02/02/2014

O ÊXODO (1)

Voltando às duas questões que deixámos por responder na mensagem anterior:

1) a identidade do faraó que colocou José numa posição de autoridade e que recebeu tão bem a família de Jacó e permitiu que se estabelecesse na melhor terra de Gosen no Egito e
2) a identidade do faraó que tentou impedir a saída dos israelitas.

Não há consenso entre os historiadores sobre quem eram estes faraós.
Para melhor entendermos o porquê desta falta de consenso, precisamos primeiro de comparar a cronologia da história de Israel com a cronologia da história egípcia.

Já definimos em anos a.C. quando Israel entrou e quando saiu do Egipto (ver mensagem anterior).
Agora, precisamos de conhecer a cronologia da história egípcia. A história do Egipto é tradicionalmente dividida em períodos e dinastias. Segue uma listagem simplificada destes períodos e dinastias com datas aproximadas a.C., a fim de podermos entender onde se insere tradicionalmente a história de Israel.

Cronologia convencional (a.C.)
Eventos bíblicos
PERÍODO PRE-DINÁSTICO
5500-3200
 
PERÍODO PROTO-DINÁSTICO
Dinastia 0   
3200-3100
 
PERÍODO ARCAICO
1ª e 2ª dinastia
3100-2686
 
ANTIGO IMPÉRIO
3ª a 6ª dinastia
2686-2181
 
2348: dilúvio
1º PERÍODO INTERMÉDIO
7ª a 10ª dinastia                  
2181-2055
 
IMPÉRIO MÉDIO
11ª dinastia
12ª dinastia
13ª dinastia
2055-1650
 
1706: a família de Jacó entra no Egipto
2º PERÍODO INTERMÉDIO
14ª a 17ª dinastia (Hicsos)
1650-1550
 
1571: nascimento Moisés
IMPÉRIO NOVO          
18ª dinastia (1570-1320)
§  Amósis (1570-1546)
§  Amenotepe  I (1546-1527)
§  Tutmés I (1527-1515)
§  Tutmés II (1515-1498)
§  Hatchepsute (1498-1483)
§  Tutmés III (1504-1450)
§  Amenotepe II (1450-1412)
§  Tutmés IV (1412-1402)
§  Amenotepe III (1402-1364)
§  Akhenaton (1350-1334)
§  Semencaré  (1334)
§  Tutankamon (1334-1325)
§  Ai (1325-1321)
19ª dinastia
§  Ramsés I (ca. 1320)
§  Seti I  (1318-1304)
§  Ramsés II (1304-1237)
§  Merneptá (1236-1223)
§  Amenmes
§  Seti II
§  Siptah (1208-1202)
§  Rainha Tausert (1202-1200)
20ª dinastia
1550-1069
 
 
 
 
 
1491: Êxodo
3º PERÍODO INTERMÉDIO
21ª a 24ª dinastia
1059-747
 
EPOCA BAIXA
25ª a 30ª dinastia
(Até Alexandre o Grande
747-332
 
PERIODO PTOLOMAICO
332-30
 
Fonte: http://ancienthistory.about.com/od/pharaohs/a/DynastiesEgypt.htm

As principais hipóteses avançadas são as seguintes:
1.     Os israelitas são identificados com os Hicsos (2º Período Intermédio), e o êxodo com a expulsão dos Hicsos, também conhecidos como os Reis-pastores.

2.     Os israelitas saíram do Egipto no tempo de Amenotepe III (ou antes), e invadiram a Palestina no tempo de Akhenaton, identificados como os Habiru.
       Esta interpretação baseia-se em cartas encontradas nos anais de El-Amarna (cidade fundada por Akhenaton), escritas de Jerusalém e avisando o faraó de uma invasão de Habiru.

