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09/05/2018

A DINASTIA DOS ASMONEUS ou MACABEUS


De Antíoco IV Epifânio a Herodes

O domínio ptolemaico (o rei do sul como é designado em Daniel 11) sobre a Judeia desabou frente ao ascendente poder selêucida (o rei do norte), na sequência da batalha de Panias no ano 200 a.C., quando Antíoco III o Grande incorporou a Judeia na Síria selêucida.

No tempo do domínio ptolemaico sobre a Judeia, não havia indícios fortes de uma política de helenização na Judeia, mas a situação mudou com a dominação selêucida. O modo de vida helenístico é introduzido na Judeia e observa-se no uso do idioma grego, na introdução dos deuses gregos, na educação, nos ginásios, no entretenimento. O novo modo de vida provoca o afastamento da religião e gera divisão entre o povo. A corrupção grassa entre os sacerdotes. O sacerdote legítimo da descendência de Zadoque, Onias III, é afastado e substituído por um sumo-sacerdote ilegítimo, com a conivência de muitos dos sacerdotes. Os sacerdotes profanaram o templo, deixaram de cumprir os ritos nomeadamente o sacrifício contínuo. Estes são os “violadores do concerto” (Dn 11:32). Com tudo isso estava estabelecida a abominação desoladora (Dn11:31). No topo disso, Antíoco Epifânio (ver post anterior), profana o templo, mata muitos milhares, proíbe a prática do judaísmo e persegue os fiéis.

Indignado com esta situação, um sacerdote chamado Matatias, da linhagem de Joiaribe (1Mac 2:1), recusou oferecer sacrifícios pagãos, matou o emissário de Antíoco que o quis obrigar a tal e fugiu para as montanhas com os seus filhos. Muitos juntaram-se a eles e revoltaram-se contra a ocupação síria sob a liderança militar de Judas, cognominado Macabeu (martelo), um dos filhos de Matatias.
Judas e seu exército conseguem retomar Jerusalém e purificar o templo. Mas não satisfeitos com isto, prosseguem a luta para conseguir a liberdade política. Luta que é continuada pelos seus irmãos após a sua morte. Estabelecidos como chefes pelo povo deram início a uma dinastia que governa na Judeia, inicialmente sob o domínio sírio, mas que se consegue estabelecer com governação independente no tempo de João Hircano. Isto foi possível porque o poder sírio enfraqueceu devido às lutas internas pelo poder enquanto Roma estava a expandir o seu domínio em volta do Mediterrâneo.

Segue agora uma lista dos governantes da dinastia Asmoneia, assim chamada pelo nome de um antepassado de Matatias, Asmon. São talvez mais conhecidos pelo nome de Macabeus, com referência a Judas Macabeu e o nome dos livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus.
A dinastia Asmoneia abrange o tempo desde a morte de Antíoco IV Epifânio até à chegada ao poder de Herodes, um período de cerca de 120 anos.

1.      Judas Macabeu          (164-160)

Antíoco V Eupator (164-162) (filho de Antíoco IV Epifânio)
2.      Jonatas (160-142)

Demétrio I Soter (162-151) (filho de Seleuco
Alexandre Balas (151-146) (filho de Antíoco Epifânio)
Demétrio II Nicator (146-145)
Antíoco VI (145-143) (filho de Alexandre Balas)
3.      Simão (142-134)

Diódoto Trifão (143-139)
Antíoco VII (139-131)
4.      João Hircano (134-104)

Demétrio II Nicator (131-129)
Alexandre II (129-127)
Seleuco V Nicator (127-126)
Antíoco VIII (126-114)
Antíoco X de Cizico (114-97)
5.      Aristobulo I (104-103)

6.      Alexandre Janeu (103-76)

Seleuco VI (97-95)
Antíoco XI (94-93)
Filipe Demétrio III (93-84)
Tigranes (84-69
7.      Salomé Alexandra (76-66)
8.      Aristobulo II (66-63)
Antíoco XII (69-63)
9.      Hircano II (63-40)
Em 63 a Síria torna-se uma província romana.
10.  Antígono (40-37)


Não há menção expressa das figuras desta dinastia no cânone da nossa Bíblia. Mas podem ser eles a que se refere o “pequeno socorro” (Dn 11:34) (ver mensagem anterior).

Quando lemos a história nos livros dos Macabeus (até à morte de Simão) e nas Antiguidades de Josefo, todo aquele período é de contínuas guerras pelo poder, tanto a nível externo como a nível interno. Só no tempo de Simão atinge-se uma certa estabilidade – “a terra gozou de repouso” (1Mac 14:4) - e no tempo de João Hircano, um elevado nível de prosperidade (Ant.13.10.4-5). Depois de João Hircano, em cujo tempo Israel consegue a independência da Síria, começa, com Aristobulo, uma monarquia profana e tirânica até à tomada do poder por Herodes (Dn 11:36 – este rei). Tudo parece dar a entender que os versículos de Daniel 11:32-35 cobrem todo aquele período, culminando no tempo de Herodes.

