são apenas os poderes políticos e militares macedónios e selêucidas que se levantam contra o rei do sul (v.14). Internamente, Ptolomeu V enfrenta graves problemas, agitação e sedição em todo o reino, bem como problemas económicos que conduzem ao aumento de impostos, alimentando ainda mais a revolta. Já em 206, a cidade de Tebas revoltara-se e ficou fora do controlo ptolemaico durante vinte anos.
Também entre o povo judeu, levantaram-se contra o rei do sul, em apoio ao rei do norte, como já referimos acima.
Além disso, muitos judeus eram de opinião que o governo selêucida era preferível ao egípcio, porque sentiam fortemente o peso dos impostos cobrados pelos Tobíadas, que apoiavam o lado do sul. Estes Tobíadas eram certamente da mesma família de Tobias do tempo de Zorobabel e Neemias. Josefo conta que no tempo de Ptolomeu Evérgeta, o sumo-sacerdote Onias II recusou pagar impostos ao rei (do sul). Segundo Josefo, porque que era um “grande amante de dinheiro” (Ant.12.4). José, filho de Tobias, repreendeu Onias por não cuidar da preservação do povo e de pôr a nação em perigo, não pagando. José prudentemente aliou-se ao rei do Egipto, oferecendo dinheiro ao rei e Ptolomeu concedeu-lhe a cobrança de impostos na Celessíria, o que ele fez pela força, durante 22 anos, e enriqueceu grandemente e tornou-se poderoso. Quando morre, no tempo de Seleuco Soter, o povo revolta-se. Os anciãos, o sumo-sacerdote Simão (filho de Onias) e grande parte do povo estão do lado oposto ao Egipto.
Serão estes aliados do Egipto os filhos dos prevaricadores? A palavra significa ladrões, violentos. Visto que eles caíram, devem ter sido aliados do rei do sul, que será o lado perdedor. Eles reivindicavam uma visão para justificar a sua tomada de posição, o roubo e a violência. Nisto lembram Ez 7:22-26 onde saqueadores (v.22) buscam do profeta uma visão (v.26) para justificarem os seus pecados (Jordan, p.555).
15- E o rei do norte virá, e levantará baluartes, e tomará a cidade forte; e os braços do sul não poderão subsistir, nem o seu povo escolhido, pois não haverá força que possa subsistir
NIV- Then the king of the North will come and build up siege ramps and will capture a fortified city. The forces of the South will be powerless to resist; even their best troops will not have the strength to stand.
16- O que, pois, há-de vir contra ele fará segundo a sua vontade, e ninguém poderá permanecer diante dele: e estará na terra gloriosa, e por sua mão se fará destruição
NIV- The invader will do as he pleases no one will be able to stand against him. He will establish himself in the Beautiful Land and will have the power to destroy it.
Alguns anos depois (v.13 ao cabo de tempos) da sua derrota em Rafia, Antíoco III volta ao ataque. Na batalha de Panias (que é Cesareia Filipe no Novo Testamento) em 200 a.C. Antíoco ocupa Celessíria.
Scopas, o general egípcio, foi derrotado em Panias e fugiu para Sidon, uma cidade fortificada, onde ele foi obrigado a entregar-se.
Josefo (Ant.12.130) relata que no tempo das guerras de Antíoco o Grande contra Ptolomeu Filopater e sue filho Ptolomeu Epífanes, os judeus e os habitantes de Celessíria sofreram muito porque o domínio sobre a região mudava constantemente pelo que os judeus se sentiam como um navio na tempestade, levado pelas ondas de um para outro lado.
Mas o sul não tinha forças para resistir. Os problemas internos levaram Ptolemeu a procurar uma rápida e desfavorável paz.  Com o fim de se focar na frente interna, Ptolemeu assinou um tratado de conciliação com Antíoco em 195 a.C., cedendo ao rei selêucida a posse da Celessíria.
Diz Josefo que os judeus (Ant.12.3.133), de sua própria vontade, passaram para Antíoco e o receberam na cidade de Jerusalém (v.14 levantaram-se contra o rei do sul). Assim, o rei do norte estava na terra gloriosa.
Começou o domínio do rei do norte sobre a Judeia.
Inicialmente os judeus granjearam o favor de Antíoco que lhes concedeu o direito de viverem de acordo com as suas próprias leis, mas no tempo de seu filho, Antíoco Epifânio, haverá destruição.


Bibliografia
www.britannica.com
https://www.ancient.eu (Ancient History Encyclopedia)
Wikipedia
BEITZEL, Barry J. The New Moody Atlas of the Bible. Chicago: Moody Publishers (2009)
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JORDAN, James B. The handwriting on the wall. A commentary on the book of Daniel, American Vision, Powder Springs, Georgia (2007)
JOSEPHUS. The works of Josephus. Translated by William Whiston. New updated edition. 1987.