25/02/2017

O RECENSEAMENTO DE QUIRINO

Lc 2:1-2 – Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria.
Tanto o evangelho de Lucas como de Mateus afirmam que Jesus nasceu em dias do rei Herodes. Mas a afirmação em Lucas 2:1-2, que Jesus nasceu por ocasião do primeiro recenseamento, quando Quirino era governador da Síria, parece colocar um problema cronológico, que até tem desacreditado a veracidade do evangelho de Lucas. Isto porque é facto provado que Quirino foi governador da Síria entre 6 e 12 d.C., portanto, vários anos depois da data geralmente aceite para o nascimento de Jesus (ca. 6 ou 3/2 a.C.), além de ser depois da morte de Herodes.
Arquelau, filho e sucessor de Herodes na Judeia como tetrarca (não rei), fora demitido da sua tetrarquia e expulso no ano 6 d.C.. Depois da destituição de Arquelau, a Judeia passou a província romana, dirigida por um procurador. O primeiro procurador foi Copónio. Na mesma época, Públio Sulpício Quirino foi nomeado governador da Síria. A Judeia foi adicionada à província da Síria para liquidar as finanças de Arquelau, e isso era tarefa de Quirino (Antiguidades dos Judeus, Livro 18, cap.1).
Quando Quirino era governador da Síria, houve efetivamente um censo, que terá ocorrido em 6/7 d.C. Flávio Josefo menciona este censo. Segundo Josefo, este recenseamento foi concluído no 37º ano da vitória de Octaviano (Augusto) sobre Marcos António em Actium, que aconteceu em 31 a.C., portanto o censo teve lugar em 6 d.C..
Mas 6 d.C. não é uma data possível para o nascimento de Jesus, porque Jesus nasceu antes da morte do rei Herodes, que aconteceu em 1 a.C. (ver mensagem anterior).
E Lucas tem sido acusado de se ter enganado quanto à data do censo e da governação de Quirino.
Observámos que Lucas usa de muita precisão e rigor no registo de detalhes históricos, tanto no Evangelho como no livro de Atos. Ele afirma ter feito uma “acurada investigação” antes de por tudo por escrito (Lc 1:3).
O facto de não se terem encontrado, ainda, outras evidências históricas ou provas arqueológicas corroborando o “primeiro” censo mencionado por Lucas não significa que Lucas esteja errado. O silêncio, ou seja, a ausência de prova arqueológica, não é um argumento. Os textos bíblicos são fontes históricas tão válidas quanto outras fontes documentais e arqueológicas, contrariamente ao que muitos querem dar a entender.
Da nossa parte, acreditamos que a Bíblia tem razão e que há uma explicação para esta aparente anomalia. O que também dá mais crédito a Lucas é que ele viveu mais perto dos acontecimentos do que historiadores posteriores, tendo por isso acesso a informação mais contemporânea, mesmo fornecida por testemunhas oculares.
Vários autores têm procurado justificar a possibilidade de Quirino ter tido poderes de governação especiais na região da Judeia (embora não sendo efetivamente governador na Síria) no período em questão, tendo em consideração o funcionamento administrativo e político do Império romano. Conclui-se que é uma hipótese razoável, mas nenhum facto concreto tem sido apresentado. Encontrei apenas um autor que apresenta uma solução concreta, interessante, que me parece viável e bem fundamentada, e que merece ser aprofundada. Trata-se de Ernest Martin, The Star of Bethlehem: The Star that Astonished the World (1996).
Mas antes de passar à proposta de Martin, temos que dar uma vista de olhos ao que dizem as fontes, bíblicas e históricas.
O problema cronológico está centrado na realização de um recenseamento (apografe em Grego) algum tempo antes da morte de Herodes, e na associação de Quirino com o recenseamento.

O que dizem as fontes históricas (Tácito, Josefo, Tertuliano, Lapis Venetus) e Lucas?
- Sulpício Quirino foi cônsul em Roma em 12 a.C. juntamente com Messala.
- Entre 12 a.C. e 1 d.C., esteve em serviço ativo em várias regiões no Médio Oriente, nomeadamente na região da Galácia vizinha da Síria, e travou uma guerra na Cilícia.
- Foi enviado como governador para Síria em 6 d.C. depois da morte de Arquelau, até 12 d.C.
- Conduziu um censo em 6 d.C.
- Quirino é mencionado numa lápide tumular, conhecida como Lapis Venetus. A lápide regista a carreira de um oficial romano chamado Aemelius Secundus, e diz que este oficial fora encarregado por P. Sulpicius Quirinus, Legatus Caesaris Syriae, de realizar um censo na cidade de Apameia. Apameia é uma antiga cidade na Síria, a cerca de 50km da atual Haman.
- Por volta do ano 200 da nossa era, Tertuliano, em Contra Márcio, afirma que o recenseamento mencionado por Lucas foi feito na Judeia quando Saturnino era governador da Síria.
- A realização de censos regulares por Roma nas províncias do Império é uma prática bem documentada.
Mesmo no Novo Testamento (Mt 22:17-21; Mc 12:14-17) encontramos provas indiretas de que os Judeus, no tempo de Jesus, pagavam tributo (kensos) a Roma.
Tácito (Anais 2:42), por exemplo, relata que uma delegação judia e uma delegação da Síria empreenderam juntamente uma viagem a Roma para protestar contra os impostos excessivos que estavam a ser cobrados pelos governadores romanos e pedir uma redução do tributo (ano de censo 20/21, ano de tributo 21/22 d.C.).
A condução de um censo era responsabilidade de um governador de província que, por sua vez, delegava a subordinados e órgãos locais.
No Egipto, havia um ciclo regular 14 anos entre um censo e seguinte, pelo menos a partir de 33/34 d.C. até 257/8, e possivelmente a partir de 19/20 d.C. Recentes descobertas comprovam que antes desta data, os ciclos eram de 7 anos, com a realização de censos no 20º ano de Augusto (contado desde a batalha de Actium em 31 a.C., portanto em 11/10 a.C.), no 27º ano (4/3 a.C.), no 34º ano (4/5 d.C.), e no 41º ano (11/12 d.C.)[1] (CLAYTOR & BAGNALL, 2015). Estas evidências são referentes ao Egipto, especificamente. Não se sabe a que intervalos eram feitos os censos na Síria e na Judeia.
- O recenseamento de que Lucas fala não é um recenseamento provincial, mas toda a população do império foi convocada para recensear-se por decreto de César Augusto (Lc 2:1). Lucas não explica qual a razão do recenseamento.
- Lucas dá a entender que houve pelo menos dois recenseamentos na Judeia. Em Lucas 2:1, ele fala do primeiro recenseamento, decretado por César Augusto, por ocasião do qual José e Maria se deslocaram a Belém. Atos 5:37 fala de outro recenseamento – Depois desse [Teudas] levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muitos consigo. A ênfase no adjetivo “primeiro” (protn) distingue-o do outro, mais tarde e provavelmente mais memorável, o qual Gamaliel recorda, e que é o mesmo que Josefo menciona. O censo de 6 d.C.. Sabemos isso porque Josefo fala da revolta contra o censo, liderada por Judas o galileu.
- Lc 2:1,3,5 – recensear (verbo apógrafo); Lc 2:2 - recenseamento (substantivo apografe): registar, listar, inscrever num registo contendo nomes, idades e outra informação identificativa de todo o agregado familiar e dos seus rendimentos e posses, (Thayer's Greek Lexicon).

