07/02/2015

A MONARQUIA DIVIDIDA

Já vimos que há, nas Escrituras, indicações que permitem determinar pontos cronológicos chave e, como que, dividir a história em grandes blocos. Podemos falar de um “crono-esqueleto”. A partir deste esqueleto cronológico podem resolver-se pontos difíceis e por vezes aparentemente contraditórios.

Resumimos como chegámos às datas chave:

0
Considerando como ponto 0, o dia em que Deus criou o homem.
Nota: Tenho optado por usar o termo Anno Hominis (AH), ano do homem, e não Anno Mundi (AM) como muitos fazem, em razão de não estar convicta de uma criação em “tempo real” de 6 dias de 24 horas como alguns defendem.
 
1656
Da criação até ao dilúvio, é fácil. Trata-se de adicionar os anos dados em Génesis 5 (, até ao ano 600 da vida de Noé quando se deu o dilúvio.
 
 
 
 
 
2083
Do dilúvio até à aliança com Abrão – quando Abrão parte para Canaã depois da morte do pai e recebe a promessa quando chega a Canaã.
A contagem retoma dois anos depois do dilúvio (que temos de adicionar), quando nasce Arfaxade. Do nascimento de Arfaxade até à morte de Terá, que viveu 205 anos, são 427 anos. Atos 7:4 diz que Abrão foi para Canaã com a morte do seu pai.
(pormenores ver cronologia e mensagem dezembro 2013 – o nascimento de Abraão)
 
2513
Da aliança com Abraão até à dádiva da lei: 430 anos (Gal 3:17; Gn 12:10; 15:13; Ex 12:40). A lei é dada no ano em que Israel sai do Egipto.
 
2992
No 480º ano (ou seja, 479 anos completos) depois de saírem os filhos de Israel do Egipto, Salomão, no 4º ano do seu reinado, iniciou a construção do templo, no mês de Zive, que é o segundo mês (1 Reis 6:1)
3029
Salomão começa a reinar no ano 2989 e reina 40 anos. Depois da sua morte o reino é dividido.

Com Roboão, filho de Salomão, e Jeroboão, filho de Nebate, começa o período da monarquia dividida.
Porque Salomão se afastara do Senhor, seguindo outros deuses, Deus lhe tiraria o reino para dá-lo ao seu servo (1Rs 11:9-13), no tempo do seu filho. Jeroboão, filho de Nebate, foi um dos adversários que Deus levantou contra Salomão (1Rs 11:26). Jeroboão era um oficial de Salomão, valente e trabalhador, colocado sobre todo o trabalho forçado. Através do profeta Aías, foi-lhe prometido governar sobre dez tribos no tempo do filho de Salomão. Mas Jeroboão levantou a mão contra o rei, pelo que Salomão procurou matá-lo. Por isso Jeroboão fugiu para o Egipto, foi ter com Sisaque, rei do Egipto, onde permaneceu até à morte de Salomão (1Rs 11:26-40).

Quando Jeroboão ouviu que Roboão fora feito rei, regressou a Israel, de onde o mandaram chamar (1Rs 12:1-3). Subentende-se que as dez tribos que se congregaram a Jeroboão já estavam numa situação de descontentamento desde os tempos de Salomão. A dureza da posição de Roboão apenas precipitou a divisão (1Rs 12:3-20).

Deduzimos que o primeiro ano de Roboão (reino de Judá) coincide com o primeiro ano de Jeroboão (reino de Israel).

A pergunta aqui é: existem dados claros na Palavra que nos permitem estabelecer um número exato de anos para o período da monarquia dividida, isto é, desde Roboão/Jeroboão até à deportação de Israel para Assíria no 6º ano de Ezequias / 9º ano de Oséias (2Rs 18:9-11), e depois até à queda de Jerusalém sob Nabucodonosor, rei da Babilónia?

Um primeiro problema com que nos deparamos é quando adicionamos os anos dos reis de Judá e os de Israel até ao 6º ano de Ezequias e 9º de Oséias, quando Israel sucumbe sob o domínio assírio e o povo é deportado.

Roboão
17
1Rs 14:21
Jeroboão
22
1Rs 14:20
 
Abias
3
1Rs 15:1-2
Nadabe
2
1Rs 15:25
 
Asa
41
1Rs 15:9-10
Baasa
24
1Rs 15:33
 
Josafá
25
1Rs 22:41-42
Elá
2
1Rs 16:6,8
 
Jeorão
8
2Rs 8:16-17
Zinri
7 dias
1Rs 16:15
 
Acazias
1
2Rs 8:26
Onri
12
1Rs 16:23
 
(Atalia)
6
2Rs11:3-4
Acabe
22
1Rs 16:29
 
Joás
40
2Rs 12:1
Acazias
2
1Rs 22:52
 
Amazias
29
2Rs 14:2
Jorão
12
2Rs 3:1
 
Uzias
52
2Rs 14:21;15:2
Jeú
28
2Rs 10:36
 
Jotão
16
2Rs 15:33
Jeoacaz
17
2Rs 13:1
 
Acaz
16
2Rs 16:2
Jeoás
16
2Rs 1310
 
Ezequias
6
2Rs 18:10
Jeroboão II
41
2Rs 14:23
 
260
anos
Zacarias
6 meses
2Rs 15:8
 
 
 
 
Salum
1 mês
2Rs 15:13
 
 
 
 
Menaém
10
2Rs 15:17
 
 
 
 
Pecaías
2
2Rs 15:23
 
 
 
 
Peca
20
2Rs 15:27
 
 
 
 
Oséias
9
2Rs 17:1
 
 
 
 
 
241
anos
 

Judá totaliza 260 anos, enquanto Israel 241 anos, 7 meses e7 dias.

Qual a lista que devemos seguir, que dá o número de anos correto?

Há várias razões que favorecem Judá.

Em primeiro lugar, a linhagem de Judá é descendência de David e Salomão, a quem o trono fora prometido. Acrescenta-se a isto Gn 49:10 – O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló.

Judá foi o reino mais fiel. Israel nunca deixou “os pecados de Jeroboão, filho de Nebate” e teve 19 reis de 9 dinastias diferentes. Enquanto todos os reis de Judá pertencem a uma só dinastia.

Ainda, o reino de Judá continuou ainda por 134 anos até, por sua vez, sucumbir a Nabucodonosor da Babilónia. Não tem lógica contar primeiro os anos de Israel para depois continuar com Judá.


Roboão
17
1Rs 14:21
Abias
3
1Rs 15:1-2
Asa
41
1Rs 15:9-10
Josafá
25
1Rs 22:41-42
Jeorão *
8
2Rs 8:16-17
Acazias
1
2Rs 8:26
(Atalia)
6
2Rs11:3-4
Joás
40
2Rs 12:1
Amazias
29
2Rs 14:2
Uzias
52
2Rs 14:21;15:2
Jotão
16
2Rs 15:33
Acaz
16
2Rs 16:2
Ezequias
29
2Rs 18:1-2
Manassés
55
2Rs 21:1
Amon
2
2Rs 21:19
Josias
31
2Rs 22:1
Jeoacaz
3 meses
2Rs 23:31
Jeoaquim
11
2Rs 23:36
Joaquim
3 meses e 10 dias
2Rs 24:8; 2Cro 36:9
Zedequias
11
2Rs 24:18
393

A soma dos anos dos reis de Judá são 393 anos, 6 meses e 10 dias.

