22/08/2015

A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (3) – os propósitos a cumprir


Setenta semanas estão determinadas … para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna, para selar a visão e a profecia, e para ungir o Santo dos Santos (Dn 9:24).


No entendimento de Daniel, os seis propósitos que se deviam cumprir no período de tempo de 10 jubileus – o perfeito e completo jubileu messiânico – não podiam senão dizer respeito à obra que seria realizada pelo Messias quando viesse.

Se a profecia das Setenta Semanas tem tido uma conotação algo negativa, é porque muitos estudos e comentários põem em evidência “a cidade e o povo” e as consequências desastrosas da rejeição do Messias, pelo povo judeu, para “a cidade e o povo”. Mas, na realidade, a profecia começa numa nota de esperança sem par. É a mais concreta mensagem de esperança que Israel recebeu até então: dentro de 70 semanas, o Messias virá e realizará tudo o que foi prometido! E embora Jerusalém e o templo fossem outra vez destruídos, Israel ainda cumpriria a sua missão como povo sacerdotal, povo no meio do qual viria a nascer o Redentor, a semente de Abraão a quem foram feitas as promessas (Gl 3:16). Como disse o próprio Jesus: a salvação vem dos judeus (Jo 4:22).


Completar a transgressão


Dentro de um período de 70 semanas, a transgressão seria completada. Transgressão é um termo geral, não significando pecados individuais, mas rebeldia em geral.

O verbo KHALA’ significa fechar, restringir, refrear, proibir, reter. A tradução grega na Septuaginta é sunteleio (συντελεω): levar ao fim, completar, terminar, fechar. A rebeldia de Israel contra Deus chegou ao seu cúmulo quando rejeitou e crucificou o seu Rei e Messias. A transgressão foi levada até ao fim. Disse assim Jesus aos fariseus: Enchei vós, pois, a medida dos vossos pais … uns matareis e crucificareis; outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade (Mt 23:32-34).

A parábola do dono da vinha é esclarecedora (Mt 21:33-45). Os lavradores maus mataram, primeiro, os servos e, no fim, o filho que veio buscar os frutos. Respondendo a Jesus quando este perguntou «quando vier o senhor da vinha, que fará aos lavradores?», os próprios sacerdotes e fariseus selaram o seu destino, respondendo «Fará perecer horrivelmente a estes malvados, e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos nos seus devidos tempos». Encheram a medida dos seus pecados, rejeitando a principal pedra de esquina. Por isso, o reino ser-lhes-ia tirado e incendiada a sua cidade (Mt 21:43; 22:7).

Mas o Messias não veio só para Israel. Nem a rebeldia é só por parte de Israel. Toda a humanidade é responsável pela morte de Jesus. Porque se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido (Sl 2:1-2); porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e povos de Israel (At 4:25-27).

A transgressão completada e levada ao extremo na morte do Ungido significa, ao mesmo tempo, que a transgressão foi refreada (ver o significado do verbo KHALA’). Pela cruz de Jesus, o pecado não mais nos pode ser imputado e utilizado contra nós (os que crêem) em justiça. O poder da transgressão foi quebrado em Jesus.


Selar os pecados


O verbo TAMAM usado aqui quer dizer terminar, completar, aperfeiçoar, dando a esta frase mais ou menos o mesmo significado que à anterior. Mas, numa leitura alternativa do texto[1], os escribas hebraicos usavam o verbo CHATTAM, que significa selar, autenticar com selo.

Paulo escreveu aos Gálatas que a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que crêem (Gl 3:22) e aos Romanos, que Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos (Rm 11:32).

É interessante, também, observar o significado das palavras “transgressão” e “pecados”. No hebraico, incluem, além do próprio sentido de transgressão e pecado, o significado de oferta ou sacrifício pelo pecado. Oferecendo-se ele próprio como sacrifício pelo pecado, Jesus levou ao fim os sacrifícios, aperfeiçoou os sacrifícios, fazendo e sendo ele mesmo o último sacrifício necessário, dando assim fim à necessidade de sacrifícios animais (Hb 10:1-12).

Cristo é o cordeiro que, à semelhança dos animais sobre quem a culpa era transferida, levou sobre ele o pecado do mundo (Jo 1:29). Daniel conhecia o livro de Isaías, que diz: ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados […] o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos (Is 53:5-6). Os pecados foram fechados e selados e colocados sobre ele, e ele os levou à cruz. Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (1 Pe 2:24). Cancelou o escrito de dívida que era contra nós, removeu-o e cravou-o na cruz (Cl 2:14). Jesus aniquilou, aboliu o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9:26). Jesus deu fim aos pecados e aos sacrifícios pelos pecados.

Naqueles dias, e naquele tempo, diz o SENHOR, buscar-se-á a iniquidade de Israel, e já não haverá; os pecados de Judá, mas não se acharão; porque perdoarei aos remanescentes que eu deixar (Jr 20:20).

Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança […] esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel […] Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei (Jr 31:31-34)


Expiar a iniquidade


O verbo KAPHAR é geralmente traduzido expiar, fazer reconciliação. Mas, basicamente, significa cobrir. O pecado é coberto com o sangue exigido pela justiça de Deus.

A cerimónia mais importante no calendário litúrgico de Israel era o Dia da Expiação (Yom Kippur), literalmente, o Dia de “cobrir”. Kippur vem do verbo KAPHAR. Naquele dia todos os pecados do ano de toda a congregação de Israel eram como que ajuntados e selados, e expiados (Lv 16:16, 17). Porque naquele dia se fará expiação (KAPHAR) por vós, para vos purificar; e sereis purificados de todos os vossos pecados perante o Senhor (Lv 16:30).