Não é meu intento fazer um relato extenso da história dos acontecimentos no tempo da dinastia Asmoneia. Mas da sua história, que podemos ler com pormenor nos livros de 1 e 2 Macabeus e nas Antiguidades de Josefo, importa salientar alguns aspetos que têm relação com o caso bíblico e que ajudam a compreender as visões de Daniel e as particularidades daquele último período antes da (primeira) vinda de Jesus.

O sumo-sacerdote, o “príncipe do concerto”

Na mensagem anterior vimos que com a usurpação do sumo-sacerdócio por Jasão e Menelau, no tempo de Antíoco Epifânio, e o assassinato do legítimo sumo-sacerdote Onias III, o príncipe do concerto foi quebrado (Dn11:22) e nunca mais foi restaurado.

Jasão teve de fugir. Menelau acabou por ser executado por Antíoco Eupator. Depois dele, um sacerdote (mas não da linhagem de Zadoque) chamado Alcimo procurou o sumo-sacerdócio para si, junto do rei Demétrio, e incita este contra Judas Macabeu.

Desde que Jasão e Menelau compraram de Antíoco Epifânio o cargo de sumo-sacerdote, que não lhes pertencia de direito, os governantes estrangeiros passaram a nomear o sumo-sacerdote de Israel. Jónatas, que sucedeu a Judas Macabeu no comando da resistência armada, foi nomeado sumo-sacerdote por Alexandre Balas, rei da Síria, em 152 a.C., e simultaneamente foi-lhe concedido o título de “amigo do rei” (1Mac 10:20). Dois anos depois, Jonatas é nomeado sumo-sacerdote, bem como estratego e meridarca (1Mac 10:65). O meridarca governa uma mérida, isto é uma “parte” de um território maior que a região administrada por um estratego, no caso a Judeia, acrescida de Galileia e Samaria[1].

A partir de então, o cargo “religioso” de sumo-sacerdote passou a confundir-se com o de líder político. Quando Simão assume o comando, o rei Demétrio o confirma como sumo-sacerdote, estratego e etnarca dos judeus (1Mac 14:38-47). João Hircano, com a morte de Antíoco VII, torna-se praticamente independente.

À morte de João Hircano, seu filho mais velho Aristobulo I, resolveu mudar o governo numa monarquia e colocou um diadema na sua cabeça. Chamou-se a si mesmo “rei” (Ant.13.11.1). Era cruel e reinou apenas um ano, sucedido pelo seu irmão Alexandre Janeu, outro déspota da pior espécie.

Duas coisas observam-se aqui:

Na mensagem anterior já vimos que desde Jasão e Menelau nunca mais um sacerdote legítimo da linhagem de Zadoque desempenhou a função de sumo-sacerdote. O sumo-sacerdote, que é também chamado o “príncipe do concerto” (Dn 11:22), foi quebrado. Os Macabeus/Asmoneus, que ocupavam o cargo de sumo-sacerdote, não eram legítimos. Eram de linhagem sacerdotal, mas não de Zadoque (Ez 44:15). Num certo sentido, a abominação desoladora continuou, apesar da “purificação do templo” levada a efeito no tempo de Judas Macabeu. Os sacerdotes normais podiam fazer determinados serviços no templo, oferecer os sacrifícios, mas não os do Dia da Expiação, estes deviam ser oferecidos pelo sumo-sacerdote (Lv 16, especialmente v.32). Jesus esteve em Jerusalém para várias festas durante o seu ministério, mas nunca é mencionado o dia da Expiação.

Além de sumos-sacerdotes fraudulentos, também eram “reis” fraudulentos sobre o trono de Israel, não sendo da linhagem de David.

O sacrifício contínuo

Em Daniel 8:11 e 11:31 lemos que foi tirado o contínuo sacrifício.
O que era o sacrifício contínuo? Era a oferta sobre o altar de dois cordeiros de um ano, cada dia, continuamente, um pela manhã, o outro cordeiro à tardinha (Ex 29:38-39). É interessante ler o porquê deste holocausto contínuo: “Este será o holocausto contínuo por vossas gerações, à porta da tenda da congregação, perante o Senhor, onde vos encontrarei, para falar contigo ali. E ali virei aos filhos de Israel, para que por minha glória sejam santificados. E santificarei a tenda da congregação e o altar; também santificarei a Aarão e seus filhos, para que me administrem o sacerdócio. E habitarei no meio dos filhos de Israel, e lhes serei por Deus. E saberão que eu sou o Senhor, seu Deus, que os tenho tirado da terra do Egipto, para habitar no meio deles: eu, o Senhor, seu Deus (Ex 29:42-46).

O capítulo 29 de Êxodo fala da santificação dos sacerdotes para que possam ministrar diante de Deus (1-35), depois fala da expiação pelo altar (36-37) e a seguir fala do sacrifício contínuo. A santidade do sacerdote e do altar, e a oferta contínua todos os dias de manhã e da tarde significavam a presença de Deus no meio do povo.