Nestes anos, há uma coregência. Jeorão, filho de Josafá, começou a reinar “reinando ainda Josafá em Judá” (2Rs 8:16). Portanto, uma parte dos 8 anos do reinado de Jeorão é coincidente com os últimos anos de Josafá. Quantos anos governaram juntos?

2Rs 3:1 – Jorão, filho de Acabe, começa a reinar no 18º ano de Josafá

2Rs 8:16 - No ano 5º de Jorão, reinando ainda Josafá, começa a reinar Jeorão, filho de Josafá. Era da idade de 32 anos e reinou 8 anos.

A partir destes versículos, façamos um pequeno esquema para melhor entendimento:

Jeorão                  Josafá                   Jorão, filho de Acabe

                              18º ano                1º ano
                                          19º ano               
                                          20º ano               
                                          21º ano               
            1º ano                  22º ano               
            2º ano                  23º ano                
            3º ano                  24º ano                
            4º ano                  25º ano (Josafá reinou 25 anos)
                                                                     
                                                                     10º
                                                                     11º
                                                                     12º

Verificamos assim que há 4 anos de coregência, portanto, há 4 anos a mais na contagem inicial. O total de anos para o reino de Judá é, então, de 389 anos, 6 meses e 10 dias, portanto, em números redondos, 390 anos.

Quero chamar a atenção para um outro versículo, que parece deitar abaixo o cálculo anterior.

2Rs 1:17 – Jorão (filho de Acabe) começou a reinar no 2º ano de Jeorão, filho de Josafá (que é o 18º de Josafá).

Se é assim, 7 dos 8 anos do reinado de Jeorão coincidiriam com Josafá. No entanto, vemos em 2Rs 8:25, que é só no 12º ano de Jorão, filho de Acabe, que começou a reinar Acazias, filho de Jeorão. Isto significa que, antes de um período de co-rex, ainda havia um período designado de pro-rex. Uma situação semelhante acontece com Acazias. Diz em 2 Rs 9:29 que no ano 11º de Jorão, filho de Acabe, começara Acazias a reinar sobre Judá.

É difícil fazer um cálculo exato, porque apenas é dado o número de anos, não de meses, e não sabemos em que mês determinado rei começa a reinar. Há sempre pequenas margens de erro. Por isso é tão difícil acertar os reinados dos de Judá e os de Israel, tendo constituído uma dor de cabeça para os cronologistas. Mas, sabendo o número total de anos do período, torna-se mais fácil, embora não se posssa esperar uma cronologia absolutamente correta.

 
No entanto, só ficaremos satisfeitos com estes 390 anos quando o mesmo valor possa ser alcançado por outra via. De facto, existe outra passagem bíblica que pode corroborar esta solução dos 390 anos.

Disto trataremos na próxima mensagem.

18/01/2015

SALOMÃO E A RAINHA DE SABÁ

O problema da cronologia bíblica é devido ao facto de que, na cronologia consensual académica, não há lugar para os eventos e figuras descritos na Bíblia. É como se não tivessem existido. Por conseguinte, a Bíblia tem sido rejeitada como fonte histórica válida.

A cronologia consensual apresenta outras falhas, apontadas por alguns historiadores que preconizam uma revisão da cronologia, mas que não são tomadas em conta, em parte numa recusa de considerar a Bíblia como fonte histórica válida.

Um destes revisionistas que tem causado muito alarido, e que tem sido alvo de duras críticas, é Emmanuel Velikovsky. Ele estranhou o facto de não haver na história do Egipto a menor referência ao êxodo dos Israelitas, nem das pragas e calamidades naturais que ocorreram naquela mesma época e que deixaram o Egipto economicamente de rastos.

O início do domínio dos Hicsos no Egipto está associado a uma situação de fraqueza do país. Ipuwer, um sacerdote, fala de anarquia no país e da entrada de asiáticos (amu) no delta do Nilo. O Papiro Ipuwer é há muito tempo reconhecido como se referindo ao tempo dos Hicsos (Engberg, 1939).

Estando o Papiro Ipuwer já associado à invasão dos Hicsos, Velikovsky foi mais longe. Associou o Papiro Ipuwer, e os acontecimentos nele descritos, ao período do Êxodo dos israelitas, pelas semelhanças entre os dois textos, e identifica os Hicsos como os amalequitas da Bíblia. Referimos à nossa mensagem sobre o “êxodo e os amalequitas”. Esta coincidência tem recebido apoio em meios revisionistas.

Segundo esta tese, o período dos hicsos/amalequitas (= o Segundo Período Intermédio no Egipto, da 14ª à 17 ª dinastia) corresponde ao tempo em que os israelitas andaram no deserto e o período de Josué e Juizes, contra as duas teses correntes de que os israelitas teriam saído do Egipto muito mais tarde, na 18ª ou 19ª dinastia (Ramsés).

Desde o princípio do século XX ficou geralmente aceite que os Hicsos foram expulsos no início da 18ª dinastia, por Amósis I (Engberg, 1939; Breasted, 1906). Decorrente da associação do Papiro Ipuwer com o êxodo, Velkivosky defende que Saul ajudou os egípcios na captura de Avaris, capital-fortaleza dos Hicsos (ISam 15).

Afastados do Egipto desde Amósis I, os Hicsos continuaram, no entanto, presentes nos territórios de Israel (Saruem) e Síria até ao tempo de Tutmés III e talvez mesmo mais tarde (Engberg, 1939; Breasted, 1906). E, de facto, encontramos David lutando contra os amalequitas, enquanto estava fugido de Saul (1Sam 27:8).

Em consequência desta revisão cronológica, altera-se o cruzamento da cronologia bíblica com a cronologia consensual.

Se os hicsos/amalequitas foram afastados do Egipto no tempo de Saul, e se Saul é contemporâneo de Amósis I do Egipto, isto significa que o início da 18ª dinastia egípcia (Amósis I, Amenotepe I, Tutmés I e II, Hatshepsute e Tutmés III) coincide com o início do reino de Israel: Saul, David, Salomão.

O Egipto reconquistou a sua independência sob Amósis, contemporâneo de Saul, e alcançou grandeza e glória sob Amenotepe I, Tutmés I e II, Hatshepsute e Tutmés III. Os 2 reinos, Egipto e Israel, libertados do mesmo opressor – os amalequitas / hicsos – desenvolveram relações comerciais e aliaram-se através de casamento: Salomão aparentou-se com o Faraó do Egipto (1Rs 3:1), tomando por mulher a filha do Faraó.