Naquele dia, dois bodes eram trazidos perante o Senhor. Um era o bode da oferta do pecado, que era morto para satisfazer a justiça de Deus. O outro era enviado para o deserto, levando sobre ele as iniquidades para longe, como sinal da remissão do pecado pela graça de Deus (Lv 16).

Naquele dia, e só naquele dia, o sumo-sacerdote entrava no Santo dos Santos, como figura e sombra de Jesus (Hb 8-10) que, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção (Hb 9:12).

O dia da crucificação de Jesus foi o último e verdadeiro Dia da Expiação. Jesus expiou a iniquidade, passando ele próprio pelo juízo em nosso lugar.

Não terá também passado despercebido a Daniel que era no Dia da Expiação que se soava a trombeta que inaugurava o ano do jubileu, o ano de libertação e de restituição, o ano aceitável do Senhor (Is 61).

Então no mês sétimo, aos dez do mês, farás passar a trombeta vibrante: no dia da expiação fareis passar a trombeta por toda a vossa terra. Santificareis o ano quinquagésimo, e proclamareis liberdade na terra a todos os seus moradores: ano de jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e cada um à sua família (Lv 25:9-10)

Trazer a justiça eterna


Israel aguardava um reino firmado mediante o juízo e a justiça (Is 9:7). Mas ninguém podia ser justificado perante Deus pelas obras da lei (Rm 3:19-10). E os sacrifícios traziam uma justiça imperfeita e temporária. Israel aguardava a justiça perfeita. Na cruz, Jesus expiou o pecado e o resultado foi a justiça eterna.

Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus … mediante a fé em Jesus Cristo … mediante a redenção que há em Cristo Jesus; a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente … (Rom 3:21-26).


Selar a visão e a profecia


A ideia de selar, fechar com selo (aqui é utilizado o verbo CHATTAM) pode ter várias implicações.

Um selo posto sobre um documento sanciona, confirma, autentica o que nele está escrito. A função da profecia e dos profetas era anunciar o Messias. Os profetas falaram, mas quando veio o filho, calaram-se; não havia mais necessidade de o anunciar (Hb 1:1). Foi o próprio Filho quem falou. A primeira vinda de Cristo, a sua morte e ressurreição foi a confirmação de tudo o que fora anteriormente predito. Cristo selou toda a visão e profecia; ele é o “sim e amem”, o selo de autenticação de toda a profecia. Em Cristo são cumpridas e confirmadas todas as promessas (2 Co 1:20).

Eis que subimos para Jerusalém e vai cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao filho do homem (Lc 18:31; ver também Lc 24:44; At 3:18)

Todos os profetas e a lei profetizaram até João, a partir de então é anunciado o evangelho, isto é: as boas novas (Mt 11:13; Lc 16:16). Com Jesus, tinha chegado a plenitude dos tempos (Gl 4:4), que Paulo também chamou os fins dos séculos (1 Co 10:11).


Nas Escrituras, o verbo “selar” é usado noutras ocasiões para indicar que algo é fechado de maneira que não pode ser visto ou compreendido (Is 29:11).

Toda a visão já se vos tornou como as palavras dum livro selado, que se dá ao que sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele responde: Não posso, porque está selado; e dá-se o livro ao que não sabe ler, dizendo: Lê isto, peço-te; e ele responde: Não sei ler (Is 29:11-12).

O pecado tornou os judeus cegos à compreensão da mensagem dos profetas e do próprio Jesus. Jesus disse dos seus contemporâneos (Mt 13:14,15; Jo 12:39-40) que neles se cumpriu a profecia de Isaías (Is 6:9-13).

Vai, e diz a este povo: Ouvi, ouvi, e não entendais; vede, vede, mas não percebais. Torna insensível o coração deste povo, endurece-lhe os ouvidos, e fecha-lhes os olhos, para que não venha ele a ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos, e a entender com o coração, e se converta e seja salvo.

Então disse eu: Até quando, Senhor? Ele respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, as casas fiquem sem moradores, e a terra seja de todo assolada, e o Senhor afaste dela os homens e no meio da terra seja grande o desamparo. Mas se ainda ficar a décima parte dela tornará a ser destruída. Como terebinto e como carvalho, dos quais, depois de derrubados, ainda fica o toco, assim a santa semente é o seu toco (Is 6:9-13)

Esta profecia de Isaías é esclarecedora. Ela alia o tema da profecia de Daniel à situação em que os judeus se encontravam no primeiro ano de Ciro, para dali tirar uma ilação. Jerusalém tinha sido destruída por Nabucodonosor, mas uma parte fiel permaneceu e recebeu uma nova oportunidade (regresso à terra), que desta vez os conduziria até à vinda do Messias. Mas como o pecado se iria repetir novamente, a terra seria novamente destruída. E não o compreenderam.

Ungir o santo dos santos


O templo (a casa de Deus) era a habitação de Deus, o sinal da presença de Deus no meio do seu povo, como testemunho da sua aliança. Na história de Israel, duas casas de Deus já haviam sido edificadas e posteriormente destruídas: o tabernáculo e o templo de Salomão, porque Israel quebrara a aliança. Dentro em breve, uma nova casa seria edificada por Zorobabel (ver o livro de Esdras). E, dentro de 70 semanas, o santo dos santos seria ungido. Que significa isto?

O santo dos santos era o lugar onde se encontrava a arca, que simbolizava a presença e o trono do Senhor. O propósito da unção (ungir) é dedicação e consagração, para ser santo (separado) para o Senhor. Nas estipulações da lei (Ex 40:9), o tabernáculo com o santo dos santos devia ser ungido para ser consagrado.

