22/05/2017

A ESTRELA DE BELÉM (3)

Continuação de A ESTRELA DE BELÉM (1) e (2)

Na mensagem anterior, vimos uma sequência de eventos astronómicos envolvendo o planeta Júpiter – o planeta Rei – culminando em 25 de dezembro com Júpiter numa posição estacionária e zenital sobre Belém.
Conjunções de planetas são eventos relativamente frequentes. Especial é a frequência e estreita proximidade dos planetas nas conjunções, bem como a sua localização numa mesma região do céu, nomeadamente nas constelações de Leo e Virgo, o que não pode deixar de formar em nossa mente associações com a simbologia e mensagem bíblica.
Se associarmos os eventos astronómicos com os eventos da narrativa bíblica, vemos que 25 de dezembro (ou uma data aproximada) foi o dia em que os magos chegaram a Belém.

Há indicações de que Jesus já tinha nascido quando os magos chegaram a Belém:
- O menino já não estava na manjedoura onde Maria o colocou depois de ter dado à luz (Lc 2:7) e onde os pastores o acharam (Lc 2:12, 15-16), mas ele estava numa casa (Mt2:11).
- A palavra com que a criança Jesus é identificada em Mateus 2 é diferente da que é usada na narrativa do nascimento e da visita dos pastores em Belém em Lucas 2.
Em Lc 2:12, 16, 21 é usada a palavra grega BREPHOS, que se refere a uma criança recém-nascida, ou ainda não nascida no caso da criança no ventre de Isabel (Lc 1:41, 44).
Na narrativa dos magos em Mt 2:8, 9, 11, 13, 14, 20, 21, é usada a palavra PAIDION, que se aplica normalmente a crianças. A mesma palavra é usada em Lc 2:40 – Crescia o menino (paidion) e se fortalecia. Por outro lado, PAIDION é usado em Lc 1:59 para o filho de Isabel e Zacarias, quando o foram circuncidar.
- Depois de inquirir da estrela que os magos viram, Herodes mandou matar as crianças com menos de dois anos de idade (Mt 2:16). O primeiro avistamento de Júpiter em estreita conjunção com Vénus foi em 12 de agosto 3 a.C.. Os magos chegaram a Jerusalém em dezembro de 2 a.C., cerca de 17 meses depois. Como as estrelas não davam certeza quanto a qual das conjunções significava o nascimento da criança, Herodes, para não correr riscos, deve ter arredondado o prazo a 2 anos.

A tradição de 25 de dezembro:
A origem da tradição de comemorar o nascimento de Jesus em 25 de dezembro não é muito clara.
A mais antiga referência a uma data para o nascimento de Jesus é de Hipólito de Roma (c.170-c.240) no seu Comentário sobre Daniel. O dia que ele indica é “oito dias antes das calendas de janeiro, uma quarta-feira, no 42º ano do reino de Augusto, 5500 anos desde Adão”, o que corresponde ao dia 25 de dezembro, e o 42º ano de Augusto é 3/2 a.C. (Finegan, #562). Um calendário romano do ano 354, Depositio martyrum, e um sermão no ano 386 de João Crisóstomo (pregador em Antioquia e mais tarde bispo de Constantinopla) referem a mesma data para a celebração do nascimento de Jesus em Belém (Finegan, #563).
Outra tradição data o nascimento de Jesus a 6 de janeiro, “treze dias depois do solstício de inverno”, segundo Epifânio (315-403). O solstício de inverno calhava então em 25 de dezembro. Clemente de Alexandria calculou a data de 18 de novembro (Finegan, #554). Outras referências antigas situam o nascimento de Jesus em abril, maio ou junho (Finegan, #554).
A opinião mais generalizada coloca a concepção na primavera e o nascimento no inverno (Finegan, #560, 569).
Relativamente ao dia 25 de dezembro, o que se destaca é uma possível associação com o dia do solstício de inverno, quando os dias começam de novo a crescer. A data atual do solstício é 21 de dezembro, mas naquele tempo 25 de dezembro era considerado o dia certo. Esse dia era um festival pagão em muitos lugares. Em Roma, existiam as Saturnálias que se festejavam por volta desse dia e, em 274, o Imperador Aureliano instituiu o festival de Deus Sol Invictus, o “sol invicto” sendo declarado a divindade oficial do Império. Quando o Imperador Constantino (323-337) aceitou o Cristianismo, 25 de dezembro passou a ser comemorado como nascimento de Cristo (Finegan, #568).
As datas de 25 de dezembro e 6 de janeiro podem ter sido fixadas por causa da associação com a data então aceite do solstício de inverno e com a expressa finalidade de substituir os festivais pagãos.
Eu interrogo-me se a data de 25 de dezembro não estará na realidade relacionada com o reconhecimento dos eventos astronómicos que levaram os magos a Belém. Eventos que foram depois esquecidos. E visto que 25 de dezembro teria sido a data em que os magos chegaram a Belém, deduziu-se que o nascimento de Jesus tenha acontecido nesses mesmos dias.

O que sugerem os eventos astronómicos de 3 e 2 a.C.?
Relembremos as datas da sequência de eventos:
Data 
Conjunção de planetas
12 agosto 3 a.C.
Vénus-Júpiter
11 setembro 3 a.C.
Mercúrio-Vénus
14 setembro 3 a.C.
Júpiter-Régulo
17 fevereiro 2 a.C.
Júpiter-Régulo
8 maio  2 a.C.
Júpiter-Régulo
17 junho 2 a.C.
Júpiter-Vénus
26 agosto  2 a.C.
Mars-Júpiter- Vénus- Mercúrio
25 dezembro 2 a.C.
Júpiter estacionário sobre Belém