As Escrituras não preservaram o nome dela nem do faraó, mas sabemos que ele fez uma expedição contra o sul de Judá, região onde habitavam filisteus e cananeus, tomou Gezer e a queimou e a deu como dote à sua filha (1 Reis 9:16). É possível que esta incursão seja a mesma a que se refere uma inscrição no túmulo de Amósis, filho de Nekbhet, que era um oficial de Tutmés I. De acordo com esta inscrição, depois da campanha militar contra a Núbia, Tutmés I empreendeu uma campanha contra Retenu (designação utilizada para Israel) para procurar vingança ou obter satisfação (Breasted, 1906). A vingança terá sido contra os Hicsos.

Daí foi só um passo para Velikovsky identificar Hatshepsute, filha de Tutmés I, como a rainha de Sabá.

Que provas podem apresentar-se em defesa desta identificação?

Além de Velikovsky’s «Ages in chaos», consultámos os seguintes sites:


e

Sweeney, Emmett. Was Hatshepsut the Queen of Sheba, or merely the Queen of Theba? Disponível em http://www.hyksos.org).

A rainha do sul

Mateus 12:42 refere-se à rainha que foi ouvir a sabedoria de Salomão como a rainha do Sul. Em Daniel 11, é repetidamente feito menção do ‘rei do sul’ e do ‘sul’, indicando o Egipto. Josefo, em Antiguidades dos Judeus (VIII-165), sem chamar aquela rainha pelo nome, introdu-la como “rainha do Egipto e da Etiópia”.

A cronologia consensual não consegue encontrar nenhuma rainha do Egipto e Etiópia cuja vida coincida com a história de Israel. Mas, se deslocarmos a história do Egipto de acordo com as teses revisionistas, já podemos encontrar uma coincidência cronológica bastante plausível de Salomão com Hatshepsute.

A viagem de Hatshepsute nos relevos de Punt
Baixos-relevos nas paredes do templo de Deir-el-Bahari, perto de Tebas, no Egipto, contam a história da rainha Hatshepsute. Uma série destes relevos, conhecidos como os “relevos de Punt”, contam a história de uma viagem da rainha ao país de Punt, ou Terra Divina (ta netjer), e uma descrição das ofertas que ele recebeu e levou para casa nos seus navios.
Esta expedição apresenta semelhanças com a narrativa bíblica em 1Reis 10 e 2Crónicas 9.

A localização de Punt
Tradicionalmente é assumido que a localização geográfica da terra de Punt era nas margens do Mar Vermelho, na região do Corno de África, devido ao tipo de plantas e animais que Hatshepsute trouxe da sua viagem a Punt e que podem ser vistos nos baixos-relevos (panteras, uma girafa, um rinoceronte, macacos). Estes reconhecem-se como fauna e flora tipicamente africana.

Velikovsky sugeriu que Salomão tivesse trazido estes animais e plantas de África, de Ofir, de onde também traziam ouro (1Rs 9:26-28). Discute-se se Ofir se encontrava na Arábia, em África ou na Índia, de qualquer modo a sul do Mar Vermelho numa região onde se podia ir com os navios que largavam do porto de Eziom-Geber no golfo de Acabá (International Standard Bible Encyclopaedia). Não havia, porém, necessidade de importar estes animais de outras regiões. Na Antiguidade, havia em todo o Médio Oriente estas criaturas que hoje em dia são apenas associadas com África. Encontramos alguns exemplos na própria Bíblia: leões (Jz 14:5), gazelas e antílopes (Dt 14:5), avestruzes (Dt 14:15; Jó 30:29; Is 34:13).

Há outras indicações em inscrições egípcias que situam Punt, não a sul, mas a oriente do Egipto, na região que corresponde a Israel e Fenícia, como é argumentado por Velikovsky e por alguns outros historiadores. O termo “terra divina” ou “país de Deus” (ta netjer) era também aplicado a Punt e Israel/Fenícia, bem como o nome Retenu.

A viagem marítima
1Rs 10:2 diz que a rainha de Saba chegou a Jerusalém com uma comitiva muito grande e com camelos carregados de coisas. Os baixos-relevos mostram uma expedição por via marítima, com vários navios. Jerusalém não é situada na costa. É natural que ela viesse por terra, usando camelos como meio de locomoção, pelo menos a última parte da viagem. As Escrituras não dizem como ela fez a primeira parte da sua viagem. Segundo Breasted, a expedição pode ter deixado o Nilo em Koptos, continuando em terra por caravana até El-Quosier no Mar Vermelho, onde existia um porto. Mas é possível que o canal que ligava o Nilo e o Mar Vermelho já existisse.
Os versículos bíblicos imediatamente antes da história da visita da rainha a Jerusalém falam das naus que Salomão fez em Eziom-Geber, junto a Eilate, na praia do mar Vermelho, e de como os servos de Salomão iam a Ofir juntamente com os marinheiros de Hirão, rei de Tiro. Salomão tinha construído um porto em Eziom-Geber (1Rs 9:26-28). 2Crónicas 8:17-18 especifica que Salomão foi ele próprio a Eziom-Geber e Elote, à praia do mar, na terra de Edom. E os seus navios trouxeram ouro de Ofir, ouro que Salomão deu à rainha (2Cr 9:9-10). Este versículo vem imediatamente antes da narrativa da vinda da rainha de Sabá. Possivelmente Salomão foi inspecionar se tudo estava preparado para receção de tão importante visita.
A rota mais curta de Tebas a Jerusalém não era pelo Nilo e depois pela costa do Mediterrâneo, mas pelo Mar Vermelho, entrando no golfo de Acabá, até Eziom-Geber. Possivelmente, o regresso aconteceu pelo mar mediterrâneo, embarcando num dos portos fenícios (Tiro), viajando pelo Nilo até Tebas.

O desembarque em Eziom-Geber
Num dos relevos de Deir-el-Bahari, numa cena indicando a proximidade do mar ou do porto onde os egípcios desembarcaram, a comitiva é recebida pelo representante do rei, um homem idoso, chamado chefe de Punt, de nome Perehu ou Paruah, acompanhado da mulher, dois filhos e uma filha (Breasted, 1906). Velikovsky avança a possibilidade de este homem ser Parua, o pai de um dos doze intendentes de Salomão. O que cronologicamente é possível.

Ver 1Rs 4:16-17 – e Bealote (=em Alote), Josafá, filho de Parua.

Segundo vários autores, a última palavra do v.16 (e Bealote) pertence ao v.17, sendo “e em Alote (isto é, Eilate), Josafá, filho de Parua”. Os vs. 16 e 17 são confusos. V.16: Baaná, filho de Husai, em Aser e Bealote (= em Alote). O território da tribo de Aser fica na extremidade norte do território de Israel, enquanto Alote (Eilate) no extremo sul. É estranho que um intendente tenha sob sua responsabilidade dois territórios tão afastados. V.17: Josafá, filho de Parua, em Issacar. O território de Issacar fica na zona do vale de Jezreel, separado de Aser apenas pelo território reduzido de Zebulon, e também muito a norte em relação a Eilate.