3.     Os israelitas entraram do Egipto no tempo dos Hicsos, também um povo estrangeiro, presumivelmente de origem semita – por isso teriam sido favoráveis aos israelitas. Quando os Hicsos foram expulsos, levantou-se um novo rei que não conhecia José.

a.       Êxodo na 18ª dinastia:

Amósis foi o faraó que iniciou a opressão depois da morte de José. Tutmés III seria o faraó do êxodo. Hatchepsute, filha de Tutmés, seria a rainha que educou Moisés na corte egípcia. (Esta hipótese corresponde a uma interpretação que dá um período curto de estadia de Israel no Egipto, ca. 215 anos.

b.      Êxodo na 19ª dinastia:

A opressão culminou no tempo de Ramsés II, para quem os israelitas construíram Ramessés e Pitom. O êxodo ocorreu no tempo do seu filho e sucessor Merneptá. (Esta hipótese corresponde a uma interpretação que dá um período longo de mais de 400 anos para a estadia de Israel no Egipto.)

Existem outras variantes, todas situando o êxodo quer na 18ª quer na 19ª dinastia. Porém, não há consenso entre os historiadores, porque todas estas hipóteses apresentam incongruências. Não me queria deter na análise dos prós e contras das várias hipóteses, pois existe um problema maior.
O êxodo foi para Israel o evento mais importante da sua história como povo. A ele era feito referência vez após vez, nos Salmos, pelos Profetas, …. A Páscoa foi instituída por essa ocasião.

Porém, os anais do Egipto não preservaram qualquer registo relativo à estadia ou partida dos israelitas, levando muitos a afirmar que se trata de uma mera lenda, no mínimo uma exageração de um acontecimento menor. Têm-se procurado explicações naturais para os fenómenos descritos na Bíblia.
O êxodo foi um evento acompanhado por grandes e violentas convulsões da natureza, que destruíram a terra e culminaram com a morte de muitos egípcios (primogénitos) e a derrota de um exército. O que na realidade é estranho é não existir no Egipto no tempo daquelas 18ª e 19ª dinastia qualquer testemunho nem da estadia, nem da saída dos israelitas, nem das pragas, nem da destruição.

Mas não acaba ali. Também, dizem, não existem provas de que Jericó teria sido destruído naquela época. Há arqueólogos e historiadores que chegam a dizer que David e Salomão não existiram.
Esta ausência de registos e provas arqueológicas poderia levar a deduzir que toda a história de Israel é uma fábula.

Onde reside o problema? (ver Berthoud, 2006)
- Por um lado, temos uma narrativa bíblica que pretende ser histórica e que, além disso, está fortemente estruturada no plano cronológico.

- Por outro lado, há dados arqueológicos cujas datas são baseadas numa cronologia egípcia, constituída de acordo com documentos diversos do século III a.C. pelo sacerdote egípcio Maneto (= a cronologia convencional como dada na tabela acima)
- Nenhuma concordância precisa existe entre estes dois. Isto é: nenhum evento na história de Israel tem uma concordância contemporânea na história do Egipto.

Disto podemos deduzir várias hipóteses, tal como atualmente percebidos no mundo académico:
1)      A cronologia oficial/convencional está correta e por conseguinte a história bíblica de Israel é um mito.

2)      Os eventos descritos pela Bíblia são verdadeiros e a cronologia que encontramos na Bíblia é exata. Por conseguinte, devem existir na história egípcia factos correspondentes aos factos atestados pela Bíblia. Se não os encontramos hoje é porque procuramos no momento histórico errado, porque há uma décalage importante entre a cronologia bíblica, que é exata, e a cronologia oficialmente reconhecida para o antigo Egipto, que é falsa historicamente.

3)      Podemos continuar a tentar aceitar a cronologia oficial e procurar acomodar os factos bíblicos.

4)      Finalmente, podemos ignorar a questão e evitar o perigo intelectual e espiritual de nos confrontar com a historicidade ou não historicidade do Velho Testamento, fazer a exegese dos textos bíblicos de modo independente não ligando a história bíblica com os eventos da história. Esta decisão tem a seguinte consequência:

La religion chrétienne, dans une telle perspective, dégagée des réalités de l’histoire, prend alors, sans même s’en rendre compte, l’allure d’un système gnostique suspendu en l’air, hors de la réalité créée». (Berthoud, 2006)
« A religião cristã, nesta perspetiva, solta das realidades da história, toma então, sem se dar conta, a aparência de um sistema gnóstico suspenso no ar, fora da realidade criada”.