O porquê do recenseamento
Ernest Martin explica porque houve, ca. 3/2 a.C., uma razão para César Augusto convocar toda a população do Império para recensear-se. Esse ano era um dos mais importantes e gloriosos na carreira de Augusto: era o Jubileu de prata do seu governo supremo sobre todo o Império (em 27 a.C. Augusto recebera plena e absoluta confiança do Senado) e nesse ano o Senado conferiu-lhe o mais alto título de “Pater Patriae” (Pai da Nação).
Augusto escreve assim no seu Res Gestae Divi Augusti (um relato dos principais acontecimentos da sua vida escrito pelo próprio): “Quando estava administrando o meu 13º ano de consulado, o senado, a ordem equestre e todo o povo Romano deram-me o título de Pater Patriae”. Esse ano era 2 a.C., a data 5 de fevereiro.
Josefo (Antiguidades 17) menciona que Augusto pediu um juramento de lealdade cerca de doze a quinze meses antes da morte de Herodes. Um registo de juramentos (onde as pessoas escreviam o seu nome) era uma lista, um apografe de pessoas, uma espécie de “recolha de assinaturas” como é feito hoje para juntar pessoas a subscrever a uma ação ou opinião. Nesse caso seria para declarar a sua lealdade ao Imperador.
O juramento mencionado por Josefo e o alistamento de Lucas podem muito bem ser a mesma coisa. Que diz Josefo? Que a inteira nação Judaica fez um juramento de ser leal a César. Mas também diz que mais de 6.000 fariseus se recusaram ao juramento, porque acreditavam que o Messias estava a chegar. Eles foram multados e alguns foram mortos por Herodes.
Como se faz um juramento de lealdade? Podia perfeitamente ser através da inscrição numa lista. De outro modo, como podia Josefo saber que mais de 6000 fariseus se recusaram a fazer o juramento a não ser que tivesse havido um registo dos seus nomes e números?
Se o juramento de lealdade mencionado por Josefo foi o que levou José e Maria a Belém, então faz sentido que Maria acompanhou José. Num censo regular, Maria não teria necessidade de acompanhar José, nem José teria que viajar de Nazaré a Belém.
A razão por que José e Maria foram a Belém é, diz Lucas, “por ser ele da casa e família de David” (Lc 2:4). Eles eram de descendência real e provavelmente por causa de implicações políticas tinham que ir registar-se em Belém. E como tal teriam sido chamados especialmente para jurarem lealdade ao imperador. Além disso, seria importante para Herodes saber quem eram todos os eventuais pretendentes ao trono de David para garantir a sua própria sobrevivência e da sua dinastia, especialmente naquele tempo porque havia uma grande expectativa messiânica entre os Judeus. E visto que as mulheres entre os Judeus podiam dar um descendente ao trono, também Maria teve que ir registar-se pessoalmente.
O censo foi realizado em todo o Império. E existem provas e fontes históricas que se referem a este mesmo censo / juramento de lealdade, em vários lugares do Império:
Uma inscrição encontrada na província romana da Paflagónia (no centro-norte da Ásia Menor, era o nome de uma região da costa do Mar Negro no norte da Anatólia) datada 3 a.C. regista um juramento de obediência de toda a população, de cidadãos romanos bem como de não-cidadãos, a ser feito nos templos de Augusto nos vários distritos da província.
O historiador arménio Moisés de Corene (que viveu no início do século V) diz que fontes nativas a que teve acesso mostram que no segundo ano de Abgar, rei da Arménia no século 3 a.C., o recenseamento mencionado por Lucas trouxe oficiais romanos à Arménia, com a imagem de Augusto César, que colocaram em todos os templos. Está implícito que as pessoas deviam ir aos templos para se registarem no ano 3 a.C.
Também Orósio (385-420), historiador, teólogo e apologista cristão reconhece o facto de o censo mencionado por Lucas ter sido realizado em todo o Império. Ele devia ter acesso a fontes que hoje já não existem e que substanciaram a sua afirmação. Ele escreveu “[Augustus] ordenou que um censo fosse tomado em cada província em todo o lugar para que todos as pessoas fossem inscritas ... Este é o mais antigo e mais famoso reconhecimento público que distinguiu César como o primeiro de todos os homens e os Romanos como senhores do mundo, uma lista publicada de todas as pessoas registadas individualmente... Este primeiro e maior censo foi realizado, que neste único nome de César todos os povos das grandes nações fizeram juramento, e ao mesmo tempo, através da participação no censo, foram feitos parte de uma sociedade”.
O que apoia esta tese é que o recenseamento de Lucas não podia ter por finalidade a coleta de impostos. Quando Herodes reinava na Judeia, os Judeus não pagavam impostos a Roma, mas a Herodes. Isto fica claro pelos acontecimentos que se seguem imediatamente à morte de Herodes, relatados por Josefo (Guerra, Livro 2). Os Judeus pedem a Arquelau, sucessor de Herodes, para reduzir os impostos excessivos, e ele desejando conquistar o povo, assentiu prontamente a estes pedidos. Se os judeus pagassem impostos diretamente a Roma (na sequência do censo de Quirino) este pedido não faria sentido, nem a resposta de Arquelau.
De 36 a 47 a.C. Judeia fazia parte da província da Síria e pagava tributo diretamente a Roma. De 47 a 40 a.C. Hircano era “governador de uma república livre”, mas os judeus ainda pagavam impostos diretamente a Roma. Quando Herodes se tornou rei, o tributo a Roma cessou e Herodes recebia os impostos. Isto continuou até 6/7 d.C. quando novamente foi imposto a Judeia, que passou a ser uma província, um imposto direto.
Considerando a universalidade deste juramento, bem como o ano da sua condução, é muito razoável deduzir que o recenseamento mencionado por Lucas seja o mesmo juramento de lealdade referido por Josefo, Orósio, Moisés de Corene e a inscrição da Paflagónia, e coincidindo com a informação de Augusto no seu Res Gestae sobre o título de Pater Patriae.