Os terraços de mirra
Salomão deu à rainha “tudo quanto ela desejou” (1Rs 10:13), afora o que deu por sua generosidade. Pelas inscrições nos relevos de Punt, como vêm traduzidas por Breasted, parece-me que o principal objetivo da expedição – “o desejo de sua majestade” como está escrito nos relevos de Punt -, era chegar aos terraços de mirra em Punt e levar árvores de mirra para plantar no templo de Amon no Egipto. Além de outras ofertas como prata, ouro, marfim, madeiras (pode referir-se à madeira de sândalo que era trazida de Ofir), macacos, os relevos mostram os navios a serem carregados com sacos com mirra em grande quantidade e com 31 árvores, presumivelmente de mirra, em vasos. A mirra era utilizada para a produção do incenso para o templo. Descobriu-se que o vale do Jordão foi uma região importante de produção de mirra.

O templo
No regresso, Hatshepsute edificou um novo templo, com terraços onde plantou as árvores que trouxe de Punt - é neste templo que estão os relevos que contêm a história da expedição. Imitou os terraços de Jerusalém, mas também a planta e o serviço do templo, que mostram claras semelhanças com o templo de Salomão. É reconhecido por egiptólogos que os elementos estrangeiros no templo (cujo estilo é diferente do estilo egípcio contemporâneo) era influências de Punt. Hatshepsute escreve nos relevos que ela “fez um Punt”.

O tributo à rainha
Outra cena mostra a aproximação de quatro linhas de chefes trazendo tributo à rainha: os chefes de Punt, os chefes de Irem e os chefes de Nemyev (estes têm a pela escura, cabeças arredondadas e lábios grossos). Irem ou Hirão é o nome atribuído aos reis de Tiro, fazendo sentido a sua presença neste quadro (1Rs 10:11). Os de Nemyev poderão ser de Ofir. Josefo, em Antiguidades dos Judeus, escreve que os navios de Salomão carregavam toda a sorte de mercadoria, prata, ouro, marfim e também traziam kussiim [negros]. Na opinião de alguns, o facto de os negros oferecerem tributo podia significar que, além da expedição a Punt, houve outra expedição a regiões africanas e os relevos colocaram juntos o que geograficamente estava separado.

 
Bibliografia
 
ENGBERG, Robert M. (1939). The Hyksos reconsidered. Chicago: University of Chicago Press

BREASTED, J.H. (1906). Ancient records of Egypt. Historical documents. Chicago: University of Chicago Press. Disponível online.

SWEENEY, Emmett. Was Hatshepsut the Queen of Sheba, or merely the Queen of Theba? Disponível em http://www.hyksos.org).

 

24/12/2014

O NASCIMENTO DE SALOMÃO REVISITADO

Quando nasce Salomão? Que idade tinha quando começou a reinar? São duas perguntas sem resposta clara nas Escrituras.

Em geral, Salomão é considerado o segundo filho de David e Bate-Seba, atendendo à ordem da narrativa. Alguns apontam para uma contradição: 2Sam 5:14 e 1Cr 3:5 dão a entender que Salomão foi o quarto filho. Também há desacordo quanto à idade de Salomão quando começou a reinar. Opiniões variam entre muito jovem, 15-16 anos, e jovem adulto de cerca de 23 anos.

Duas passagens chamaram a minha atenção: 2 Samuel 5:14-16 e 1 Crónicas 3:5, que contêm a lista dos filhos de David.
Primeiro são elencados, em ordem de nascimento, os filhos que lhe nasceram em Hebron. Logo a seguir, os quatro filhos que David teve com Bate-Seba.

1Cro 3:5 – Estes lhe nasceram em Jerusalém: Siméia, Sobabe, Natã e Salomão; estes quatro lhe nasceram de Bate-Sua, filha de Amiel.
Nesta lista, Salomão vem mencionado como último dos quatro filhos que Bate-Seba deu a David.

No entanto, pela sequência da narrativa em 2 Samuel 12, parece que Salomão é gerado pouco depois da morte da criança que nasceu do adultério de David e Bate-Seba (2 Sam 12:13-25).
Praticamente todos os comentários, incluindo Matthew Henry, Fausset, Jamieson & Brown, e também James Ussher, assumem sem qualquer interrogação que Salomão é o segundo filho de Bate-Seba (a seguir à criança que morreu), apesar de o seu nome ser mencionado em último. No entanto, quando olhamos para a lista dos filhos de David em 2 Samuel 5:14-16 e 1 Crónicas 3:5, isto não é assim tão evidente.

Floyd Nolen Jones faz uma pequena referência à possibilidade de Salomão ser o quarto filho, mas não desenvolve o assunto. Também a International Standard Bible Encyclopaedia refere Salomão como quarto ou quinto filho de Bate-Seba.
Podemos adotar como corretas as listas em 2 Samuel 5:14-16 e 1 Crónicas 3:5? Que elementos apoiam isto?

A lista no versículo anterior, dos 6 filhos nascidos em Hebron, insiste nitidamente na ordem de nascimento dos filhos (2Sam 3:2-5; 1Cro 3:1-4): Amnon, o primogénito, de Ainoã, a jezreelita. Quileabe (ou Daniel), o segundo, filho de Abigail, viúva de Nabal (1Sam 25) (Ainoã e Abigail já eram mulheres de David no tempo em que fugia de Saul.) Absalão, de Maaca, que era filha de Talmai, rei de Gesur. O terceiro. Adonias, filho de Hagite, o quarto. Sefatias, filho de Abital, o quinto e Itreão, filho de Eglá, o sexto.
Porque é que, no versículo seguinte, a ordem natural seria de repente invertida? Não parece fazer muito sentido.

Outro versículo que chamou a minha atenção, neste contexto, é 2 Samuel 13:37-39.
Possivelmente 2 Samuel 13:37-39 traz indícios de que Salomão é efetivamente o filho mais novo de Bate-Seba. Já veremos porquê. Precisamos para isso de ver a história de Amnon e Absalão, onde começam os problemas de David com os filhos. Como consequência do adultério de David com Batseba e o assassinato de Urias, David entra numa época de grandes problemas. “Agora, pois não se apartará a espada jamais da tua casa … (2Sam 12:10-12).

Amnon era o primogénito de David e, por isso, o natural herdeiro do trono.
Mas Amnon é assassinado, por ordem de Absalão, por vingança do crime contra Tamar, irmã de Absalão, isto 2 anos depois do acontecimento (2 Sam13).

Absalão fugiu, foi ter com Talmai (avô materno de Absalão), filho de Amiur, rei de Gesur. Absalão esteve 3 anos em Gesur.
Entretanto, David pranteava a seu filho Amnon todos os dias. Então (depois de perto de 3 anos aparentemente) David cessou de perseguir a Absalão, porque já se tinha consolado acerca de Amnon, que era morto (2Sam 13:39). Não terá David ficado consolado porque lhe nasceu finalmente o sucessor prometido?

