14/07/2014

DE JOSUÉ A SALOMÃO (3) Josué-Juízes

Da conquista de Hesbon (Num 21:21-31; Dt 2:24-36) até Jefté (Jz 11:26) são 300 anos.

Primeiro precisamos de encontrar uma solução para as sobreposições dos tempos de paz e de opressão a fim de podermos deduzir a duração da liderança de Josué depois da divisão da terra, bem como o tempo dos anciãos que sobreviveram a Josué, até o início do primeiro período de opressão, que é de Cusã-Risataim.

Todos os valores que nos são dados neste período de 300 anos:

Período de guerras até à divisão da terra (ver mensagem anterior) ...   7 anos
O período da liderança de Josué até à sua morte  ..............................    ?
O tempo dos anciãos que sobreviveram a Josué (Jz 2:7,10)       ..........    ?
Tempo da opressão de Cusa-Risataim, rei da Mesopotâmia ..............     8
Juiz: Otniel, filho de Quenaz, irmão de Calebe, mais novo  ................   40 anos de paz
Tempo da opressão de Eglom, rei dos moabitas, e amalequitas  .......   18
Juiz: Eúde       ............................................................................                80 anos de paz
Juiz: Sangar                                                                                                           -
Opressão de Jabim, rei de Canaã (comandante Sísera) .......................   20
Juizes: Débora e Baraque              .........................................................    40 anos de paz
Opressão dos midianitas               .........................................................      7
Juiz: Gideão                              ................................................................   40
Abimeleque (filho ilegítimo de Gideão proclamado rei)      .................     3
Juiz: Tola      ..........................................................................................   23
Juiz: Jair        ..........................................................................................   22
Opressão dos filisteus e filhos de Amom      .........................................  18
Até início do julgado de Jefté                                                                                  -

A soma de todos estes valores dá 326 anos (sem contar o tempo de Josué + anciãos), enquanto este período conta apenas 300 anos.

Floyd Nolen Jones (2009:p.73) oferece uma solução que nos parece aceitável para as várias sobreposições existentes.
Existe sobreposição onde o período de opressão é dado juntamente com os anos de paz da terra. Por exemplo, os versículos referentes à servidão sob Eglon, rei dos moabitas, e ao juiz Eúde, levantado para livrar Israel e devolver a paz à terra, são interpretados como um todo, um único “episódio” por assim dizer (Jz 3:12-30). No último versículo do conjunto, uma pausa é construída no pensamento a seguir à palavra “paz” de modo que as duas palavras seguintes – oitenta anos – são consideradas como uma recapitulação da totalidade do tempo de todo o episódio, que é de oitenta anos.

Destes 80 anos, os primeiros 18 estavam sob o controlo de Eglon; os restantes 62 anos são os tempos de paz depois da vitória de Eúde sobre Eglon. Este tipo de interpretação não se aplica apenas no caso de Eúde-Eglon, mas também para os outros juízes.
Porque podemos fazer tal interpretação? A justificação está na pontuação e sintaxe das línguas modernas. O hebraico, porém, não tem pontos, nem vírgulas, o que pode criar dificuldades de interpretação. A tradução levou a introduzir um ponto entre “e a terra ficou em paz” e “oitenta anos” (no hebraica não vem a palavra “durante” que ocorre em várias traduções), sugerindo que a terra teve um período de paz de 80 anos a seguir à derrota de Moabe. Juizes 3:30 devia ser entendido como “e a terra ficou em paz”, seguido de uma pausa no pensamento, e depois “80 anos” como uma declaração que resume o tempo todo coberto pela história. Assim, cada episódio bíblico em Juízes regista o período de tempo desde um período de paz até ao próximo período de paz, dentro do qual estão incluídos os anos de opressão. Na realidade, o que conta para o cálculo, são os tempos de governo dos juízes.

Em apoio a esta teoria vem o Seder Olam, “A Grande Crónica do Mundo”, um texto judaico talmúdico, presumivelmente escrito no século II d.C, que contem a cronologia do mundo segundo as tradições judaicas. No caso de Juízes, conta com os 300 anos de Hesbon a Jefté, como temos feito, e atribui à liderança de Josué 28 anos.