Mas o santo dos santos que seria consagrado dentre de 490 anos da profecia não seria outro templo de pedra.

Jesus era, ele próprio, o templo. Sim, porque ele veio como Emanuel, Deus connosco, presença de Deus entre os homens. Jesus disse de si próprio que ele era o templo. No dia do seu batismo, à semelhança dos sacerdotes, Jesus foi ungido e consagrado para o ministério. Depois destruíram o santuário (do seu corpo) e em três dias ele o reconstruiu (Jo 2:19-21).

Depois de ressuscitado e de ascender ao céu, enviou o Espírito Santo para ungir a Igreja representativamente nos discípulos no dia de Pentecostes, ungindo assim o templo espiritual da Nova Aliança (Atos 2:1-4, 17), formado por Cristo e a sua Igreja, o seu povo, o Novo Israel.

Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus, que também nos selou e nos deu o penhor do Espírito em nossos corações (2 Cor 1:21-22).

A presença do Espírito em nós faz de nós “templo de Deus”, habitação de Deus no Espírito (Ef 2:19-22). Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? (1 Co 3:16; e também 6:19).

O templo espiritual da Nova Aliança é o verdadeiro e último templo, que não está nem em Jerusalém, nem em Samaria ou em Roma, mas está onde estão os verdadeiros adoradores que o adoram em espírito e em verdade (Jo 4:21-24). Este é o verdadeiro “santo dos santos”.


Daniel não podia compreender em toda a sua plenitude tudo o que a profecia implicava, o significado do “verdadeiro santo dos santos”. Mesmo os discípulos de Jesus só começaram a entender a nova realidade depois da sua morte. E se nós hoje podemos compreender a realidade deste templo espiritual, porque há tantos ainda à espera de um templo de pedra reconstruído em Jerusalém??! Não há maior graça que Deus nos pode conceder do que habitar em nós.

Tudo neste versículo 24 – que é de uma riqueza extraordinária, que aqui só tocámos ao de leve – aponta para a obra de Jesus Cristo e, finalmente, para a Nova Aliança com o seu novo templo, a Igreja de Cristo. Os seis propósitos que deviam ser cumpridos no quadro da septuagésima semana estão todos relacionados uns com os outros e cumpridos em Jesus, o Messias. É este significado messiânico que não podemos de maneira alguma perder de visto quando avançamos para a interpretação dos restantes versículos!




[1] Na Bíblia hebraica, os escribas não alteravam o texto quando achavam que uma palavra tinha sido copiada incorrectamente, mas anotavam na margem o que consideravam ser correcto. Esta variante anotada chama-se KHETIV.

14/08/2015

A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (2) – o jubileu messiânico


Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade para … (Dn 9:24)

A palavra “semana” (shabua) em hebraico pode representar uma semana de dias ou uma semana de anos. Génesis 29:27-28 é um exemplo onde o termo é usado para indicar sete anos. De modo semelhante, frequentemente, dias simbolizam anos (por exemplo: Nm 14:34, Ez 4:6).

Setenta semanas de dias são 490 dias, enquanto setenta semanas de anos totalizam 490 (70 x 7 anos = 490) anos. Em atenção ao contexto e aos acontecimentos profetizados, concluímos tratar-se de semanas de anos, se considerados literalmente.

A estrutura 70 x 7 já estava presente no tempo de duração das assolações de Jerusalém. 70 anos de descanso da terra, um ano por cada sábado (ciclo de 7 anos) da terra não guardado (Lv 26:34; 43; 2 Cr 36:21), equivalem a 70 ciclos sabáticos de 7 anos = 490 anos. O mesmo padrão sabático aparece agora na resposta trazida pelo anjo Gabriel. Tendo o exílio chegado ao fim, ainda havia 70 semanas (70 x 7= 490 anos) para cumprir os desígnios de Deus como se encontram resumidos no v.24.

Certamente que Daniel percebeu muito bem o significado destes símbolos e números, que eram tão fundamentais nos termos da aliança entre Deus e Israel. O sábado fora por Deus instituído como sinal da aliança (Ex 31:13-17; Ez 20:12, 20) por Ele ter libertado o povo que estava escravizado no Egipto e se ter tornado seu Deus. E, à imagem do dia de descanso do Criador a seguir aos 6 dias da obra de criação, o sábado funciona também como símbolo profético de uma obra consumada e, portanto, como sinal da era messiânica de libertação redentora, restituição e descanso.

Para Daniel, a profecia era claramente messiânica. Ela dizia respeito à aliança de Deus com Israel e, especialmente, à consumação da aliança. Nós sabemos que Jesus iniciou o que podíamos chamar de era messiânica. Eumpriu a obra que tinha para fazer e disse: Está consumado (Jo19:28-30). Como é que Daniel entendeu o número 70 da profecia?


Jubileu


Numa mensagem anterior, já vimos que um período de seis anos de trabalho da terra era coroado com um sétimo ano sabático. Um período de sete vezes sete anos, ou seja 7 semanas ou 49 anos, era coroado com um ano de jubileu, o quinquagésimo ano. Este quinquagésimo ano era, por sua vez, o primeiro ano de um novo ciclo de 49 anos.

Também contarás sete semanas[1] de anos, sete vezes sete anos, de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos […] E santificareis o ano quinquagésimo e apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de Jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e tornareis, cada um à sua família. O ano quinquagésimo vos será jubileu, não semeareis, nem segareis o que nele nascer de si mesmo, nem nele vindimareis as uvas das vidas não tratadas. Porque jubileu é, santo será para vós, a novidade do campo comereis. Neste ano de jubileu, tornareis cada um à sua possessão (Lv 25:8-13).