Para nós,
os eventos descritos pela Bíblia são verdadeiros e a cronologia que encontramos na Bíblia está correta.
Por conseguinte, devem existir na história egípcia factos correspondentes aos factos atestados pela Bíblia.

Se não os encontramos hoje é porque procuramos no momento histórico errado, porque existe uma décalage importante entre a cronologia bíblica, que está certa, e a cronologia oficialmente reconhecida para o antigo Egipto, que está errada.
É necessário rever a cronologia oficial/convencional.



 
 

26/01/2014

DO ÊXODO À QUEDA DE JERUSALÉM

Até agora ainda não procurámos estabelecer nenhuma sincronia entre a cronologia bíblica e a cronologia da história dos outros povos. A família de Abraão, Isaque e Jacó não passava de um clã até que entrou no Egipto, onde se multiplicaram grandemente (Ex 1:7), e aparentemente se tornaram uma ameaça ao rei (Ex 1:9). A partir deste momento são um povo com existência em relação a outros povos, neste caso o Egipto.

Duas questões têm ocupado os historiadores, bíblicos e outros:
1) a identidade do faraó que colocou José numa posição de autoridade e que recebeu tão bem a família de Jacó e permitiu que se estabelecesse na melhor terra de Gosen no Egito e

2) quem foi o faraó que tentou impedir a saída dos israelitas?

Mas antes de podermos analisar estas questões que iremos aprofundar nas próximas mensagens, temos de estabelecer uma sincronia entre a cronologia bíblica e a cronologia secular.
Israel entrou no Egipto no ano 2998 AH e saiu no ano 2513 AH. Para podermos estabelecer uma sincronia com a cronologia secular, temos de traduzir estas datas AH – contadas a partir da criação do homem – em datas “antes de Cristo” segundo o método atual.

Primeiro, é necessário encontrar um ponto de sincronia entre a história bíblica e a história secular a partir do qual podemos calcular para trás no tempo: um evento que é datável e onde se encontram a história de Israel e a história de outro povo. O ponto utilizado pela maioria dos cronologistas é a data da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor, no ano de aprox. 586 antes de Cristo, data que tem recebido um consenso generalizado.
Temos que calcular quantos anos decorreram desde o Êxodo até à queda de Jerusalém. As Escrituras fornecem alguns intervalos de tempo que permitem fazer isto.

AH 2513 = Êxodo
1 Rs 6:1 – No ano de 480 depois de saírem os filhos de Israel do Egipto, Salomão, no ano 4º do seu reinado sobre Israel, no mês de Zive (este é o 2º mês), começou a edificar a casa do Senhor.

Os Israelitas deixaram o Egipto no 15º dia do primeiro mês (Num 33:3). No 480º ano depois do êxodo, no 2º dia do 2º mês, Salomão começa a edificar o templo (1Rs 6:1; 2Cron 3:2). Os meses e dias dados para o início e fim do período mostram que 11 meses e 14 dias devem ser subtraídos de 480. Do êxodo ao 2º dia do 2º mês do 4º ano de Salomão não são 480 anos completos, mas apenas 479 anos e 16 dias (Jones, 2009: p.52, nota 2).
AH 2513 + 479 anos = AH 2292 = 4º ano de Salomão

1Rs 11:42 – Foi de 40 anos o tempo que reinou Salomão em Jerusalém sobre todo o Israel.
1Rs 6:37 – No ano 4º se pôs o fundamento da casa do Senhor, no mês de Zive.

Salomão reinou 40 anos. O templo começou a ser construído no 4º ano do seu reinado.
AH 2292 + 37 = AH 3029 = fim do reinado de Salomão

Ez 4:1, 4-6 – … a cidade de Jerusalém … Deita-te também sobre o teu lado esquerdo, e põe a iniquidade da casa de Israel sobre ele; conforme o número dos dias que te deitares sobre ele, levarás sobre ti a iniquidade dela. Porque eu te dei os anos da sua iniquidade, segundo o número dos dias, 390 dias; e levarás sobre ti a iniquidade da casa de Judá.
Estes 390 anos de Ezequiel são confirmados por outros dados: 390 é soma dos reinados dos reis de Judá desde Roboão a Zedequias.
 