Se o episódio de Amnon e Tamar teve lugar pouco depois da morte da primeira criança de David e Bate-Seba, e se Salomão é o quarto filho, no nascimento dele terão passado pelo menos 3 anos depois da morte da criança de Bate-Seba. Mas, entretanto, passaram quase 5 anos desde o episódio Amnon-Tamar até David ter ficado consolado acerca de Amnon: o assassinato de Amnon a mando de Absalão tem lugar 2 anos depois do episódio Amnon-Tamar, e Absalão está 3 anos em Gesur. O que deixa tempo suficiente para o nascimento dos filhos de Bate-Seba e de Salomão, o último.
Geralmente é assumido que o episódio de Amnon e Tamar ocorre depois do nascimento de Salomão. Mas, com esta hipótese, ocorre antes. Salomão nasce depois da morte de Amnon.

Quando Salomão nasceu, David deu-lhe o nome, Salomão (2Sam 12:24). David deu-lhe este nome em cumprimento de uma palavra do Senhor quando ele teve a intenção de levantar uma casa ao nome do Senhor: Eis que te nascerá um filho, que será homem sereno, porque lhe darei descanso de todos os seus inimigos em redor; portanto Salomão será o seu nome; paz e tranquilidade darei a Israel nos seus dias. Este edificará casa ao meu nome; ele me será por filho e eu lhe serei por pai; estabelecerei para sempre o trono do seu reino sobre Israel (1Cro 22:6-10). Quando nasceu e David lhe deu o nome, ele terá tido consciência de que este filho seria o seu sucessor (1Cro 28:5-7).
E terá ficado consolado…

É uma hipótese. Precisamos de ver se é cronologicamente viável.
Entendemos pelo texto que Salomão ainda era jovem quando começou a reinar. Quando David o apresenta à congregação, é ainda moço e inexperiente (1Cro 22:5; 29:1). Salomão diz na sua oração “não passo de uma criança” (1Rs 3:7). Salomão era jovem, mas David diz que “é homem prudente” (1Rs 2:9), e os seus primeiros atos manifestam já uma maturidade. Além disso, ele já tinha um filho pequeno quando começou a reinar. Roboão tinha 41 anos quando começou a reinar (1Rs 14:21), e Salomão reinou 40 anos. Ussher coloca o nascimento de Salomão em 2971. Se David morreu no ano 2989 aproximadamente, isto dá-lhe 18 anos. Nolen Jones situa-o em 2968, dando a Salomão 21 anos quando começou a reinar.

Mas como não nos é dado quando exatamente Salomão nasceu, precisamos de encontrar outros pontos cronológicos.
Depois de morto Amnon, Absalão passou 3 anos em Gesur. Joabe fez Absalão regressar a Jerusalém, mas David não o quis ver. Assim ficou ainda 2 anos em Jerusalém sem ver a face do rei. Finalmente, o rei chamou a Absalão, e o rei beijou a Absalão. Significando reconciliação? Ou mais, a indicação de que seria o próximo na linha de sucessão? De qualquer modo, Absalão começa a ganhar o povo para ele. “Furtava o coração dos homens de Israel” (2Sam 15:6).

“Ao cabo de quarenta (versões modernas dizem quatro) anos” (Sam 15:7), Absalão toma providências secretas para ser proclamado rei à revelia de David. Um versículo difícil. Que significam estes 40 anos? Outras versões dizem 40 dias, outras, 4 anos.
A versão siríaca lê “ao cabo de 40 dias”. 40 dias é considerado um erro por ser um tempo curto demais para Absalão ganhar para si os corações de Israel. Muitas traduções modernas dizem “quatro anos”, como Flávio Josefo. Quatro anos depois do regresso de Absalão a Jerusalém, ou depois de David o ter recebido, é um tempo aceitável para Absalão furtar os corações do povo e procurar proclamar-se rei.

Mas, todos os manuscritos hebraicos existentes leem “quarenta anos”. 40 em hebraico é representado pelas letras «aleph-resh-beth-ain-jod-mem», e é bastante diferente de 4 (as letras aleph-beth-resh-ain). Se é o texto hebraico que devemos ter em consideração (ver mensagens iniciais sobre a preservação do texto), trata-se então de saber: quarenta anos depois de quê?
40 anos para trás leva-nos ao reino de Saul. Floyd Nolen Jones encontra a explicação no contexto, em 2Sam 15:6 – ele furtava o coração dos homens de Israel. Isto é, Absalão furtou os corações que pertenciam a David e ganhava-os para ele, 40 anos depois que David ganhou os corações furtando-os a Saul. Quando é que David ganhou os corações e ligou a si os corações dos homens de Israel? Quarenta anos antes, começando pela vitória sobre o gigante filisteu, Golias, continuando pela sucessão de vitórias nos meses seguintes (1Sam 18:5,16,30).

AH 2937, aproximadamente, era a data da vitória de David sobre Golias, tendo David 18 anos.
40 anos depois é o ano de 2977. Isto permite-nos saber a idade de David na altura da rebelião de Absalão: 58 anos

A pergunta agora é: esta data permite que Salomão tenha idade suficiente para começar a reinar?
Devemos deduzir pelo menos os 2 anos que Absalão esteve em Jerusalém sem ver o rei, depois de voltar de Gesur, quando David cessou de perseguir Absalão porque já se tinha consolado, devido ao nascimento de Salomão (nossa hipótese). Depois de Absalão ter sido recebido por David, fez aparelhar para si um carro e cavalos …e começou ativamente a desviar o povo a seu favor (2Sam 15:1-6). Mas não sabemos quanto tempo isto durou até ganhar poder suficiente para tomar a iniciativa de reunir o povo em Hebron (2Sam 15:7-12) de tal modo que David teve de fugir de Jerusalém.

Portanto, este caminho não nos permite saber a idade de Salomão.
Ussher aponta o ano de 2969 para o adultério de David, Floyd Nolen Jones aponta para 2967 (ambos colocam o nascimento de Salomão no ano seguinte). Se adicionarmos o tempo da vingança de Absalão contra Amnon e o tempo passado em Gesur – cerca de 5 anos – isto traz o nascimento de Salomão para 2972 (2967 + 5) aproximadamente. Neste caso, Salomão teria 17 anos quando começou a reinar (ele começou a reinar em 2989). O que não me parece impossível. Teria mais ou menos a mesma idade que David quando este derrotou Golias.

Podemos comparar também com outro rei de Judá: Josias (2 Crónicas 34:1-3). Josias, no 8º ano do seu reinado, sendo ainda moço, isto é, tinha 16 anos, começou a buscar o Deus de David. No 12º ano começou a purificar Judá e Jerusalém dos atos, dos postes-ídolos e das imagens de escultura e fundição. Ainda jovem, também mostrou um grande amor ao Senhor e uma maturidade nas ações.
Concluindo: revisitámos o nascimento de Salomão. Apresentámos uma hipótese, porém, não conseguimos reunir elementos suficientes para a defender inequivocamente.