Observamos que há duas conjunções dos planetas Júpiter e Vénus com um intervalo de cerca de 10 meses, a primeira em 12 de agosto 3 a.C. e a última em 17 de junho 2 a.C.. Um encontro de Júpiter, o planeta Rei, com Vénus, que representa a Mãe. Por exemplo, para os caldeus e os magos, Vénus era Ishtar, a mãe, a deusa da fertilidade.
Em 11 de setembro de 3 a.C. houve uma conjunção dos planetas Mercúrio e Vénus. Mercúrio é o Mensageiro. Podemos ver aqui a anunciação, o anjo Gabriel enviado a Maria (Lc 2:26-32)?
Além desta conjunção, o céu de 11 de setembro 3 a.C. lembra Apocalipse 12:1 – Viu-se um grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida de sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça, que, achando-se grávida, grita com as dores do parto, sofrendo tormentos para dar à luz.
Esta passagem é altamente simbólica, mas ao mesmo tempo é possível olhar para a constelação de Virgo no céu e ver um “sinal” astronómico.
No período do nascimento de Jesus, o Sol no seu curso anual entrou na posição da cabeça da mulher em 13 de agosto aprox. e saiu dos seus pés aprox. 2 de outubro. Mas João viu a cena quando a mulher estava “vestida” ou “adornada” com o sol. Isto deverá indicar que a posição do sol na visão era algures a meio-corpo. A lua devia estar na localização exata debaixo dos pés quando o sol estava a meio do corpo. No ano 3 a.C. isto aconteceu durante uma hora e meio, como observado da Judeia ou de Patmos, no crepúsculo de 11 de setembro. O relacionamento começou às 18:15 (pôr do sol) e durou até 19:45 (pôr da lua). É o único dia em todo o ano que o fenómeno astronómico descrito no Apocalipse podia acontecer (MARTIN, capítulo 6).
O que é de destacar aqui é o facto de a lua estar no início da fase crescente, ou seja, indica o começo de um novo mês lunar. Esse dia era o primeiro dia de Tishri, o novo ano judaico, Rosh ha-Shanah, o Dia das Trombetas (Lev 23:23-26). Seria um dia expressivo para a chegada do Messias na terra, e por isso apontado por vários autores contemporâneos como o dia do nascimento de Jesus.
Fonte da imagem: Victor Paul Wierwille. Jesus Christ our promised seed (1982)

Olhando para os eventos astronómicos, apresentam-se várias alternativas para o nascimento de Jesus:
4 a.C.
3 a.C.
2 a.C.
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1) 25 de dezembro (chegada dos magos) como data do nascimento, situando a concepção na primavera, no mês de março.
2) 11 de setembro (Dia das Trombetas) como dia do nascimento, situando a chegada dos magos em dezembro 15 meses depois.
3) 11 de setembro como dia da anunciação (conjunção de Mercúrio e Vénus) e concepão. Isto situaria o nascimento 9 meses depois, o que corresponde à segunda conjunção Júpiter-Vénus em 17 de junho.

Em meu ver, a terceira opção – o nascimento em junho – é a mais aceitável, pelas seguintes razões:
Lc 1:26 diz que no 6º mês foi o anjo Gabriel enviado a Maria, a Nazaré na Galileia. Geralmente, é interpretado como sendo o 6º mês da gravidez de Isabel, por causa do v.36 que diz – E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril.
Mas, em meu ver, é mais provável Lc 1:26 significar simplesmente que o acontecimento descrito em Lc 1:26-38 teve lugar no 6º mês do ano, que é o mês de Elul (agosto-setembro). E 11 de setembro enquadra-se aqui perfeitamente.
Se o anjo Gabriel foi ter com Maria no 6º mês do ano, nem 25 de dezembro nem 11 de setembro são opção para o dia de nascimento porque situam a concepção longe do 6º mês.
Com a concepção em setembro, Jesus pode ter nascido no 3º mês do ano seguinte, que é Sivan (maio-junho). E aqui enquadra-se a conjunção Júpiter-Vénus de 17 de junho.
Esse mês será também o da Festa das Semanas ou Pentecostes, que ocorre 50 dias depois da Páscoa (Lv 23). É uma ocasião igualmente simbolicamente significativa. E uma boa ocasião para José e Maria irem a Belém; e por isso uma boa razão para não haver lugar na estalagem (Lc 2:7), visto que muitos Judeus se deslocavam a Jerusalém para esta Festa. Belém fica muito próximo de Jerusalém.
Ap 12:1, sendo um versículo simbólico (e certamente não específico da figura de Maria, mas com uma abrangência muito maior), não obriga a situar o nascimento de Jesus em 11 de setembro. Podemos interpretar este versículo como condensando numa só frase todo o período de gravidez, desde a concepção até ao dar à luz, não invalidando o significado do Dia das Trombetas como início de uma nova era com a encarnação de Jesus.
Se Jesus nasceu em junho, ele teria então cerca de 6/7 meses aquando da chegada dos magos.
Jesus nasceu quando José e Maria foram a Belém para alistar-se, conforme requerido pelo decreto de César Augusto convocando toda a população do império para recensear-se (Lc 2:1-6). Lembramos que em fevereiro de 2 a.C. Augusto recebeu o título de Pater Patriae, havendo uma grande probabilidade que o “recenseamento de Quirino” tenha a ver com este facto (ver mensagem O RECENSEAMENTO DE QUIRINO). Era requerido de todas as pessoas, cidadãos romanos e outros, em todo o Império e suas províncias, um juramento de lealdade. Se o decreto emanou do próprio Augusto, penso ser possível concluir que o censo foi conduzido depois de fevereiro.