Quirino
Embora esteja resolvida a questão do recenseamento, a questão da relação de Quirino com o juramento de 3/2 a.C. permanece não solucionada.
No entanto,
A palavra grega em Lc 2:2 traduzida “quando Quirino era governador” é hegemoneuontos, a forma do particípio presente ativo do verbo ‘hegemoneo’. O sentido literal é “quando Quirino estava governando na Síria”. A forma grega aqui não se refere especificamente à posição ou ofício da pessoa mas denota simplesmente governo, chefia, comando ou liderança em geral.
A narrativa de Lucas não identifica o cargo específico ocupado por Quirino quando estava desempenhando as suas tarefas oficiais, neste caso a condução do recenseamento. Resumindo, evitaria talvez alguma confusão se o texto fosse traduzido mais literalmente “quando Quirino estava governando na Síria”.
Quirino pode ter sido enviado para o Médio Oriente com poderes especiais, diferentes do governador residente, para conduzir o recenseamento nesta secção do Império. Lucas 3:1 refere-se a Pilatos com a mesma palavra e mesma estrutura gramatical e sabe-se que Pilatos era Praefectus Judaeae, e não Legatus (governador de província). Justino Mártir (100-165) afirma que Quirino era Procurator especial de Augusto. A Cambridge Ancient History, vol. X, p.216 (citado por Ernest Martin) tem uma nota sobre o papel de um Procurator romano. Cada província tem o seu procurador equestre que, aos olhos dos provinciais, era quase tão importante como o próprio governador. Estes procuradores eram nomeados pelo Imperador independentemente do Legatus, e as relações entre os dois nem sempre eram muito amigáveis. Se Justino diz que Quirino era Procurator, isto demonstra concordância com Tertuliano quando este diz que o censo foi conduzido quando Saturnino era o governador da Síria.

As explicações dadas por Ernest Martin são, em meu ver, muito razoáveis, simples e claras e resolvem a questão porque harmonizam as informações históricas disponíveis com o evangelho de Lucas. Parece que “o censo de Quirino” mencionado por Lucas foi encontrado.

Quanto à cronologia do nascimento de Jesus.
Se Augusto foi condecorado Pater Patriae em fevereiro do ano 2 a.C., o recenseamento, feito a nível de todo o Império, deve ter sido decretado em 3 a.C. para dar o tempo necessário (cerca de um ano) de recolher todos os juramentos. Assim, o nascimento de Jesus deve situar-se entre finais do ano 3 e princípio do ano 2 a.C.
Mas poderá também ser que Augusto decretou o recenseamento na altura da, ou a seguir à condecoração, pelo que terá decorrido durante o ano 2 a.C.



[1] CLAYTOR, W. Graham, and BAGNALL, Roger S. The Beginnings of the Roman Provincial Census: A New Declaration from 3 BCE. Greek, Roman, and Byzantine Studies 55 (2015) 637–653

13/02/2017

O ANO DA MORTE DO REI HERODES

Os evangelhos de Mateus e Lucas não deixam dúvidas quanto ao facto de Jesus ter nascido nos dias do rei Herodes (Mt 2:1). Lucas inicia a narrativa com a anunciação do nascimento de João Batista, nos dias de Herodes, rei da Judeia (Lc 1:5), recebendo Maria, no 6º mês da gravidez de Isabel, a visita do anjo Gabriel (Lc 1:36). A visita dos magos aconteceu quando Herodes reinava (Mt 2:3). Algum tempo depois de Jesus ter nascido, depois da visita dos magos José é avisado para fugir para o Egipto porque Herodes havia de procurar o menino para o matar (Mt 2:13). E ficaram no Egipto até à morte de Herodes (Mt 2:15).
Se é certo que Jesus nasceu no tempo do rei Herodes, existem, no entanto, incertezas quanto ao ano exato do seu nascimento. O conhecimento do ano da morte de Herodes fornecerá uma data limite para o nascimento de Jesus.
Mas aqui há desacordo. Alguns defendem que Herodes morreu em 4 a.C., outros em 1 a.C., colocando a data do nascimento de Jesus entre um e dois anos antes. Isto com base em Mt 2.16 – Herodes mandou matar os meninos de dois anos para baixo –, e assumindo que Herodes teria morrido muito pouco tempo depois do massacre das crianças em Belém.
Já referi que os primeiros historiadores e pais da Igreja apontam todos para datas entre 3 e 1 a.C. para o nascimento de Jesus. Mais recentemente, no século XIX e XX, muitos têm defendido uma data anterior a 4 a.C. (indo mesmo até 12 a.C.). Na base desta hipótese estão informações fornecidas por Flávio Josefo relativamente à duração do reino de Herodes, conjugadas com um eclipse de lua ocorrido pouco antes da sua morte.
O historiador Flávio Josefo é uma fonte importante para o conhecimento da vida de Herodes. No entanto, é preciso ter algum cuidado porque Josefo nem sempre é muito fiável em questões de cronologia quando ele escreve sobre períodos da história não contemporânea dele.
Que diz Josefo?
- que Herodes recebeu o título real de Marcos António e Octaviano, na 184ª Olimpíada, no ano em que os cônsules em Roma eram Calvino e Pollione (Antiguidades 14); isto seria 714 AUC [1] / 40 a.C. (lista de cônsules romanos em Jack Finegan, Handbook of biblical chronology).
- que Herodes tomou Jerusalém e foi então que começou o seu reino de facto, durante o ano consular de Agrippa e Gallo (que será 37 a.C.), na 185ª Olimpíada. O quarto ano deste ciclo olímpico estendia de julho 37 a junho 36 a.C.
- que Herodes morreu depois de um reinado de 34 anos, contando da data em que assumiu o controlo do estado em Jerusalém, depois de ter morto Antígono; e 37 anos depois da data em que foi proclamado rei pelos Romanos. (Guerras 1, Ant. 17)
- que o rei Herodes morreu pouco depois da ocorrência de um eclipse da lua (Ant. 17), e antes da festa da Páscoa e dos Pães Asmos (Guerras 2; Ant 17). Nessa Páscoa, Arquelau (sucessor de Herodes na Judeia) já está a governar (porém ainda não tivesse ido a Roma para receber a confirmação do seu reino). É a única vez que Josefo alude a um eclipse nos seus escritos.
O tratado judaico Rosh Hashana diz que o dia 1 de Nisan é Ano Novo para reis. Isto significaria que, se Herodes conquistou Jerusalém no ano 37, o seu reino de 34 anos (segundo Josefo) começaria oficialmente em 1 de Nisan de 36 a.C. E a sua morte se situaria cerca de 3/2 a.C., pouco antes de completar o 34º ano em 1 de de Nisan 2 a.C. (senão contavam 35 anos).
Mas é por causa da referência de Josefo a um eclipse que a maioria dos teólogos colocam a data da morte de Herodes em 4 a.C. e o nascimento de Jesus antes dessa data. Já vamos ver porquê [2].
Segundo Ernest Martin, eclipses são indicadores astronómicos poderosos para precisar quando certos eventos ocorreram na história, e que os teólogos que adoptam o princípio astronómico para resolver questões cronológicas estão absolutamente corretos. Eclipses são testemunhas sólidas para apoiar a veracidade de registos históricos. Mas, avisa Martin, se for considerado o eclipse correto. Registos de eclipses são importantes, mas devem ser corretamente interpretados. Num período de dez anos, é possível observar vários eclipses lunares em quase toda a parte do mundo. Podem ocorrer dois ou três num mesmo ano. Esta frequência pode ser um problema quando se trata de identificar os eclipses mencionados pelos antigos historiadores quando eles não deram pormenores sobre o dia da semana, a data do calendário ou se foi um eclipse total ou parcial.
E este é o problema no caso do eclipse mencionado por Josefo, que deu apenas a indicação que uma festa de Páscoa foi celebrada não muito depois do eclipse. Mas não diz quanto tempo depois.
Entre 7 e 1 a.C. quatro eclipses lunares podiam ser observados na Judeia. É a um destes que Josefo se referiu.
7 a.C.
Nenhum eclipse
6 a.C.
Nenhum eclipse
5 a.C.
13 de março. Eclipse total. Central às 18:30 h (tempo decorrido entre o eclipse e a Páscoa: 29 dias).
5 a.C.
15 de setembro. Eclipse total. Central às 22:30 h (tempo decorrido entre o eclipse e a Páscoa: 7 meses).
4 a.C.
13 de março. Eclipse parcial. Central às 2:20 h (tempo decorrido entre o eclipse e a Páscoa:29 dias)
3 a.C.
Nenhum eclipse
2 a.C.
Nenhum eclipse
1 a.C.
10 de janeiro. Eclipse total. Central a 1:00 h (tempo decorrido entre o eclipse e a Páscoa: 12 semanas e meia).
Com base nas indicações de Josefo, e assumindo que Herodes iniciou o seu reino em Jerusalém em 37 a.C., a sua morte se situaria em 3 ou 2 a.C. Mas não houve qualquer eclipse em 2, nem em 3 a.C.
Por isso o eclipse ocorrido em 13 de março do ano 4 a.C., um mês antes da Páscoa, foi aceite pela maioria dos teólogos como o eclipse mencionado por Josefo e apesar dos problemas associados a esta opção.