Quais são as características de um jubileu? Além de constituir um adicional ano de descanso para a terra, a seguir ao ano sabático normal, está associado a duas coisas: a restituição da terra e a libertação pessoal.

Depois da conquista de Canaã, a terra fora dividida por Josué entre as doze tribos de Israel. A terra podia ser vendida, mas não em perpetuidade. Se alguém vendesse a sua parte da terra, esta dever-lhe-ia ser restituída, ou senão devia ser resgatada, no ano do jubileu, para que a terra não ficasse alienada para sempre do seu proprietário. No ano do jubileu, a terra era restituída ao seu proprietário original.

A terra de Canaã, prometida a Israel, é uma figura terrena do Reino de Deus. Pela obra de Jesus na cruz, a terra – cujo domínio Adão perdeu – é resgatada e restituída àquele que tem o direito de possui-la e reinar sobre ela, o Filho do homem, Jesus, como segundo Adão, e seu corpo, a Igreja.

O conceito do jubileu aplicava-se de maneira semelhante às pessoas (Lv 26:35-55). No ano do jubileu era apregoado liberdade aos moradores na terra. Cada um voltaria à sua possessão, e à sua família. Se alguém empobrecesse e se vendesse, ou se oferecesse a alguém para trabalhar como servo ou escravo por não ter meios de subsistência, no ano do jubileu devia ser resgatado e libertado. O interveniente neste processo de libertação e resgate era o Go’el, ou Redentor (ver a história de Rute), figura de Cristo.

O aspeto da libertação pessoal prefigura a salvação e libertação trazida por Jesus Cristo, a libertação da lei do pecado e da morte (Rm 8:2), a liberdade do Espírito (2 Co 3:17, Gl 2:4), a libertação do império das trevas (Cl 1:13), a liberdade que vem pelo conhecimento da verdade (Jo 8:32).

No tempo da Velha Aliança, o cumprimento literal do jubileu, tal como o do sábado, era importante. Demonstrava a fé que tinham (ou não) em Deus. Um episódio relatado em Jeremias 34 retrata a importância do jubileu. O cerco de Nabucodonosor a Jerusalém, e o exílio do rei Joaquim e de muitas pessoas para Babilónia, assustou grandemente o rei Zedequias e o povo, pelo que fizeram uma aliança para dar a liberdade (um jubileu) aos seus servos hebreus. Os príncipes despediram forro os seus servos. Mas quando Nabucodonosor levantou o cerco e se retirou para ir pelejar contra o Egipto, os ricos sentiram-se aliviados e voltaram a sujeitar os servos libertados. Desfizeram o jubileu e a aliança a que se tinham comprometido. Isto fez com que Deus deu ordem para o exército do rei da Babilónia voltar para Jerusalém e a queimar a fogo (Jr 34:21-22).

70 semanas, consideradas na sua totalidade, são 10 vezes 7 semanas. São 10 jubileus. O número 10 na Bíblia indica algo que é completo e perfeito no sentido de plenitude quantitativa. 10 representa a totalidade. 10 jubileus são todos os jubileus necessários até à perfeita libertação. 10 jubileus apontam para o último e perfeito jubileu, o jubileu messiânico. Exatamente 10 vezes 49 anos era o tempo que os judeus teriam de esperar, desde a ordem de saída para edificar Jerusalém, até que viesse o Messias, que viria proclamar a verdadeira liberdade aos cativos e oprimidos, e anunciar o “ano aceitável do Senhor” (Is 42:7: 61:1-2). Na sinagoga de Cafarnaum, no princípio do seu ministério, terminando a leitura em Isaías 61, Jesus disse: Hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir (Lc 4:17-21).

O preço do resgate, tanto da terra como das pessoas, era calculado segundo o número de anos desde o último jubileu (Lv 25:15-16; 50-52). Quanto mais anos, maior o preço a pagar. O preço que Jesus pagou para o nosso resgate foi o mais alto: a sua própria vida.

Esta profecia de Daniel é, sem a menor dúvida, uma profecia messiânica. O foco da profecia é o Messias (= o Ungido). A sua vinda era a razão de ser de toda a esperança judaica, de todo o plano de Deus para a redenção, não só do povo de Israel mas de toda a humanidade (todas as nações, todas as famílias da terra). E o enquadramento temporal revelado a Daniel demarcava o período em que se havia de cumprir a redenção messiânica.


O anjo Gabriel


O anjo Gabriel é outra testemunha do significado messiânico da profecia das Setenta Semanas, por ser ele especificamente o anjo mensageiro do Messias. No Velho Testamento, só aparece duas vezes, e ambas as vezes a Daniel.

No Novo Testamento, Gabriel também aparece duas vezes. A primeira vez a Zacarias e a segunda, a Maria. Ao sacerdote Zacarias (Lc 1:11-22), anuncia que vai ter um filho e esse filho irá adiante do Messias, no espírito e poder de Eliaspara habilitar para o Senhor um povo preparado (Lc 1:17). João Baptista foi o predecessor de Jesus e veio como testemunha, a fim de que ele [Jesus] fosse manifestado a Israel (Jo 1:31). A mensagem de Gabriel para Zacarias era messiânica, sem dúvida. E mais, identificando-se com a resposta «Eu sou Gabriel» (Lc 1:19), quando Zacarias duvidou e perguntou «Como saberei isto?», o anjo estabeleceu uma associação direta com a profecia messiânica que ele deu ao profeta Daniel.

