A HISTÓRIA DOS 4 REINOS
O período que podemos designar como “os
tempos dos gentios” começou quando Deus deu o reino a Nabucodonosor. Daniel
di-lo claramente quando interpretou o sonho da estátua (Dn 2): Tu, ó rei, rei de reis, a quem o Deus do céu
conferiu o reino, o poder, a força e a glória (Dn 2:37). E anos antes
disso, antes que Judá caísse definitivamente nas mãos de Nabucodonosor,
Jeremias já há o havia anunciado (Jr 25:9-11).
As visões de Daniel
Como já vimos em anteriores mensagens,
o período que podemos identificar como as “setenta semanas” (Daniel 9) é uma
fase da história do povo de Israel que começa com o regresso do cativeiro na
Babilónia e termina na semana em que Jesus foi crucificado. Este período é
retratado, não apenas na profecia das “setenta semanas” do capítulo 9, mas em
todos os sonhos e visões registados no livro de Daniel (capítulos 2, 6, 7, 8, 9
e 10-12). Os outros livros que datam dessa mesma época – mais especificamente,
dos primeiros 49 anos a seguir ao fim do cativeiro – são os livros históricos
de Esdras, Neemias e Ester e os profetas Ageu, Zacarias e Malaquias.
Depois de Malaquias, o último profeta
do Velho Testamento, mais nenhuma voz profética se levantou em Israel até que
veio João Baptista. Este lapso de tempo durou mais de 400 anos e é
frequentemente chamado de “silêncio profético”. Portanto se vos fará noite sem visão, e tereis treva sem adivinhação;
pôr-se-á o sol sobre os profetas, e sobre eles se enegrecerá o dia (Mq
3:6).
No entanto, não é como se Deus tivesse
deixado em branco todos estes séculos. Os acontecimentos deste tempo de
“silêncio” que interessam à revelação de Deus estão documentados nas profecias
e visões de Daniel.
Grande parte dos escritos de Daniel,
bem que proféticos, têm um carácter predominantemente histórico. Aliás, no
cânon hebraico, o livro de Daniel não se encontra entre os profetas, mas entre
os livros históricos. As profecias de Daniel cobrem a história de Israel desde
o terceiro ano de Jeoaquim – ano em que um primeiro grupo de judeus foi exilado
para Babilónia, entre os quais Daniel –, até ao Messias e a inauguração do
reino de Deus, e a subsequente destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 da
nossa era.
O exílio na Babilónia
O livro de Jeremias é testemunha por
excelência dos últimos anos do período monárquico da nação de Israel precedendo
o exílio. Havia muitos anos que os profetas vinham anunciando o juízo de Deus
sobre Judá. Cerca de 140 anos antes, Israel (Samaria) – o reino irmão de Judá depois
da divisão que se seguiu ao reinado de Salomão – tinha sucumbido às invasões
assírias, porque “não andavam no caminho do Senhor” (2 Rs 17)[1].
Logo quando começou a ministrar como
jovem profeta, Jeremias alertava estar para breve a invasão, vinda do norte, de
exércitos de uma nação estrangeira. No Velho Testamento, vemos Deus usar com
frequência nações gentias como instrumento do seu juízo. Os caldeus da
Babilónia, tais como outros povos invasores, são sempre descritos como vindos
do norte, que é a direção simbólica de onde vem o juízo (Jr 1:14-15; 4:6-7;
6:1, 22; 10:22; 13:20; 20:4-5; 21:4-7; 25:9).
Durante o ministério de Jeremias em
Jerusalém, a situação de Judá chegara a um ponto sem retorno. Deus proibiu
mesmo ao profeta Jeremias de orar pelo povo (Jr 15:1-6; 16:15). A paciência de
Deus chegara a um limite.
