07/02/2015

A MONARQUIA DIVIDIDA

Já vimos que há, nas Escrituras, indicações que permitem determinar pontos cronológicos chave e, como que, dividir a história em grandes blocos. Podemos falar de um “crono-esqueleto”. A partir deste esqueleto cronológico podem resolver-se pontos difíceis e por vezes aparentemente contraditórios.

Resumimos como chegámos às datas chave:

0
Considerando como ponto 0, o dia em que Deus criou o homem.
Nota: Tenho optado por usar o termo Anno Hominis (AH), ano do homem, e não Anno Mundi (AM) como muitos fazem, em razão de não estar convicta de uma criação em “tempo real” de 6 dias de 24 horas como alguns defendem.
 
1656
Da criação até ao dilúvio, é fácil. Trata-se de adicionar os anos dados em Génesis 5 (, até ao ano 600 da vida de Noé quando se deu o dilúvio.
 
 
 
 
 
2083
Do dilúvio até à aliança com Abrão – quando Abrão parte para Canaã depois da morte do pai e recebe a promessa quando chega a Canaã.
A contagem retoma dois anos depois do dilúvio (que temos de adicionar), quando nasce Arfaxade. Do nascimento de Arfaxade até à morte de Terá, que viveu 205 anos, são 427 anos. Atos 7:4 diz que Abrão foi para Canaã com a morte do seu pai.
(pormenores ver cronologia e mensagem dezembro 2013 – o nascimento de Abraão)
 
2513
Da aliança com Abraão até à dádiva da lei: 430 anos (Gal 3:17; Gn 12:10; 15:13; Ex 12:40). A lei é dada no ano em que Israel sai do Egipto.
 
2992
No 480º ano (ou seja, 479 anos completos) depois de saírem os filhos de Israel do Egipto, Salomão, no 4º ano do seu reinado, iniciou a construção do templo, no mês de Zive, que é o segundo mês (1 Reis 6:1)
3029
Salomão começa a reinar no ano 2989 e reina 40 anos. Depois da sua morte o reino é dividido.

Com Roboão, filho de Salomão, e Jeroboão, filho de Nebate, começa o período da monarquia dividida.
Porque Salomão se afastara do Senhor, seguindo outros deuses, Deus lhe tiraria o reino para dá-lo ao seu servo (1Rs 11:9-13), no tempo do seu filho. Jeroboão, filho de Nebate, foi um dos adversários que Deus levantou contra Salomão (1Rs 11:26). Jeroboão era um oficial de Salomão, valente e trabalhador, colocado sobre todo o trabalho forçado. Através do profeta Aías, foi-lhe prometido governar sobre dez tribos no tempo do filho de Salomão. Mas Jeroboão levantou a mão contra o rei, pelo que Salomão procurou matá-lo. Por isso Jeroboão fugiu para o Egipto, foi ter com Sisaque, rei do Egipto, onde permaneceu até à morte de Salomão (1Rs 11:26-40).

Quando Jeroboão ouviu que Roboão fora feito rei, regressou a Israel, de onde o mandaram chamar (1Rs 12:1-3). Subentende-se que as dez tribos que se congregaram a Jeroboão já estavam numa situação de descontentamento desde os tempos de Salomão. A dureza da posição de Roboão apenas precipitou a divisão (1Rs 12:3-20).

Deduzimos que o primeiro ano de Roboão (reino de Judá) coincide com o primeiro ano de Jeroboão (reino de Israel).

A pergunta aqui é: existem dados claros na Palavra que nos permitem estabelecer um número exato de anos para o período da monarquia dividida, isto é, desde Roboão/Jeroboão até à deportação de Israel para Assíria no 6º ano de Ezequias / 9º ano de Oséias (2Rs 18:9-11), e depois até à queda de Jerusalém sob Nabucodonosor, rei da Babilónia?

Um primeiro problema com que nos deparamos é quando adicionamos os anos dos reis de Judá e os de Israel até ao 6º ano de Ezequias e 9º de Oséias, quando Israel sucumbe sob o domínio assírio e o povo é deportado.

