10/06/2015

NO ANO DO CATIVEIRO DO REI JOAQUIM

Com a deportação do rei Joaquim para Babilónia, parece existir uma incongruência cronológica entre as datas usadas por Ezequiel no exílio e as datas usadas em Jeremias, 2 Reis e 2 Crónicas referentes ao reinado de Zedequias.

Lembremos que, no ano contado como o 11º de Jeoaquim, Joaquim começou a reinar, e reinou 3 meses. No ano seguinte, Joaquim ainda reinou 10 dias, e foi levado para Babilónia na primavera do ano (2Cr 36:9-10).

No grupo de exilados que foram para Babilónia com o rei Joaquim encontrava-se o profeta Ezequiel.

Ezequiel data os acontecimentos com referência ao “ano de cativeiro do rei Joaquim” (Ez 1:2).

A dúvida é a seguinte:

a)      o 1º ano do cativeiro de Joaquim é o mesmo ano em que acedeu oficialmente ao trono? Ou seja, o ano 0 de Zedequias (onde Joaquim reinou 10 dias e que lhe é atribuído) corresponde ao 1º ano do cativeiro? Ou

b)      o cativeiro só começa a contar no início do ano seguinte (depois que os exilados tiverem chegado à Babilónia após uma viagem longa), pelo que o 1º ano de Zedequias corre paralelo com o 1º ano do cativeiro?

Porquê nos surgiu esta dúvida?

Ez 24:1 - Veio a mim a palavra do Senhor, em o 9º ano [do cativeiro do rei Joaquim], no 10º mês, aos 10 dias do mês, dizendo: filho do homem escreve o nome deste dia, deste mesmo dia; porque o rei de Babilónia se atira contra Jerusalém neste dia (Ez 24:1-2).

No 9º ano de Zedequias, no 10º dia do 10º mês, exatamente, começou o cerco a Jerusalém (2 Rs 25:1; Jr 52:4).

Isto dá a entender que Ezequiel, no cativeiro, recebeu do Senhor a palavra que, nesse mesmo dia, se iniciou o cerco em Jerusalém. Parecendo assim que o 9º ano de Zedequias é correspondente ao 9º ano do cativeiro (hipótese b).

A dúvida foi levantada pelo seguinte versículo:

Ez 33:21 - No ano 12º do nosso exílio, aos 5 dias do 10º mês, veio a mim um que tinha escapado de Jerusalém, dizendo: Caiu a cidade (Ez 33:21).

A cidade caíu no 4º mês do 11º ano de Zedequias (Jr 52:6-7) e no 5º mês foi queimada (Jr 52:12-13). Se o 11º de Zedequias é o 11º ano do exílio, isto significa que a notícia da queda da cidade só chegou a Ezequiel, através de um que escapou, um ano e 5 meses depois do acontecimento! Ora, o tempo de viagem necessário para percorrer a distância entre Jerusalém e Babilónia era de 5 meses, como podemos ver pelo tempo que Esdras levou para ir de Babilónia a Jerusalém. Esdras partiu no 1º mês (do 7º ano do rei Artaxerxes) e chegou a Jerusalém no 5º mês do mesmo ano (Esd 7:7-9). Um ano e 5 meses pareceu-me tempo demais para a chegada da notícia, pelo que avaliei a possibilidade da hipótese a). Neste caso, a profecia de Ez 24:1 teria sido dada um ano antes do próprio acontecimento, e razão pela qual o profeta teve de “escrever” o nome deste dia, garantindo assim a veracidade da profecia.

No entanto, Ez 40:1 resolve a questão a favor da hipótese b): o 1º ano do cativeiro do rei Joaquim corresponde ao ano 1º ano de Zedequias.

Ez 40:1 – No ano 25 do nosso exílio, no princípio do ano, no dia 10 do [primeiro] mês, 14 anos depois de ter caído a cidade, nesse mesmo dia veio sobre mim a mão do Senhor e me levou para lá em visões.