Façamos contas:
Jz 3:5-11 ---- Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o Senhor. Servem a Cusã-Risataim 8 anos. Otniel liberta-os. O versículo 11 resume: Então a terra ficou em paz. Quarenta anos. Otniel, filho de Quenaz, faleceu.

>> Tempo total Cusã-Risataim / Otniel: 40 anos
Jz 3:12-30 ---- Tornaram os filhos de Israel a fazer o que era mau, o Senhor deu poder a Eglom, rei dos moabitas, que os filhos de Israel serviram 18 anos. Levantou-se Eúde, que subjugou os moabitas. Versículo 30: Assim foi Moabe subjugado naquele dia sob o poder de Israel: e a terra ficou em paz. Oitenta anos.

>> Tempo total Eglom / Eúde: 80 anos
Jz 4 e 5 ---- Os filhos de Israel tornaram a fazer o que era mau perante o Senhor, depois de falecer Eúde. Entregou-os o Senhor nas mãos de Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor. Sísera era o comandante do seu exército. Por 20 anos oprimia duramente a Israel… Débora, profetisa, julgava Israel naquele tempo (4:4). Baraque é convocado e reúne as tropas. Sísera é morto por Jael, mulher de Héber, queneu (sobre os queneus, ver mensagem sobre Calebe). Assim, Deus humilhou a Jabim, rei de Canaã. E cada vez mais a mão dos filhos de Israel prevalecia contra Jabim, até que o exterminaram (4:24). A seguir ao cântico de Débora e Baraque (Jz 5): e a terra ficou em paz. Quarenta anos.

>> Tempo total Jabim e Sísera / Débora e Baraque: 40 anos

Jz 6:1 a 8:32 ---- Fizeram os filhos de Israel o que era mau …. os entregou nas mãos dos midianitas por 7 anos. Gideão é chamado para libertar Israel.

Jz 8:28 – assim foram abatidos os midianitas diante dos filhos de Israel, e nunca mais levantaram a cabeça; e ficou a terra em paz 40 anos nos dias de Gideão.
>> Tempo total midianitas / Gideão: 40 anos

Somando: 40 + 80 + 40 +40 = 200 anos
Se somarmos a isto o tempo dos juízes que se seguiram a Gidão – Abimeleque 3 anos (Jz 9:22) + Tola 23 anos (Jz 10:1-2) + Jair 22 anos (Jz 10:22) – chegamos a 248 anos.

Os 18 anos de opressão pelos filisteus e filhos de Amom (Jz 10:6-18) deverão estar incluídos no tempo de Jair. Deduz-se que, depois da sua morte, foram buscar Jefté para os livrar … naquele momento Israel habitava 300 anos em Hesbon (Jz 11:26), que é o ponto final do período em análise de 300 anos. Depois da vitória Jefté julgou Israel 6 anos (Jz 12:7).

Aos 248 anos (desde Cusã-Risataim até à vitória de Jefté (o início do seu julgado de 6 anos; os 6 anos de Jefté pertencem ao próximo período), temos de acrescentar os 7 anos da conquista  da terra até à divisão, o que nos leva a 255 anos.

Isto deixa-nos 45 anos (300 -255) para a liderança de Josué até à sua morte, mais o tempo dos anciãos que ainda lhe sobreviveram.


 

 
 
Cusan
 
Eglom
 
Jabim e Sísera
 
Midia-
nitas
 
 
 
 
Filisteus
 
 
8
 
18
 
20
 
7
 
 
 
 
18
7
45
40
80
40
40
3
23
22
Conquista
Da terra
Josué
+
anciãos
Otniel
Eúde
Débora
Gideão
Abi-
Me-
leque
Tola
Jair
< 2552(conquista de Hesbon)
 
Fim 300 anos – Jefté: 2852

 


Reconstrução da cronologia:
2552 : Conquista de Hesbon. No final deste mesmo ano, Moisés morre e Josué é instituído como líder.