Roboão
17
1Rs 14:21
Jeroboão
22
1Rs 14:20
 
Abias
3
1Rs 15:1-2
Nadabe
2
1Rs 15:25
 
Asa
41
1Rs 15:9-10
Baasa
24
1Rs 15:33
 
Josafá
25
1Rs 22:41-42
Elá
2
1Rs 16:6,8
 
Jeorão
8
2Rs 8:16-17
Zinri
7 dias
1Rs 16:15
 
Acazias
1
2Rs 8:26
Onri
12
1Rs 16:23
 
(Atalia)
6
2Rs11:3-4
Acabe
22
1Rs 16:29
 
Joás
40
2Rs 12:1
Acazias
2
1Rs 22:52
 
Amazias
29
2Rs 14:2
Jorão
12
2Rs 3:1
 
Uzias
52
2Rs 14:21;15:2
Jeú
28
2Rs 10:36
 
Jotão
16
2Rs 15:33
Jeoacaz
17
2Rs 13:1
 
Acaz
16
2Rs 16:2
Jeoás
16
2Rs 1310
 
Ezequias
6
2Rs 18:10
Jeroboão II
41
2Rs 14:23
 
260
anos
Zacarias
6 meses
2Rs 15:8
 
 
 
 
Salum
1 mês
2Rs 15:13
 
 
 
 
Menaém
10
2Rs 15:17
 
 
 
 
Pecaías
2
2Rs 15:23
 
 
 
 
Peca
20
2Rs 15:27
 
 
 
 
Oséias
9
2Rs 17:1
 
 
 
 
 
241
anos
 

Judá totaliza 260 anos, enquanto Israel 241 anos, 7 meses e7 dias.

Qual a lista que devemos seguir, que dá o número de anos correto?

Há várias razões que favorecem Judá.

Em primeiro lugar, a linhagem de Judá é descendência de David e Salomão, a quem o trono fora prometido. Acrescenta-se a isto Gn 49:10 – O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló.

Judá foi o reino mais fiel. Israel nunca deixou “os pecados de Jeroboão, filho de Nebate” e teve 19 reis de 9 dinastias diferentes. Enquanto todos os reis de Judá pertencem a uma só dinastia.

Ainda, o reino de Judá continuou ainda por 134 anos até, por sua vez, sucumbir a Nabucodonosor da Babilónia. Não tem lógica contar primeiro os anos de Israel para depois continuar com Judá.


Roboão
17
1Rs 14:21
Abias
3
1Rs 15:1-2
Asa
41
1Rs 15:9-10
Josafá
25
1Rs 22:41-42
Jeorão *
8
2Rs 8:16-17
Acazias
1
2Rs 8:26
(Atalia)
6
2Rs11:3-4
Joás
40
2Rs 12:1
Amazias
29
2Rs 14:2
Uzias
52
2Rs 14:21;15:2
Jotão
16
2Rs 15:33
Acaz
16
2Rs 16:2
Ezequias
29
2Rs 18:1-2
Manassés
55
2Rs 21:1
Amon
2
2Rs 21:19
Josias
31
2Rs 22:1
Jeoacaz
3 meses
2Rs 23:31
Jeoaquim
11
2Rs 23:36
Joaquim
3 meses e 10 dias
2Rs 24:8; 2Cro 36:9
Zedequias
11
2Rs 24:18
393

A soma dos anos dos reis de Judá são 393 anos, 6 meses e 10 dias.

Nestes anos, há uma coregência. Jeorão, filho de Josafá, começou a reinar “reinando ainda Josafá em Judá” (2Rs 8:16). Portanto, uma parte dos 8 anos do reinado de Jeorão é coincidente com os últimos anos de Josafá. Quantos anos governaram juntos?

2Rs 3:1 – Jorão, filho de Acabe, começa a reinar no 18º ano de Josafá

2Rs 8:16 - No ano 5º de Jorão, reinando ainda Josafá, começa a reinar Jeorão, filho de Josafá. Era da idade de 32 anos e reinou 8 anos.