3406
Joaquim reina 10 dias neste ano, quando é levado para o exílio.
= Zedequias ano 0 (ano de acessão ao trono)
Viagem dos exilados para Babilónia
3407
1º ano oficial de Zedequias
Começa a contar o 1º ano do cativeiro do rei Joaquim, a partir do 1º mês
3408
2º ano do cativeiro
3409
3410
3411
3412
3413
3414
8º ano de Zedequias
3415
9º ano de Zedequias, 10 º dia do 10º mês, Nabucodonosor (no seu 18º ano) cerca Jerusalém até ao 11º ano  (2Rs 25:1-2; Jr 52:4-5).
9º ano do cativeiro
Ez 24 - Veio a mim a palavra do Senhor, em o 9º ano, no 10º mês, aos 10 dias do mês, dizendo: filho do homem escreve o nome deste dia, deste mesmo dia; porque o rei de Babilónia se atira contra Jerusalém neste dia (Ez 24:1-2).
3416
10º ano de Zedequias
10º
3417
11º de Zedequias, 9º dia do 4º mês, a cidade é arrombada (Jr 52:6-7). O rei é preso e levado ao rei de Babilónia, a Ribla, na terra de Hamate (Jr 52:8-11). No 7º dia do 5º mês vem Nebuzaradan (2Rs25:8), no 10º dia do 5º mês a cidade é queimada (Jr 52:12)
11º
3418
Mês 4º, 1 ano depois de ter caído a cidade
No ano 12º do nosso exílio, aos 5 dias do 10º mês, veio a mim um que tinha escapado de Jerusalém, dizendo: Caiu a cidade (Ez 33:21
3419
2 anos depois de  
13º
3420
3 anos
14º
3421
4 anos
15º
3422
5 anos
16º
3423
6 anos
17º
3424
7 anos
18º
3425
8 anos
19º
3426
9 anos
20º
3427
10 anos
21º
3428
11 anos
22º
3429
12 anos
23º
3430
13 anos
24º
14 anos depois de ter caído a cidade (mês 4º)
No 25º ano do exílio, no dia 10 do [1º] mês. 14 anos depois de ter caído a cidade, Ezequiel tem uma visão (Ez 40:1) no 14º ano depois de ter caído a cidade.

08/06/2015

DE JOSIAS AO EXÍLIO (5) – Zedequias

AH 3406 – início cativeiro de Joaquim e ano 0 de Zedequias

Joaquim reinou apenas 3 meses (em AH 3405) e 10 dias (em 3406) e rendeu-se a Nabucodonosor quando este veio cercar Jerusalém, no 8º ano do seu reino (2Rs 24:12). Leva cativo o rei Joaquim, os seus servos, príncipes, oficiais, os homens valentes, os artífices e ferreiros, os destros na guerra; e os mais preciosos utensílios do templo (2Rs 24:8-16; 2Cr 36:9-10).

Neste grupo incluía-se Ezequiel. Isto depreende-se do método de datação que Ezequiel usa, fazendo referência ao ano de cativeiro do rei Joaquim (Ez 1:1-2).

Alguns avançam a hipótese de que a deportação de 3.027 judeus no 7º ano de Nabucodonosor (Jr 52:28) se referee a este grupo. Mas o número de 3027 é muito baixo para os que foram levados para o exílio com Joaquim. Além disso, o 7º de Nabucodonosor corresponde à última metade do 10º ano  de Jeoaquim, e primeira metade do 11º. Joaquim reinou 3 meses na segunda metade do que é contado como o 11º de Jeoaquim (ver mensagem anterior sobre a sincronia Judá-Nabucodonosor).

ZEDEQUIAS.

O rei da Babilônia estabeleceu rei, em lugar de Joaquim, ao tio paterno deste, Matanias, de quem mudou o nome para Zedequias (2Rs 28:17).

Depois que Nabucodonosor levou em cativeiro a Jeconias (= Joaquim) na primavera do ano (2Cr 36:10), Jeremias tem uma visão, vê um cesto de figos bons e outro de figos ruins (Jeremias 24). Os bons figos representam os exilados de Judá, que Deus fará voltar a esta terra. Os figos ruins – representando os que não aceitam a dominação babilónica - serão consumados e destruídos.

Jeremias 29

Também depois que sairam de Jerusalém o rei Jeconias, Jeremias escreve uma carta ao povo deportado para Babilónia no mesmo sentido(Jr 29:1-20). Era necessário aceitar o exílio, edificar casas e habitar nelas; plantar pomares e comer o seu fruto; tomar esposas e gerar filhos e filhas; tomar esposas para seus filhos e dar suas filhas a maridos, para que tivessem filhos e filhas; multiplicar-se e não diminuir; procurar a paz da cidade porque na sua paz teriam paz. E, assim diz o SENHOR: Logo que se cumprirem para a Babilônia setenta anos, atentarei para vós outros e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar.
              