Todos estes elementos estavam corrompidos desde o tempo de Antíoco Epifânio: os próprios sacerdotes deixaram de oferecer os sacrifícios e o sacrifício contínuo foi tirado (o que é corroborado por Daniel e pelo livro dos Macabeus) e os sumos-sacerdotes, a partir de Jasão, eram todos ilegítimos. Creio que podemos entender aqui que, por tudo isso, Deus abandonou o seu templo. Apesar de Judas Macabeu ter purificado o templo e restaurado os sacrifícios, a presença de Deus já não regressou ao templo.

Do mesmo modo como Ele abandonou o tabernáculo quando a arca foi levada pelos filisteus, em consequência das profanações dos sacerdotes, os filhos de Eli (1Sam 2-6). E do mesmo modo, como Ezequiel viu em visão as abominações feitas pelos sacerdotes de Israel no templo e em consequência viu a glória de Deus levantar-se e sair do templo (Ez 8-10). Os sacrifícios continuaram a ser oferecidos no tabernáculo, mas a arca nunca mais lá voltou. Cerca de 70 anos depois, David levou a arca para uma tenda especialmente montada em Jerusalém e mais de 100 anos depois de ter sido capturada pelos filisteus, a arca foi finalmente colocada no templo de Salomão e a glória de Deus encheu o templo. Quando Ezequiel estava no auxílio, Jerusalém e o templo foram queimados por Nabucodonosor e Israel foi para o exílio. Deus estava com eles, no exílio. Quando regressaram a Jerusalém, autorizados pelo decreto de Ciro, o templo foi reconstruído e dedicado no 7º ano de Dario, e embora já não houvesse arca, Deus estava no meio deles (Ageu 1:13). No templo visionário de Ezequiel – que representa espiritualmente a época pós-exílica (ver mensagem O TEMPLO DE EZEQUIEL 40-48 dezembro 2016)– a glória de Deus encheu o templo (Ez 43:1-4; 44:4).

Anos mais tarde, no tempo de Antíoco Epifânio e dos Asmoneus, entendemos que Deus abandonou novamente o seu templo. Malaquias, o último profeta do Velho Testamento, anunciava “eis que eu envio o meu anjo, que preparará o caminho diante de mim; e, de repente, virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo do concerto, a quem vós desejais; eis que vem, diz o Senhor dos Exércitos” (Mal 3:1). Jesus, a presença de Deus (Emanuel, Deus connosco), voltou ao templo onde ensinou durante o seu ministério terreno. Mas o seu sacrifício não foi compreendido, e depois da sua ressurreição, os sacrifícios continuaram a ser oferecidos pelos sacerdotes no templo enquanto este ficou de pé (até ao ano 70 quando foi destruído definitivamente), embora a obra de Cristo na cruz tivesse abolido o sistema sacrificial.
A continuação dos sacrifícios e das ofertas significava a rejeição do Senhor e do seu Messias e era, por conseguinte, idolatria (estabelecimento da sua própria religião e justiça). Idolatria é abominação (Is 44:19). Os falsos sacrifícios eram abominações.
Por exemplo, relativamente às ofertas pacíficas, Levítico 7:17-18 estipula que o que restava da carne do sacrifício ao terceiro dia devia ser queimado no fogo. E, se da carne do seu sacrifício pacífico se comer ao terceiro dia, aquele que a ofereceu não será aceite, nem lhe será atribuído o sacrifício: coisa abominável será, e a pessoa que dela comer levará a sua iniquidade (Lv 7:21). Quem comia do sacrifício ao terceiro dia era porque não aceitava a validade do sacrifício. O terceiro dia é o dia que simboliza a ressurreição de Jesus. Os judeus continuaram a comer dos sacrifícios depois do terceiro dia (literalmente e simbolicamente), significando que não aceitavam o sacrifício feito por Ele, o que se pode considerar abominação.

Roma

Desde o tempo de Nabucodonosor, Israel perdera a sua autonomia e a sua terra, e foi governada por quatro sucessivos impérios mundiais: Babilónia, Pérsia, Grécia e Roma. O Senhor assim o determinou. Era para a sua proteção, para preservação da vida (Jr 27:12-15). Os judeus seriam governados e protegidos por impérios mundiais até à vinda do Messias (Dn 2).

Portanto, a revolta política dos Asmoneus para obter a independência era na verdade contrária aos ensinamentos de Jeremias e Daniel. Contudo, nunca chegaram a ser rigorosamente independentes.
Dantes eu pensava que o tempo do quarto animal (que representa o império romano) começava com Herodes, porque ele foi nomeado rei da Judeia pelo senado de Roma.

Mas desde Judas Macabeu que existiam alianças com Roma e que através delas a Judeia estava debaixo da proteção do império romano, que estava em expansão, apesar de o domínio sírio ainda persistir por algum tempo.

Acontece que, tendo ouvido falar da fama dos romanos, Judas Macabeu enviou uma embaixada a Roma para travar relações de amizade e aliança, e para conseguir que os libertassem do jugo, visto que o reino dos gregos queria manter Israel na servidão (1Mac 8:17-18).