A partir destes versículos, façamos um pequeno esquema para melhor entendimento:

Jeorão                  Josafá                   Jorão, filho de Acabe

                              18º ano                1º ano
                                          19º ano               
                                          20º ano               
                                          21º ano               
            1º ano                  22º ano               
            2º ano                  23º ano                
            3º ano                  24º ano                
            4º ano                  25º ano (Josafá reinou 25 anos)
                                                                     
                                                                     10º
                                                                     11º
                                                                     12º

Verificamos assim que há 4 anos de coregência, portanto, há 4 anos a mais na contagem inicial. O total de anos para o reino de Judá é, então, de 389 anos, 6 meses e 10 dias, portanto, em números redondos, 390 anos.

Quero chamar a atenção para um outro versículo, que parece deitar abaixo o cálculo anterior.

2Rs 1:17 – Jorão (filho de Acabe) começou a reinar no 2º ano de Jeorão, filho de Josafá (que é o 18º de Josafá).

Se é assim, 7 dos 8 anos do reinado de Jeorão coincidiriam com Josafá. No entanto, vemos em 2Rs 8:25, que é só no 12º ano de Jorão, filho de Acabe, que começou a reinar Acazias, filho de Jeorão. Isto significa que, antes de um período de co-rex, ainda havia um período designado de pro-rex. Uma situação semelhante acontece com Acazias. Diz em 2 Rs 9:29 que no ano 11º de Jorão, filho de Acabe, começara Acazias a reinar sobre Judá.

É difícil fazer um cálculo exato, porque apenas é dado o número de anos, não de meses, e não sabemos em que mês determinado rei começa a reinar. Há sempre pequenas margens de erro. Por isso é tão difícil acertar os reinados dos de Judá e os de Israel, tendo constituído uma dor de cabeça para os cronologistas. Mas, sabendo o número total de anos do período, torna-se mais fácil, embora não se posssa esperar uma cronologia absolutamente correta.

 
No entanto, só ficaremos satisfeitos com estes 390 anos quando o mesmo valor possa ser alcançado por outra via. De facto, existe outra passagem bíblica que pode corroborar esta solução dos 390 anos.

Disto trataremos na próxima mensagem.

18/01/2015

SALOMÃO E A RAINHA DE SABÁ

O problema da cronologia bíblica é devido ao facto de que, na cronologia consensual académica, não há lugar para os eventos e figuras descritos na Bíblia. É como se não tivessem existido. Por conseguinte, a Bíblia tem sido rejeitada como fonte histórica válida.

A cronologia consensual apresenta outras falhas, apontadas por alguns historiadores que preconizam uma revisão da cronologia, mas que não são tomadas em conta, em parte numa recusa de considerar a Bíblia como fonte histórica válida.

Um destes revisionistas que tem causado muito alarido, e que tem sido alvo de duras críticas, é Emmanuel Velikovsky. Ele estranhou o facto de não haver na história do Egipto a menor referência ao êxodo dos Israelitas, nem das pragas e calamidades naturais que ocorreram naquela mesma época e que deixaram o Egipto economicamente de rastos.

O início do domínio dos Hicsos no Egipto está associado a uma situação de fraqueza do país. Ipuwer, um sacerdote, fala de anarquia no país e da entrada de asiáticos (amu) no delta do Nilo. O Papiro Ipuwer é há muito tempo reconhecido como se referindo ao tempo dos Hicsos (Engberg, 1939).

Estando o Papiro Ipuwer já associado à invasão dos Hicsos, Velikovsky foi mais longe. Associou o Papiro Ipuwer, e os acontecimentos nele descritos, ao período do Êxodo dos israelitas, pelas semelhanças entre os dois textos, e identifica os Hicsos como os amalequitas da Bíblia. Referimos à nossa mensagem sobre o “êxodo e os amalequitas”. Esta coincidência tem recebido apoio em meios revisionistas.