No princípio do reinado de Zedequias, no 4º ano (Jer 28:1)

Jeremias 27 e 28

Deus fala através de Jeremias: «5. Eu fiz a terra … e a dou àquele a quem for justo. Agora eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei da Babilónia, meu servo … Todas as nações o servirão a ele, a seu filho e ao filho de seu filho, até que também chegue a vez da sua própria terra … Mas a nação que meter o seu pescoço sob o jugo do rei de Babilónia, e o servir, eu a deixarei na sua terra, diz o Senhor, e lavrá-la-á e habitará nela … Metei o vosso pescoço no jugo do rei de Babilónia, servi-o, a ele a ao seu povo, e vivereis. Porque morrerias tu e o teu povo, á espada, à fome e de peste, como o Senhor disse com respeito à nação que não servir ao rei de Babilónia?»


AH 3415 - 9º ano de Zedequias – início do cerco

No dia 10 do 10º mês, do 9º ano de Zedequias, Nabucodonosor e seus exércitos vieram contra Jerusalém, acamparam-se contra ela e levantaram tranqueiras em redor (Jr 52:3-5; 2Rs 25:1), até ao 11º ano.

O início do cerco no 10º mês seria causa do jejum do 10º mês (Zac 8:19).


Durante o cerco (entre o 10º mês do 9º ano de Zedequias e o 4º mês do 11º ano de Zedequias)

Jeremias 34:1-8 (Jeremias ainda não estava preso)

Jeremias 37 - Os caldeus interromperam temporariamente o cerco a Jerusalém quando ouviram que Faraó saira do Egipto em socorro de Judá (Jr 37:1-10). Isto aconteceu no ano 10º de Zedequias.

Jeremias andava livremente entre o povo, e tentou sair da cidade, aproveitando a retirada do exército dos caldeus, para receber uma herança. Foi acusado de fugir para os caldeus e é preso  (Jr 37 e 38). Jeremias faz a escritura de compra de um campo em Anatote enquanto está preso (Jr 32).

Jeremias 34:8-22 - Zedequias fez aliança com o povo de Jerusalém para lhes apregoar a liberdade, despedir forro os seus servos. Todos entraram na aliança, despediram forro os servos, mas depois se arrependeram e os fizeram voltar. Os exércitos que tinham saído da cidade, voltariam e tomariam a cidade definitivamente, queimando-a.

Jeremias 33 - Jeremias está preso no pátio da guarda. Uma palavra de esperança sobre Jerusalém: o Renovo, a descendência de David.


AH 3417 - 11º ano de Zedequias

Jeremias 39, 52 - As tropas caldeus começaram a cercar Jerusalem no 9º ano de Zedequias, mas não a conseguiram tomar de assalto.  Por isso cercaram a cidade durante aproximadamente 18 meses até ao 11º ano de Zedequias.  Durante esse tempo, Jerusalém ficou isolada e privada de todo socorro e suprimentos de fora, e foi vencida pela fome.  No dia 9 do 4º mês (Av), os caldeus arrombaram a cidade e tomaram-na. Os homens de guerra fugiram de noite, mas foram perseguidos e apanhados. O rei foi preso, mataram os seus filhos à sua própria vista, depois vazaram-lhe os olhos e ficou encarcerado até ao dia da sua morte. (Jr 39:1-10; 52:5-11; 2Rs 25:2-7).

Este momento trágico passou a ser a razão do jejum do 4º mês (Zac 8:19), quando «se fez brecha na cidade».

Um mês depois, no 7º dia do 5º mês, no 19º ano de Nabucodonosor, Nebuzaradã, capitão da guarda, veio a Jerusalém e o exército dos caldeus deu o golpe final a Jerusalém (2Rs 25:8,9). No 10º dia, queimaram a casa do Senhor, a casa do rei, todas as casas e edifícios importantes de Jerusalém; derribaram os muros de Jerusalém (Jr 52: 12-27). 

Também este dia seria recordado com o jejum do 5º mês (Zac 8:19).

Grande parte da população foi deportada para vários distritos na Babilónia.    Ficaram apenas os mais pobres da terra. Também ficou Jeremias no meio do povo. Gedalias é feito governador; passa a habitar en Mispá. Mas uma facção anti-babilónica dirigida por Ismael, filho de Netanias, mata Gedalias no 7º mês, levando preso o povo (Jr 40-41).

Este acontecimento é mais um dia que passou a funcionar como um jejum comemorativo, o do 7º mês.          

O povo levado por Ismael foi libertado por Joanã, filho de Careá. Buscaram a vontade do Senhor sobre o que deviam fazer, mas contra a vontade d’Ele e contra o aviso de Jeremias, fugiram para o Egipto (Jr 42-44).