No terceiro ano de Jeoaquim, rei de
Judá, Nabucodonosor veio a Jerusalém e sitiou a cidade. O Senhor entregou-lhe
nas mãos o rei e alguns dos utensílios do templo, que foram levados para
Babilónia (2 Cr 36:6-7). Nabucodonosor também levou um grupo de jovens
israelitas, de linhagem real e dos nobres, entre os quais se encontravam Daniel
e os seus amigos Sadraque, Mesaque e Abed-Nego, que foram educados na corte do
rei da Babilónia (Dn 1:1-4).
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Os últimos reis de Judá
(2 Rs 23; 2 Cr 36; Jr 22)
Josias
Jeoacaz (Salum) reinou 3 meses.
Jeoaquim (Eliaquim) reinou 11 anos.
Joaquim (Conias, Jeconias) reinou 3 meses.
Zedequias (Matatias) reinou 11 anos.
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Com a primeira incursão de
Nabucodonosor no tempo de Jeoaquim, Judá passou a ser uma espécie de
protectorado da Babilónia. Era Nabucodonosor que determinava quem ocupava o
trono de Judá. Depois de 11 anos de reinado, Jeoaquim foi sucedido por seu
filho Joaquim, que não agradou a Nabucodonosor, que o deportou para Babilónia e
o substituiu no trono em Jerusalém por Zedequias. Juntamente com o rei Joaquim,
foi deportada grande parte da população, principalmente da classe alta, bem
como os artífices e ferreiros, ou seja a mão-de-obra especializada, e os homens
de guerra (2 Rs 24:6-16; 2 Cr 36:8-10). Neste grupo encontrava-se Ezequiel, que
foi profeta entre os exilados de Judá na Babilónia. O profeta Jeremias escreveu
uma carta aos exilados (Jr 29) a dizer que eles edificassem casas e tivessem
uma vida normal na Babilónia, e que procurassem a paz da cidade para onde iam.
Durante o reinado de Zedequias, em
Jerusalém, Jeremias intensificava os seus avisos, aconselhando vivamente ao
rei, aos líderes da nação e ao povo, como também às nações em redor, de se
submeterem ao jugo da Babilónia (Jr 27:5-7; 38:2-3, 17-18). Isto lhes seria
para preservação da vida: Servi ao rei da
Babilónia, e vivereis (Jr 27:11, 12, 17). Mas a sua mensagem caiu em
ouvidos moucos. Em desobediência ao Senhor, Jerusalém opôs resistência.
O que aconteceu na corte de
Nabucodonosor, onde estavam Daniel e seus amigos, ocupando altos cargos no reino,
devia, contudo, ajudar a compreender os que ainda estavam em Judá que a submissão
a Nabucodonosor não era uma coisa má, mas um tempo em que seriam protegidos. Sabemos
que cartas circulavam (Jr 29; Jr 27:1-3; Jr 29:24-25). É bem possível que
Daniel tenha posto por escrito o sonho de Nabucodonosor (Dn 2) e a sua
interpretação e enviado por carta a Jerusalém. É provável que a história de
Sadraque, Mesaque e Abed-Nego na fornalha tenha chegado ao conhecimento do povo
em Jerusalém. O facto de Nabucodonosor ter feito um decreto que ninguém blasfemasse
a Deus e que fez prosperar os três amigos de Daniel (Dn 3:29-30) devia ser algo
que confirmasse o que Jeremias dizia. As visões reveladas a Daniel eram de
extrema importância para manter viva a esperança do povo judeu naquele tempo. O
texto do capítulo 4 de Daniel foi enviado pelo próprio rei Nabucodonosor a
todos os povos e nações, a glorificar a Deus. Deus estava trabalhando a converter
o império babilónico. Judeus fiéis estavam a governar a terra com um rei
convertido. Que desculpas tinham os que recusavam submeter-se a Nabucodonosor? A
sua rebelião era uma rejeição do seu próprio Deus e de seus profetas, Jeremias,
Ezequiel e Daniel.