Assim, as evidências bíblicas, históricas e astronómicas parecem convergir em junho de 2 a.C. para a data do nascimento de Jesus

14/05/2017

A ESTRELA DE BELÉM (2)

Continuação de A ESTRELA DE BELÉM (1)

Nas mensagens sobre O ANO DA MORTE DO REI HERODES e O RECENSEAMENTO DE QUIRINO apontámos para 3 / 2 a.C. como ano provável do nascimento de Jesus.
As evidências indicam que Herodes morreu em 1 a.C., e não em 4 a.C., e que um recenseamento em todo o Império Romano terá tido lugar por altura da atribuição do título de Pater Patriae a Augusto em janeiro de 2 a.C.
Em 3 e 2 a.C., sobre um período de 18 meses, ocorreu uma sequência de eventos astronómicos extraordinários, quase todos envolvendo o planeta Júpiter, conhecido como o planeta Rei.
Poderá Júpiter ser a “sua estrela”, a que conduziu os magos a Belém?
Sabemos que Júpiter é um planeta. Mas acontece que, na linguagem bíblica, não há diferenciação entre estrelas e planetas. A observação era feita a olho nu. Os planetas eram “estrelas errantes” (asteres planetai - Jud 13), pois as outras estrelas parecem fixas em relação umas das outras devido à sua grande distância da terra. Os planetas estão muito próximos de modo que conseguimos seguir os seus movimentos.
Na mitologia, Júpiter era o pai dos deuses, aquele que dominava sobre tudo. Júpiter é associado com realeza. O nome hebraico para o planeta Júpiter é SSEDEQ, o que significa justiça. Jr 23:5,6; 33:15-16. Será este um sinal (Gn1:14) apropriado para o Messias?
“… o facto permanece que estes homens sábios dos Gentios vieram efetivamente até Jerusalém, e depois a Belém, para encontrar e adorar o Salvador recém-nascido, movidos e conduzidos por sinais astronómicos, que eles nunca podiam ter entendido se não tivesse havido, associado às estrelas, alguma promessa e profecia evangélica definida que podiam ler, e acreditar que vinha de Deus “ (Seiss, p.6).

As ocorrências astronómicas dos anos 3 e 2 a.C.
Para a descrição da sequência dos eventos astronómicos recorro a Ernest Martin, The Star of Bethlehem: The Star that Astonished the World (1991), que dá uma descrição detalhada dos movimentos dos planetas nesse período.

1.      Em 12 de agosto do ano 3 a.C., cerca de uma hora e vinte antes do nascer do sol, ocorreu uma conjunção de Júpiter e Vénus, no céu oriental. Os dois planetas estavam muito próximos, a 0.07 graus de distância visto da terra.
Fonte da imagem: http://www.astronomynotes.com" >Nick Strobel's Astronomy Notes

2.      Cerca de um mês depois, em 11 de setembro, o planeta Mercúrio (o Mensageiro) deixa a sua posição com o Sol e posiciona-se em estreita conjunção com Vénus (a Mãe). Isto aconteceu quando o Sol acabou de entrar na constelação de Virgo (a Virgem) e Júpiter (planeta Rei) estava a entrar na constelação de Leo (o Leão).
Todos estes signos astrais ecoam temas bíblicos. Deus é chamado “ o Sol de justiça” (Malaquias 4:2). Jesus é chamado “estrela da manhã” (Ap 22:16). O Salvador havia de nascer de uma virgem (Virgo) na tribo de Judá (o Leão) e seria introduzido por um mensageiro (João Baptista) (Mal 3.1; Mc 1:2.).
3.      Depois de 11 de setembro, ocorrem 3 conjunções envolvendo Júpiter e Régulo num período de 8 meses:
14 de setembro 3 a.C.,
17 de fevereiro
8/9 de maio 2 a.C.
Regulus (ou Régulo) é a estrela alfa e mais brilhante da constelação de Leo. Na realidade trata-se de um sistema de quatro estrelas. Significa pequeno rei em Latim. Esta designação vem dos Persas, que dividiam o céu em 4 partes, usando 4 estrelas como referência para marcar o início das estações do ano. Essas estrelas eram chamadas de “estrelas reais”: Aldebaran (em Touro), Regulus (em Leão), Antares (em Escorpião) e Fomalhaut (em Peixe Austral). Regulus é chamada de Pequeno Rei porque, entre as 4 estrelas reais, é a que brilha menos.
Mas era também conhecida por Cor Leonis (em Latim, o coração do leão), em árabe Qalb Al Asad, pela posição que esta estrela ocupa no corpo da figura celestial. Em línguas semíticas, a palavra REGEL significa “pé”, evocando Gn 49:10 – O cetro não se arredará de Judá (simbolizado como Leão), nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló.
Três vezes o planeta Rei entra em conjunção com a estrela Real (Régulo) na constelação real (Leo).
Esta conjunção tripla ocorre devido ao movimento retrógrado aparente do planeta Júpiter, que faz com que Júpiter e Régulo se cruzem no céu três vezes durante um período de poucos meses. O movimento de retrogressão é um efeito ótico em que os planetas parecem inverter o seu movimento. Isto ocorre porque a terra é uma plataforma que se move, e que se move mais rapidamente em volta do sol do que Júpiter, neste caso. Da mesma maneira que, quando ultrapassamos um carro na estrada, este parece andar em sentido contrário à medida que fica para trás.
O efeito visível deste movimento retrógrado mostrou Júpiter fazendo um movimento circular, do tipo “coroação”, acima de Régulo (imagem retirada de Ernest Martin). Tudo isto na constelação de Leo, o signo zodiacal de Judá.

Leste                                                            Oeste

Júpiter passa por Régulo de 12 em 12 anos. Nada de especial, mas três conjunções é muito raro. E também a localização do movimento circular migra através dos anos, atravessando outras constelações.
4.      Passados estes movimentos, em 17 de junho de 2 a.C., ocorre uma nova conjunção de Júpiter e Vénus, (a primeira ocorreu em 11 de setembro do ano anterior) na constelação de Leo, agora ainda mais espetacular. E no tempo exato da lua cheia.
Esta conjunção acontece aproximadamente de 12 em 12 anos, mas raramente atinge esta proximidade. A olho nu, e naquele tempo toda a observação era feita assim, não se podiam distinguir as duas estrelas, parecendo apenas uma muito brilhante.