Aqui termina o período monárquico em Israel.

09/05/2015

DE JOSIAS AO EXÍLIO (4) - Joaquim

JOAQUIM: 8 ou 18 anos?
 

AH 3405 - 11º ano de Jeoaquim

Jeoaquim morre e o seu filho, Joaquim (Jeconias, Conias), reina em seu lugar.

Joaquim reinou apenas 3 meses e 10 dias. Possivelmente, 3 meses ainda no que é o 11º ano de Jeoaquim, e 10 dias no novo ano, quando é levado para Babilónia, na primavera do ano 3406 (2Cr 36:9-10), que é o tempo quando os reis costumam ir à guerra (2Sam 11:1). O ano 3406  é atribuído a Joaquim, sendo o ano 0 de Zedequias, seu tio paterno, colocado no trono de Judá por Nabucodonosor.

Relativamente à idade de Joaquim, temos um problema a resolver:

2Rs24:8 – Tinha Joaquim dezoito anos quando começou a reinar, e reinou 3 meses em Jerusalém.
2Cr 36:9 – Tinha Joaquim oito anos quando começou a reinar, e reinou 3 meses e 10 dias em Jerusalém.

Muitas traduções consideram “oito” em 2Cr 36:9 um erro de escriba, e substituem por “dezoito”, tal como está em 2Rs 24:8. Por isso, em geral, não damos por esta incongruência.

 Então, afinal, tinha Jeconias (Joaquim) 8 (2Cr 36:9-10) ou 18 (2Rs 24:15) anos quando subiu ao trono de Judá? Porquê esta diferença? Há uma explicação para esta aparente contradição?

 
Várias hipóteses têm sido  avançados ao longo dos anos:

1)      Joaquim tinha de facto 18 anos (literalmente, filho de dezoito anos) quando ascendeu ao trono (2Rs 24:8). Ser “filho de oito anos” (2Cr 36:9) pode referir-se ao facto de a sua dinastia ou reinado ter estado sob o domínio de Nabucodonosor desde o 3º ano do seu pai Jeoaquim, ou seja, 8 anos.

2)      Jeoaquim teria nomeado ou ungido o seu filho para o suceder muito jovem, numa tentativa de segurar o trono através da sua linhagem (de Jeoaquim), a fim de negar o trono ao seu irmão Zedequias.

3)      Josias terá ungido Joaquim, seu neto, para o suceder imediatamente antes do seu encontro com Faraó Neco.

Esta última solução é preferida por Floyd Nolen Jones, que dá a seguinte explicação (traduzido livremente):

Consciente de que os seus filhos eram maus, a esperança do piedoso Josias estaria depositada no seu neto Jeconias (Joaquim), que este  se tornaria uma pessoa melhor, embora ainda com 8 anos apenas. Mas visto que o próprio Josias sucedeu ao seu pai com apenas 8 anos, não teria reservas em colocar tão jovem criança no trono de Judá. Josias estava consciente de que não regressaria da batalha contra os egípcios, que vinham em números muito maiores do que o exército de Judá. E fora profetizado que ele morreria jovem e também antes das maldições que Deus enviaria sobre o reino de Judá (2Rs 22; 2Cr 34). Josias tinha então 39 anos de idade e sabia que a sua hora podia vir rapidamente.

O único caminho bíblico e legal para um neto poder herdar o trono enquanto o pai e tios ainda estavam vivos era através da adopção para o estatuto de filho (ver Gn 48, quando os filhos de José, Efraim e Manassés, são adoptados como filhos por Jacó, de modo a poderem ser herdeiros com igual estatuto que os outros filhos).

Nolen Jones é de opinião que Josias adoptou e nomeou Jeconias/Joaquim como o seu sucessor imediatamente antes do seu encontro fatal com Neco em Megido. Esta hipótese encontra apoio bíblico em Mt 1:11 - “Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos no tempo do exílio em Babilónia”.

Este versículo ocorre na listagem de antepassados de Jesus Cristo. O v.11 afirma que Josias gerou Jeconias (Joaquim era o nome de trono), embora não fosse o seu filho propriamente dito. Embora num sentido bíblico mais amplo seja permitido falar de “gerar” quando se trata de descendentes para além da geração dos próprios filhos, neste caso “Josias gerou” terá acontecido no momento da adopção. Isto é claramente visto no resto da frase: “e seus irmãos”. A alusão é claramente aos dois filhos de Josias: Jeoaquim (pai de Jeconias) e Zedequias (tio de Jeconias e irmão de Jeoaquim). Só neste caso é possível dizer que os filhos de Josias são irmãos de Jeconias/Joaquim!