A Maria, Gabriel diz que ela conceberá um filho que deverá chamá-lo pelo nome de Jesus. Jesus vem da raiz yasha, que significa salvar. É o anúncio do Salvador que todo o Israel esperava. É lhe também dito que o filho receberá o trono de David e que reinará para sempre. O anjo veio anunciar o nascimento do Messias, o Ungido (Lc 1:26-38)!

Zacarias e Maria perceberam que o tempo determinado pelo anjo Gabriel na profecia de Daniel estava agora a chegar muito perto do seu término.




[1] A palavra usada aqui no hebraico não é shabua, mas shabbath (que vem da mesma raiz) e que significa descanso.

11/08/2015

A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (1) - a oração de Daniel

Antes de entrarmos na análise da questão cronológica associada à profecia de Daniel, convém compreender de que fala esta profecia e que indicações cronológicas fornece.

A profecia (Dn 9:23-27) veio em resposta à oração de Daniel, no primeiro ano de Dario o medo (que numa mensagem anterior identificámos como sendo a mesma pessoa que Ciro), quando ele recordou os termos em que Jeremias escrevera aos exilados no princípio do reinado de Zedequias, a seguir à deportação do rei Joaquim:
Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos, atentarei para vós e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar […] Então me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o Senhor, e farei mudar a vossa sorte; congregar-vos-ei de todas as nações, e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio (Jr 29:10-14).


A oração da aliança
Israel estava no exílio porque quebrara a aliança com Deus. O que lhe sobreveio estava previsto nas maldições da lei (Lv 26; Dt 28:15-68). Daniel confessa-o: Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se, para não obedecer à tua voz; por isso a maldição e imprecações que estão escritas na lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós; porque temos pecado contra ele (Dn 9:11).

O último e maior castigo era perecerem da terra e serem espalhados pelas nações, quando o pecado se tivesse acumulado do tal maneira que mais nada havia a fazer. Mas não importava para onde tivessem sido desterrados: de lá buscareis ao Senhor teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para o Senhor teu Deus, e lhe atenderes a voz, então o Senhor teu Deus não te desamparará, porquanto é Deus misericordioso, nem te destruirá, nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais (Dt 4:29-31).

Daniel busca a Deus; confessa o seu pecado e o do seu povo; admite que fizeram mal, que não obedeceram a Deus; e aceita o castigo, que considera justo: Por isso, o SENHOR cuidou em trazer sobre nós o mal, e o fez vir sobre nós; pois justo é o SENHOR, nosso Deus, em todas as suas obras, que fez, pois não obedecemos à sua voz (Dn 9:14).

A oração que Daniel fez (Dn 9:3-19) é uma oração que está em conformidade com Levítico 26:40-43:

Mas se confessarem a sua iniquidade, e a iniquidade de seus pais, na infidelidade que cometeram contra mim; como também que andaram contrariamente para comigo, pelo que também fui contrário a eles, e os fiz entrar na terra dos seus inimigos;

Se o seu coração incircunciso se humilhar, e tomarem eles por bem o castigo da sua iniquidade, então me lembrarei da minha aliança com Jacob, e também da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão, e da terra me lembrarei.

Mas a terra na sua assolação, deixada por eles, folgará nos seus sábados; e tomarão eles por bem o castigo da sua iniquidade, visto que rejeitaram os meus juízos e a sua alma se aborreceu dos meus estatutos.

Mesmo assim, estando eles na terra dos seus inimigos, não os rejeitarei nem me aborrecerei deles, para consumi-los e invalidar a minha aliança com eles, porque eu sou o SENHOR seu Deus. Antes por amor deles me lembrarei da aliança com os seus antepassados, que tirei do Egipto à vista das nações, para lhes ser por Deus: Eu sou o SENHOR (Lv 26:40-45).

Este tipo de oração é chamado uma oração Todah[1], e é um pré-requisito para Deus renovar a sua aliança e restaurar as bênçãos: Então me lembrarei da minha aliança.
É à aliança que Daniel faz apelo no princípio da sua oração: Ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos (Dn 9:4).

A aliança é o cerne da oração de Daniel, porque são as alianças que regem o relacionamento entre Deus e os homens. Era a aliança que fez de Israel povo peculiar de Deus de entre todos os povos (Ex 19:5). Era pela aliança que Deus era o seu Senhor e habitava no meio deles.

Mas é Deus, como Criador e Senhor, que estabelece os termos e condições da aliança. Todas as alianças de Deus contêm uma promessa, mas também contêm mandamentos. Uma aliança pressupõe lealdade e fidelidade de ambas as partes. Deus cumpre a sua promessa; o homem obedece aos mandamentos.

Efésios 2:12 fala das alianças da promessa. Qual é a promessa? A promessa foi dada, logo após a queda do homem, em Génesis 3:15. É a promessa de um Redentor. A promessa é garantida através da fidelidade e obediência às condições (mandamentos) da aliança.

Basicamente, há apenas duas alianças: a aliança com Adão e a aliança com Cristo, o segundo Adão. A promessa era: Tenha ele domínio (Gn 1:26). E o mandamento era cultivar e guardar o jardim, onde estava uma árvore da qual não podia comer (Gn 2:15-17). Mas o primeiro homem falhou em guardar a santidade do jardim, deixando entrar a corrupção. Não foi fiel à aliança. A quebra da aliança pelo primeiro homem afetou toda a humanidade. O segundo Adão veio para reconquistar o que o primeiro perdeu. A vinda e vitória do segundo Adão é a promessa contida em Génesis 3:15. Todas as alianças posteriores, com os patriarcas e com a nação de Israel, foram feitas para assegurar a realização da promessa, que foi cumprida por Jesus, o segundo Adão.