“Judas tomara conhecimento da fama dos romanos. Dizia-se que eram poderosos e valentes, que se compraziam em todos os que se aliassem a eles, e concediam sua amizade a quantos a eles se dirigissem. Falaram-lhe também de suas guerras e das valorosas proezas que tinham realizado entre os gauleses, e como os tinham dominado e tornado seus tributários. E do que haviam feito na Espanha para se apoderarem das minas de prata e de ouro que lá se encontram, e como se tornaram senhores de todo esse país pela sua prudência e perseverança embora a região fosse muito distante deles. Ouviu falar também dos reis que tinham vindo contra eles das extremidades da terra, como eles os destroçaram e lhes infligiram graves derrotas, enquanto os outros lhes pagam um tributo anual … Também Antíoco, o Grande, rei da Ásia, que marchou contra eles para enfrentá-los com cento e vinte elefantes, cavalaria, carros de guerra e um enorme exército, foi por eles esmagado. Capturado vivo, obrigaram-no a pagar ele e seus sucessores, um pesado tributo, além da entrega de reféns e da cessão de territórios …. Tendo os da Grécia conjurado para ir exterminá-los, os romanos, sabendo do plano, enviaram contra eles um só general para os debelar …Quanto aos outros reinos e às ilhas que lhes tinham resistido, os romanos os destroçaram e submeteram. Com os seus amigos, porém, e com os que se fiavam no seu apoio, eles mantiveram sua amizade (1Mac 8:1-11).

A aliança de amizade recíproca com os romanos por Judas Macabeu foi renovada com Jonatas (1Mac 12:1), depois com Simão (1Mac 14:16; Ant.13.7.2), e com João Hircano (Ant.13.9.2).

Entretanto, a partir de Simão, Israel passou a gozar de uma semi-independência da Síria, mas isto chegaria ao fim com Aristobulo II. Quando Alexandre Janeu morre, ele é sucedido no trono pela sua mulher Salomé Alexandra, que reinou 9 anos. Como ela não podia ser sumo-sacerdote, nomeou o seu filho Hircano sumo-sacerdote. Com a morte de Salomé Alexandra, o seu outro filho, Aristobulo II, ascendeu ao trono. Mas seu irmão Hircano, incentivado por Antipater (governador da Idumeia e pai de Herodes), inicia uma guerra civil pelo poder na Judeia. Antipater, com a ajuda de Aretas rei da Arábia, ajuda Hircano a conquistar o trono. Nesta guerra civil, tanto Aristobulo como Hircano procuram obter o apoio de Roma. Mas aproveitando a desordem, o general romano Pompeu toma Jerusalém, e restaura o sumo-sacerdócio a Hircano enquanto Aristobulo é preso em Roma. Em 63 a.C. Judeia passa a ser governada por Roma através de um procurador, mantendo-se o no trono Hircano, como rei.

Depois de poucos anos, Hircano é destronado por Antígono, filho de Aristobulo, e este mantém-se no poder na Judeia até que Roma designa Herodes como rei da Judeia em 40 a.C.

Considerando que a Judeia, com os Asmoneus, esteve em aliança com Roma, e debaixo da sua proteção, já no tempo de Judas Macabeu e finalmente integrada no império romano em 63 a.C., e que, até à nomeação de Herodes como rei dos judeus, houve 10 governantes na dinastia dos Asmoneus, proponho a seguinte hipótese: que as 10 pontas que se levantaram do quarto animal (Daniel 7:7-8, 24) são os 10 “reis” dos Asmoneus que governaram em Israel. A outra ponta que se levanta é Herodes. É diferente dos primeiros, porque não pertence à mesma dinastia. Diante dele, 3 foram arrancados: Aristobulo, Hircano e Antígono. Quando lemos a história contada por Josefo, Herodes já está no palco político na Judeia desde o tempo de Aristobulo, chegando a ter mais poder do que eles.

Na próxima mensagem, vamos ver mais de perto a história de Herodes para ver se esta hipótese tem pés para andar.



[1] Nota da Bíblia de Jerusalém

22/04/2018

O IMPÉRIO GREGO (4). Antíoco IV Epifânio


Nota: A secção sobre Antíoco IV Epifânio ocupa os vs. 21 a 32. O rei do v.36 já não pode ser o mesmo. Antíoco é selêucida, rei do norte. A certa altura, o rei do v.36 entra numa luta com o rei do sul e o rei do norte (v.40), portanto é outra personagem.

Lembramos que Antíoco III, o Grande, tirou a Judeia do domínio do rei do sul (Egipto) e integrou-a no reino do norte (Síria). Antíoco III foi durante um tempo um rei bem-sucedido, mas meteu-se com Roma e sofreu grande derrota: a redução dos territórios sob seu domínio e uma pesada indemnização a pagar a Roma. Além disso, foi obrigado a deixar o seu filho Antíoco (que passaremos a conhecer na história como “Epifânio”) como refém político em Roma.