Se ainda permaneçam dúvidas, Nolen Jones pede para considerar:

“Na primavera do ano mandou o rei Nabucodonosor levá-lo [Joaquim] a Babilónia, com os mais preciosos utensílios da casa do Senhor; e estabeleceu a Zedequias, seu irmão, rei sobre Judá e Jerusalém” (2Cr 36:10).

Como pode Zedequias ser irmão de Joaquim? Apenas sendo plenamente adoptado como filho. Contudo, o povo da terra não acatou a decisão de Josias, colocando em vez dele Jeoacaz no trono. Este foi removido pelo rei do Egipto depois de reinar 3 meses, e Eliaquim/Jeoaquim foi colocado no trono e reinou 11 anos.

Jeconias/Joaquim foi ungido rei quando era criança (2Cr 36:9), mas na realidade só ocupou o trono quando tinha 18 anos de idade (2Rs 24:8-12) – um lapso de 11 anos. Foi também o caso de David, por exemplo.

Além disso, Crónicas aborda a situação da perspectiva dos sacerdotes/templo/Deus, enquanto o livro de Reis a apresenta do ponto de vista histórico/político/trono.

Deste modo está resolvida a “discrepância” ou o “erro de escriba” entre 2Rs 24:8 e 2Cr 36:9.


É uma explicação que me parece aceitável, e possivelmente correta.

Ainda poderia ser acrescentada outro aspecto a seu favor: é Joaquim que é considerado na genealogia de Jesus, e não Zedequias. Joaquim é, portanto, o último rei legítimo no trono de Judá.

Por outro lado, em meu ver, esta explicação não impede que também a primeira hipótese seja válida – Joaquim como “filho de oito anos” (2Cr 36:9) referindo-se ao facto de a sua dinastia ou reinado ter estado sob o domínio de Nabucodonosor desde o 3º ano do seu pai Jeoaquim, ou seja, 8 anos. O Senhor escolheu Nabucodonosor, um rei gentio, e o estabeleceu como “rei dos reis”, a quem todas as nações se deviam submeter, incluindo Israel. Houve aqui uma mudança importante no governo do mundo. “É ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis” (Dn 2:21). É o começo de uma nova era: o tempo dos gentios.

03/05/2015

DE JOSIAS AO EXÍLIO (3) - Jeoaquim

JEOAQUIM

Eliaquim, filho de Josias,  é feito rei por Faraó Neco aos 25 anos, em substituição de Jeoacaz que foi levado para o Egipto, e muda o seu nome em Jeoaquim.

A partir de agora, o fim do reino de Judá aproxima-se a passos largos, e os acontecimentos precipitam-se. As profecias de Jeremias deixam claro que o fim de Jerusalém está perto e que não há como escapar ao domínio da Babilónia e ao exílio, aliás, é aí que residirá a sua salvação. Mas as suas palavras não encontram ouvidos, nem no rei, nem no povo.

AH 3395 - princípio do reinado de Jeoaquim

O livro do profeta HABACUQUE parece datar dos primeiros anos do reinado de Jeoaquim. Habacuque diz “eis que suscito os caldeus, nação amarga e impetuosa” (1:6). Portanto, os caldeus ainda não tinham vindo. Os caldeus viriam contra Jerusalém no 3º ano de Jeoaquim (Dn 1:1).

No princípio do reinado de Jeoaquim, Jeremias é enviado pôr-se no átrio da casa do Senhor (Jr 26). As profecias que falou por essa ocasião correspondem aos capítulos 7 a 9 (10?): a mensagem junto ao portão do templo. A sua mensagem é de aviso: farei que esta casa seja como Siló (Jr 26:6,9; comparar com 7:12, 14). Do modo como o tabernáculo, que estava em Siló, fora destruído, também o templo seria destruído.

Por causa destas palavras, os sacerdotes, os profetas e todo o povo lançaram mão de Jeremias (Jr 26:7-24), e o acusaram, pedindo a sua morte. Jeremias foi trazido perante um tribunal de príncipes, que ouviram a sua defesa. Os príncipes não o consideram réu de morte e o povo mudou de opinião. Também alguns anciãos defenderam Jeremias. Efetivamente, Jeremias foi protegido pela influência de Aicão (2Rs 22:12 2Cr 34:20), filho de Safã, para que não fosse entregue nas mãos do povo,  para ser morto. Aicão tinha sido um homem de confiança de Josias (2Rs 22:12; 2Cr 34:20).