A Abraão, Deus prometeu que na sua descendência/semente estaria a bênção para todas as nações da terra (isto é: toda a humanidade afetada pelo pecado de Adão). Bênção é o oposto da maldição a que a criação ficou sujeita depois do pecado de Adão. Bênção é a restauração das condições do Éden. A promessa feita por Deus a Abraão ficou segura pela fé. Abraão creu e isto lhe foi imputado como justiça.

É a aliança com Abraão que estabeleceu os fundamentos de Israel.

A aliança do Sinai, que veio muito tempo depois, estabeleceu Israel como reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19:6). Enquanto propriedade particular e povo sacerdotal de Deus, Israel devia dar o exemplo, refletir o nome de Deus, ser o modelo para as outras nações (Dt 28: 9-10; 2 Sm 7:23). Isto implicava a obediência e fidelidade a determinadas regras e condições. Estas condições estavam estipuladas nos mandamentos da Lei (de Moisés). Obediência trazia bênção, desobediência maldição. As bênçãos refletem a condição ideal do Éden.

Na aliança do Sinai, o sumo-sacerdote, como representante do povo, era o “segundo outorgante” da aliança, uma figura de Cristo com quem a última (nova) aliança havia de ser feita. Mas, à semelhança de Adão, os sacerdotes falharam na sua missão de guardar a santidade do santuário e do povo. O copo do pecado transbordou no tempo dos filhos de Eli (1 Sm 2:12-36). As abominações cometidas por eles no tabernáculo e no serviço do Senhor fizeram com que a arca fosse tomada pelos filisteus (1 Sm 4). O próprio Deus foi como que em cativeiro.

A incapacidade de Israel cumprir a lei obrigava a que se renovasse constantemente a aliança. O homem podia não ser fiel, mas Deus é fiel e cumpre a sua promessa. Assim, quando Israel quebrava a aliança, a aliança era renovada com o “remanescente fiel”.

A aliança de Deus com Israel foi renovada na pessoa de David, homem segundo o coração de Deus (2 Sm 7). Porém, também os descendentes de David no trono de Israel, a começar com Salomão, quebraram a lei de Deus. Do último rei (legal) Joaquim/Jeconias, o Senhor disse: Registai este como se não tivera filhos; homem que não prosperará nos seus dias, e nenhum dos seus filhos prosperará, para se assentar no trono de David, e ainda reinar em Judá (Jr 22:30). Mais nenhum descendente de Joaquim se sentaria no trono de Israel (Zedequias não era filho, mas tio de Joaquim, e só obteve o trono porque Nabucodonosor o colocou lá).

Israel falhara na sua missão sacerdotal. Acumulou pecado sobre pecado e as piores maldições acabaram por cair sobre a nação. Deus usou Nabucodonosor para executar os seus juízos. Ele invadiu Jerusalém, queimou-a e arrasou o templo. O povo foi levado para o exílio e espalhado pelas nações.

Esta era a situação dramática em que Daniel e seu povo se encontravam. Estava agora tudo perdido? O que era feito da aliança? O que era feito das promessas de Deus? Daniel percebeu que era necessário outra vez renovar a aliança, e é disso que ele lembra ao Senhor.

Anos antes, ainda Nabucodonosor estava às portas de Jerusalém, Deus prometera uma nova aliança. Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá … Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei … não ensinará jamais cada um ao seu próximo … porque todos me conhecerão (Jr 31:31-34). A referência a este versículo em Hb 8:8-11 indica que esta promessa aponta para a nova aliança em Jesus. Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei (Jr 31:34) aponta para a cruz.

Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias (Jr 31:33; Hb 10:16), isto é, depois dos dias que Israel passaria debaixo da governação gentia, que duraria quatro impérios (Babilónia, Pérsia, Grécia e Roma).

A oração de Daniel era para que Deus se lembrasse da sua promessa, incluída na nova aliança que vinha sendo anunciada ainda antes da queda de Jerusalém às mãos da Babilónia. A profecia designada como a das “Setenta Semanas” é a resposta de Deus ao pedido de Daniel e à oração Todah de confissão e arrependimento. A mensagem do anjo é a confirmação da promessa da Nova Aliança, na vinda do Ungido para cumprir a bênção de Abraão, expiando o pecado e trazendo a justiça eterna. A profecia confirma a renovação da aliança por mais 70 semanas (490 anos) até à manifestação do Ungido, que confirmará a aliança na sua morte, no seu sangue.


A cidade e o santuário

Depois de apelar à aliança, confessar o pecado do seu povo e reconhecer a justiça de Deus, Daniel intercede especificamente pela cidade de Jerusalém e pela casa de Deus que estavam em ruínas à vista de todas as nações em redor.

Aparte-se a tua ira e o teu furor da tua cidade de Jerusalém, do teu santo monte … e sobre o teu santuário assolado faz resplandecer o teu rosto (Dn 9:16-17).

A desolação de Jerusalém era motivo de profunda tristeza (ver Lamentações de Jeremias). Qual era o significado e a importância da cidade e do templo para Israel, por estes estarem no âmago das preocupações de Daniel?
Quando Israel saiu do Egipto, Deus disse: E me farão um santuário para que eu possa habitar no meio deles (Ex 25:8), e mostrou a Moisés o modelo do tabernáculo a ser levantado. O tabernáculo era erguido no meio do acampamento, no meio do povo, e ia adiante de Israel em todas as suas caminhadas.

O tabernáculo, e mais tarde o templo, era a habitação de Deus no meio do seu povo. Não que Deus morasse em casas construídas por homens (1Rs 8:27), mas o templo simbolizava a presença de Deus, como testemunho da aliança entre Ele e o povo.