Com a morte de Antíoco III, Seleuco IV Filopater sucedeu o seu pai no trono em 187 a.C.. Este é o arrecadador de impostos de Dn 11:20. Os impostos eram para pagar a indemnização a Roma.
21- Depois, se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente, e tomará o reino com engano.
Antíoco Epifânio não era o herdeiro legítimo do trono. Subiu ao trono de maneira irregular. Ainda durante o reinado de Seleuco IV, o filho deste, Demétrio, o herdeiro legítimo, foi enviado para Roma, trocando de lugar com Antíoco como refém. Seleuco foi assassinado por Heliodoro, um alto oficial do seu reino, em 175 a.C., e este foi por sua vez aniquilado por Antíoco Epifânio. Com o legítimo herdeiro do trono em Roma, Epifânio aproveitou a oportunidade para tomar o poder com a ajuda do rei de Pérgamo, proclamando-se co-regente com outro filho de Seleuco, ainda criança, que manda assassinar. Ele nunca é referido como rei do norte, mas é o que ele é na realidade.

É qualificado como “vil” (desprezível, abjecto, ignóbil). Não respeitou os costumes dos judeus como o fez seu pai, Antíoco III, que permitiu que os judeus vivessem segundo a seu Lei e costumes. Josefo relata várias cartas de Antíoco III que testemunhavam da amizade e estima que ele tinha para com os judeus. Epifânio, pelo contrário, apoiou os corruptos entre os judeus, “os violadores do concerto” (v.32), deixando que lhe comprassem o posto de sumo-sacerdote por dinheiro.
Em 173 a.C. Antíoco pagou o restante da indemnização de guerra imposta pelos romanos e fortaleceu o seu poder: com os braços de uma inundação arrancou os seus inimigos diante dele (v.22). Também fez prosperar económica e socialmente o seu reino: 24- Virá, também, caladamente, aos lugares mais férteis da província, e fará o que nunca fizeram seus pais, nem os pais de seus pais; repartirá entre eles a presa, e os despojos, e a riqueza, e formará os seus projetos contra as fortalezas, mas por certo tempo (v.24). “Por certo tempo”, porque haveria um limite ao seu poder e em certo momento o seu domínio sobre a Judeia (que é o que sempre está em foco) passará para outro.
“Quando Antíoco se viu consolidado no seu trono, pretendeu apoderar-se também do Egipto, a fim de reinar sobre os dois reinos. Invadiu, pois, o Egipto á frente de um exército poderoso, com carros, elefantes e cavaleiros e uma grande esquadra, e travou combate com o rei do Egipto. Ptolomeu, o qual recuou diante dele e fugiu, muitos tombando feridos. As cidades fortificadas do Egipto foram tomadas e Antíoco apoderou-se dos despojos do país” (1Mac 1:16-19).
Dn 11:25 a 27 falam desta primeira campanha, bem-sucedida, contra o Egipto.
25- E suscitará a sua força e o seu coração contra o rei do sul, com um grande exército, e o rei do sul se envolverá na guerra, com um grande e mui poderoso exército, mas não subsistirá, porque formarão projetos contra ele. 26- E os que comerem os seus manjares o quebrantarão; e o exército dele se derramará, e cairão muitos traspassados. 27- Também estes dois reis terão o coração atento para fazerem o mal e a uma mesma mesa falarão a mentira; ela, porém, não prosperará, porque o fim há-de ser no tempo determinado.
O que é que aconteceu?
Em 170-169 a.C. o Egipto quis reconquistar a Celessíria (região onde fazia parte a Judeia), e envolveu-se numa guerra com Antíoco que invade o Egipto. O Egipto tem um exército poderoso, mas não subsiste e o exército egípcio é derrotado pelo poderoso exército de Antíoco, que é como “uma inundação que arranca os inimigos diante dele” (v.22). Antíoco ocupa o país (exceto Alexandria) e captura o rei Ptolomeu VI Filometor (que é seu sobrinho) apresentando-se como o seu protetor. Em Alexandria, fora da influência de Antíoco, Ptolomeu VII (irmão de Ptolomeu VI) é proclamado rei do Egipto.
Agora, os dois reis (Epifânio e Ptolomeu VI) tinham uma coisa em comum: derrotar Ptolomeu VII e segurar o poder sobre o Egipto. Chegaram a um acordo, Ptolomeu VI foi colocado no trono como co-regente do Egipto com Antíoco. Mas na mesma mesa onde selaram o acordo, falaram mentira. Isto é, cada um tencionava trair o outro. Mas isto não prosperaria. No inverno de 169/168, os governantes ptolemaicos reconciliam-se, o que põe fim à ambição de Antíoco de manter os dois irmãos em guerra um contra o outro.
Antíoco veio a saber que o rei do Egipto havia tomado uma atitude hostil aos seus interesses e dirige novo ataque contra o Egipto, sitiando Alexandria (168 aC). Mas esta segunda campanha tem um desfecho muito diferente da primeira (vs.29-30).
29- No tempo determinado, tornará a vir contra o sul; mas não será na última vez como foi na primeira. 30- Porque virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza;
Entretanto, os Ptolemeus tinham feito uma aliança com Roma. Roma declarou o Egipto zona interdita, e enviou contra Antíoco “os navios de Quitim”. Antíoco foi humilhado e forçado a retirar os seus exércitos do Egipto e regressar.