2552 + 300 = 2852 : Vitória de Jefté sobre os amonitas e início do julgado de Jefté.
2852 – 248 = 2604 – Fim do tempo dos anciãos e início da opressão de Cusã-Risataim.

2552 + [28] = [2580] – morte de Josué [o Seder Olam dá 28 anos à liderança de Josué].
Naturalmente, o Seder Olam é uma fonte extra-bíblica e, como tal, não tem a mesma autoridade e temos que estar conscientes da sua limitação, como dos seus possíveis erros.

Embora o exato ano da morte de Josué não seja verificável pelas Escrituras, é possível demonstrar que esta data é aceitável, pelo menos aproximadamente. A esta demonstração, Jones (2009:pp.88-94) dedica um capítulo (Joshua’s age), analisando factos pertinentes associados à vida de Josué.

12/07/2014

DE JOSUÉ A SALOMÃO (2) - a ~divisão da terra

Voltemos aos problemas da cronologia de Josué a Salomão.

Dados cronológicos na Bíblia permitiram-nos definir um crono-esqueleto para o tempo de Josué a Salomão, dentro do qual se distinguem 2 períodos.
Recapitulemos:

O tempo total vai do êxodo (ano 2513) até ao 4ª ano de Salomão (ano 2992) – isto é, no 480º depois do êxodo começou-se a edificar o templo (1 Reis 6:1).
A data que divide o período total em duas partes é a vitória de Jefté sobre os amonitas (Jz 11:26).

O primeiro período, desde a conquista de Hesbon (escassos meses antes da passagem do Jordão) até Jefté, é de 300 anos.
O segundo período vai de Jefté até ao 4º ano de Salomão: 140 anos, isto é, do ano 2852 AH (Jefté) a 2992 (4º ano de Salomão = 480º ano desde o êxodo) são 140 anos.

 
Vamos agora analisar a cronologia do primeiro período, que vai da conquista de Hesbon (Num 21:21-31; Dt 2:24-36) até Jefté. Onde estão as dificuldades que temos de resolver?
1º- Já vimos que há uma discrepância entre o tempo dado de 300 anos (Jz 11:26), por um lado, e a soma de todos os valores dados para os juízes e períodos de opressão no mesmo lapso de tempo. A soma das partes é maior que o todo. Isto deixa-nos concluir que há sobreposições; não podemos simplesmente adicionar todos os anos que nos são dados.

É possível resolver estas sobreposições?

2º - O segundo problema prende-se com a duração da liderança de Josué. É-nos dito que Josué morreu aos 110 anos, mas não sabemos quando nasceu, nem que idade tinha em determinado momento da história, por exemplo do êxodo.
Portanto, precisamos de saber quantos anos passaram entre a passagem do Jordão e a morte de Josué.

3º - Outro lapso de tempo cuja duração desconhecemos são “todos os dias dos anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué, e que sabiam todas as obras, feitas pelo Senhor a Israel” (Jos 24:31). Sabemos que o povo serviu ao Senhor todos os dias de Josué e todos os dias desses anciãos que ainda sobreviveram por muito tempo depois de Josué (Jz 2:7). Quando toda aquela geração foi congregada a seus pais, outra geração após deles se levantou, que não conhecia ao Senhor, nem tão pouco as obras que fizera a Israel. Então fizeram os filhos de Israel o que era mau perante o Senhor e deixaram o Deus de seus pais. Isto causou a ira do Senhor que os deu na mão dos espoliadores e os entregou na mão dos seus inimigos ao redor (Jz 2:10-14). O primeiro dos opressores foi Cusã-Risataim (Jz 3:8).
Quantos anos passaram entre a morte de Josué e o início da opressão de Cusã-Risataim?

4º - Vários capítulos do livro de Josué descrevem os territórios que em sorte caíram às tribos de Israel. Quantos anos duraram as guerras? Em que ano a terra foi dividida? Quando é que Ruben, Gade e a meio tribo de Manassés puderam regressar às suas posses conquistadas do outro lado do Jordão e que passaram a ser a sua herança, dada ainda no tempo de Moisés?
Há várias indicações que nos permitem responder a esta última questão e é por aí que começamos.