Fonte da imagem: http://www.astronomynotes.com" >Nick Strobel's Astronomy Notes
Os Magos, que estariam na Mesopotâmia, teriam testemunhado esta união planetária no horizonte ocidental, precisamente na direção da Judeia. Uma hora mais tarde, os planetas pareceriam estar ainda mais próximos aos observadores na Judeia. Nunca viram uma conjunção tão brilhante e não haveria outra por muitas gerações.
5.      Em 27 de agosto, na mesma região do céu, perto da constelação de Leo, há uma aglomeração de 4 planetas (Júpiter, Mars, Vénus e Mercúrio) numa relação longitudinal em estreita proximidade. Todos os planetas primários (exceto Saturno) estavam agora aglomerados na constelação de Leo.
Quando os magos chegaram a Jerusalém, Jesus já tinha nascido. Disseram que viram a sua estrela no oriente (Mt 2:1, 9), ou seja viram-na no horizonte do lado do oriente. Outra tradução diz “no seu surgir”. As palavras gregas EN TE ANATOLE significam literalmente “no surgir”. O nascer helíaco ou nascimento heliacal, como é chamado na astronomia, de um corpo celeste é o momento em que este se torna visível no horizonte imediatamente antes do nascer do Sol. É o que aconteceu em 12 de agosto de 3 a.C..
Se os magos observaram o surgir de Júpiter no oriente em 12 de agosto 3 a.C., eles podiam observar o movimento do planeta em direção ao ocidente. Podiam, literalmente, ter “seguido” Júpiter. Eles disseram que a estrela os precedia (Mt 2:9). O tempo imperfeito do v.9 sugere que a estrela estava continuamente a guiá-los.
Quando chegaram a Jerusalém, foram enviados por Herodes a Belém (Mt 2:8), porque era onde o Messias havia de nascer (Miq 5:2). Partindo, e eis que a estrela que viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino. A estrela parou (ou aparentou parar aos olhos do observador na terra) o seu andamento. Planetas aparentam “param” em determinados momentos, quando iniciam uma retrogressão ou progressão. Pode ser que Mateus mostrou simplesmente que Júpiter ficou estacionário no seu movimento pelas estrelas fixas no momento em que atingiu o zénite sobre Belém.
6.      Isto aconteceu no final de 2 a.C., entre 4 de dezembro e 9 de janeiro 1 a.C. (Wierwille), e terá sido em 25 de dezembro 1 a.C. (Ernest Martin)!

Isto parece que resolveu pelo menos uma questão. 25 de dezembro não é a data de nascimento de Jesus, mas o dia em que os magos chegaram a Belém e ofereceram as suas dádivas.

(continua)

13/05/2017

A ESTRELA DE BELÉM (1)


Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: Onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos sua estrela no seu surgir e viemos para adorá-lo […] Então Herodes mandou chamar secretamente os magos e procurou certificar-se com eles a respeito do tempo em que a estrela tinha aparecido. […] E eis que a estrela que tinham visto no céu surgir ia à frente deles até que parou sobre o lugar onde se encontrava o menino. Eles, revendo a estrela, alegraram-se imensamente. (Mt 2:1-10) (tradução Bíblia de Jerusalém, Edição 2002)

Alguns consideram esta estrela uma fábula, algo que nunca existiu; outros consideram-na um milagre, para o qual é inútil buscar uma explicação; ou algo parecido com a nuvem de glória ou a coluna de fogo que conduziu os israelitas pelo deserto; há quem defenda que Deus revelou profeticamente (ou em sonhos) aos magos o significado do nascimento do Messias conduzindo-os até Ele, nada tendo que ver com as estrelas; e outros há que consideram possível tratar-se de um fenómeno celestial, astronómico, que realmente ocorreu e pôde ser visto no céu.
Facto é que Mateus fala repetidamente de uma estrela e descreve o acontecimento numa linguagem concreta, em circunstâncias que envolvem várias pessoas, não só os magos, como também Herodes, os sacerdotes e os escribas, e que teve consequências reais e dramáticas no massacre das crianças de Belém. Bem que nem Herodes, nem a sua corte, pareçam ter sido conscientes da existência de uma estrela, ouvindo os magos, ele não duvidou deles um momento, mas alarmou-se e convocou todos os principais sacerdotes e escribas. Os judeus em Jerusalém não se aperceberam de um acontecimento especial no céu noturno, mas quando os magos explicaram de que se tratava, perceberam. São elementos que favorecem uma interpretação literal, da ocorrência de um fenómeno observável, embora possa não ser compreendido se não for explicado.
Vários tipos de “estrelas” entram em linha de conta: estrelas fixas, planetas (estrelas errantes), meteoros ou estrelas cadentes, cometas, novas ou supernovas. Naquele tempo, toda observação era feita a olho nu. O telescópio só foi inventado muitos séculos depois. Hoje, o uso de computadores permite referenciar todos os movimentos solares, lunares, planetários e estelares e relações entre eles dos últimos cinco mil anos.
­Várias explicações têm sido sugeridas.
No século 17, Kepler sugeriu que a estrela de Belém pudesse ser o aparecimento de uma supernova depois de uma conjunção de Júpiter e Saturno, que ele calculou ter ocorrido em 7 a.C. De acordo com cálculos modernos, em 7 a.C. tiveram lugar três conjunções de Júpiter e Saturno: em 27 de maio, 6 de outubro e 1 de dezembro.
Maunders (1908) também propõe que tenha sido uma estrela totalmente nova, uma explosão gigante de uma estrela existente mas desconhecida (ainda não existia o termo nova ou supernova), embora a narrativa lhe parece astronomicamente demasiado incompleta para tirar qualquer conclusão.
Uma nova é uma explosão nuclear de uma estrela. Aparece de repente, pode perdurar algum tempo, diminuir de intensidade e apagar; surge no oriente como as outras estrelas e pode ser espetacular. Mas não há registo de novas no período de 3/2 a.C., que apontámos em anteriores mensagens como período que delimita o nascimento de Jesus. Além disso, uma nova teria sido visível e não poderia ter sido ignorado por Herodes. A visão das estrelas no céu noturno não estava dificultada como hoje por um excesso de iluminação.
A estrela de Belém é também frequentemente associada ao cometa de Halley. Um cometa é um objeto que tem uma órbita muito grande em volta do sol, com ciclos de muitos anos. O cometa de Halley tem um período orbital de 75 anos. Passou perto da terra entre 24 de agosto e 17 de outubro do ano 12 a.C.. Isto colocaria o nascimento de Jesus demasiado cedo, mas é uma data apoiada por alguns.
Em tempos antigos, cometas eram interpretados como sinais de mau presságio e destruição (o que dificilmente pode ser dito da boa nova da vinda do Salvador), a sua incursão no céu desrespeitando o movimento ordenado e cíclico dos astros. Também não há registos (chineses ou de outras civilizações) que relatam cometas em 3 ou 2 a.C.
Em 1912, o teólogo alemão Franz Steinmetzer sugeriu que a estrela sobre Belém era o caso de um planeta em posição “estacionária” (isto é, o planeta parece parar quando inverte o seu movimento visto da terra; é um efeito visual que ocorre porque a terra se move mais rapidamente em volta do sol do que o planeta), e que o planeta que mais se adequava era o planeta Júpiter.
Em 1968, Roger W. Sinnott, no jornal de astronomia Sky and Telescope, foi o primeiro a chamar a atenção para uma conjunção pouco usual de Júpiter e Vénus em 17 de junho 2 a.C.. Uma conjunção ocorre quando dois ou mais astros atingem coordenadas celestes muito próximas, parecendo cruzar-se no céu. Numa observação a olho nu vir-se-ia apenas uma estrela. Era na verdade uma “estrela dupla” que pareceu fundir-se numa única “estrela”, mais brilhante, à medida que os planetas se aproximavam do horizonte ocidental.
Em 1980 foi organizado um simpósio no Observatório planetário de Griffith, nos Estados Unidos, conduzido pelo cronologista e historiador da Bíblia Jack Finegan, para discutir o significado histórico de uma sequência invulgar de eventos astronómicos ocorridos nos anos 3 e 2 a.C.. No planetário foi mostrado o que se podia ver no céu há cerca de 2000 anos na Babilónia e em Jerusalém. Concluiu-se que os eventos astronómicos abrangendo um período de 18 meses, desde agosto de 3 a.C. a dezembro de 2 a.C., foram de tal significado histórico e astronómico que houve necessidade de reavaliar os relatos históricos e a cronologia (que favoreciam uma data anterior a 4 a.C. para o nascimento de Jesus) à luz desta descoberta.
Estes eventos astronómicos de 3 e 2 a.C. enquadram-se no período que os primeiros historiadores cristãos diziam ser quando Jesus nasceu, e que nas anteriores mensagens temos apontado como provável data. E podem ter sido estes sinais astronómicos que os magos reconheceram como sendo a estrela do Rei dos Judeus (Mt 2:2). Eles viram a sua estrela no Oriente, ou no seu surgir (no céu do lado oriental), como também pode ser traduzido, e voltaram a vê-la em várias ocasiões a caminho para ocidente (da Babilónia para Jerusalém). Do oriente para ocidente, a estrela os precedia (Mt 2:9), até que a viram de novo, parada onde estava o menino.