No tempo dos Juízes, quando os filhos de Eli conspurcaram o templo e fizeram ofensa ao nome do Senhor do templo (1Sm 2), vieram os filisteus contra Israel. Israel perdeu a batalha e os filisteus tomaram a arca, que foi para o cativeiro. Deus sobremodo se aborreceu de Israel. Por isso abandonou o tabernáculo de Silo, a tenda da sua morada entre os homens, e passou a arca da sua força ao cativeiro, e a sua glória, à mão do adversário (Sl 78:59-60). Deus é Santo. Não havendo santidade na casa da sua habitação, Deus não podia lá ficar, para não deixar mal o seu nome. A arca, o objeto central e mais importante no Santo dos Santos, representava o trono de Deus[2].

Depois daquele episódio, a arca da presença de Deus nunca mais voltou ao tabernáculo. Mais tarde, não sabemos quando, o tabernáculo foi destruído (Jr 7:12-14; 26:6, 9). Passados sete meses entre os filisteus, a arca foi devolvida a Israel e ficou na casa de Abinadabe durante muitos anos, até David a querer levar para Jerusalém. Depois da tentativa falhada de David, a arca ainda ficou três meses em casa de Obede-Edom antes de ser introduzida na tenda que armou para ela em Jerusalém (2Sm 6).

Quando Israel passasse o Jordão e entrasse na terra prometida, tinham que buscar o lugar que o Senhor escolheria para ali pôr o seu nome e a sua habitação (Dt 12:5-14). A aliança renovada com David implicava uma nova casa, uma nova habitação, como testemunho da aliança e símbolo da presença de Deus. Esta casa havia de estar em Jerusalém e seria o lugar onde ofereceriam os holocaustos, sacrifícios, dízimos e ofertas. Lá comereis perante o Senhor vosso Deus, e vos alegrareis em tudo em que puserdes a vossa mão, vós e as vossas casas, no que vos tiver abençoado o Senhor vosso Deus (Dt 12:7).

Mas este lugar só existiria depois de habitarem na terra e terem alcançado descanso dos seus inimigos (Dt 12:10-12). Por isso o templo não foi edificado por David (embora este preparasse o plano e todos os materiais), mas por Salomão. Foi construído quando a terra estava em descanso (1 Rs 8:56). David conquistara toda a terra conforme prometido a Abraão e Josué, até ao Eufrates (Gn 15:18; Dt 1:17; 11:24; Js 1:4; 2 Cr 9:26). Assim o templo está associado, não somente com a presença de Deus no meio do seu povo, mas também com a posse da terra. Passareis o Jordão, e habitareis na terra que vos fará herdar o Senhor vosso Deus; e vos dará descanso de todos os vossos inimigos em redor, e morareis seguros. Então haverá um lugar que escolherá o Senhor vosso Deus, para ali fazer habitar o seu nome (Dt 12:10-11).

E o Senhor avisou a Salomão: Se vos desviardes, e deixardes os meus estatutos e os meus mandamentos, que vos prescrevi, e fordes e servirdes a outros deuses, e os adorardes, então vos arrancarei da minha terra que vos dei, e esta casa, que santifiquei ao meu nome, lançarei longe da minha presença e a tornarei em provérbio e motejo entre todos os povos (2 Cr 7:19-20; 1 Rs 9:6-8).

Deste modo podemos ligar o templo ao sábado. O sábado (descanso) era o sinal da aliança através do qual era provada a fidelidade do vassalo. Não guardar o sábado é não respeitar o repouso. O templo é construído a seguir ao repouso. Portanto, sem repouso, não há templo/presença de Deus. Israel era constantemente acusado de não guardar o sábado. E foi a falta de guardar o sábado que lhes valeu 70 anos de cativeiro.

Os reis da linhagem de Salomão não foram fiéis à aliança davídica. Pouco a pouco foram perdendo os domínios conquistados por David. Pouco a pouco os tesouros do templo foram entregues ao inimigo, como tributo ou pagamento de proteção, porque não confiavam na força do seu Deus. Também os sacerdotes não foram fiéis à aliança. Ezequiel (capítulos 8 a 11) descreve como os próprios sacerdotes cometiam abominações no meio do templo e como, em consequência disto, a glória do Senhor se retirou do santuário, saiu do templo e, a seguir, saiu da cidade. A glória do Senhor passou a estar com os exilados na Babilónia (Ez 1:28; 3:23), onde Deus tinha enviado o seu povo para preservação da vida.

Era grande vergonha para Israel, Deus abandonar e destruir o seu templo à vista de todas as nações (Dn 9:16). Era vital para Israel que Deus retirasse a sua ira de sobre a cidade. Significava misericórdia e benevolência de Deus para com Israel. Embora a glória de Deus estivesse com o seu povo no exílio, eles não deixavam de ver Jerusalém como o lugar que Deus escolheu para ali fazer habitar o seu nome, porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome (Dn 9:19).

Por isso, a cidade e o templo constituíam a grande preocupação de Daniel.

Estando Daniel ainda a orar, apareceu-lhe o anjo Gabriel. As palavras faladas pelo anjo são a resposta à oração de súplicas de Daniel.

No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado, considera, pois, a coisa e entende a visão (Dn 9:23).

No princípio das suas súplicas pela restauração da cidade, do templo e do povo, saíra a palavra (dabhar, traduzido ordem) de Deus. Saíra a ordem (dabhar) para restaurar e edificar Jerusalém (v.25). E o anjo fora enviado para lho explicar. A resposta do anjo tratará, portanto, da restauração acerca da qual Daniel tinha estado a orar.