Antíoco e os judeus
Vamos agora ver como a história de Antíoco se interliga com a dos judeus
22- e serão quebrantados, como também o príncipe do concerto. 23- E, depois do concerto com ele, usará de engano; e subirá, e será fortalecido com pouca gente.
Quem é o príncipe do concerto do v.22?

A palavra traduzida “príncipe” é NAGIYD. É utilizada para um líder e chefe do povo, um rei, como David (1Sam 9:16; 2Sam 5:2 etc.), Jeroboão (1Rs 14:7), Ezequias (2Rs 20:5); para líderes de tribos (1Cr 27:16) e outros altos oficiais (1Cr 27:4).

A mesma palavra também é utilizada para líderes religiosos, nomeadamente o sumo-sacerdote, ou o filho do sumo-sacerdote, e outros cargos de supervisão no templo como o maioral dos tesouros. A palavra NAGIYD nem sempre é traduzida com a mesma palavra em português: maioral (1Cr 9:11;2Cr 31:13; Ne 11:11); sumo-sacerdote (2Cr 31:10); guia (1Cr 9:20); presidente (Jer 20:1); chefe (1Cr 12:27).

O príncipe do concerto aqui é o sumo-sacerdote. Qual é a história?

O sacerdote em funções no início do reinado de Antíoco Epifânio era Onias III. Onias é caluniado diante do rei por um filho de Tobias (descendente do Tobias do tempo de Neemias) como “grande amante de dinheiro” por ter recusado pagar impostos ao predecessor de Antíoco (Josefo conta a história em Ant.12.4). O irmão de Onias, que adotou um nome grego Jasão, começou a manobrar para obter o cargo de sumo-sacerdote, prometendo a Antíoco muito dinheiro se ele fosse nomeado. Antíoco consentiu e Onias é deposto (174 a.C.). Jasão torna Jerusalém numa cidade grega, com a conivência dos outros sacerdotes e dos liberais entre e povo. Diz no livro de 2Macabeus 4: “tão logo assumiu o poder, começou a fazer passar os seus irmãos de raça para o estilo de vida dos gregos. Suprimiu os privilégios reais benignamente concedidos aos judeus … abolindo as instituições legítimas, introduziu costumes contrários à lei … construiu a praça de esportes…Verificou-se desse modo tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros, por causa da exorbitante perversidade de Jasão, esse ímpio e de modo algum sumo-sacerdote, que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, ….”.

Três anos depois (171 a.C.), Jasão envia um certo Menelau, irmão de Simão o benjamita, levar o dinheiro do tributo a Antíoco. Mas não contou que Menelau aproveitasse a oportunidade para comprar o sumo-sacerdócio para si próprio, mesmo não sendo de descendência sacerdotal. Agora Jasão é afastado. Menelau continua a política de Jasão. Subtraiu objetos de ouro do templo para enriquecimento próprio e para pagar subornos e manter-se no poder. Onias III, que estava exilado, ficou a saber e repreendeu-o publicamente, o que levou a que Onias fosse assassinado a mando de Menelau (2Mac 4:23-35).

Por esta altura, Antíoco conduzia a sua primeira campanha contra o Egipto, que lhe rendeu muito despojo de guerra.
28- Então tornará para a sua terra, com grande riqueza, e o seu coração será contra o santo concerto; e fará o que lhe aprouver, e tornará para a sua terra.
Porque, depois disto, se dirigiu Antíoco à Judeia com o coração contra o santo concerto?

Circulavam falsos rumores que Antíoco tinha morrido. Jasão, que tinha sido afastado do sumo-sacerdócio aproveitou isto e reuniu mil homens e desferiu um ataque contra a cidade, entregando-se sem piedade à chacina dos seus concidadãos, na tentativa de retomar o controlo. Mas não conseguiu no seu intento e foi obrigado a fugir. Chegando estas informações a Antíoco, este ficou com a impressão de que a Judeia estava em revolta contra ele. Dirigiu-se com o seu exército a Jerusalém “enfurecido em seu íntimo como uma fera” e apoderou-se da cidade à força das armas. Executou uma grande matança, oitenta mil pessoas foram mortas no espaço de três dias, e outros muitos milhares vendidos como escravos. Não contente com isso, Antíoco teve a ousadia de penetrar no templo, guiado por Menelau, e roubou parte dos tesouros do templo para encher os seus cofres do dinheiro necessitado para as suas campanhas militares. Após o que se apressou para regressar à sua terra, deixando superintendentes em Jerusalém para manter a ordem e Menelau como sumo-sacerdote, que dominava sobre os seus concidadãos de modo ainda mais atroz que os outros (a história é contada em 2Mac 5; e por Josefo em Ant,12,5).