A divisão da terra
Vamos dar uma vista de olhos cronológica ao livro de Josué, com atenção a algumas localizações geográficas.
A passagem do Jordão dá-se no ano 2553 AH.
No dia 10 do 1º mês subiram do Jordão e acamparam em GILGAL (Jos 4:19).
Presume-se que entre os dias 11 e 13 realiza-se a circuncisão em Gibeate-Aralote, o lugar que passa a chamar-se Gilgal (Jos 5:3-9)
No dia 14 celebram a Páscoa (Jos 5:10).
Depois disto observam-se quatro grandes campanhas militares até à divisão da terra.
A primeira é de Jericó. Presume-se que a batalha de Jericó ainda tem lugar no 1º ano da entrada em Canaã.
A seguir a Jericó, segue-se a batalha de Ai, que decorre em duas fases: uma derrota derivada à prevaricação de Acã, e uma vitória depois da descoberta do problema.
O estratagema dos habitantes de Gibeon, que conseguiram enganar os israelitas, parece ter sido o motivo do início da terceira campanha, que envolve a conquista da parte sul de Canaã (Jos 10). Cinco reis da região resolveram juntar-se e pelejar contra Gibeon. Israel veio em seu socorro e obteve vitória sobre estes reis dos amorreus: Adoni-Zedeque, de Jerusalém, Horão, de Hebron, Pirão, de Jarmute, Jafia, de Laquis e Debir, de Eglom. É nesta batalha que o sol se deteve e a lua parou. Os reis, porém, fugiram para Maquedá. Josué persegue-os e mata-os e toma Maquedá, que marca o início da campanha no Sul. Depois, Josué toma Libna, depois Laquis, Eglom, Hebron, Debir.
Resumindo (Jos 10:40-41), feriu Josué toda a região desde Cades-Barneia até Gaza, como também toda a terra de Gósen até Gibeon.
Depois disto, Josué volta novamente a GILGAL (Jos 10:43).
A quarta grande campanha desenrola-se no norte do território (Jos 11). Vários reis do norte juntaram-se em Meron, a NW do mar da Galileia/Quinerete. Josué destrói Hazor que era a capital desses reinos e toma a região até ao pé do monte Hermon no norte.
Jos 11:18 – por muito tempo fez Josué guerra
Jos 11:23 – Josué tomou toda esta terra (vs.16-17) e a terra repousou da guerra.
Jos 13:1 – Josué é idoso, entrado em dias. Ainda havia muita terra que ficou para se possuir, mas Josué recebe do Senhor a ordem de distribuir a terra às 9 tribos e meia tribo de Manassés.
Ruben, Gade e meia tribo de Manassés já tinham recebido de Moisés a sua herança do outro lado do Jordão. Levi não recebeu herança. Mas receberia cidades para habitar e os seus arredores para os animais dentro das heranças das outras tribos (Jos 21).
Quando é que a terra repousou da guerra? Quando foi a terra distribuída?
O texto parece dar a entender que a repartição dos territórios às nove tribos e meia deu-se em duas vezes, e em dois lugares diferentes.
Em Gilgal foram atribuídas as porções de Judá, Efraim e Manassés (Jos 14-17).
As restantes porções foram sorteadas em Silo (Jos 18-19).
Em Gilgal, Calebe veio reivindicar o seu direito e recebe Hebron. Neste episódio (Jos 14:6-15) são fornecidos elementos cronológicos. Calebe tinha 40 anos de idade quando foi enviado de Cades-Barneia para espiar a terra. Era o 2º ano da estada no deserto, no 5º e 6º mês aproximadamente. Ano 2514 AH. 45 anos passaram desde então. Calebe tem agora 85 anos (Jos 14:10): ano 2559.
- 2514 – 2º ano no deserto - Calebe 40 anos
- 2552 - O tempo que caminharam desde Cades-Barnéia até passarem o ribeiro de Zerede foram 38 anos até que toda a geração do deserto se consumiu (Dt 2:14). A partir deste momento começam as conquistas a oriente do Jordão – Calebe 78 anos
- 2553 – No 10º dia do 1º mês do novo ano passam o Jordão
- 2559 – Divisão da terra - Calebe 85 anos.
Portanto, a divisão da terra - Isto é, pelo menos a parte que cabia a Judá (e Calebe), Efraim e ½ Manassés - acontece no 7º ano depois da passagem do Jordão e entrada em Canaã, ainda em Gilgal, onde esteve o acampamento principal de Israel desde o início da sua entrada em Canaã.
As outras tribos receberam a sua herança em Siló, onde armaram a tenda da congregação quando a terra estava sujeita diante deles (Jos 18:1).
Se aplicarmos a dimensão simbólica (o facto de a terra repousar da guerra no 7º ano e o levantar do tabernáculo em Silo (Jos 11:23: 14:15) relembra o descanso do Senhor no 7º dia e a sua entronização) podemos deduzir que o tabernáculo foi levantado em Silo também no 7º ano da entrada em Canaã.
 