Astronomia e a Bíblia
Génesis 1:14 – Disse também Deus: Haja luzeiros no firmamento dos céus, … e sejam eles para sinais, para estações (tempos determinados), para dias e anos. “Sinais” significa algo adicional e para lá daquilo que evidenciam e expressam na sua natureza e funções naturais (Seiss).
Mas não confundamos. Não se trata de astrologia – a falsa arte de predizer o futuro pelos movimentos e posições dos astros -, prática proibida pela Bíblia como outras práticas divinatórias (Dt 18:10-14; Is 47:13-14). A astrologia é uma corrupção da revelação original.
Salmo 19 diz que os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos…não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som, no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo. As estrelas mostram conhecimento, mostram os desígnios de Deus. O Salmo 147 diz que o Senhor chama todas as estrelas pelos seus nomes. Portanto, os nomes das estrelas não foram dados pelos homens. Autores modernos (Rolleston, Bullinger, Seiss, Wierwille) e outros mais antigos sugerem que há no firmamento do céu uma revelação anterior à Palavra escrita. Cassini (1625-1712), na sua História da Astronomia diz que é impossível duvidar de que astronomia foi inventada desde o início do mundo; a história, tanto profana como sagrada, testifica desta verdade. Seiss procura demonstrar que a história da Serpente, da Mulher (Virgem), do Dragão, da Cruz (todas estas figuras são constelações), conhecida desde o princípio da humanidade, está escrita nas estrelas, no enquadramento original da astronomia.
Não diz Hebreus 1:1 que Deus falou outrora de muitas maneiras, aos pais, e pelos profetas, e no fim através do Filho. Não poderá Ele ter falado através das estrelas e constelações? Quando Deus criou os céus e a terra, Ele fixou as estrelas nos seus lugares, as constelações, e os planetas (estrelas errantes) no seu curso, e deu-lhes nomes específicos. Esta informação foi primeiro dada a Adão, e depois passada de geração em geração. Com o passar do tempo, o verdadeiro significado dos “sinais” de Deus se foi perdendo e se corrompendo, e originaram as mitologias, astrologias e outras práticas e crenças.
Um exemplo de como o significado inicial das constelações foi pervertido é a constelação de Coma, um decanato da constelação de Virgo (além das 12 constelações do zodíaco, há mais 36 constelações chamadas decanatos (= partes), 3 para cada signo do zodíaco, que são boreais ou austrais, isto é estão posicionados a norte ou a sul da faixa zodiacal). O nome antigo COMAH significa Desejado, mas nos mapas astrais modernos aparece com o nome de Coma de Berenice, ou Cabeleira de Berenice. A história conta que Berenice, mulher de Ptolomeu III Eurgetes, rei do Egipto no século 3 a.C., fez o voto de oferecer o seu cabelo à deusa Vénus se o marido voltasse salvo de uma expedição perigosa. O cabelo, que foi colocado no Templo de Vénus, foi roubado e, para confortar Berenice, Conão de Samos, um astrónomo da Alexandria (283-222 a.C.) disse que Júpiter o tinha tomado e feito dele uma constelação.
A transição das línguas antigas para as mais modernas ajudaram a ocultar o significado inicial. O nome hebraico era COMAH (desejado), mas os Gregos tinham uma palavra para cabelo, Co-me, que foi transferido para o Latim coma, e assim veio até nós como "Coma Berenice" (o Cabelo de Berenice), em vez de “Desejado”, como em  Ageu 2:7 “o desejado das nações” (Bullinger).
A palavra Zodíaco vem do Grego ZOIDIAKOS, mas não tem origem em ZOE, viver, mas na raiz primitiva através do Hebraico SODI, que em Sânscrito significa um caminho. A etimologia do zodíaco é conectada com um caminho (Bullinger), e não mais é que o caminho por onde o sol parece mover-se entre as estrelas passando pelas 12 constelações do zodíaco no decurso de um ano; 30 graus cada mês e no fim do 12º mês aparece de novo onde começou no primeiro mês.
Este caminho do sol é a eclíptica. As constelações aparecem numa faixa de 16 graus de largura na eclíptica (cerca de 8 graus acima e 8 abaixo). É também o caminho por onde passam os planetas.