30/11/2014

DAVID. Elementos cronológicos

Saul começou a reinar em 2909 AH. Reinou 40 anos (At 13:21).

David tinha 30 anos quando começou a reinar (2Sam 5:4). Nasceu, portanto, no 10º ano do reinado de Saul.
Isto revela que há uma enorme diferença de idade entre Jónatas e David. Jónatas já era um guerreiro no exército quando Saul começou a reinar, ou pelo menos no segundo ano (1Sam 13:3), significando que tinha pelo menos 20 anos de idade. Assumindo que David derrotou Golias quando tinha aproximadamente 18 anos, Jónatas teria cerca de 48 anos nessa altura, quando os dois fizeram aliança.

Isto leva-nos à questão da idade de David quando enfrentou Golias.
Não nos é dito que idade David tinha quando foi ungido por Samuel no seio da sua família. Tinha idade suficiente para estar sozinho no campo para guardar as ovelhas, mas não entrava em linha de conta aos olhos da sua família, porque não estava em casa com todos os seus irmãos quando Jessé foi convidado por Samuel ao sacrifício (1Sam 16:1-13).

Quando David é chamado para tocar harpa para Saul, porque este era atormentado por um espírito maligno (1Sam 16:14-23), David é descrito como “forte e valente, homem de guerra, sisudo em palavras, de boa aparência”. Esta não é uma descrição de um rapaz de 15 anos como geralmente apresentado, embora tivesse certamente menos de 20 anos porque não estava alistado no exército.
Nessa altura, foi feito escudeiro de Saul (1Sam 16:21). Há quem defenda que esta passagem deveria aparecer cronologicamente depois do episódio de Golias. Um escudeiro estaria com um oficial como ajudante na batalha, como por exemplo em Jz 9:54, 1Sam 14:6-7; 31:6. Floyd Nolen Jones pensa que o versículo deve ser interpretado como David estando “em formação”, sendo treinado, não havendo naquela passagem qualquer referência a David estando alistado para a guerra.

David ia a Saul para tocar harpa para ele, e voltava para apascentar as ovelhas de seu pai em Belém (1Sam 17:15), quando os filisteus se juntaram e Golias desafiou Israel. Apenas os três filhos mais velhos de Jessé seguiam Saul. David, não. Como “homem de guerra, forte e valente” estaria certamente no exército se tivesse mais de 20 anos. O que também é comprovado pela reação zangada dos irmãos em relação ao aparecimento de David no local da batalha (1Sam 17:28-29). Não faria sentido se tivesse idade suficiente.
David teria na altura menos de 20 anos, mas não muito menos.

David matara um leão e um urso quando apascentava as ovelhas (1Sam 17:34-37). Jones alega que Jessé, que era um pastor experimentado que conhecia bem os perigos e animais selvagens, não enviaria um rapaz pequeno, digamos 10-14 anos sozinho, a guardar o gado nestas circunstâncias. E David estava sozinho nessas ocasiões. Foram estas ações que lhe valeram a recomendação dos servos de Saul, de que era “forte e valente, homem de guerra”.
David é descrito e visto como “moço” (1Sam 17:33,42) quando comparado com Golias, um guerreiro experimentado e fisicamente forte. Mas não é demasiado pequeno ou franzino para experimentar a armadura de Saul. E Saul era um homem de estatura mais alta que a média, que “sobressaia de todo o povo do ombro para cima” (1Sam 10:23). David vestiu a armadura e experimentou-a, mas como nunca a tinha usado, naturalmente não se sentia à vontade com ela para enfrentar o gigante em combate. David era um jovem fisicamente plenamente desenvolvido.

Além disso, o contexto refere que Saul oferecia a sua filha em casamento a quem matasse Golias, o que chamou a atenção de David. Pouco tempo depois David casou efetivamente com Mical.
Quando David matou Golias tinha menos de 20 anos, mas provavelmente não muito menos. Depois passou a seguir Saul na guerra e, conduzindo-se com prudência, Saul o pôs sobre tropas do seu exército (1Sam 18:5). David, como jovem oficial, rapidamente conheceu muito sucesso e era respeitado por todos (1Sam 18:6-16), de modo que Saul tentou matá-lo e David teve de fugir.

Não é referido quantos anos David andou fugindo de Saul. Quando casa com Mical, já estava em maus lençóis (1Sam 18.21-29)! Apenas sabemos que antes de Saul morrer e David ser ungido rei em Hebron, ele esteve um ano e quatro meses com Aquis de Gate, na terra dos filisteus, estabelecendo-se na cidade de Ziclague no sul (1Sam 27:1-7). O tempo que David passou com Saul no seu exército com o tempo que passou fugindo será cerca de 10 anos.
2949 (data aproximada) – morte de Saul e início do reino de David em Hebron.

Em Hebron, David reina 7 anos e 6 meses em Hebron, tendo sido reconhecido como rei apenas pela tribo de Judá (2 Sa 2:1-4). Entretanto, Abner, capitão do exército de Saul, tomou Is-Bosete, filho mais novo de Saul, com 40 anos (nasceu na época em que Saul começou a reinar), e o constituiu rei sobre Israel (2Sam 2:8-11). Segue-se guerra entre Judá e as restantes tribos.
No seu 8º ano, depois do assassinato de Abner, por Joabe, e de Is-Bosete, todas as tribos de Israel vieram a David em Hebron, e ungiram a David rei sobre Israel. David então toma Jerusalém que ainda estava ocupada pelos jebuseus e faz dela a “cidade de David” (2Sam 4,5:1-12).

15/11/2014

Eli e descendentes


Foram indicados para oficiar como sacerdotes Arão e seus filhos, a saber Nadabe, Abiú, Eleazar e Itamar (Ex 28:1).

Arão, e seu irmão Moisés e irmã Miriã, eram filhos de Anrão e Joquebede (Ex 6:20). Joquebede era filha de Levi, que lhe nasceu no Egipto (Num 26:59).

Nadabe e Abiú morreram quando trouxeram fogo estranho perante o Senhor. Não tiveram filhos. Ficaram na linha para o sacerdócio, Eleazar e Itamar, que oficiaram como sacerdotes diante de Arão, seu pai (Lv 10; Num 3:1-4; 26:61; 1 Cro 24:1-2).

 
No tempo em que os Juízes julgavam em Israel, o único sacerdote a oficiar no tabernáculo a que é feito referência é Eli, e seus filhos Hofni e Finéias. Finéias, filho de Eleazar, apareceu no tempo de Josué (Jos 22) e depois da morte de Josué, no episódio da guerra com Benjamim na sequência da morte da concubina do levita (Jz 19 e 20). Mas este episódio teve lugar na época anterior à opressão de Cusã-Risataim (ver anteriores mensagens sobre Juizes).