Os acontecimentos entre o eclipse e a Páscoa
O eclipse de 13 de março de 4 a.C. ocorreu 29 dias antes da Páscoa.
Para o período entre o eclipse e a Páscoa, Josefo menciona um grande número de acontecimentos, que é impossível encaixar todos em tão curto período de tempo de 29 dias. Martin defende que, usando o bom senso, e tendo em conta os hábitos sociais e religiosos judaicos naquele tempo, o eclipse de 13 de março de 4 a.C. não pode de maneira alguma ser o eclipse correto.
O que aconteceu nesse intervalo de tempo? Josefo não menciona quantos dias decorreram entre o eclipse e a Páscoa, mas podemos fazer uma estimativa.
O dia antes do eclipse lunar, dois rabinos judeus foram queimados vivos por ordem de Herodes porque derrubaram a águia dourada que ele tinha erigido sobre a porta oriental do templo; “e naquela mesma noite houve um eclipse da lua” (Antiguidades 17). Isto já afasta o eclipse de 13 de março do ano 5 a.C. que teve lugar ao fim da tarde, às 18.30h.
A manhã depois do eclipse, diz Josefo, a doença de Herodes piorou. Ele já estava doente há dois ou três meses, e o povo começava a dizer que o piorar da doença foi resultado da morte dos rabinos. Depois os seus médicos tentaram um remédio após outro, mas sem resultado. O piorar da doença e o experimentar de vários remédios para ver o efeito terá levado alguns dias.
Os remédios não melhoraram o seu estado de saúde e os médicos recomendaram que Herodes saísse de Jericó, onde se encontrava na sua residência temporária, e fosse às termas de Calírroe no Mar Morto a cerca de 25 milhas a sudeste de Jericó. Visto que Herodes estava muito doente e piorando, terá levado pelo menos um dia para ser transportado para as termas. Depois fez um tratamento nas águas termais, que também deve ter levado alguns dias. Mas como o tratamento não fez efeito, Herodes ordenou que o levassem de volta a Jericó. Estima-se que já teriam passado quase duas semanas desde o eclipse.
De regresso ao seu palácio em Jericó, Herodes engendrou um plano monstruoso. Sabendo que já não tinha muito tempo de vida, e que a maioria dos judeus o odiavam, ordenou que os principais anciãos dos judeus de todas as regiões do seu reino fossem reunidos em Jericó. Sem que estes percebessem qual a intenção de Herodes, seriam todos encerrados no hipódromo e executados pelos soldados no dia da sua morte. Assim Herodes iria garantir que toda a nação judaica chorasse de luto.
O plano foi posto em ação. Mensageiros foram enviados de Jericó a toda a parte. Visto que as cidades no norte do seu reino estavam a pelo menos 130 milhas de distância, seria necessário um período de 3 dias para os mensageiros chegarem lá, uma dia ou dois de preparativos e mais 3 ou 4 dias para os anciãos chegarem a Jericó. Josefo conta que muitos vieram a Jericó e foram fechados no hipódromo.
Diz Josefo que, depois disto, vieram cartas de Augusto, em Roma, autorizando Herodes a executar o seu filho Antipater. Este foi executado imediatamente e Herodes morreu 5 dias depois. Antes de o exército ficar a saber do seu falecimento, Salomé (irmã de Herodes) libertou os prisioneiros no hipódromo e mandou-os para casa. Só depois deram a notícia aos soldados e convocaram uma assembleia pública no anfiteatro de Jericó. Foi lido o testamento de Herodes, e Arquelau aclamado rei, pelo menos provisoriamente, até ratificação pelo imperador.
Podemos estimar que já passaram certamente mais de três semanas desde o eclipse.
Depois começaram os preparativos para o funeral. Arquelau não omitiu nada que pudesse contribuir para a magnificência da cerimónia, cumprindo os desejos do pai de ter um funeral tão grandioso que alguma vez foi feito a um rei. A procissão que acompanhava o ataúde era constituída, não só por um grande número de familiares e altos dignatários, mas também dos guardas, do contingente trácio, dos Germanos e Gauleses (contingentes de mercenários ao serviço de Herodes), todos equipados para a guerra. As restantes tropas marchavam à frente, armadas e em formatura, lideradas pelos seus comandantes e oficiais subalternos; a seguir, iam quinhentos servos e libertos de Herodes, transportando especiarias. O cadáver foi assim conduzido numa distância de duzentos estádios até ao Heródio, onde foi sepultado (Guerras dos Judeus, Livro 1; Antiguidades17).
Um funeral real não é um funeral de uma pessoa normal. É um acontecimento que requer uma grande organização, muito mais no caso de Herodes que queria cerimónias grandiosas.