Este momento marca o início de uma nova era na vida da nação de Israel, cujo futuro dependeria da obediência aos mandamentos do Senhor.
 



 

06/07/2014

CALEBE, FILHO DE JEFONÉ

Quem era Calebe, que foi enviado espiar a terra de Canaã, junto com outros príncipes das tribos de Israel (Num 13:6)?

O que conseguimos saber acerca dele?
Num 13:6 – ele é da tribo de Judá, filho de Jefoné.

Ele e Josué creram na promessa do Senhor e não desistiram como os seus companheiros. “Visto que nele houve outro espírito, e perseverou em seguir-me, eu o farei entrar na terra que espiou, e a sua descendência a possuirá” (Num 14:21).
Num 32:12 – Calebe, filho de Jefoné, o quenezeu.

Josué 14 – Aquando da divisão da terra, Calebe vem reivindicar a promessa e Josué dá-lhe Hebron. Também neste trecho Calebe é identificado como filho de Jefoné, o quenezeu.
Jos 15:13 –A Calebe, filho de Jefoné, deu Josué uma parte no meio dos filhos de Judá, segundo lhe ordenara o Senhor, a saber, Quiriate-Arba, isté é, Hebron.

Porque Calebe veio reivindicar uma porção da terra, se à tribo de Judá, no seu todo, foi atribuída a sua herança? Porque é mencionado que recebeu uma parte “no meio dos filhos de Judá”? Isto só faz sentido se não fosse da tribo de Judá, ou se não tivesse direito à herança no meio desta.
Jos 15:16, 17; Jz 1:13;3:9 – Sabemos que Calebe tem uma filha, Acsa, e um sobrinho Otniel (futuro juiz), filho do seu irmão, mais novo, Quenaz.

Jz 1:12-20 retoma a história do pedido de Acsa a Calebe e a promessa de Calebe de dar a sua filha a quem derrotar Quiriate-Sefer (também Jos 15:13-19). Calebe acedeu ao pedido de Acsa e deu-lhe fontes de água (v.15).
O versículo seguinte (v.16) parece estar fora do contexto:

Jz 1:16 – Os filhos do queneu, sogro de Moisés, subiram da cidade das palmeiras com os filhos de Judá, que está ao sul de Arade; foram e habitaram com este povo.
O relato continua com as conquistas de Judá (vs.17-19) e conclui com a dádiva de Hebrom a Calebe. Lembramos que Jefoné, pai de Calebe, já foi acima identificado como “quenezeu”. Estará o v.16 relacionado com as origens de Calebe?