Outro profeta, Urias, não teve a mesma sorte (Jr 26:20-23). Profetizou a mesma mensagem que Jeremias, mas o rei Jeoaquim procurou matá-lo. Urias fugiu para o Egipto, mas foi perseguido e trouxeram-no de volta para o matar.

AH 3397 – 3º ano de Jeoaquim

No 3º ano de Jeoaquim, Nabucodonosor, da Babilónia, subiu contra Jerusalém e a sitou.  O rei Jeoaquim foi-lhe entregue nas mãos (Dn 1:1-2). Por essa ocasião, Nabucodonosor levou também alguns dos utensílios da casa de Deus para a terra de Sinear, os quais pôs no seu templo.

De acordo com Daniel 1:1-4, por ocasião desta primeira incursão de Nabucodonosor contra Jerusalém, um grupo de jovens foi deportado para Babilónia, constituído de jovens da linhagem real e dos nobres. Entre estes encontrava-se o próprio Daniel e seus amigos, para receberem instrução no palácio do rei da Babilónia.

Judá era agora vassalo de Nabucodonosor. Jeoaquim serviu-o por 3 anos e depois rebelou-se (2Rs 24:1).

Na Babilónia, Daniel e seus amigos foram indicados para receberem instrução no palácio do rei (Dn 1:1-4). Ao fim de 3 anos seriam avaliados e passariam a assistir diante do rei (Dn 1:6).

AH 3398 – 4º ano de Jeoaquim

No 4º ano de Jeoaquim (na primavera ?), Faraó Neco (Jer 46:2) foi, desta vez, derrotado na batalha de Carquemis, junto ao rio Eufrates, por Nabucodonosor. 

 Jr 46 – profecia contra o Egipto (depois da batalha de Carquemis). “A filha do Egito está envergonhada; foi entregue nas mãos do povo do Norte” (Jr 46:24). “O rei do Egito nunca mais saiu da sua terra; porque o rei de Babilónia tomou tudo quanto era dele, desde o Ribeiro do Egito até ao rio Eufrates” (2Rs 24:7).

A batalha de Carquemis é datada 605 a.C. , tendo ocorrida no 21º e último ano de Nabopolassar, rei da Babilónia. Segundo as Crónicas Babilónicas Nabopolassar morreu em 8 de Av (5º mês) e Nabucodonosor voltou para a Babilónia para ocupar o trono como rei da Babilónia em 1 Elul (6º mês).

Segundo Jr 25:1, o 1º ano de Nabucodonosor como rei da Babilónia corresponde ao 4º ano de Jeoaquim.

Nota:

Alguns alegam que há um paradoxo entre Dn 1:1 e Jr 25:1 e, para resolver o paradoxo, dizem que Nabucodonosor veio contra Jerusalém, não no 3º (como está escrito em Dn 1:1), mas no 4º ano de Jeoaquim, depois da derrota do Egipto contra Babilónia em Carquemis, e que Daniel foi levado para Babilónia no 4º ano de Jeoaquim, porque o 4º ano de Jeoaquim é o 1º de Nabucodonosor.

Para justificar isto, argumentam que o 3º ano de Jeoaquim em Dn 1:1 é na realidade o 4º ano de Jeoaquim, porque Daniel teria utilizado a maneira babilónica de acesso ao trono e não a hebraica…

No entanto, esta teoria não tem qualquer apoio bíblico. Dn 1:1 afirma claramente que Nabucodonosor veio contra Jerusalém no 3º ano de Jeoaquim; mas não afirma que foi no 1º de Nabucodonosor. Dn 1:1 é uma simples afirmação de identificação, isto é: o Nabucodonosor que veio e cercou Jerusalém no 3º ano de Jeoaquim é o mesmo que ascendeu ao trono e se tornou rei no ano seguinte (Jr 25:1). E Jr 46:2 diz que Faraó Neco foi ferido em Carquemis no 4º ano de Jeoaquim.

Portanto, Daniel foi levado para Babilónia antes da batalha de Carquemis.