Fonte da imagem: http://earthsky.org/astronomy-essentials/what-is-the-zodiac
Os doze signos do zodíaco são os mesmos, tanto com respeito ao significado do nome quanto à sua ordem, em todas as antigas nações do mundo. O que prova uma origem comum. As figuras são perfeitamente arbitrárias; não há nada nos grupos de estrelas que remotamente sugere a semelhança das figuras que lhes dão nome. O signo de Virgo, por exemplo. Não há nada que sugere uma forma humana, menos ainda se é homem ou mulher. É assim para todos os signos. A imagem, por isso, contem o significado original, e deve ter sido desenhada em volta de certos grupos de estrelas, numa ordem que as pudesse identificar para lembrar, memorizar, preservar e passar para a posteridade (Bullinger).

Este é um assunto muito interessante para aprofundar (ver a bibliografia), mas temos que voltar à questão da cronologia do nascimento de Jesus.
Na próxima mensagem, vamos ver as ocorrências astronómicas dos anos 3 e 2 a.C. e o seu significado simbólico, e em que medida nos podem ajudar a estabelecer a cronologia do nascimento de Jesus.

Bibliografia
Frances Rolleston, Mazzaroth; or, The Constellations (1863; new ed., London: Rivingtons, 1882);
E.W. Bullinger, The Witness of the Stars (1893; reprint ed., Grand Rapids: Kregel, 1967)
Joseph A. Seiss, The Gospel in the Stars (1882; illus. ed., Grand Rapids: Kregel, 1972)
Clyde L. Ferguson, The Star and the Bible (Hicksville, N.Y.: Exposition Press, 1978).
Victor Paul Wierwille. Jesus Christ our promised seed (1982) American Christian Press The Way International New Knoxville Ohio
Martin, Ernest E., The star that astonished the world (1991)

E. Walter Maunder, The astronomy of the Bible: an elementary commentary on the astronomical references of holy scripture (1908)  
Observatório Astronómico de Lisboa. O nome das constelações.

19/03/2017

AS ASSOLAÇÕES DE JERUSALÉM (2)

Um leitor do blog observou num comentário à mensagem 70 ANOS DE ASSOLAÇÕES DE JERUSALÉM (julho 2015), que a contagem dos 70 anos que haviam de durar as assolações de Jerusalém (Dn 9:1-2) só se iniciam após a destruição da cidade no ano 19º de Nabucodonosor. É precisamente neste tempo, da invasão da cidade e da destruição da mesma, juntamente com o templo, a casa do rei e todas as casas em Jerusalém, é que começam a contar os 70 anos da ASSOLAÇÃO DA CIDADE e do DESCANSO SABÁTICO, da mesma por iguais 70 anos. Para que sejam contados os 70 anos da desolação de Jerusalém, é necessário que a mesma esteja destruída; se a cidade permanece íntegra e habitada pelos judeus, essa assolação não pode ser contada; porquanto necessita ser primeiro assolada. E somente após a completa destruição da cidade e após desaparecer dentre eles a voz de gozo, e a voz de alegria, a voz do esposo, e a voz da esposa, como também o som das mós, e a luz do candeeiro é que os 70 anos da desolação se começariam a se contar (Daniel 9:2; Jer 25:9-11)

Se considerarmos que os 70 anos de assolações e de descanso da terra só começam com a destruição total de Jerusalém, pelas razões acima avançadas, também é lógico que só deveriam terminar com o regresso do povo à sua terra 70 anos depois.

Mas Zacarias 7:1-5 prova que não é assim. Não há 70 anos entre a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor e o regresso do povo autorizado pelo decreto de Ciro.

Vejamos.

A data da tomada de Jerusalém por Nabucodonosor no 11º ano de Zedequias, assumi (embora não tenha a pretensão que esteja absolutamente correta) como sendo AH 3418[i]. No 5º mês daquele ano, a cidade foi queimada.

Vários anos depois do regresso do exílio, e escassos dias antes do final do 4º ano de Dario[ii], no 4º dia do 9º mês (Zc 7:1-5) - Sarezer e Régen-Meleque perguntaram aos sacerdotes e aos profetas: Continuaremos nós a chorar, com jejum, no 5º mês, como temos feito por tantos anos? Respondeu Zacarias: Quando jejuastes e pranteastes no 5º e no 7º mês durante estes 70 anos …­

Os jejuns do 5º e 7º mês rememoravam a destruição de Jerusalém e o assassinato de Gedalias, respetivamente. A primeira vez que fizeram estes jejuns foi, logicamente, no primeiro ano a seguir ao ocorrido, portanto, no ano 3419. Da pergunta de Sarezer e resposta de Zacarias no 9º mês, deduzimos que no 5º mês anterior a esta pergunta fizeram o jejum pela 70ª vez, portanto no ano 3488. No ano seguinte 3489, no 12º mês, terminou a construção da casa do Senhor (Esdras 6:15).

3486    6º mês – Ageu começa a falar no 2º ano de Dario
9º mês (num dos últimos dias do mês) – começa o 3º ano de Dario
3487    9º mês (num dos últimos dias do mês) – começa o 4º ano de Dario
3488    5º mês – 70º jejum do 5º mês
9º mês, 4º dia – palavra de Zacarias 7:1-5
            9º mês (num dos últimos dias do mês) – começa o 5º ano de Dario
3489    9º mês (num dos últimos dias do mês) – começa o 6º ano de Dario
            12º mês – o templo é acabado (Esdras 6:15)

Com o rei Dario já estamos portanto vários anos (cerca de 20) depois de Ciro e do regresso do povo.