N.B. Sobre o período dos Reis de Judá e Israel há muito que dizer, o que faremos a seu tempo, cronologicamente.

Roboão
17
1Rs 14:31
Abias
3
1Rs 15:2
Asa
41
1Rs 15:9-10
Josafá
25
1Rs 22:42
Jeorão *
4
2Rs 8:17
Acazias
1
2Rs 8:26
(Atalia)
6
2Rs11:11-12
Joás
40
2Rs 12:1
Amazias
29
2Rs 14:1-2
Uzias (Azarias)
52
2Rs 15:1-2
Jotão
16
2Rs15:33
Acaz
16
2Rs 16:2
Ezequias
29
2Rs 18:1-2
Manassés
55
2Rs 21:1
Amon
2
2Rs 21:19
Josias
31
2Rs 22:1
Jeoacaz (3 meses)
2Rs 23:31
Jeoaquim (3 meses+10 dias)
11
2Rs 23:36
Joaquim
1
2Rs 24:8; 2Cro 36:9
Zedequias
11
2Rs 24:18
TOTAL:
390
* Jeorão reina 8, mas apenas 4 como solo rex

AH3029 + 389 (destruição de Jerusalém no 390º ano) = AH 3418 = queda de Jerusalém

Do Êxodo até à destruição de Jerusalém há 905 anos (479 + 37 + 389 =905).
O Êxodo aconteceu em 1491 a.C. (586 a.C. + 905 = 1491 a.C)

Visto que o tempo que Israel passou no Egipto foram 215 anos, Israel entrou no Egipto no ano 1706 a.C. (1491 + 215 = 1706)

Agora já temos datas “a.C.” que nos permitem fazer uma comparação com outras datas históricas e descobrir quem eram os faraós.

JÓ (2). OS AMIGOS DE JÓ

Os amigos de Jó

Sabemos quem eram os amigos de Jó: Elifaz, o temanita, Bildade, o suíta, e Zofar, o naamatita (Jó 2:11). E no fim ainda surge Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão (Jó 32:2).
A descendência familiar pode dar-nos indicações geográficas.

Elifaz é temanita. Temã era filho de Elifaz, primogénito de Esaú (Gn 36:15) (ver a genealogia de Esáu na mensagem anterior). Isto coloca-nos novamente no território de Edom e na descendência de Esaú.
Bildade é suíta, descendente de Sua, filho de Abraão com Quetura (Gn 25:2; 1Cro 1:32). Ainda em vida, Abraão separou Isaque dos outros filhos, enviando-os para a terra oriental. A terra de Uz era situada no Oriente (Jó 1:3). E a região de Edom está situada mesmo a oriente de Beersheba, onde Abraão viveu muito tempo, e de Beer-lai-roi onde Isaque habitava (Gn 24:62).

Zofar, o naamatita, tem origem mais incerta. O único nome de uma terra com este nome (Naamá) está em Josué 15:41, onde é uma de 16 cidades canaanitas com suas aldeias no território que havia de ser parte da herança de Judá. Isto não é totalmente incompatível com uma localização da terra de Uz em Edom: o território de Judá a sul do Mar Morto está próximo da vizinha Edom (Beitzel, 2009: p.123/mapa 40).
Estes três casos parecem reforçar a situação geográfica de Jó em Edom.

Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão. Várias interpretações identificam este Rão com Arã em Gn 22:21. Arã é filho de Quemuel, filho de Naor, irmão de Abraão. Buz é irmão de Quemuel. Não é uma hipótese afastada de poder haver uma relação familiar entre um(a) descendente de Buz e um(a) descendente de Quemuel. Por outro lado, não há claras referências geográficas.
Ainda há um outro aspeto que parece apoiar que Jó seria filho de Issacar. Os amigos de Jó, que conseguimos localizar (quase) todos no território de Edom, ou na sua proximidade, são os primeiros a ir ter com ele. Estranhamente, a família de Jó, todos os seus irmãos e irmãs, e todos quantos dantes o conheceram (Jó 42:11) só apareceram quando o Senhor já tinha mudado a sorte de Jó. A família não tinha abandonado Jó, como por vezes se tenta explicar. Mas foi a distância que os impediu de chegarem mais cedo. Estando a família de Jó no Egipto e Jó em Edom, levaria tempo para as más notícias chegarem até ao Egipto e a família viajar para Edom (Jones, 2009: p.20).