Num 10:29 – Disse Moisés a Hobabe, filho de Reuel, o midianita, sogro de Moisés: Estamos de viagem para o lugar de que o Senhor disse: Dar-vo-lo-ei; vem connosco, e te faremos bem; porque o Senhor prometeu boas coisas a Israel.
O sogro de Moisés, sacerdote de Midiã, é aqui chamado Reuel; noutro lugar é chamado Jetro (Ex 18:1). Sabemos que Reuel/Jetro voltou à sua terra (Ex 18:27). Uma parte dos descendentes de Reuel/Jetro foi com Israel. Hobabe, filho de Reuel, também foi com Israel, embora primeiro dissesse que não iria (Num 10:29-33).

Mais tarde, no tempo de Débora e Baraque, encontramos Héber, queneu, que se tinha apartado dos queneus, dos filhos de Hobabe, sogro de Moisés. (Jz 4:11). A mulher de Héber é Jael, que corajosamente enfrentou e matou Sísera (Jz 4:12-24). No v.11 Hobabe é confundido com Reuel, sogro de Moisés. Mas o contexto é claro: os queneus são descendentes de Reuel/Jetro, sogro de Moisés.
E mais uma nota: Hobabe, possivelmente, não era filho, mas genro, de Jetro, porque este tinha (apenas?) sete filhas (Ex 2:16).

Conclusão: Calebe, filho de Jefoné, queneu, é descendente de Jetro, sogro de Moisés. Não é, portanto, descendente de Judá. No entanto, vemo-lo apresentado como “príncipe” da tribo de Judá (Num 13).
Então, como é que Calebe se aparentou com Judá?

Para saber mais, temos de ir a 1 Crónicas 2, onde encontramos as genealogias.
Em 1 Cron 2:9, encontramos um certo Quelubai, filho de Hezrom, por sua vez filho de Perez (v.5), este filho de Judá. Este filho de Hezrom é chamado Calebe no v.18 e seguintes, por isso gera alguma confusão inicial. Mas trata-se de duas pessoas diferentes.

Não há qualquer referência a Calebe, filho de Jefoné, nas genealogias de Judá. Mas podemos encontrar uma ligação com ele através da sua filha, Acsa. Esta Acsa, em 1Cron 2:49, é também identificada como filha de Calebe/Quelubai, de Hezrom. Calebe, filho de Hezrom, teve filhos com várias mulheres - Azuba e Jeriote (v.18), Efrate (v.19) -, e concubinas - Efá (v.46) e Maaca (v.48).
1Cron 2:48-49 – De Maaca, concubina, gerou Calebe a Seber e a Tiraná. Deu à luz também a Saafe, pai de Madmana, e a Seva, pai de Macbena e de Gibeá; e Acsa foi filha de Calebe.

Na Bíblia, o termo “filha” pode querer dizer “neta”.
A solução é: Calebe, filho de Jefoné, queneu, dos queneus que habitavam no meio de Judá, era casado com uma filha de Calebe, de Hezrom. Assim, a filha de Calebe, queneu, é ao mesmo tempo filha/neta, de Calebe, de Judá.

Vemos assim que, já no Velho Testamento, o verdadeiro Israel não era apenas composto de descendentes de Abraão na carne, mas também de gentios que adotaram a fé de Israel, creram nas promessas e integraram a comunidade da aliança, a ponto de terem parte nas promessas de Deus.

16/06/2014

DE JOSUÉ A SALOMÃO (1)

Com o livro de Josué e, a seguir, os livros de Juizes e 1 Samuel entramos num período que apresenta algumas dificuldades cronológicas.

Quais são os elementos de que dispomos?

Uma chave cronológica importante já mencionada é 1 Reis 6:1 – No ano de 480 depois de saírem os filhos de Israel do Egipto, Salomão, no ano 4º do seu reinado sobre Israel, no mês de zive (o mês segundo), começou a edificar a casa do Senhor.