Portanto, se há 70 anos desde a tomada de Jerusalém até ao 4º ano de Dario, o tempo de “assolações” e a desolação começou antes da tomada de Jerusalém. As assolações começaram no 3º ano de Jeoaquim, quando Nabucodonosor subiu a primeira vez contra Jerusalém e “o Senhor lhe entregou nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá, e alguns dos utensílios da casa de Deus; a estes levou-os para a terra de Sinear, para a casa do seu deus” (Dn 1:1-2). As assolações continuaram com várias deportações, nomeadamente de Joaquim e todos os príncipes, todos os homens valentes, todos os artífices e ferreiros … e todos os tesouros da casa do rei e Nabucodonosor cortou em pedaços todos os utensílios de ouro que fizeram Salomao para o templo, no 8º ano de Nabucodonosor (2Rs 24:6-16). E as assolações culminaram quando a cidade foi sitiada e destruída e o resto do povo levado para o exílio.

Desde o tempo do rei Josias que Jeremias os acusava de praticar abominações (Jr 6:15; 7:10, 30; 8:12; …) e anunciava a vinda de um povo do norte (Jr 4:6-7; 5:15-17; 6:1 22; …). Levítico 18:24-30 diz que a prática de atos abomináveis contamina, não só as pessoas, mas também a terra que, em consequência, vomita os seus moradores. Foi por causa das abominações praticadas pelos cananeus que estes foram expulsos (vomitados). Os israelitas são avisados de não se contaminarem com as mesmas coisas que fazem as nações: Não suceda que a terra vos vomite, havendo-a contaminado como vomitou o povo que nela estava antes de vós (v.28).

Quando estes atos abomináveis são trazidos para dentro do santuário, é o lugar santo onde Deus habita (ou que representa a sua habitação) que é profanado. Deus não recebe coisas abomináveis. Quando estas entram no seu templo, Deus abandona – desola - o seu santuário e depois o destrói.

Há várias ocorrências disto na Bíblia. Os sacerdotes filhos de Eli trouxeram o pecado bem dentro do tabernáculo. Não se importavam com o Senhor (v.12). Não só roubavam do que o povo vinha sacrificar, como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação, e fizeram transgredir o povo (1Sm 2:12-25). Em consequência, Deus trouxe um inimigo contra Israel, os filisteus, e abandonou o seu santuário (a arca da sua presença foi levada pelos filisteus), e o sumo-sacerdote Eli e os seus filhos foram mortos e os seus descendentes como que “vomitados” do serviço no santuário (1 Sm 2:30-34; 3:11-14).

No tempo de Ezequiel, o mesmo aconteceu. Ezequiel, que tinha sido levado para o exílio no grupo do rei Joaquim, viu em visão (Ez 8-11:13) as abominações cometidas dentro do templo pelos sacerdotes. Vês o que eles estão fazendo? As grandes abominações que a casa de Israel faz aqui, para que me afaste do meu santuário (Ez 8:6-18)? Os próprios sacerdotes trouxeram religiões estranhas (idolatria) dentro do templo. Em consequência, Ezequiel viu a glória do Senhor levantar-se e sair do templo (Ez 9:3; 10:18). E também viu na sua visão Deus ordenar ao homem vestido de linho para espalhar brasas acesas sobre a cidade. Deus trouxe os caldeus e Nabucodonosor contra Israel, para destruir o templo e a cidade, levar o povo para o exílio e matar o sumo-sacerdote (Jr 4:1;7:30; 13:27; 52:24-26; Ez 5:9,11;6:11; 8:1-18; 2 Cr 36:14-17).

Podemos concluir que foram as abominações cometidas no templo pelos sacerdotes de Israel que contaminaram o lugar santo e fizeram com que Deus retirasse a sua presença e desolasse a sua casa. Abominações não são ações cometidas por estranhos à aliança, mas são cometidas na presença de Deus pelo próprio povo de Deus, representados pelos seus sacerdotes. Porque os filhos de Judá fizeram o que era mau perante mim, diz o Senhor: puseram os seus ídolos abomináveis na casa que se chama pelo meu nome, para a contaminarem (Jr 7:30).

Israel era separado das outras nações para serem sacerdotes diante de Deus. Deus habitava no meio deles. Na terra, tanto israelitas como estrangeiros e outros habitantes podiam cometer abominações. Mas no templo, apenas israelitas (representados pelos seus sacerdotes) tinham acesso, por isso só eles podiam cometer atos abomináveis. Como sacerdotes e levitas, o seu dever era “guardar” a santidade do santuário, assim como Adão fora incumbido de guardar o jardim para não deixar entrar a corrupção que o contaminaria. Adão não guardou o jardim/santuário e foi expulso. Os sacerdotes e levitas não guardaram o tabernáculo, também não guardaram o templo, mas estabeleceram nele a abominação que resultou na desolação.

Assim, não era a presença de exércitos inimigos no templo, quer filisteus, quer caldeus, quer os estandartes romanos, que constituía abominação, mas o facto desta presença e ação profanadora do inimigo era a consequência visível da abominação cometida por Israel. A abominação trazia um juízo, executado mediante o exército de um povo estranho.

Na dedicação do templo de Salomão, a glória de Deus encheu o templo, mostrando a sua presença. Ao longo do tempo da monarquia, as abominações foram entrando no templo, por vezes sanadas, por vezes não, até que chegou a um ponto de não retorno para Israel. Não ores mais por este povo (Jr 7:16; 11:14; 14:11). Ezequiel relata como viu em visão a glória de Deus deixar o templo. Mais uma vez, a glória de Deus foi para o exílio, desta vez na Babilónia, com o remanescente do povo. O templo em Jerusalém, desolado por Deus (Ez 9-11), foi destruído alguns anos mais tarde por Nabucodonosor.

Os 70 ANOS DE ASSOLAÇÕES terminam com o regresso à terra. Podemos datar o ano do regresso adicionando 70 anos ao 3º ano de Jeoaquim: 3398 + 70 = 3468.