Isto também tem apoio nos 3 anos que Daniel estudou na Babilónia antes de ser avaliado, e a explicação do sonho de Nabucodonosor no 2º ano deste rei (Dn 2:1), como se vê no seguinte esquema:


AH
a.C.
Jeoaquim
Daniel
Nabucodonosor
3397
606
3º ano
1º ano como estudante na Babilónia
Vem contra Judá como príncipe e general do exército
3398
605
4º ano
2º ano
1º ano de Nabucodonosor como rei
3399
604
5º ano
3º ano.
Avaliação.
Explicação do sonho
2ºano
O sonho da estátua
(Dn 2)


Entretanto, em Jerusalém (Jr 25 ):

Jeremias falou durante 23 anos, desde o 13º ano de Josias, mas não foi escutado, agora viria o juizo. Ele avisa o povo de que Deus designou Nabucodonosor como rei dos reis, e que todas as nações (elencadas nos vs. 18-26), incluindo Israel, o deviam servir. “ …Eis que mandarei buscar todas as tribos do Norte, diz o SENHOR, como também a Nabucodonosor, rei da Babilónia, meu servo, e os trarei contra esta terra, contra os seus moradores e contra todas estas nações em redor, e os destruirei totalmente, e os porei por objeto de espanto, e de assobio, e de ruínas perpétuas…Toda esta terra virá a ser um deserto e um espanto; estas nações servirão ao rei da Babilônia setenta anos. Acontecerá, porém, que, quando se cumprirem os setenta anos, castigarei a iniqüidade do rei da Babilônia e a desta nação, diz o SENHOR, como também a da terra dos caldeus; farei deles ruínas perpétuas. …

Em Jr 46-49 estão as cartas que Jeremias, naquela altura, enviou a todas estas nações.

Ainda no 4º ano de Jeoaquim, Deus ordena a Jeremias de escrever num livro todas as palavras que lhe tinha falado desde o princípio nos dias de Josias (Jer 36:1-4). Para o fazer, Jeremias chamou Baruque, o escriba, filho de Nerias, que escreveu tudo o que Jeremias lhe ditou. Parece que Baruque se lamentou e ficou triste por causa de todos os juizes que viriam, ao que Jeremias lhe respondeu que Deus lhe pouparia a vida (Jr 45:1-5).

AH 3399 – 5º ano de Jeoaquim – 9º mês­­­ (Chislev, novembro/dezembro)

Jr 36:5-10 - Jeremias envia Baruque ler as palavras que escreveu, na casa do Senhor, no dia do jejum apregoado no 9º mês. Não é explicado o porquê deste jejum. Por causa da seca (Jr 14)? Por causa do medo de Nabucodonosor?

Segundo Ussher, este jejum seria em lembrança da calamidade que aconteceu no 3º ano de Jeoaquim.

Jeremias enviou Baruque porque, nessa altura, Jeremias estava impedido de entrar no templo, provavelmente em consequência do que acontecera uns anos antes (Jr 26). Ele não estava efetivamente “encarcerado” (Jr 36:5), porque não há menção de ter sido preso.

Jr 36:5-26 - Um certo Micaías ouviu as palavras e relatou-as a vários príncipes, que ficaram atemorizados. Disseram a Baruque que ele e Jeremias deviam esconder-se (se estivesse preso, não haveria onde esconder-se). Depois levaram o rolo ao rei Jeoaquim e leram-no diante dele. O rei corta o livro com um canivete a lança-o no fogo, apesar de alguns dos príncipes insistirem com ele para não o fazer. O rei deu ordem para prender Baruque e Jeremias, mas o Senhor os havia escondido.

Jr 36:27-32 - Deus diz a Jeremias para escrever tudo de novo e acrescentar-lhe mais.

Acerca de Jeoaquim disse: v.30 «Não terá quem se assente no trono de Davi, e o seu cadáver será largado ao calor do dia e à geada da noite. Castigá-lo-ei e a sua descendência e os seus servos por causa da iniquidade deles; sobre ele, sobre os moradores de Jerusalém e sobre os homens de Judá farei cair todo o mal que tenho falado contra eles, e não ouviram.» (ver também Jr 22:13-19).

Entretanto, na Babilónia, no 2º ano do reinado de Nabucodonosor, o mesmo tem um sonho, o sonho da grande estátua (Dn 2). Este episódio só pode ter ocorrido depois de Daniel e seus amigos terem terminado o seu período de estudos de 3 anos e passado o “exame final” (Dn 1:18-20).