Tomamos conhecimento de Eli em 1 Samuel, quando Elcana e sua mulher Ana subiram a Siló, onde se encontrava então o tabernáculo. Deus ouviu a oração de Ana, e nasceu Samuel, que se tornaria profeta.

Eli morreu quando a arca foi capturada pelos filisteus no seguimento da batalha catastrófica de Ebenezer. Anteriormente, já calculámos em que ano isto aconteceu no ano 2883 AH. Eli tinha 98 anos, nasceu portanto em 2785.

Isto significa que Eli nasceu no tempo em que Gideão era juiz. Portanto, tendo vivido tantos anos, foi contemporâneo de muitos juízes - Gideão, Abimeleque, Tola, Jair, Jefté, Ibsá (época em que nasceu Sansão), Elom e Abdom – e passado por vários períodos de opressão.
 

Eli é do “braço” sacerdotal de Itamar, filho de Arão (1Cro24:3).

Eli tinha dois filhos, Hofni e Finéias, cujo comportamento era tudo menos irrepreensível.

Eli foi advertido através de um homem de Deus (1Sam 2:27-36) com as seguintes palavras:

“Eis que vêm dias em que cortarei o teu braço e o braço da casa de teu pai para que não haja mais velho nenhum em tua casa. O homem, porém, da tua linhagem a quem eu não afastar do meu altar, será para te consumir os olhos e para te entristecer a alma: e todos os descendentes da tua casa morrerão na flor da idade. Ser-te-á por sinal o que sobrevirá a teus dois filhos, a Hofni e Finéias: ambos morrerão no mesmo dia “ (vs.31-33).

Como isto aconteceu é narrado no decurso da história de Saul, David e Salomão.
 

ELI

 
FINÉIAS                                                              HOFNI

Hofni e Finéias morreram na batalha de Ebenezer, quando a arca foi capturada.

Nesse tempo, a mulher de Finéias deu à luz um filho, ao que deu o nome Icabode (ISam 4:19-2). Icabode tinha um irmão, chamado Aitube (1Sam 14:3).

                                             |                                           |
                                       AITUBE                                ICABODE
                                             |

                                    AÍAS, também chamado AIMELEQUE (1Sam 22:9,11)

No tempo de Saul, o sacerdote era Aías. Aías, filho de Aitube, irmão de Icabode, filho de Finéias, filho de Eli, sacerdote do Senhor em Siló, trazia a estola sacerdotal (1Sam 14:3).

Quando David fugia de Saul, foi a Nobe, ao sacerdote Aimeleque (1Sam 21:1-9). Estando lá também Doegue o edomita, este foi informar Saul. Saul acusou Aimeleque de traição e mandou matar os sacerdotes de Nobe (1Sam 22:6-23). Apenas Abiatar, um dos filhos de Aimeleque, conseguiu salvar-se e fugiu para David que lhe dá proteção (1Sam22:20-23;23:6).

                                        |
                                       ABIATAR

Abiatar ficou fiel a David durante a rebelião de Absalão, tendo levado a arca de volta para Jerusalém quando David fugira. Juntamente com Zadoque, ficaram na cidade, servindo de informadores a David. Por meio dos filhos deles, Aimaás e Jónatas, mandavam notícias a David do que ouviam na cidade. (2Sam 15:24-29,35-36; 17:16-21;19:11).

Porém, mais tarde, sendo David já velho e Adonias conspirava para usurpar o trono, Abiatar seguiu e ajudava Adonias, juntamente com Joabe, o comandante do exército de David (1Rs 1:5-8). Enquanto Zadoque permaneceu fiel a David.

Zadoque e Abiatar foram sacerdotes durante todo o tempo do reino de David (2Sam20:25).

Quando Salomão sobe ao trono, ele expulsa Abiatar do sacerdócio (1Rs 2:22,26-27,35). A linhagem sacerdotal de Arão fica agora reduzida a linhagem de Eleazar.

                                            | 
                                      JÓNATAS, filho de Abiatar (2Sam 15:27)

Jónatas é o último descendente de Eli de que é feito menção. Não sabemos o que aconteceu com ele.


Uma certa confusão pode resultar da leitura paralela de 1 Cro 18:16 e 24;6, 31, onde é feito referência a Abiatar e Aimeleque. No entanto, contrariamente ao que aparece na narrativa em 2Samuel e 1 Reis, Abiatar é mencionado como o sacerdote que ajudou David em Nobe e Aimeleque como filho de Abiatar. Isto parece ser uma simples troca de nomes pelo cronista. Troca de nomes retomada por Marcos 2:26.

01/11/2014

SAUL E OS AMALEQUITAS

Disse Samuel a Saul … Assim diz o Senhor dos Exércitos: Castigarei a Amaleque pelo que fez a Israel; ter-se oposto a Israel no caminho, quando este subia do Egito. Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver; nada lhe poupes, porém matarás homem e mulher, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos. (1Sam 15).

Lembramos que, no segundo mês depois de Israel ter saído do Egipto, travou uma batalha contra Amaleque, que ia no sentido contrário e foi invadir e ocupar o Egipto. Os amalequitas foram identificados com os hicsos, segundo a tese de Immanuel Velikovsky aprofundada em Ages in Chaos (ver mensagem sobre o êxodo e os amalequitas).
Os hicsos/amalequitas governaram no Egipto no Período Intermédio que se estende entre o Império Médio e o Império Novo, ou tempo da 14ª à 17ª dinastia. De acordo com a Bíblia, no tempo do êxodo, Amaleque era o povo mais poderoso entre as nações. No episódio de Balaque e Balaão, Balaão profetizou que em Israel haveria “um rei que se levantará mais do que Agague” (Num 24:7) e disse que Amaleque era “o primeiro das nações, porém o seu fim será destruição” (Num 24:20). Se os amalequitas eram apenas, como muitas teses afirmam, uma tribo de beduínos nómadas, porque são chamados “o primeiro entre as nações» e, se nómadas, porque têm então uma “cidade” (1 Sam 15:4)?

O domínio e influência dos hicsos não estava confinado ao Egipto. Selos oficiais, nomeadamente do rei Agague, foram encontrados em vários países, até em Cnossos na Creta, o que levou os historiadores a terem de admitir que os hicsos, mesmo se por um duração limitada, comandavam um grande império ou, pelo menos, tinham uma extensa influência política.
Na Bíblia, no período dos Juízes, os amalequitas aparecem vez após vez, aliados aos filisteus e outros povos, contra Israel (Jz 3:13; 6.13; 7:12;10:12;12:15), o que significa que estavam bem presentes em Canaã.

Num 13:25 – os amalequitas e os cananeus habitavam no Negev quando os israelitas estavam a caminho de Canaã depois de saírem do Egipto.
Jz 3:12-13 – Eglom, rei dos moabitas, ajuntou consigo os filhos de Amom e os amalequitas… livrou-os Eúde.