Segundo esta tese, o período dos hicsos/amalequitas (= o Segundo Período Intermédio no Egipto, da 14ª à 17 ª dinastia) corresponde ao tempo em que os israelitas andaram no deserto e o período de Josué e Juizes, contra as duas teses correntes de que os israelitas teriam saído do Egipto muito mais tarde, na 18ª ou 19ª dinastia (Ramsés).

Desde o princípio do século XX ficou geralmente aceite que os Hicsos foram expulsos no início da 18ª dinastia, por Amósis I (Engberg, 1939; Breasted, 1906). Decorrente da associação do Papiro Ipuwer com o êxodo, Velkivosky defende que Saul ajudou os egípcios na captura de Avaris, capital-fortaleza dos Hicsos (ISam 15).

Afastados do Egipto desde Amósis I, os Hicsos continuaram, no entanto, presentes nos territórios de Israel (Saruem) e Síria até ao tempo de Tutmés III e talvez mesmo mais tarde (Engberg, 1939; Breasted, 1906). E, de facto, encontramos David lutando contra os amalequitas, enquanto estava fugido de Saul (1Sam 27:8).

Em consequência desta revisão cronológica, altera-se o cruzamento da cronologia bíblica com a cronologia consensual.

Se os hicsos/amalequitas foram afastados do Egipto no tempo de Saul, e se Saul é contemporâneo de Amósis I do Egipto, isto significa que o início da 18ª dinastia egípcia (Amósis I, Amenotepe I, Tutmés I e II, Hatshepsute e Tutmés III) coincide com o início do reino de Israel: Saul, David, Salomão.

O Egipto reconquistou a sua independência sob Amósis, contemporâneo de Saul, e alcançou grandeza e glória sob Amenotepe I, Tutmés I e II, Hatshepsute e Tutmés III. Os 2 reinos, Egipto e Israel, libertados do mesmo opressor – os amalequitas / hicsos – desenvolveram relações comerciais e aliaram-se através de casamento: Salomão aparentou-se com o Faraó do Egipto (1Rs 3:1), tomando por mulher a filha do Faraó.

As Escrituras não preservaram o nome dela nem do faraó, mas sabemos que ele fez uma expedição contra o sul de Judá, região onde habitavam filisteus e cananeus, tomou Gezer e a queimou e a deu como dote à sua filha (1 Reis 9:16). É possível que esta incursão seja a mesma a que se refere uma inscrição no túmulo de Amósis, filho de Nekbhet, que era um oficial de Tutmés I. De acordo com esta inscrição, depois da campanha militar contra a Núbia, Tutmés I empreendeu uma campanha contra Retenu (designação utilizada para Israel) para procurar vingança ou obter satisfação (Breasted, 1906). A vingança terá sido contra os Hicsos.

Daí foi só um passo para Velikovsky identificar Hatshepsute, filha de Tutmés I, como a rainha de Sabá.

Que provas podem apresentar-se em defesa desta identificação?

Além de Velikovsky’s «Ages in chaos», consultámos os seguintes sites:


e

Sweeney, Emmett. Was Hatshepsut the Queen of Sheba, or merely the Queen of Theba? Disponível em http://www.hyksos.org).

A rainha do sul

Mateus 12:42 refere-se à rainha que foi ouvir a sabedoria de Salomão como a rainha do Sul. Em Daniel 11, é repetidamente feito menção do ‘rei do sul’ e do ‘sul’, indicando o Egipto. Josefo, em Antiguidades dos Judeus (VIII-165), sem chamar aquela rainha pelo nome, introdu-la como “rainha do Egipto e da Etiópia”.

A cronologia consensual não consegue encontrar nenhuma rainha do Egipto e Etiópia cuja vida coincida com a história de Israel. Mas, se deslocarmos a história do Egipto de acordo com as teses revisionistas, já podemos encontrar uma coincidência cronológica bastante plausível de Salomão com Hatshepsute.