Assim, onze anos depois do exílio do
rei Joaquim, a cidade de Jerusalém caiu definitivamente nas mãos de
Nabucodonosor, depois de um difícil cerco de três anos (Jr 39; Ez 33:21). A
cidade e o templo foram queimados (2 Cr 36:19-21). O que restava dos tesouros
do templo e quase todo o povo foram levados para o cativeiro. Apenas ficaram na
terra os mais pobres. Um judeu, Gedalias, foi nomeado governador de Judá (Jr
40:7-16; 2 Rs 25:22-26).
Israel encontrava-se naquela situação
porque transgredira a lei de Moisés. Em consequência, vieram sobre ele as suas
maldições. Antes de atravessar o Jordão e entrar na terra prometida, no
quadragésimo e último ano da travessia do deserto, a segunda geração de
israelitas fora chamada a ouvir os estatutos do Senhor (Dt 4:1-40; Dt 28:15-68;
30, 31, 32). A primeira geração tinha perecido toda, com exceção de Josué e
Calebe, por incredulidade. Guardar os estatutos do Senhor garantiria a posse
(Dt 4:1) e a permanência na terra (Dt 4:26, 40; Dt 30:18). Não os guardando (e
isto aconteceu como Moisés previu), pereceriam imediatamente da terra, seriam
destruídos, desarreigados e espalhados entre os povos (Dt 4:26-27). Isto
tornou-se realidade quando Nabucodonosor tomou Jerusalém e a destruiu, bem como
o templo, e levou o povo para o exílio, de onde se espalharam e estabeleceram comunidades
judaicas por todo o Império Neo-Babilónico.
Sim, todo o Israel transgrediu a tua
lei, desviando-se, para não obedecer à tua voz; por isso, a maldição, o
juramento que está escrito na Lei de Moisés, servo de Deus, se derramou sobre
nós; porque pecámos contra ele. E ele confirmou a sua palavra, que falou contra
nós e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande
mal; porquanto nunca debaixo de todo o céu aconteceu como em Jerusalém (oração
de Daniel em Dn 9:11-12).
A realidade política, religiosa e
espiritual de Judá mudou drasticamente. Como nação perdeu o seu território e
autonomia de governo. Passaram a ser um povo exilado, sem terra, unido apenas
pela religião.
Daniel, que estava no primeiro grupo de
judeus que fora deportado para Babilónia, presenciou o princípio da dominação
babilónica e viveu durante todo o tempo que durou este império na corte do rei,
como conselheiro e ministro com elevadas responsabilidades. Já numa idade
avançada, passados os 70 anos do cativeiro profetizados por Jeremias (Jr
25:8-12; 29:10), viveu também a transferência do poder para a Medo-Pérsia. A
última profecia de Daniel (capítulos 10 a 12) data do terceiro ano de Ciro, rei da
Pérsia, já depois do decreto que autorizara o regresso dos judeus à terra de
Israel.
Após a tomada da Babilónia pelos medos
e os persas, uma parte dos judeus[2]
voltou à sua terra com a autorização e ajuda de Ciro (Ed 1). Habitaram na terra, mas não a possuíram
no sentido de terem domínio, independência e autoridade política sobre o
território. Passaram a estar debaixo do governo de sucessivos impérios gentios.
Isto porque perderam o direito à terra. Anularam a aliança com Deus (Jr 31:32;
Is 63:10). Lamentando-se no exílio, achando que a terra devia continuar em sua
posse porque eram descendência de Abraão, Ezequiel esclareceu-os: Comeis a carne com sangue, levantais os
olhos para os vossos ídolos, e derramais sangue; porventura haveis de possuir a
terra? (Ez 33:24-26; 36:20; Is 63:18).