Dois anos depois, de regresso da desafortunada segunda campanha no Egipto, Antíoco volta-se novamente contra Jerusalém.
30- […] e voltará, e se indignará contra o santo concerto, e fará como lhe apraz; e ainda voltará e atenderá aos que tiverem desamparado o santo concerto. 31- E sairão a ele uns braços, que profanarão o santuário e a fortaleza, e tirarão o contínuo sacrifício, estabelecendo a abominação desoladora. 32- E aos violadores do concerto, ele com lisonjas perverterá,
Antíoco enviou um oficial com a missão de forçar os judeus a abandonarem as leis de seus pais e mandou profanar o santuário. O templo encheu-se de lascívias e das orgias cometidas pelos pagãos que se divertiam com meretrizes, introduzindo coisas ilegais nos átrios sagrados. O altar estava coberto de oferendas proibidas pela lei. Não se podia mais celebrar o sábado, nem guardar as festas, nem simplesmente confessar que se era judeu … (2Mac 6:1-8).
A “abominação desoladora” estava instalada. Não porque Antíoco entrou no santuário para roubar o ouro ou porque mandou sacrificar porcos no altar, como muitos interpretam, mas porque foram os próprios sacerdotes ao violarem a aliança. Descuidavam-se dos sacrifícios, permitiram a profanação do templo e foram coniventes com a nomeação de um sumo-sacerdote fraudulento. Abominações desoladoras são os atos cometidos pelos próprios judeus no templo.

Daniel 11:31 diz que braços saíram que profanaram o santuário e tiraram o sacrifício costumado e estabeleceram a abominação desoladora. Estes braços não são de Antíoco, mas dos violadores da aliança claro que lisonjeados por Antíoco porque serve a sua política. Os violadores da aliança só podem ser aqueles que são da aliança. A transgressão dos sacerdotes fez com que Antíoco impusesse a remoção do sacrifício contínuo – mas não era nada que já não estivesse a acontecer desde o tempo de Jasão – e proibisse os judeus de praticarem a sua religião (sacrifícios, a circuncisão, etc.) e trouxesse o exército para executar matanças.

Quando estes atos abomináveis são trazidos para dentro do santuário, é o lugar santo onde Deus habita (ou que representa a sua habitação) que é profanado. Deus não recebe coisas abomináveis. Quando estas entram no seu templo, Deus abandona o seu santuário e quando não há mais nada a fazer, destrói-o.

Há várias ocorrências disto na Bíblia. Os sacerdotes filhos de Eli trouxeram o pecado bem dentro do tabernáculo. Não se importavam com o Senhor (v.12). Não só roubavam do que o povo vinha sacrificar, como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação, e fizeram transgredir o povo (1Sm 2:12-25). Em consequência, Deus trouxe um inimigo contra Israel, os filisteus, e abandonou o seu santuário (a arca da sua presença foi levada pelos filisteus), e o sumo-sacerdote Eli e os seus filhos foram mortos e os seus descendentes como que “vomitados” do serviço no santuário (1 Sm 2:30-34; 3:11-14).

No tempo de Ezequiel, o mesmo aconteceu. Ezequiel viu em visão (Ez 8-11:13) as abominações cometidas dentro do templo pelos sacerdotes. Vês o que eles estão fazendo? As grandes abominações que a casa de Israel faz aqui, para que me afaste do meu santuário (Ez 8:6-18)? Os próprios sacerdotes trouxeram religiões estranhas (idolatria) dentro do templo. Em consequência, Ezequiel viu a glória do Senhor levantar-se e sair do templo (Ez 9:3; 10:18). E também viu na sua visão Deus ordenar ao homem vestido de linho para espalhar brasas acesas sobre a cidade. Deus trouxe os caldeus e Nabucodonosor contra Israel, para destruir o templo e a cidade, levar o povo para o exílio e matar o sumo-sacerdote (Jr 4:1;7:30; 13:27; 52:24-26; Ez 5:9,11;6:11; 8:1-18; 2 Cr 36:14-17).

Foram as abominações cometidas no templo pelos sacerdotes de Israel que contaminaram o lugar santo e fizeram com que Deus retirasse a sua presença e desolasse a sua casa. Abominações não são ações cometidas por estranhos à aliança, mas são cometidas na presença de Deus pelo próprio povo de Deus, representados pelos seus sacerdotes. Porque os filhos de Judá fizeram o que era mau perante mim, diz o Senhor: puseram os seus ídolos abomináveis na casa que se chama pelo meu nome, para a contaminarem (Jr 7:30).

Israel era separado das outras nações para serem sacerdotes diante de Deus. Deus habitava no meio deles. Na terra, tanto israelitas como estrangeiros e outros habitantes podiam cometer abominações. Mas no templo, apenas israelitas (representados pelos seus sacerdotes) tinham acesso, por isso só eles podiam cometer atos abomináveis. Como sacerdotes e levitas, o seu dever era “guardar” a santidade do santuário, assim como Adão fora incumbido de guardar o jardim para não deixar entrar a corrupção que o contaminaria. Adão não guardou o jardim/santuário e foi expulso. Os sacerdotes e levitas não guardaram o tabernáculo, também não guardaram o templo, mas estabeleceram nele a abominação que resultou na desolação.