Os preparativos terão levado vários dias até que a procissão pudesse partir de Jericó. Arquelau mandou vir os ornamentos reais que estavam em Jerusalém. O corpo teria que ser preparado com especiarias, aromas e bálsamos a fim de prevenir a putrefação durante a procissão funeral de Jericó a Jerusalém e depois ao Heródio, daí também 500 servos que transportavam as especiarias.
Todo o exército ia na procissão. Algumas forças militares teriam que vir de longe onde estavam estacionadas, mas também familiares e outros líderes políticos e religiosos levariam provavelmente alguns dias a chegar a Jericó.
A procissão ia de Jericó até ao Heródio, passando por Jerusalém. É provável que o caixão era levado aos ombros, e não transportado num carro. Costumes indicam que estes carregadores iam descalço.
A distância de Jericó até o Heródio eram 200 estádios segundo Josefo. De Jericó a Jerusalém, eram aproximadamente 150 estádios romanos, ou 18 milhas (ca. 30 km). A estrada (romana) não estava totalmente construída até à guerra de 66-70 d.C. Além disso, é uma estrada montanhosa. Jerusalém encontra-se a cerca de 750 metros acima do nível do mar, e Jericó cerca de 258 metros abaixo do nível do mar. De Jericó a Jerusalém é sempre a subir. Depois a procissão seguia para o Heródio, o lugar da sepultura, a cerca de 8 milhas (12 km) a sul de Jerusalém.
A cadência da marcha era lenta, solene. Fazendo oito estádios por dia (oito estádios equivalia a uma milha romana nas estradas imperiais), segundo Josefo, 150 estádios demorariam 18 dias a percorrer, não contando os sábados em que o cortejo estaria parado.
Em Jerusalém, segundo costumes entre dignitários romanos, o corpo terá ficado em câmara-ardente durante 7 dias, antes de finalmente ser levado até ao Heródio os restantes 50 estádios. Mais alguns dias.
Visto que Herodes planeou as suas próprias cerimónias funerárias, e dado que os judeus tinham um período de luto de 30 dias (Num 20:29; Dt 34:8), Herodes simplesmente ordenou que a procissão ocupasse grande parte deste período de luto. O funeral de Herodes parece ter sido mais majestoso e grandioso que o do próprio Imperador Augusto, cujas solenidades funerárias duraram um pouco mais de três semanas, e também incluíram o transporte do corpo sobre uma grande distância.
A este tempo de luto de 30 dias, acrescem ainda 7 dias de luto a cumprir pelos familiares (Num 19:14). Diz Josefo que só depois de cumprir estes 7 dias, e do banquete funerário oferecido à população, Arquelau assumiu as suas funções normais como novo rei da Judeia e deu a sua primeira audiência no templo e tratou de alguns assuntos. Pouco depois veio a Páscoa.
Tudo isto mostra que decorreu mais de um mês entre a morte de Herodes e o começo da Páscoa, sem contar as semanas entre o eclipse e a morte de Herodes.
Portanto, todos estes acontecimentos deixam bem claro que o eclipse de 13 de março de 4 a.C., ocorrido apenas 29 dias antes da Páscoa, não pode de maneira alguma ser o eclipse mencionado por Josefo.
Como 4 a.C. não é uma data possível para a morte de Herodes, alguns sugeriram que Herodes morreu em 3 a.C., antes da Páscoa do ano seguinte, mas isto deixaria cerca de 13 meses entre o eclipse e aquela Páscoa. O que é também não é aceitável, por várias razões. Primeiro, na Páscoa de 4 a.C. o povo estava ainda de luto pelos rabinos mortos por Herodes na véspera do eclipse. Isto dificilmente teria sido o caso 13 meses mais tarde. Logo a seguir à Páscoa, Arquelau foi para Roma, porque o seu título, para ser válido, tinha que ser ratificado por César. Ele, “com pressa de partir”, diz Josefo, não esperaria certamente mais de um ano para tratar deste assunto, mas viajaria para Roma o mais depressa que pudesse. E ainda, quando Arquelau chegou a Cesareia, de onde viajaria para Roma, encontrou-se com Sabino, o procurador da Síria, que se dirigia à Judeia para tomar conta dos bens pessoais de Herodes. Esta questão também não aguardaria mais de um ano para ser resolvido por Roma.
O mesmo vale para o eclipse de março de 5 a.C..
O eclipse de setembro 5 a.C. parece uma possibilidade, porque deixa 7 meses até à Páscoa de 4 a.C., o que daria tempo suficiente para todos os eventos. No entanto, valem as mesmas razões que acabámos de apresentar. É demasiado tempo para Arquelau, que estava com pressa, aguardar a Páscoa (4 a 5 meses) para ir a Roma receber a confirmação do seu reinado.
Isto só nos deixa com o eclipse de 10 de janeiro de 1 a.C. que deixa um período razoável de 12 semanas e meio entre o eclipse e a Páscoa e situa a morte de Herodes em 1 a.C.
Se for provado que é este o eclipse mencionado por Josefo, a razão está do lado dos primeiros historiadores e pais da igreja que colocam o nascimento de Jesus em 2 ou 3 a.C..
Voltaremos a este assunto.