Pela
aliança do Sinai, Israel fora constituído reino de sacerdotes e nação santa (Ex
19:6). Enquanto povo sacerdotal de Deus, deviam dar o exemplo, ser o modelo
para as outras nações (Dt 28: 9-10; 2 Sam 7:23). Mas em vez disso,
conformaram-se com o mundo gentio e fizeram pior do que eles. Muitos foram
mortos, os restantes foram expulsos da sua terra, exilados para uma terra
estranha e dominados por outros povos. Perderam o trono e o reino terreno.
Israel falhara na sua missão de povo
sacerdotal, pelo que Deus entregou também todos os outros reinos e nações a
Nabucodonosor da Babilónia para que o servissem a ele, a seu filho e ao filho de seu filho, até que também chegue a vez
da sua própria terra, quando muitas nações e grandes reis o farão seu escravo
(Jr 27:5-7). A condição espiritual do povo de Deus reflete-se na condição dos
povos em redor.
Regressados
do exílio, Neemias diz assim:
Eis que hoje somos servos; e até na terra que deste a nossos pais, para
comerem o seu fruto e o seu bem, eis que somos servos nela. Seus abundantes
produtos são para os reis, que puseste sobre nós, por causa dos nossos pecados;
e segundo a sua vontade dominam sobre os nossos corpos e sobre o nosso gado;
estamos em grande angústia (Ne 9:36-37).
Conforme Daniel dissera a
Nabucodonosor, este era a quem Deus
conferiu o reino, o poder, a força e a glória; a cujas mãos foram entregues os
filhos dos homens, onde quer que eles habitem … para que dominasses sobre todos
eles (Dn 2:37-38). O mesmo é dito mais tarde de Ciro, o persa: o Senhor Deus dos céus me deu todos os
reinos da terra (2 Cr 36:23; Ed 1:2). O juízo sobre Israel veio na forma do
seu pecado. Desejaram ter um rei como tinham as outras nações (1 Sm 8:5);
adoraram os deuses pagãos, os Baalins e os Astarotes; fizeram alianças com
outras nações em vez de confiar na proteção do Senhor (2 Rs 16:7-8; 2 Cr
28:20-21).
A dominação gentia sobre Israel, que
durou todo o tempo desde a conquista de Judá por Babilónia até que veio o reino
de Deus pode ser chamado “o tempo dos gentios”. Os gentios dominariam até que
viesse a libertação definitiva, na pessoa do Ungido, o Renovo do Senhor, o novo
David.
[1] Devido às transgressões
de Salomão, o reino dividiu-se no princípio do reinado do seu filho, Roboão, em
dois reinos, Judá no sul e Israel no norte. O reino de Israel é também
identificado como Samaria, a sua capital, ou Efraim, a tribo maior. Costuma-se
dizer que o reino de Judá era formado por apenas duas tribos, Judá e Benjamim,
e Israel pelas restantes dez tribos. Isto não é correto. Também faziam parte de
Judá, as tribos de Simeão e de Levi. Em Génesis 49:5-8, Jacob profetizou que
Simeão e Levi, por causa da violência que fizeram para salvar a honra da sua
irmã Dina (Gn 34) seriam “divididos e espalhados em Israel”. Simeão não ocupou
um território próprio delimitado com fronteiras, como no caso das outras
tribos, mas foi absorvido no meio da tribo de Judá (ver a divisão da terra em
Josué 19:1-9). Geograficamente, Simeão vivia em Judá, passando portanto a fazer
parte de Judá. Levi, a tribo sacerdotal, não recebeu território algum, apenas
teve direito a cidades dentro dos territórios das outras tribos. Quando o reino
se dividiu, Jeroboão, rei de Israel, os lançou fora e instituiu um culto
alternativo. Os levitas deixaram as suas possessões e foram para Judá e
Jerusalém (1 Cr 11:13-16).
[2] A designação Judeus
começou a ser usada a partir do tempo do exílio. Tem origem na palavra JEHUDIM
(judaítas), que indicava os membros da tribo de Judá (JEHUDA) e que deu nome ao
reino de Judá.