Assim, não era a presença de exércitos inimigos no templo, quer filisteus, quer Nabucodonosor, quer os porcos sacrificados por Antíoco, mas esta presença e a ação profanadora do inimigo era a consequência visível da abominação cometida por Israel. A abominação trazia um juízo, executado mediante o exército de um povo estranho.
Eis o dia, eis que vem (v.10) … o dia da indignação do Senhor (v.19) … De tais preciosas joias fizeram o seu objeto de soberba e fabricaram suas abomináveis imagens e seus ídolos detestáveis; portanto eu fiz que isso lhes fosse por sujeira, e o entregarei na mão dos estrangeiros, por presa, e aos perversos da terra por despojo; eles o profanarão. Desviarei deles o meu rosto, e profanarão o meu recesso; nele entrarão profanadores, e o saquearão (Ez 7:20-22)
Mas ainda não era o “tempo do fim”. A invasão de Antíoco foi só um aviso.

Os macabeus
Antíoco submeteu, com suas lisonjas, os violadores da aliança, mas o povo que conhece o seu Deus se tornou forte e fez proezas (Dn 11:32). Os violadores da aliança não se preocuparam em estar a quebrar as leis de Deus. Mas quanto aos outros, o livro de Macabeus relata histórias de coragem, de como judeus fiéis, coagidos a violarem a lei, enfrentavam perseguições e torturas.
Entretanto, a resistência é organizada pelos macabeus, uma família sacerdotal que, sob a liderança inicial de Judas Macabeu, conseguiram juntar um grande número de homens e formar um exército de guerrilha, “o pequeno socorro” (v.34). Sendo poucos, lutaram contra o exército sírio muito maior. Conseguiram purificar o templo e restaurar o culto, o que levou à instituição da festa de Hanukkah. Dizem os livros de 1 Macabeus que a purificação do santuário sucedeu no 25º dia do mês de Quisleu, no mesmo mês e dia em que três anos antes, Antíoco havia feito construir, sobre o altar dos holocaustos, a Abominação da desolação e que os pagãos o tinham profanado (1Mac 1:54; 4:52-54).
Nota: Os livros dos Macabeus não fazem parte do cânone da Bíblia, mas são uma fonte importante para a história daquele tempo. Josefo segue 1Mac nas suas Antiguidades. 1Macabeus é um livro que canta as proezas dos Macabeus em muitas (demasiadas) palavras lisonjeiras, tentando mostrá-los como verdadeiros herdeiros do trono de David e legítimos sumos-sacerdotes.
Ajudados com poucos, ou com pequeno socorro- o exército dos macabeus eram poucos e com poucos ganharam do exército sírio muito maior. Esta é uma interpretação. Outra interpretação diz que o socorro foi pequeno, ou insuficiente, porque os macabeus, embora conseguissem restaurar o templo e reconquistar por algum tempo a independência de Israel, tomaram para si o trono (que não lhes pertencia de direito porque eles não eram descendência de David, nem da casa de Judá) e tomaram também para si, ilegitimamente, o cargo de sumo-sacerdote, ao qual também não tinham direito, não sendo da linhagem de Zadoque.
Desde Menelau, nunca mais um sumo-sacerdote legítimo da casa de Zadoque ministrou em Israel. É isto o que significa o príncipe da aliança foi quebrado.
Mesmo quando o templo foi purificado depois da profanação pelas forças de Antíoco, a abominação foi só parcialmente resolvida. O legítimo sumo-sacerdote nunca mais foi reinstalado no cargo. Verdadeiros abusos introduziram-se desde o tempo do rei Herodes, nomeando e destituindo arbitrariamente os sumos-sacerdotes. Quando, depois da deposição de Arquelau (6 d.C.), a Judeia passou a ser uma província romana, cada novo procurador nomeava um novo sumo-sacerdote. Josefo (Ant.20) escreve que o número de sumos-sacerdotes, desde os dias de Herodes até ao dia em que Tito tomou e queimou o templo e a cidade (cerca de 107 sete anos), foi de 28, alguns dos quais só ocuparam o cargo durante escassos meses. A maior parte deles eram familiares de Anás que, embora tivesse efetivamente sido sumo-sacerdote durante cerca de 7 anos (7-13 d.C.), conservou na prática a autoridade até à sua morte.
Note-se que em Daniel 11, contrariamente ao livro de Macabeus, não há menção de uma restauração depois do estabelecer da abominação desoladora. Esta restauração só acontecerá com Jesus.
Os vs.32 a 35 fala de “entendidos entre o povo que ensinarão a muitos, mas cairão, e serão provados e purificados, ….

33- E os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia cairão pela espada, e pelo fogo, e pelo cativeiro, e pelo roubo, por muitos dias. 34- E, caindo eles, serão ajudados com pequeno socorro; mas muitos se ajuntarão a eles com lisonjas. 35- E alguns dos entendidos cairão, para serem provados, e purificados, e embranquecidos, até ao fim do tempo, porque será ainda no tempo determinado.
Isto caracteriza a condição dos judeus desde os dias de Antíoco Epifânio ao tempo de Herodes (11:36) e depois até à vinda do reino com Jesus.