A interpretação do sonho confirma as profecias de Jeremias. Nabucodonosor é “rei de reis, a quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória; em cujas mãos foram entregues os filhos dos homens, onde quer que eles habitem e os animais do campo e as aves dos céus, para que dominasses sobre todos eles” (Dn 2:37-38). Daniel é posto por governador de toda a província da Babilónia. Assim, o mundo estava debaixo da influência de um homem de Deus, Daniel. Agora, ficou claro que rebelar-se contra Nabucodonosor seria rebelar-se contra Daniel e Deus.

AH 3400-3401

Depois de Nabucodonosor ter investido contra Jerusalém no 3º ano de Jeoaquim, este ficou servo de Nabucodonosor por 3 anos, mas depois rebelou-se. Em consequência desta atitude, o Senhor enviou contra Jeoaquim bandos de caldeus, e bandos de siros, e de moabitas e dos filhos de Amom; enviou-os contra Judá para o destruir (2Rs 24:1-4).

Por causa dos exércitos dos caldeus e dos siros, os recabitas foram refugiar-se em Jerusalém (Jr 35:11).

Jr 35 – Jeremias usa o exemplo dos recabitas que continuavam fiel ao código rigoroso estabelecido pelo seu antepassado, ao contrário do povo de Judá que não obedece ao seu Deus.

AH 3404 10º ano de Jeoaquim / 7º ano de Nabucodonosor

Jeremias 52:28 menciona que no 7º ano de Nabucodonosor foram levados para o exílio 3023 judeus.

01/05/2015

DE JOSIAS AO EXÍLIO (2) - Jeoacaz

Sequência dos últimos reis em Judá depois da morte de Josias

1Cr 3:15-16 – “Os filhos de Josias foram: o primogénito, Joanã; o segundo, Jeoaquim; o terceiro Zedequias; o quarto, Salum. Os filhos de Jeoaquim: Jeconias e Zedequias.”

Zedequias era, de facto, o mais novo. Tinha cerca de 9 anos quando Josias morreu. E seria o último a reinar em Judá, depois que Joaquim/Jeconias foi levado para o exílio.
 
 
 
JOSIAS
 
 
 
 
Joanã
 
Eliaquim / JEOAQUIM
(2º)
Idade: 25 anos
Reina 11 anos
Salum / JEOACAZ
(1º)
Idade: 23 anos
Reina 3 meses
Matanias / ZEDEQUIAS
(4º)
Idade: 21 anos
Reina 11 anos
 
JECONIAS / JOAQUIM
(3º)
Idade: 18 anos
Reina 3 meses e 10 dias
 
(
1º),(2º),(3º),(4º) indica a ordem em que reinaram.

JEOACAZ
 
Com a morte de Josias, o povo da terra tomou a JEOACAZ (ou Salum) e o ungiu rei em lugar de seu pai. Porquê Salum? Salum não era o primogénito e natural herdeiro do trono. Não se sabe o que aconteceu ao primogénito, Joanã, provavelmente já tinha morrido. Jeoacaz/Salum era também cerca de 2 anos mais novo que Jeoaquim, visto que tinha 23 anos quando começou a reinar e reinou apenas 3 meses; e Jeoaquim, que subiria ao trono logo a seguir, tinha 25 anos quando começou a reinar.
 
Talvez “o povo da terra” tivesse escolhido Salum por causa do caráter de Jeoaquim, descrito em Jr 22:13-19?
 
Jr 22:1-12 – Jeremias desce à casa do rei de Judá. Jeoacaz/Salum?
 
Apenas um comentário acerca de Salum/Jeoacaz em Jeremias:
 
Jr 22:10-12 – Não choreis o morto [refere-se a Josias], nem o lastimeis; chorai amargamente aquele que sai [que é Salum, que sairia, deportado para o Egipto]; porque nunca mais tornará, nem verá a terra onde nasceu. Porque assim diz o senhor acerca de Salum, filho de Josias, rei de Judá, que reinou em lugar de Josias seu pai, e que saiu deste lugar. Jamais tornará para ali. Mas no lugar para onde o levaram cativo morrerá, e nunca mais verá esta terra.
 
Quando Faraó Neco voltou da sua expedição a Carquemis, onde foi vitorioso, mandou prender Jeoacaz em Ribla, na terra de Hamate, para não reinar em Jerusalém. Jeoacaz morreria no Egipto (2Rs 23:34).
 
Neco impôs um imposto à terra (2Rs 23:31-33; 2Cr 36:1-3). E em lugar de Jeoacaz, colocou no trono o irmão dele, Eliaquim, cujo nome mudou em Jeoaquim.
 
Judá deixara de ser uma nação independente, para novamente ser um vassalo do Egipto.