Também o CATIVEIRO durou 70 ANOS. E assim como o tempo de assolações, o cativeiro começou por ser parcial a partir do 3º ano de Jeoaquim, com o exílio de um grupo de jovens entre os quais Daniel, e passou a ser total no 11º ano de Zedequias com a destruição de Jerusalém.

Quanto aos 70 anos de DESCANSO DA TERRA, estes sim começaram quando Jerusalém foi queimada e Nabucodonosor levou todos em cativeiro, exceto os mais pobres da terra. Mas prolongaram-se depois do regresso, só terminando com a reconstrução do templo, cujos fundamentos são colocados no 2º ano de Dario, cerca de 20 anos depois do regresso. Embora os judeus tivessem regressado à terra na  sequência do decreto de Ciro, “os céus sobre vós retêm o seu orvalho, e a terra os seus frutos… (Ag 1:10-11). O povo continuava alienado da terra até terem iniciado a reconstrução da casa do Senhor (Ageu 1:1-11; 2:18-19; Zacarias 8:9-12).

No 2º ano de Dario (3486), no 6º mês, Ageu começou a falar (Ageu 1). O 6º mês segue ao 5º mês (mês em que a cidade foi queimada) e isto parece ser uma indicação que o tempo de descanso da terra estava a terminar. Estavam no início do 70º ano depois da tomada de Jerusalém, e Deus disse: Eu sou convosco (Ag 1:13), e todos se puseram ao trabalho na casa do Senhor. No 24º dia do 9º mês, a dias do fim do 2º ano de Dario, é o dia que se fundou o templo do Senhor (Ag 2:10, 18).
– Considerai, eu vos rogo, desde este dia em diante, desde o 24º dia do mês nono, desde o dia em que se fundou o templo do Senhor, considerai nestas coisas. Já não há semente no celeiro.além disso avideira a figueira, aromeira ea oliveira não têm dado osseus frutos; mas desde este dia vos abençoarei (Ageu 2:18-19).

O ano em que Jerusalém foi destruída é considerada um ano sabático. Curioso é que os pobres da terra, que deviam ter sido libertados da servidão e dívidas no ano sabático, mas não foram, receberam agora de Nabucodonosor vinhas e campos  (Jr 39:10).

Ainda há outro período de 70 anos.

Nas duas passagens em Jeremias, o profeta falava de 70 ANOS DE DOMÍNIO DA BABILÓNIA: Quando se cumprirem os setenta anos, castigarei a iniquidade do rei de Babilónia e a desta nação, como também a da terra dos caldeus…(Jer 25:11-12) – Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos atentarei para vós … tornando a trazer-vos para este lugar (Jer 29:10).

Os 70 anos para Babilónia terminaram quando Dario o medo/Ciro tomou a cidade de Babilónia, história narrada em Daniel 5. Calculámos que teve lugar em 3466 AH. Mas quando inicia este período?

Geralmente, considera-se que este período inicia com a batalha de Carquemis, quando Nabucodonosor derrotou o Egipto. Isto foi no 4º ano de Jeoaquim (3399) e é o ano em que Nabucodonosor sobe ao trono depois da morte de Nabopolassar. Foi também a explicação que dei na primeira mensagem sobre AS ASSOLAÇÕES DE JERUSALÉM (julho 2015).

Mas penso que não é correto, porque Nabucodonosor subiu contra Jerusalém a primeira vez no 3º ano de Jeoaquim; e do 4º ano até à tomada de Babilónia (em 3466) são menos de 70 anos (3399 +70 = 3469). Por isso, penso que os 70 anos para Babilónia começaram mais cedo. Contando 70 anos para trás, chegamos à morte de Josias em 3395. Mas qual a relação com Babilónia?

Nos dias de Josias subiu Faraó Neco, rei do Egipto, contra o rei da Assíria, ao rio Eufrates; e, tendo saído contra ele o rei Josias, Neco o matou, em Megido. (2Rs 23:29-30; 2Cr35:20-25).

O “rei da Assíria” neste versículo, já era o rei da Babilónia. Porque o império da Assíria, nessa altura, já tinha sido conquistado por Nabopolassar e Nabucodonosor quando capturaram Nínive, a capital assíria. Isto aconteceu cerca de 3 anos antes da morte de Josias (usando as datas convencionais, Nínive foi destruída em 612 a.C., Josias foi morto em 609).

O rei do Egipto marchou para norte, para Carquemis, uma fortificação egípcia no Eufrates, atravessando a terra de Israel, para defender-se contra  o avanço de Nabopolassar/Nabucodonosor da Babilónia. Josias opôs-se ao exército egípcio em Megido. Foi uma decisão trágica, desnecessária, ele perdeu a batalha e morreu, mas o que interessa aqui é que ele ia contra o Egipto. Portanto, parece que Josias se colocou do lado da Babilónia. Possivelmente porque deu ouvidos a Jeremias, que começara a profetizar no 13º ano de Josias, e avisava todas as nações, e Israel, a submeterem-se ao rei da Babilónia para preservarem a sua vida (Jr 27).

Por esta razão e porque me parece mais correto considerar os 70 anos para Babilónia em relação a Israel e não em relação ao Egipto (como é o caso de Carquemis) ou outra nação, coloco a hipótese que os 70 anos de domínio da Babilónia começaram com a morte de Josias.


Pudemos assim observar vários períodos de 70 anos, levemente desfasados uns dos outros (overlapping), com um significado diferente, e que permitiram simultaneamente estabelecer com mais rigor a cronologia.

70 anos de assolações / cativeiro
70 anos de jejuns
70 anos de descanso da terra
70 anos para Babilónia






[i][i] Assumimos os anos AH de acordo com o calendário judaico, de Nisan (1º mês) a Nisan, e não de janeiro a janeiro.
[ii] Este Dario é Dario Hystaspes, que sucedeu a Cambises, que sucedeu a Ciro, que emitiu o decreto. Ver a mensagem CRONOLOGIA ESDRAS-NEEMIAS (revisto)  de agosto 2016 para o modo como são contados os anos de reino de Dario.