2513 AH é o ano em que Israel saiu do Egipto
+ 479 (porque é no 480º ano, ou seja, não são 480 anos completos)
= 2992 AH (4º ano de Salomão)

Este período de 480 anos inclui:

anos no deserto:             40
período de Josué            ? (apenas sabemos que Josué morreu aos 110 anos de idade)
período de Juizes            ?
período de Samuel         ?
reinado de Saul                               40 (At 13:21)
reinado de David             40 (7 em Hebron, 33 em Jerusalém)
Salomão até 4º ano         3

Recapitulemos também todos os anos mencionados no livro de Juizes e 1 Samuel:

O período da liderança de Josué                                                                       ? anos
A geração que se levantou depois de Josué (Jz 2:10)                                    ?
Tempo da opressão de Cusa-Risataim, rei da Mesopotâmia                        8 anos
Juiz: Otniel, filho de Quenaz, irmão de Calebe, mais novo                          40 anos de paz
Tempo da opressão de Eglom, rei dos moabitas, e amalequitas                18
Juiz: Eúde / anos de paz                                                                                      80 anos de paz
Juiz: Sangar                                                                                                             -
Opressão de Jabim, rei de Canaã (comandante Sísera)                                20
Juizes: Débora e Baraque                                                                                   40 anos de paz
Opressão dos midianitas                                                                                       7
Juiz: Gideão                                                                                                            40
Abimeleque (filho ilegítimo de Gideão proclamado rei)                                  3
Juiz: Tola                                                                                                                 23
Juiz: Jair                                                                                                                   22
Opressão dos filisteus e filhos de Amom                                                          18
Juiz: Jefté                                                                                                                   6
Juiz: Ibsá                                                                                                                    7
Juiz: Elom                                                                                                                10
Juiz: Abdom                                                                                                               8      
Domínio dos filisteus                                                                                             40
Juiz: Sansão                                                                                                             20
Samuel                                                                                                                       ?
O rei Saul (duração do seu reino só é dada em Atos 13:21)                          40
 

Todos estes números (incluindo o reinado de Saul) somados dão 450 anos. Se acrescentamos a isto os 40 anos do reinado de David, e os quatro anos do reinado de Salomão até ao começo da construção do templo, chegamos a um valor total de 494 anos.
Se adicionamos ainda os 40 anos no deserto, temos 534 anos, não contando com o tempo de Josué, que desconhecemos.

Portanto, está aqui uma grande discrepância entre 1 Rs 6:1 (480 anos) e a soma de todos os juízes e reis para o mesmo período (mínimo 534 anos).

Conseguimos resolver esta discrepância?

Há um outro dado cronológico importantíssimo em Juizes 11, o capítulo sobre Jefté. Israel estava nas mãos dos filisteus e dos filhos de Amom, que os oprimiram por 18 anos (Jz 10:7-8). Jefté foi chamado para ser chefe e combater o inimigo. O que estava em causa para o rei dos filhos de Amom era o território desde Arnom até Jaboque e ainda até ao Jordão, que Israel tomou quando estava a fazer a sua aproximação à terra prometida, no 39º ano do deserto. Este território, os filhos de Amom pediram a Israel para ser restituído. Porém, esse território em causa, Israel não o tomou nem aos moabitas nem aos filhos de Amom, porque Deus lhe tinha proibido tomar-lhes a terra, pelo que a rodearam. Aquele território do Arnom ao Jaboque, Israel o tomou ao rei de Hesbon, rei dos amorreus, que recusou deixar Israel passar e que pelejou contra Israel. Israel desapossou os amorreus da sua terra e agora o rei de Amom vinha reivindica-la, 300 anos depois de Israel a ter conquistado. “Enquanto Israel habitou 300 anos em Hesbon e nas suas vilas, e em Aroer e nas suas vilas, em todas as cidades que estão ao longe do Arnom, porque, vós, amonitas, não as recuperastes durante esse tempo?” (Jz 11:26).

Israel conquistou o território de Hesbon meses antes de passar o Jordão, em 2552 AH. Mais 300 anos levam-nos ao ano 2852.

Mas o nosso problema não está ainda totalmente resolvido.

Se somarmos todos os valores que nos são dados relativamente ao tempo de cada juiz, os anos de paz e os anos de opressão, até ao tempo de Jefté, chegamos a 326 anos. E nisto não está ainda incluída a totalidade do tempo de Josué de Hesbon até à sua morte.