Resumindo:
2253                      Issacar nasce (data aproximada)
2298                      Issacar teria cerca de 45 anos quando entrou no Egipto
                               Jó pode ter cerca de 14 anos
2354                      Sofrimento de Jó / Jó 70 anos. Issacar seu pai terá cerca de 101 anos: há entre nós encanecidos e idosos, muito mais idosos do que teu pai (Jó 15:10)
2369                      José morre aos 110 anos
2424                      Jó morre, tendo 140 anos
2433                      Moisés nasce

Admitindo que Jó fosse filho de Issacar, por alguma razão ele saiu do Egipto, ficando lá todos os seus irmãos, e foi para Edom. É o período em que Israel viveu bem no Egipto enquanto José estava vivo.

19/01/2014

JÓ.Quem era? Quando e onde viveu? (1)

Quem era Jó? Quando e onde viveu?

Geralmente, pensa-se que Jó viveu no tempo dos patriarcas. Os factos que sugerem isto são vários: a longevidade de Jó; as suas riquezas eram calculadas e termos de gado; ele era sacerdote da sua família, como Abraão, Isaque e Jacó; o uso frequente do nome de Deus El Shaddai; a ausência de referências à lei ou à história de Israel.
Que indicações nos dá a Bíblia para podermos situá-lo melhor?

Quanto à sua longevidade, há divergências.
Jó 42:16 – E, depois disto, viveu Jó 140 anos.

Alguns entendem que Jó tinha 70 anos quando a desgraça lhe sobreveio, e que depois viveu ainda 140 anos, num total de 210. O que o colocaria numa época anterior a Abraão (quando a longevidade era superior a 200 anos), no tempo de Terá, que viveu 205 anos, visto que a duração de vida gradualmente diminuiu até chegar a 80 (Sl 90:10).
No entanto, Jó 42:16 pode ser entendido que Jó viveu até aos 140 anos, no todo. Jó 42:10 diz que o Senhor acrescentou a Jó outro tanto em dobro a tudo quanto dantes possuía. Por exemplo, dantes, ele possuía 7.000 ovelhas, depois possuiu 14.000, o dobro de 7.000, não 21.000. Assim, se Jó tivesse 70 anos antes, passou a viver simplesmente o dobro da sua idade de então, no total 140.

Entendido assim, Jó tem de ser colocado num tempo posterior ao de Abraão. Abraão ainda viveu 175 anos (Gn 25:7). No tempo de Jacó (que viveu 147 anos) ou mesmo um pouco mais tarde. Moisés ainda chegou aos 120 anos.

Quem era Jó?
O nome de Jó como escrito no livro de Jó: בוֹיּאִ (Job).

A única outra referência a uma personagem com o nome de Jó encontra-se em Gn 46:13. Jó (בוֹי) (= Job) é o terceiro filho de Issacar, filho de Jacó. Segundo o léxico de Strong’s, o nome é possivelmente uma forma de בבָוֹי (Jobab), mas mais provavelmente uma transcrição errônea de בוּשׁיָ (Jashub = ele voltará).
Há várias figuras na Bíblia com o nome de Jobabe.

O primeiro Jobabe é um filho de Joctã, filho de Héber (Gn 10:25-30). A época é cerca de 150 anos depois do dilúvio e cerca de 200 anos antes do nascimento de Abraão. Demasiado cedo, portanto, para entrar em consideração.
Mais tarde, aparece Jobabe, filho de Zerá, de Bozrá que reinou em Edom (Gn 36:33). Zerá era filho de Reuel, que era filho de Esaú com Basemate (Gn 36:17). Este Jobabe era portanto bisneto de Esaú (ver abaixo, a genealogia de Esaú). Era descendente de Abraão e de Isaque, mas não era israelita e sempre existiu uma grande inimizada entre Esaú/Edom e Israel. A Septuaginta identifica Job como este Jobabe, rei de Edom (segundo uma nota em The Companion Bible).