A viagem de Hatshepsute nos relevos de Punt
Baixos-relevos nas paredes do templo de Deir-el-Bahari, perto de Tebas, no Egipto, contam a história da rainha Hatshepsute. Uma série destes relevos, conhecidos como os “relevos de Punt”, contam a história de uma viagem da rainha ao país de Punt, ou Terra Divina (ta netjer), e uma descrição das ofertas que ele recebeu e levou para casa nos seus navios.
Esta expedição apresenta semelhanças com a narrativa bíblica em 1Reis 10 e 2Crónicas 9.

A localização de Punt
Tradicionalmente é assumido que a localização geográfica da terra de Punt era nas margens do Mar Vermelho, na região do Corno de África, devido ao tipo de plantas e animais que Hatshepsute trouxe da sua viagem a Punt e que podem ser vistos nos baixos-relevos (panteras, uma girafa, um rinoceronte, macacos). Estes reconhecem-se como fauna e flora tipicamente africana.

Velikovsky sugeriu que Salomão tivesse trazido estes animais e plantas de África, de Ofir, de onde também traziam ouro (1Rs 9:26-28). Discute-se se Ofir se encontrava na Arábia, em África ou na Índia, de qualquer modo a sul do Mar Vermelho numa região onde se podia ir com os navios que largavam do porto de Eziom-Geber no golfo de Acabá (International Standard Bible Encyclopaedia). Não havia, porém, necessidade de importar estes animais de outras regiões. Na Antiguidade, havia em todo o Médio Oriente estas criaturas que hoje em dia são apenas associadas com África. Encontramos alguns exemplos na própria Bíblia: leões (Jz 14:5), gazelas e antílopes (Dt 14:5), avestruzes (Dt 14:15; Jó 30:29; Is 34:13).

Há outras indicações em inscrições egípcias que situam Punt, não a sul, mas a oriente do Egipto, na região que corresponde a Israel e Fenícia, como é argumentado por Velikovsky e por alguns outros historiadores. O termo “terra divina” ou “país de Deus” (ta netjer) era também aplicado a Punt e Israel/Fenícia, bem como o nome Retenu.

A viagem marítima
1Rs 10:2 diz que a rainha de Saba chegou a Jerusalém com uma comitiva muito grande e com camelos carregados de coisas. Os baixos-relevos mostram uma expedição por via marítima, com vários navios. Jerusalém não é situada na costa. É natural que ela viesse por terra, usando camelos como meio de locomoção, pelo menos a última parte da viagem. As Escrituras não dizem como ela fez a primeira parte da sua viagem. Segundo Breasted, a expedição pode ter deixado o Nilo em Koptos, continuando em terra por caravana até El-Quosier no Mar Vermelho, onde existia um porto. Mas é possível que o canal que ligava o Nilo e o Mar Vermelho já existisse.
Os versículos bíblicos imediatamente antes da história da visita da rainha a Jerusalém falam das naus que Salomão fez em Eziom-Geber, junto a Eilate, na praia do mar Vermelho, e de como os servos de Salomão iam a Ofir juntamente com os marinheiros de Hirão, rei de Tiro. Salomão tinha construído um porto em Eziom-Geber (1Rs 9:26-28). 2Crónicas 8:17-18 especifica que Salomão foi ele próprio a Eziom-Geber e Elote, à praia do mar, na terra de Edom. E os seus navios trouxeram ouro de Ofir, ouro que Salomão deu à rainha (2Cr 9:9-10). Este versículo vem imediatamente antes da narrativa da vinda da rainha de Sabá. Possivelmente Salomão foi inspecionar se tudo estava preparado para receção de tão importante visita.
A rota mais curta de Tebas a Jerusalém não era pelo Nilo e depois pela costa do Mediterrâneo, mas pelo Mar Vermelho, entrando no golfo de Acabá, até Eziom-Geber. Possivelmente, o regresso aconteceu pelo mar mediterrâneo, embarcando num dos portos fenícios (Tiro), viajando pelo Nilo até Tebas.