Jz 5:14 – Débora, no seu cântico depois da vitória sobre Sísera, num versículo algo obscuro, refere-se a Efraim, cujas raízes estão na antiga região de Amaleque.
Jz 6:3; 7:12 – cada vez que Israel semeava, os midianitas e os amalequitas, como também os povos do oriente, subiam contra ele… livrou-os Gideão.

Jz 10:11-12 – Não vos livrei eu dos egípcios, e dos amorreus, e dos filhos de Amom, e dos filisteus? E os sidónios, e os amalequitas, e os amonitas, quando vos oprimiam e vós clamáveis a mim?
Jz 12:15 – Faleceu Abdom … e foi sepultado em Piratom, na terra de Efraim, na região montanhosa dos amalequitas.

Esta presença contínua de amalequitas em Canaã no tempo de Josué e Juízes contradiz a tese de que o êxodo teria ocorrido, de acordo com a cronologia convencional, quer na 18ª (Tutmés), quer na 19ª dinastia (Ramessés) do Império Novo. Não há qualquer alusão a campanhas militares egípcias, ou qualquer referência ao Egito na história de Israel, nem mesmo no tempo de David, até Salomão se casar com a filha de Faraó (1 Rs 3:1). Se aquelas dinastias eram tão poderosas, e se dominavam em Canaã, como afirmam os defensores da cronologia convencional, como é que não aparecem na história de Israel no tempo de Juízes, Saul e David? Porque os que dominavam em Canaã, eram os amalequitas/hicsos.
Parece-me que a tese de Velikovsky, apoiada por outros (Donovan Courville, James Jordan,) merece algum crédito, e a continuação da história ainda a irá reforçar.

I Samuel 15
1 Sam 15:4-7 – Saul convocou o povo, e os contou em Telaim, duzentos mil homens de pé, e dez mil homens de Judá. Chegando, pois, Saul à cidade de Amaleque, pôs emboscadas no vale. E disse aos queneus: Ide-vos, retirai-vos e saí do meio dos amalequitas para que eu vos não destrua juntamente com eles, porque usastes de misericórdia com todos os filhos de Israel, quando subiram do Egipto. Assim os queneus se retiraram do meio dos amalequitas. Então feriu Saul os amalequitas desde Havilá até chegar a Sur, que está defronte do Egipto.

Esta passagem relata a vitória de Saul sobre Amaleque. Ele tomou vivo a Agague, rei dos amalequitas; porém a todo o povo destruiu ao fio da espada (v.8).
Mas mais do que uma grande vitória de Israel sobre Amaleque, esta vitória significou, segundo defende Velikovsky, a libertação do Egipto dos hicsos por Saul. Será apenas uma ironia da história que o povo que foi escravizado foi o libertador dos que os escravizaram?

Saul chegou à cidade de Amaleque (v.5). É um facto conhecido da história que a capital fortificada dos hicsos era Avaris, e pode ser esta cidade onde Saul chegou.
Avaris estava situada, segundo Maneto citado por Josefo, a oriente do braço de Bubastis do rio do Egipto, num ponto estratégico de onde controlava tanto o Egipto como a Síria. Segundo Flávio Josefo, Salitis, o primeiro rei da primeira dinastia de faraós hicsos, fortificou Avaris e estabeleceu ali um exército de 240.000 homens armados para proteger a sua fronteira (citado por Velikovsky, p.82, e Engberg,1927, p.5). Além disso, os hicsos mantinham guarnições em locais estratégicos, o que também explica a constante presença de amalequitas em Canaã no tempo de Juízes. Uma destas praças-fortes terá sido na região montanhosa de Efraim (Jz 5:14; 12:15).

Que elementos no texto apoiam que Saul conquistou Avaris?
Saul “pôs emboscadas no vale”. A palavra traduzida “vale” é NAKHAL, geralmente traduzido ribeiro, rio, ou leito de rio. Em várias ocasiões na Bíblia aparece NAKHAL MIZRAIM, o rio do Egipto (Num 34:5; Jos 15:4,47; 1Rs 8:65;2Rs 24:7, Is 27:12). Pelo contexto de 1 Sam 15:4-7 (Saul foi em direção ao sul, até Sur, defronte do Egipto), este “nakhal” onde Saul pôs emboscadas junto à cidade de Amaleque, provavelmente se refere ao rio do Egipto. No sul, onde Saul feriu os amalequitas, não há rios, apenas o rio do Egipto. No inverno é uma torrente; no verão, está seco. O que explico que Saul pôde por emboscadas no vale/leito do rio.

O deserto de Sur (Ex 15:22) era caminho de três dias do Egipto. Foi por onde os israelitas caminharam logo a passar o mar Vermelho.
Antes de atacar a cidade, Saul avisou os queneus para que saíssem da cidade a fim de não serem destruídos com os amalequitas. Os queneus eram descendentes do sogro de Moisés (Jz 1:16), que tinham subido da cidade das palmeiras (Jericó), com os filhos de Judá, ao deserto de Judá, que está a sul de Arade, e habitaram ali, entre os cananeus, em Arade (Num 21:1 – Arade, no Neguebe, isto é, no sul). Os queneus sempre trataram bem a Israel (Num 10:29) e Israel não os faria mal.

Existem duas fontes egípcias sobre a libertação do Egipto dos hicsos. A tábua de Carnarvon, que regista a participação do faraó vassalo Kamés em ação contra os hicsos, assistido por tropas estrangeiras.
Outra fonte é uma inscrição na parede do túmulo de Amósis, oficial do faraó com o mesmo nome, que participaram na expulsão dos hicsos. Esta inscrição tem a forma de uma narrativa de batalhas e sítios. De acordo com este documento, não foram príncipes egípcios rebeldes só que libertaram o país dos hicsos, mas os libertadores foram guerreiros vindos de fora. A inscrição fala de “um” (pronome indefinido) que lutou na água no leito de Avaris, que lutou no Egipto e capturou Avaris, mas não menciona o nome deste estrangeiro.

Depois da derrota de Avaris, uma parte dos amalequitas fugiu para Sharuhen, que foi sitiada durante 3 anos por Amósis e tomada pelo faraó Amósis I, o primeiro da 18ª dinastia.
Sharuhen (Saruém) é uma cidade na herança de Simeão (Jos 19:6). Isto explica que também os filhos de Simeão lutaram e “feriram o restante dos que escaparam dos amalequitas” e habitaram naquela região (1 Cro 4:43).

A derrota dos hicsos ocorreu em dois sítios, sucessivamente. Primeiro, em Avaris, depois em Sharuhen, para onde parte dos amalequitas se retirou. Apesar da vitória de Saul e morte de Agague, não foram todos destruídos. Os que escaparam retiraram-se para o sul de Canaã, e lá estavam quando David fugia de Saul alguns anos depois da vitória em Avaris. David lutou contra os amalequitas (1 Sam 27:8), que eram os moradores da terra desde Telã na direção de Sur até à terra do Egipto. Exatamente para onde foi Saul quando os derrotou pouco antes.