Através das palavras do anjo, Deus deu descanso e esperança a Daniel, tal como aconteceu com Jeremias anos antes, quando Deus lhe dissera para efetuar a escritura de compra de um terreno na hora em que a cidade estava a ser sitiada por Nabucodonosor. Eis que eu os congregarei de todas as terras, para onde os lancei na minha ira, no meu furor e na minha grande indignação; tornarei a trazê-los a este lugar, e farei que nele habitem seguramente (Jr 32:37). Agora Deus responde a Daniel, confirmando que o seu povo voltaria à sua terra e que o templo e a cidade seriam reedificados, embora isto acontecesse em tempos angustiosos (Dn 9:25).

Sabe, e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas: as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos (Dn 9:25).




[1] Desenvolvimento da oração Todah em Meredith G. Kline. The Covenant of the Seventieth Week. The Law and the Prophets. (1974), pp. 452-469.
[2] Artigo de Peter J. Leithart, The Holy City Revisited, Biblical Horizons nº 59 (1994).

08/08/2015

O DECRETO DE CIRO (1)

1) O decreto de Ciro constitui o ponto de transição entre o fim do domínio babilónico e a libertação do cativeiro e, simultaneamente, o começo de um novo período na existência nacional de Israel, já não como nação soberana e independente, mas como um povo unido pela sua religião debaixo da governação de um rei gentio.

O decreto de Ciro foi o decreto que veio em cumprimento das profecias de Jeremias. Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos atentarei para vós, escreveu Jeremias de Jerusalém aos exilados na Babilónia (Jr 29:10). Isto significava que quando chegasse o fim do domínio babilónico, terminaria o cativeiro dos judeus e o povo poderia voltar para casa (Jr 25:8-12). Foi um decreto de liberdade.

2 Crónicas 36:21-23 estabelece claramente esta transição:

… para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da desolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram.
Porém, no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias), despertou o SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá; quem, dentre vós é de todo o seu povo, que suba, e o SENHOR, seu Deus, seja com ele.”
O livro de Esdras, que continua a narração histórica de 2 Crónicas, abre com o decreto de Ciro. É este decreto que desencadeou a grande viragem na história do povo judeu após o cativeiro na Babilónia, e que inicia o tempo da restauração de Israel. Os livros de Esdras e Neemias relatam o regresso a Jerusalém e a reedificação do templo, da cidade e dos muros no meio de feroz oposição.

2) O decreto de Ciro no seu primeiro ano, aliado ao reconhecimento que Dario o medo e Ciro são a mesma pessoa (ver mensagem anterior – Dario o medo), constitui a única data AH (Anno Hominis) que permite uma verificação bíblica interna. Se Dario o medo e Ciro são duas pessoas diferentes, não há nenhuma indicação na Bíblica que nos diz quantos anos reinou esse Dario. E as datas oferecidas pela cronologia consensual inviabilizam a duração bíblica, ou dos 70 anos do cativeiro, ou do domínio babilónico. Mas, se Dario é Ciro, o primeiro ano de Dario/Ciro é o fim dos 70 anos de domínio babilónico e, ao mesmo tempo, temos uma data precisa para o seu decreto e o regresso do povo.


3) Na opinião de muitos, e é também a minha convicção, o decreto de Ciro é igualmente o ponto de partida da profecia das 70 semanas de Daniel - a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém (Dn 9:25).
Defendo também que as primeiras 7 semanas (49 anos) desta profecia terminam com a dedicação dos muros de Jerusalém no livro de Neemias. Os eventos descritos e a informação cronológica fornecida nos livros de Esdras, Neemias, Ester, Ageu e Zacarias permitem uma verificação bíblica interna da cronologia dos acontecimentos.

Se podermos demonstrar a viabilidade desta tese, é derrubada a principal alternativa ao decreto de Ciro, que é o decreto de Artaxerxes Longimanos (alegadamente o que autorizou Neemias a ir a Jerusalém para a edificar), cuja principal vantagem é de enquadrar-se mais ou menos perfeitamente na cronologia consensual. A sua desvantagem é que requer dados externos para justificá-la.


4) Por outro lado, se assumirmos que o decreto de Ciro é o ponto de partida das 70 semanas da profecia de Daniel, deparamos com um problema sério.
A profecia das Setenta Semanas prevê um determinado tempo – 7 semanas e 62 semanas e 1 semana - desde um ponto até outro ponto definido na história. A duração efetiva deste tempo apresenta, contudo, um problema. Entre a cronologia bíblica apresentada por Daniel e a cronologia secular utilizada por todos os historiadores, quer seculares quer cristãos, existe um desfasamento.

Com base na cronologia secular, o decreto de Ciro é datado por volta do ano 536 a.C.. Segundo a profecia são 7 e 62 semanas (483 anos) até à manifestação do Ungido, que foi no seu batismo. Subtraindo 483 anos, chegamos ao ano 53 a.C., pelo que faltam ainda perto de 80 anos para chegar ao batismo de Jesus por volta do ano 26 d.C. (assumindo que Jesus nasceu no ano 4 antes da nossa era). A cronologia secular apresenta assim um excesso de aproximadamente 80 anos em comparação com a cronologia das semanas de Daniel.

Desta discrepância resultou a questão que tem ocupado as mentes de muitos estudiosos: devem as 70 semanas de Daniel ser interpretadas como 490 anos literais ou trata-se de uma indicação de tempo com conotações meramente simbólicas? Ou há outro decreto que o de Ciro que indica o início das 70 semanas?

A procura de uma solução para este problema tem dado várias interpretações.
De todas estas questões trataremos em próximas mensagens.

Mas antes de aprofundarmos as dificuldades cronológicas associadas à profecia de Daniel, vamos analisar mais de perto de que fala esta profecia no capítulo 9 de Daniel.