O desembarque em Eziom-Geber
Num dos relevos de Deir-el-Bahari, numa cena indicando a proximidade do mar ou do porto onde os egípcios desembarcaram, a comitiva é recebida pelo representante do rei, um homem idoso, chamado chefe de Punt, de nome Perehu ou Paruah, acompanhado da mulher, dois filhos e uma filha (Breasted, 1906). Velikovsky avança a possibilidade de este homem ser Parua, o pai de um dos doze intendentes de Salomão. O que cronologicamente é possível.

Ver 1Rs 4:16-17 – e Bealote (=em Alote), Josafá, filho de Parua.

Segundo vários autores, a última palavra do v.16 (e Bealote) pertence ao v.17, sendo “e em Alote (isto é, Eilate), Josafá, filho de Parua”. Os vs. 16 e 17 são confusos. V.16: Baaná, filho de Husai, em Aser e Bealote (= em Alote). O território da tribo de Aser fica na extremidade norte do território de Israel, enquanto Alote (Eilate) no extremo sul. É estranho que um intendente tenha sob sua responsabilidade dois territórios tão afastados. V.17: Josafá, filho de Parua, em Issacar. O território de Issacar fica na zona do vale de Jezreel, separado de Aser apenas pelo território reduzido de Zebulon, e também muito a norte em relação a Eilate.

Os terraços de mirra
Salomão deu à rainha “tudo quanto ela desejou” (1Rs 10:13), afora o que deu por sua generosidade. Pelas inscrições nos relevos de Punt, como vêm traduzidas por Breasted, parece-me que o principal objetivo da expedição – “o desejo de sua majestade” como está escrito nos relevos de Punt -, era chegar aos terraços de mirra em Punt e levar árvores de mirra para plantar no templo de Amon no Egipto. Além de outras ofertas como prata, ouro, marfim, madeiras (pode referir-se à madeira de sândalo que era trazida de Ofir), macacos, os relevos mostram os navios a serem carregados com sacos com mirra em grande quantidade e com 31 árvores, presumivelmente de mirra, em vasos. A mirra era utilizada para a produção do incenso para o templo. Descobriu-se que o vale do Jordão foi uma região importante de produção de mirra.

O templo
No regresso, Hatshepsute edificou um novo templo, com terraços onde plantou as árvores que trouxe de Punt - é neste templo que estão os relevos que contêm a história da expedição. Imitou os terraços de Jerusalém, mas também a planta e o serviço do templo, que mostram claras semelhanças com o templo de Salomão. É reconhecido por egiptólogos que os elementos estrangeiros no templo (cujo estilo é diferente do estilo egípcio contemporâneo) era influências de Punt. Hatshepsute escreve nos relevos que ela “fez um Punt”.

O tributo à rainha
Outra cena mostra a aproximação de quatro linhas de chefes trazendo tributo à rainha: os chefes de Punt, os chefes de Irem e os chefes de Nemyev (estes têm a pela escura, cabeças arredondadas e lábios grossos). Irem ou Hirão é o nome atribuído aos reis de Tiro, fazendo sentido a sua presença neste quadro (1Rs 10:11). Os de Nemyev poderão ser de Ofir. Josefo, em Antiguidades dos Judeus, escreve que os navios de Salomão carregavam toda a sorte de mercadoria, prata, ouro, marfim e também traziam kussiim [negros]. Na opinião de alguns, o facto de os negros oferecerem tributo podia significar que, além da expedição a Punt, houve outra expedição a regiões africanas e os relevos colocaram juntos o que geograficamente estava separado.

 
Bibliografia
 
ENGBERG, Robert M. (1939). The Hyksos reconsidered. Chicago: University of Chicago Press

BREASTED, J.H. (1906). Ancient records of Egypt. Historical documents. Chicago: University of Chicago Press. Disponível online.

SWEENEY, Emmett. Was Hatshepsut the Queen of Sheba, or merely the Queen of Theba? Disponível em http://www.hyksos.org).