[1] Ad urbe condita. Calendário romano que inicia com a fundação de Roma.
[2] Sobre este assunto consultei:
Jack Finegan, Handbook of Biblical Chronology (edição revista 1998)
Ernest L. Martin, The Star that astonished the World (1996) disponível online em http://www.askelm.com/star/index.asp
Flávio Josefo, Antiguidades dos Judeus (The Antiquities of the Jews), disponível em vários sites online
Flávio Josefo, A guerra dos Judeus, Lisboa: Edições Sílabo, 2007

30/01/2017

EM QUE ANO NASCEU JESUS?

Em que ano nasceu Jesus? A resposta a esta pergunta continua a ser uma questão não totalmente resolvida.
Os primeiros historiadores e pais da Igreja (Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Júlio Africano, Eusébio de Cesareia, Dionísio Exíguo, e outros nos primeiros séculos da nossa era) apontam todos para datas entre 3 e 1 a.C.
Antes de continuarmos, uma pequena nota sobre a numeração dos anos em a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo). Este método foi definido por um monge, chamado Dionísio Exíguo, em 525 d.C. Até então, em nações diferentes e em épocas diferentes usavam-se calendários diferentes. Um calendário usado na igreja Cristã começava a numeração dos anos a partir do reino do imperador Diocleciano, que era perseguidor da igreja. Considerando inapropriado contar os anos a partir do reino de um inimigo da Cristandade, Dionísio Exíguo escolheu contar os anos a partir da encarnação de Jesus. Para o ano da encarnação, Dionísio aceitou o ano 753 AUC (ad urbe condita ou anno urbis conditae), isto é o ano 753 “desde a fundação da cidade” de Roma, como ano 1 a.C. e a data da natividade em 25 de dezembro daquele ano. O dia 1 de janeiro logo a seguir começava a nova era e o sistema designado AD (anno Domini), “no ano do Senhor”, calendário que é hoje utilizado universalmente.
Mais recentemente, no século XX, muitos têm defendido uma data anterior a 4 a.C. (indo mesmo até 12 a.C.) para o nascimento de Jesus. Isto porque é hoje geralmente aceite (baseado em Josefo) que Herodes morreu no ano 4 a.C. e, segundo os evangelhos, Jesus nasceu algum tempo antes da morte de Herodes.
-- --
Como saber em que ano nasceu Jesus?
A narrativa bíblica é interligada com eventos e personagens da história do Império Romano, sob cuja dominação se encontrava a Judeia no tempo de Jesus. Estas personagens e eventos permitem-nos situar Jesus no tempo. Ou assim o deviam. O problema é que, para sabermos as datas exatas da vida de Jesus necessitamos de conhecer também com exatidão quando ocorreram determinados eventos históricos relatados nos evangelhos, nomeadamente em Mateus e Lucas. E as datas destes eventos não são totalmente esclarecidas, por insuficiência ou ausência de provas arqueológicas e documentais. Esta falta de informação e alegadas anomalias têm levado muitos a dizer que os Evangelhos contêm erros e inconsistências, não sendo por isso válidos. Contudo, é preciso ter cuidado com os registos seculares. É sabido que a década de 6 a.C. a 4 d.C. é um dos períodos mais obscuros da história de Roma, com relatos imperfeitos e confusos e muitas dificuldades cronológicas.
Nós assumimos que a Bíblia é um relato histórico (pelo menos) tão válido como qualquer outra fonte. E rejeitamos as acusações que ouvimos frequentemente que os evangelhos se contradizem e que contêm erros.
E parece-me bem tomar em consideração o seguinte (tradução minha):
«Céticos frequentemente levantam acusação contra Lucas e outros autores bíblicos com base no argumento de silêncio. Falham em distinguir entre uma contradição genuína por um lado, e provas insuficientes para permitir tirar uma conclusão firme, por outro. Existe contradição quando duas afirmações ou factos não podem ambos ser verdade. Céticos fazem com frequência o erro de acusar os autores da Bíblia de contradição quando duas afirmações ou factos simplesmente diferem uma da outra. McGarvey articulou este princípio claramente em 1891: “Duas afirmações são contraditórias, não quando diferem, mas quando ambas não podem ser verdade”. A acusação de contradição ou falta de rigor na Bíblia não é legítima, e por isso insustentável, naquelas áreas onde a prova de corroboração histórica é insuficiente.» (MILLER, Dave, Ph.D. (2003). Luke, Quirinus, and the Census. Apologetics Press (http://apologeticspress.org/)
--- ---
Que informações cronológicas a Bíblia fornece a respeito do nascimento de Jesus?
Comecemos com uma reconstituição cronológica dos factos narrados nos evangelhos de Mateus e Lucas, que se complementam:
Nos dias do rei Herodes (Lc 1:5), o sacerdote Zacarias, do turno de Abias, exercendo o sacerdócio na ordem do seu turno, entrou no santuário para queimar incenso. Um anjo Gabriel anuncia-lhe o nascimento de um filho, que será João Batista.
No 6º mês (Lc 1:26), o mesmo anjo aparece a Maria, em Nazaré. O mês em que o anjo aparece a Maria é o 6º mês da gravidez de Isabel (Lc 1:36).
Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria (Lc 2:1-2).
José e Maria foram a Belém, alistar-se. Estando eles ali, nasceu Jesus (Lc 2:3-7), em dias do rei Herodes (Mt2.1).
Completados oito dias o menino foi circuncidado e deram-lhe o nome de Jesus (Lc 2:21).
E passados os dias da purificação (Lc2:22), que são 33 dias (Lv 12:1-4), José e Maria foram apresentar Jesus no templo em Jerusalém.
Tendo Jesus nascido em Belém, uns magos vieram do oriente a Jerusalém, e encontraram-se com o rei Herodes (Mt2:1-4).
Os magos vieram por causa de uma estrela que viram aparecer. A estrela parou sobre onde estava o menino. Entraram na casa (já não é um estábulo) e entregaram as suas ofertas (Mt 2:9-12).
Os magos foram prevenidos por divina advertência para não voltarem à presença de Herodes (Mt2:12) e José é avisado em sonho para fugir para o Egipto porque Herodes havia de procurar o menino para o matar. Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe, e partiu para o Egipto (Mt 2:14)
Herodes mandou matar todos os meninos de Belém e arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos (Mt 2:16).
José, Maria e Jesus ficaram no Egipto até à morte de Herodes. Tendo Herodes morrido, um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egipto, dizendo-o para voltarem porque morreram os que atentavam contra a vida do menino (Mt 2:19-20).
Já no caminho do regresso, ouviram que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, e temeram ir para lá. Foram para a região da Galileia, e habitaram em Nazaré.
Cumpridas as ordenanças da lei, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré (Lc 2:39). Este versículo em Lucas parece contradizer Mateus, mas não é o caso. Lucas apenas omite o que é narrado em Mateus (a visita dos magos, a fuga e regresso do Egipto e regresso), e passa imediatamente para o regresso a Nazaré.
-- ---
Quais são as questões relacionadas com estas informações?
Como já dissemos, temos de encontrar convergências com eventos históricos para conseguirmos estabelecer datas.
§  A morte de Herodes pode nos dar uma data limite. Porém não sabemos quanto tempo antes da morte de Herodes Jesus nasceu. Além disso, há incerteza quanto à data da morte de Herodes. Alguns defendem 5/4 a.C., outros 1 a.C.

§  A informação cronológica mais específica é a realização de um recenseamento na época em que Jesus nasceu. Mas o conhecimento da existência de um censo na Judeia em 6 d.C. tem causado um importante ponto de discussão e até tem desacreditado a veracidade do evangelho de Lucas. Lucas afirma que Jesus nasceu por ocasião do primeiro recenseamento, quando Quirino era governador da Síria (Lc 2:1-2). Há fontes que situam Quirino como governador da Síria entre 6 e 12 d.C., portanto, vários anos depois da data geralmente aceite para o nascimento de Jesus (ca. 6 ou 3/2 a.C.).

§  E a estrela de Belém. Que estrela foi essa que guiou os magos até Jesus? Existiu realmente um fenómeno celestial? Pode ser identificado? Ou é apenas uma invenção? Várias explicações têm sido dadas ao longo dos séculos. A astronomia é uma ciência que nos pode ajudar a desvendar o mistério?

§  O turno de Abias, ao qual pertencia Zacarias pai de João Batista, é outro recurso que tem sido utilizado para tentar situar no tempo o nascimento de Jesus.

Vamos estudar estas questões relacionadas com o nascimento de Jesus mais em profundidade nas próximas mensagens.

13/12/2016

O DIA DE PENTECOSTES

Onde desceu o Espírito no dia de Pentecostes?

Na mensagem anterior concluímos que o grandioso templo da visão de Ezequiel é a representação espiritual do templo do período da Restauração de Israel, que é o período que vai do regresso a Jerusalém do povo judeu que estava no exílio na Babilónia até à primeira vinda de Cristo.

O templo material que foi construído no tempo de Zorobabel não consegue expressar a realidade espiritual desse período. Observámos que não há menção de que a glória do Senhor encheu o templo, como foi no caso do tabernáculo (Ex 40:34) e do templo de Salomão (2Cr 5:14) quando estes foram inaugurados. No entanto, apesar disso, Ageu profetizou «Ainda uma vez, dentro em pouco, farei abalar o céu, a terra, o mar e a terra seca; farei abalar todas as nações, e as coisas preciosas de todas as nações virão, e encherei de glória esta casa, diz o Senhor dos Exércitos. Minha é a prata, meu é o ouro, ... A glória desta última casa será maior do que a da primeira… e neste lugar darei a paz (Ageu 2:6-9)».