A seguir, resta-nos resolver o tempo desde Jefté até ao 4º ano de Salomão. Do ano 2852 (Jefté) a 2992 (4º ano de Salomão) são 140 anos, onde se devem incluir Jefté (6 anos), Ibsá (7 anos), Elom (10 anos), Abdom (8 anos), o domínio dos filisteus (40 anos), Sansão (20 anos), o tempo de Samuel (?), os reinos de Saul (40 anos) e de David (7 anos em Hebron e 33 em Jerusalém) e os 3 primeiros anos de Salomão. À primeira vista, também aqui ultrapassam-se os 140 anos.


A Bíblia dá-nos claras indicações quanto a grandes períodos de tempo (1 Rs 6:1; Jz 11:26), a que podemos chamar de crono-esqueleto. Dentro destes períodos, e neste caso, de Josué e Juizes, haverá sobreposições dado que a soma dos valores é superior à totalidade do período.

Podemos tentar resolver os períodos mais curtos, mas o crono-esqueleto fornece-nos os limites.

26/05/2014

40 ANOS NO DESERTO (ano 40 cont.)

Comparação dos dados do primeiro censo levantado no princípio do 2º ano (Num1) e do segundo censo no final do 40º ano no deserto, nas campinas de Moabe (Num 26). No segundo censo, ninguém ficou dos que foram contados no primeiro (Num 26:64), conforme o Senhor tinha avisado, toda a geração acabaria por perecer no deserto, exceto Josué e Calebe (Num 14:22-23; 26:64; Dt 1:34-35).

 
                               Num 1                                  Num26

Ruben                  46.500                                  ↓43.730
Simeão                59.300                                  ↓22.200
Gade                    45.650                                  ↓40.500

Judá                      74.600                                  76.500
Issacar                  54.400                                  64.300
Zebulon               57.400                                  60.500

Efraim                  40.500                                  ↓32.500
Manassés           32.200                                  52.700 (aqui, Manassés é contado antes de Efraim)
Benjamim           35.400                                  45.600

                          62.700                                  64.400
Aser                      41.500                                  53.400
Naftali                  53.400                                  ↓45.400

Total                     603.550                601.730

Observa-se que cinco das tribos decresceram em número, as restantes cresceram, embora a totalidade fica abaixo do primeiro censo. Os 40 anos passados no deserto não trouxeram crescimento a Israel, contrariamente aos anos passados no Egipto em que se multiplicaram grandemente (Ex 1:1-7).


40º ano – [10º mês]

A última campanha militar liderada por Moisés foi contra os midianitas (Num 31), para tomarem vingança por causa do caso de Baal-Peor (Num 25). Disse o Senhor a Moisés: Vinga os filhos de Israel dos midianitas (Num 25:17); depois serás recolhido ao teu povo (Num 31:1).

Antes de morrer, Deus disse a Moisés que ele não veria a terra e Josué é indicado como seu sucessor.

40º ano -11º e 12º mês

O livro de Deuteronómio regista os últimos discursos de Moisés antes de morrer, dalém do Jordão. No 1º dia do 11º mês, que é Shebat (janeiro-fevereiro), Moisés (Dt 1:3) fala com o povo relembrando-lhes toda a história de Israel passada no deserto até aquele momento e recordando as leis à nova geração.
Moisés tinha então 120 anos (Dr 31:2; 34:7).

Depois da morte de Moisés, cumpriu-se um luto de 30 dias (Dt 34:7-8).

Depois dos 30 dias de luto, 3 dias antes de passar o Jordão, Josué - o novo líder - mandou o povo prover-se de comida e envia os espias. Israel passa o Jordão no dia 10 do 1º mês, portanto, no 41º ano (ano 2553 AH). No dia 10 do 1º mês, subiram do Jordão e acamparam em Gilgal, da banda oriental de Jericó - é o dia em que é tomado o cordeiro para a Páscoa (Ex 12).

A morte de Moisés terá presumivelmente ocorrida no 7º dia do 12º mês do último ano passado por Israel no deserto.