A genealogia de Esaú (Gn 36):

ESAÚ x Ada
ESAÚ x Basemate
ESAÚ x Oolibama
--------------------------------------------------
|
Elifaz
|
Reuel
|
Jeús
|
Jalão
|
Coré
|
Temã
Omar
Zefô
Gaetã
Quenaz
Amaleque (=filho de Elifaz com concubina Timna)
|
Naate
Zerá  
Samá
Mizá

Jasube é outro nome dado a Jó, o terceiro filho de Issacar, em Num 26:23 e 1 Cro 7:1. Alguns identificam Jó com este filho de Issacar (The Companion Bible; Jones, 2009: p.20).
Jó entrou no Egipto juntamente com o seu pai Issacar e o restante da família de Jacó (Gn 46:13). Issacar teria cerca de 44 anos quando entrou no Egipto (AH 2298). Admitindo que Jó tivesse cerca de 14 anos na altura, ele teria 70 no ano 2354, e 140 no ano 2424. José morreu em 2369. Moisés nasceu em 2433.

Jó, por alguma razão, terá deixado a sua família no Egipto, instalando-se na terra de Uz. Jó 15:10 dá a entender que o pai dele ainda estaria vivo no tempo do seu sofrimento – Também há entre nós encanecidos e idosos, muito mais idosos do que teu pai. – Issacar teria na altura cerca de 102 anos e talvez demasiado idoso para ir visitar o filho, visto que não se encontra entre os familiares que o foram visitar (Jó 42:11).
A figura e história de Jó coaduna-se com o nome de Jasube (ele voltará) com o que o terceiro filho de Issacar é designado. Não há nenhuma indicação no texto que Jó teria sido um rei – edomita! – para poder ser identificado com Jobabe, descendente de Esaú.

A terra de Uz
Sabemos que Jó habitava na terra de Uz (Jó 1:1), que era situada no Oriente (Jó1:3).

A terra de Uz é mencionada apenas 2 vezes fora do livro de Jó: em Jeremias 25:20, e em Lamentações 4:21 – ó filha de Edom, que habitas na terra de Uz –. Lamentações claramente associa Edom, região e povo da descendência de Esaú com Uz. Edom era situado a sudeste do Mar Morto, a sul do ribeiro de Zerede.
Quem era esse Uz de quem a região tomou o nome? Encontramos três figuras com o nome de Uz.

O primeiro é o filho de Arã, filho de Sem (Gn 10:22-23). Em 1Cro 1:17 aparece como filho de Sem. É frequente netos serem incluídos nas listas de filhos. Uz é uma das 70 nações disseminadas depois do dilúvio (Gn 10). É uma nação da família dos Semitas. Beitzel (mapa p.93) coloca a nação de Uz a nordeste de Canaã, em direção ao Eufrates.
O segundo Uz é irmão de Buz, que era filho de Naor, irmão de Abraão, com Milca (Gn 22:21). Aqui, Uz é um nome pessoal; pode ter sido cabeça de um clã na região de Harã de onde era originário, e que fica muito longe para norte de Canaã.

Encontramos o terceiro Uz na genealogia de Seir, o horeu, morador do monte de Seir para onde Esaú foi habitar depois que se separou de Jacó (Gn 36:6-8) – Esaú, que é Edom, habitou no monte de Seir. Uz era filho de Disã (Gn 36:28), príncipe dos horeus, que por sua vez era filho de Seir (Gn 36:20-21).
Além de Esaú/Edom ter ido habitar na terra de Seir, ele também se aparentou com eles. Oolibama, terceira mulher de Esaú, era filha de Aná, que era filho de Zibeão, filho de Seir (Gn36:18,24-25). Daí Lamentações 4:21 – ó filha de Edom, que habitas na terra de Uz.

Parece que podemos com alguma segurança concluir que a terra de Uz está associada a Edom e, portanto, que Jó habitava entre os descendentes de Esáu.
Ainda há os amigos de Jó. Será que a sua identidade nos ajuda a conhecer Jó melhor?