O que quererá isto dizer?

Certamente que a presença física de Jesus no templo durante o seu ministério é um sinal desta maior glória.

Mas ainda mais, penso que foi no dia de Pentecostes, quando o Espírito desceu sobre os discípulos, que a glória do Senhor finalmente encheu o templo de Zorobabel.

Onde estavam os discípulos naquele dia de Pentecostes? É costume aceitar como um facto que os discípulos estavam reunidos “no cenáculo”, entendendo-se com isto o lugar onde residiam quando estavam em Jerusalém, supostamente um andar superior de uma casa, talvez o mesmo lugar onde tomaram a ceia … (Mc 14:15; Lc 22:12).

Depois de terem visto Jesus ascender ao céu no monte chamado Olival, voltaram para Jerusalém, e quando ali entraram, subiram para um cenáculo (o texto Grego usa o artigo neutro). Neste local reuniam-se os apóstolos (Pedro, João, Tiago e André, etc.), com as mulheres, estando entre elas Maria, mãe de Jesus e seus irmãos (At 1:13-14). Este “cenáculo” era o seu local de alojamento? A palavra grega HYPEROION, traduzida “cenáculo”, aparece apenas 4 vezes no Novo Testamento: At 1:13; 9:37,39; 20:8. E é diferente da palavra usada para o cenáculo onde tomaram a ceia (Mc 14:15; Lc 22:12).

Em que lugar é que os irmãos se reuniam em Jerusalém, em obediência à ordem de Jesus, esperando pela “Promessa do Pai (At 1:4)?

Em Atos 1:15-26, lemos da reunião de um grupo composto de umas 120 pessoas. Não é mencionado o lugar. Temos pouca razão para crer que havia espaço para 120 pessoas se reunirem na casa onde estavam alojados os discípulos. E há ainda menos razão para supor que na manhã de um grande dia de Festa, os discípulos estivessem fechados nesse lugar.

Havia, de facto, apenas um lugar na cidade de Jerusalém onde os judeus devotos, de qualquer seita, teriam congregado naquela manhã. E havia apenas um lugar onde os eventos relatados em Atos 2 podem ter tido lugar. Este lugar é o Templo. E é desde o templo que se iniciou a proclamação das boas novas para todo o mundo. E isto estava prefigurado na visão das “águas vivas” a sair do templo (Ez 43).

«Eis que saiam águas debaixo do limiar do templo para o oriente …. Estas águas saem para a região oriental, e descem à campina, e entram no mar Morto, cujas águas ficarão saudáveis … (Ez 47:1-12).
De modo como a pregação do arrependimento para remissão de pecados a todas as nações devia começar em Jerusalém (Lc 24:47), onde Jesus determinou que esperassem a promessa do Pai (At 1:4), era também oportuno que a primeira manifestação do Espírito Santo tivesse lugar no templo; que o começo da construção da casa espiritual fosse no mesmo sítio que a casa material.

Que indicações temos no texto bíblico para podermos deduzir isto?

Lucas regista a ordem do Senhor aos discípulos para permanecerem na cidade de Jerusalém “até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24:49). Jesus não indica nenhum lugar particular; mas a continuação do texto (vs. 52-53) fornece esta informação porque lemos que ”estavam sempre no templo, louvando a Deus (Lc 24:53).

Esta passagem declara que o Templo era o lugar onde se reuniam com o objetivo de esperar pela promessa; e além disso declara que estavam lá sempre, continuamente. Isto não deixa dúvidas de que nos dez dias seguintes estariam congregados no Templo e não em qualquer outro lugar na cidade.

O templo era um espaço enorme. Segundo Edersheim, a área do Templo era capaz de conter 210.000 pessoas. Ele menciona também que as colunadas no Pórtico de Salomão formavam lugares de congregação para as várias seitas, escolas e congregações de pessoas. Não ensinava Jesus no templo?

Depois do relato da assembleia das 120 pessoas (At 1:15-26), segue a narrativa do dia de Pentecostes (At 2). Este dia de festa do calendário judaico seria mais uma razão para todos estarem reunidos no Templo. E era no Templo, onde estavam assentados, que veio um som como de um vento impetuoso, que encheu toda a casa onde estavam sentados. O vento que encheu toda casa faz lembrar como no tabernáculo e no Templo a glória (então em forma de nuvem) do Senhor enchia o templo.

O ruido que veio do céu devia ouvir-se em toda a cidade, e é evidente que os judeus devotos se dirigissem ao Templo.

Naquele dia estava uma grande multidão de pessoas em Jerusalém, e certamente no Templo, o centro das festividades e rituais. É natural que também os discípulos lá estivessem. O que se entende é que os discípulos não estavam dispersos entre a multidão, mas estavam juntos no mesmo lugar, presumivelmente no Pórtico de Salomão. E a multidão afluiu para onde estavam os discípulos (At 2:5-6).

Pedro se levantou e falou, e no fim, acrescentaram-se a eles 3000 pessoas (At 2:41). Isto mostra que este evento não poderia acontecer noutro lugar a não ser no Templo. O Templo era o único lugar público em Jerusalém onde era possível juntar tantas pessoas.

Quando lemos atentamente a narrativa v.1-14, os eventos narrados aconteceram todos no mesmo local. Não houve mudança de local. O lugar onde os discípulos ficaram cheios do Espírito Santo e falaram em outras línguas era o mesmo lugar para onde as multidões afluíam e ouviam Pedro dirigir-se-lhes.

Depois do dia de Pentecostes, continuaram a prática de se reunirem diariamente no Templo, perseverando nas orações (At 2:42; 2:46; 3.1). Também partiam pão de casa em casa, mas o lugar de congregação era no Templo. Costumavam todos reunir-se, de comum acordo, no pórtico de Salomão (At 5:12). Quando os apóstolos foram presos e um anjo os libertou da prisão, este os mandou apresentar-se no Templo para falar ao povo todas as palavras desta vida. E voltaram a entrar no Templo e ensinaram (At 5:21).

Cumpriu-se o dia de Pentecostes (At 2:1). Não um qualquer dia de Pentecostes em algum qualquer ano, mas o dia em que a Festa teve o seu cumprimento histórico.

Concordo com Philip Mauro quando ele conclui que a Casa material de Deus serviu de madre para a Casa espiritual, a Igreja. E que só pode ter sido no Templo que desceu o Espírito sobre os discípulos no dia de Pentecostes.

Bibliografia

Philip Mauro, The hope of Israel (1922)

01/12/2016

O TEMPLO DE EZEQUIEL 40-48

No 25º ano do exílio do povo judeu na Babilónia, 14 anos depois de ter caído a cidade de Jerusalém, Ezequiel teve a visão de um grandioso templo.

Que templo é este? O que representa este templo da visão de Ezequiel?

É um templo futuro?

Muitos interpretam este templo como um templo futuro, de um futuro relativamente ao nosso tempo, um templo que ainda há-de ser construído.

Contudo, se olharmos simplesmente para o que nos é ensinado no Novo Testamento, podemos afirmar que isto não pode de modo algum ser uma interpretação correta.

Repetidamente é feito referência a sacrifícios animais (Ez 40:39-43; 43:18, etc.), a ofertas de manjares (Ez 42:13), ao serviço levítico (Ez 44), ao sacerdócio da linhagem de Zadoque (Ez 40:46; 43:19; 44:15). A Nova Aliança, com o seu melhor sacrifício, melhor sacerdócio e melhores promessas, tornou tudo isto obsoleto quando Jesus veio (Hb 9:1-15). Foi o próprio Jesus que aboliu o sistema antigo, que era apenas temporário, uma sombra das coisas que haviam de vir.

No templo da visão, os gentios (incircuncisos) ainda são excluídos do santuário (Ez 44:9). Mas, pelo sangue de Jesus, os gentios já não estão separados da comunidade de Israel. De ambos os povos fez um, e ambos temos acesso ao Pai (Ef 2:11-18).

Por que razão haverá de existir um templo futuro que regressa ao passado? Se acontecer, não será certamente da vontade de Deus. Seria renegar a obra de Jesus na cruz e a sua ressurreição.
Já nem há qualquer razão para continuar a existir um templo de pedra, porque a habitação de Deus passou a ser no interior do homem. Não há mais necessidade de um altar para oferecer sacrifícios: Jesus fez o derradeiro e perfeito sacrifício na cruz. E também já não há necessidade de uma cidade terrena onde estivesse o nome e o trono do Senhor, porque Deus se adora em espírito e em verdade, e porque a igreja é a luz do mundo, a cidade edificada sobre o monte.
Se o templo descrito nos capítulos 40 a 48 do livro do profeta Ezequiel não é um templo futuro, vamos refletir sobre o que poderá significar.

O contexto histórico e cronológico

Olhemos para a história bíblica e a cronologia dos factos.

Israel estava no exílio na Babilónia quando Ezequiel teve esta visão. Embora longo, o exílio seria temporário. Havia numerosas promessas de regresso à terra de Israel (Jeremias 3:14-18; 16:9-5; 23:-8; 24:5-7; 29:10-14; 30:1-4,18-20; 31; Ezequiel 11:16-20; 34:13; 36; 37).

Cronologicamente, e pela natural lógica da história, o templo que Ezequiel viu era o modelo do templo para o período que viria a seguir, com o regresso de Israel à sua terra. O profeta devia anunciar e mostrar à casa de Israel o que estava vendo, fazer-lhes saber a planta da casa e o seu arranjo, as suas saídas, entradas, todas as suas formas, todos os seus estatutos dispositivos e leis, “para que observem todas as suas instituições e estatutos e os cumpram” (Ez 40:4; 43:10-).

Deus sempre deu ao seu povo o modelo do santuário que haviam de edificar para ele pôr o seu nome. Moisés, o profeta, recebeu os planos do tabernáculo (Ex 25:8-9). David, o rei, recebeu os planos do templo (1Cr 28:11-19) que seria depois construído pelo seu filho Salomão. Ezequiel, o “filho do homem”, recebeu o modelo do templo da Restauração, que é o período que começa com o regresso do povo à terra de Israel e culmina com a vinda do Renovo, de Jesus homem (Jr 23:5). E João, o discípulo amado exilado na ilha de Patmos, recebeu a visão da Nova Jerusalém, a cidade santa, o tabernáculo de Deus com os homens (Ap 21-22:5), representação e imagem simbólica da realidade e culminar do período presente da Nova Aliança.

A visão espiritual e a realidade material

A medida em que a visão de Ezequiel havia de se cumprir no reino do natural, foi cumprida depois do regresso do cativeiro.

Porém, o templo reconstruído por Zorobabel não correspondia à magnitude do templo da visão de Ezequiel. Nem chegava a igualar a grandeza do templo de Salomão (Ag 2:3). Por isso, é geralmente interpretado como sendo outro templo, futuro.

Era impraticável concretizar materialmente o templo da visão de Ezequiel. De certo modo, porque era um período conturbado, com uma dura oposição dos adversários aos planos de reconstrução da cidade e do templo. Também, o templo visionário era de tal maneira colossal que seria difícil concretizá-lo em qualquer época. Podemos deduzir que exprime uma realidade espiritual, muito mais do que uma realidade material.

Não há informações relativamente à planta do templo que foi construído por Zorobabel, mas parece-me que as medidas terão sido as indicadas por Ciro. Terá Deus mostrado um modelo a Ciro? Não nos esqueçamos que a época em que os Judeus viviam naquele tempo era o que podemos designar como o “tempo dos gentios”, período que começou quando Deus deu o reino a Nabucodonosor: Tu, ó rei, rei de reis, a quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória (Dn 2:37). Nabucodonosor era cabeça do primeiro reino e Ciro, do segundo: O Senhor, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra (2Cr 36:23).

Ciro afirmou que Deus o encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém (2Cr 36:23). No decreto que ele baixou no seu primeiro ano, diz com respeito à casa de Deus em Jerusalém que “seus fundamentos serão firmes, a sua altura de 60 côvados, e a sua largura de 60 côvados, com três carreiras de grandes pedras, e uma de madeira nova (Ed 6:3).

Materialmente, o templo era mais pequeno, menos rico e vistoso mas, por outro lado, a época da Restauração era um tempo com uma realidade espiritual muito mais rica, e cronologicamente mais avançada no plano da salvação. Eram os “últimos dias” antes da manifestação do Messias, dias de restauração para Israel.

Observei também uma diferença com as anteriores casas. Quando Moisés levantou o tabernáculo, no primeiro dia do primeiro mês, a nuvem cobriu a tenda da congregação e a glória (KABOD) do Senhor encheu o tabernáculo (Ex 40:34). De igual modo, quando a arca foi introduzido no templo de Salomão acabado de construir, no 7º mês (2Cr 5:3), a glória do Senhor encheu a casa de Deus (2Cr 5:14). Estranhamente, não há relato disto quando foi dedicado o templo de Zorobabel (Ed 6:16), apesar de, em Ageu, Deus declarar a sua presença no meio do povo (Ag 1:13; 2:5). Mas no templo da visão de Ezequiel, neste sim, a glória do Senhor enchia a casa do Senhor (Ez 43:4-5; 44:4).

Aos olhos do povo, a casa era como coisa de nada em comparação com o glorioso templo de Salomão (Ag 2:3). Contudo, Deus disse “Encherei de glória esta casa” e “a glória desta última casa será maior do que a da primeira” (Ag 2:7, 9).

Será que este “encher de glória” foi realizado quando Jesus esteve e ensinava no templo? Porque o templo que estava em Jerusalém no tempo de Jesus era aquele que fora construído por Zorobabel, incrementado e enriquecido muito mais tarde pelo rei Herodes e cuja planta inicial ficou irreconhecível, mas era o templo de Zorobabel.

Ou será que foi no dia de Pentecostes que a glória do Senhor encheu o templo?


Analisaremos esta hipótese na próxima mensagem.