22/07/2017

O SÁBADO DA RESSURREIÇÃO

Em que dia da semana Jesus ressuscitou?
Este é mais um problema cronológico que tem ocupado muitas mentes.
Existem várias teorias relativamente aos dias da crucificação e ressurreição de Jesus Cristo. A mais geralmente aceite é que Jesus foi crucificado numa sexta-feira e ressuscitou no primeiro dia da semana, ou seja no dia a que chamamos domingo. Outros defendem uma crucificação na quinta-feira, ou até na quarta-feira. Raramente o domingo é posto em causa. Mas há também quem afirme que Jesus ressuscitou num sábado.
Somos chamados a analisar as Escrituras, e examinei cuidadosamente esta questão (At 17:11) e exponho a seguir a conclusão a que cheguei, e que de certo modo me surpreendeu.
--- ---
Antes de procurar estabelecer a cronologia da semana da paixão, precisamos entender claramente como funciona o calendário bíblico, os dias, os sábados e as outras festas que Deus instituiu através de Moisés. Atenção, não podemos confundir o calendário judaico atual com o calendário bíblico, nem confiar nele, porque o calendário judaico, matematicamente calculado, só atingiu a sua forma a partir do século IX d.C. e está inserido numa tradição rabínica que rejeita Jesus Cristo como o Messias. Sem esta compreensão, não sairemos da confusão.

O que precisamos ter em consideração:
1)      Contrariamente ao que nos foi sempre dito, o dia não começa e termina com o pôr-do-sol, mas o dia bíblico começa e termina com o nascer do sol. Primeiro o dia, depois a noite.[i]
2)      No entanto, a celebração do sábado (sabbath) começava à tarde, ou seja ao pôr-do-sol do dia antes do sábado até ao pôr-do-sol do dia seguinte. Lev 23:32 – Sábado de descanso vos será, então afligireis as vossas almas; … de uma tarde a outra tarde, celebrareis o vosso sábado.
Portanto, a celebração do sábado está por assim dizer “a cavalo” entre dois dias, entre o dia de sexta-feira e o dia de sábado propriamente dito.
A parte do dia de sexta-feira que antecede o pôr-do-sol é chamada “preparação” ou parasceve em Grego no Novo Testamento (Lc 23:54; Jo 19:31,42).
3)      Sabbath vem de um verbo que significa “repousar”, ”cessar”. E não se aplica apenas ao sétimo dia da semana.
É preciso distinguir entre 2 tipos de sábado (sabbath).
- Há o sábado normal, que é o 7º dia de uma semana. Lv 23:3 – Seis dias obra se fará, mas o sétimo dia será o sábado do descanso, santa convocação; nenhuma obra fareis; sábado do Senhor é em todas as vossas habitações.
- E há sábados chamados “grandes” (João 19:31) ou “solenidades” convocadas no seu tempo determinado (Lv 23:4-44), que são festas ou “sábados” anuais, quando também há “santa convocação”, descanso, e que não se pode fazer nenhuma obra servil, do mesmo modo como num sábado normal.
O primeiro e o sétimo dia da Festa dos Pães Asmos são “sábados” (Lv 23:7-8). O dia 1 de Tishri, Dia das Trombetas, é um “sábado” (Lv 23:24). O dia 10 de Tishri (7º mês), que é o Dia da Expiação, é um “sábado de descanso” (Lv 23:27-32; 16:29-31). O primeiro e o último dia da Festa dos Tabernáculos são “sábados”, solenidades, santas convocações (Lv 23:39).
4)      As festas que, nesta matéria, precisamos de entender muito bem é a Páscoa e a Festa dos Pães Asmos, que formam um conjunto indivisível. As passagens que falam das festas encontram-se nos seguintes capítulos: Êxodo 12, Levítico 23, Números 28, Deuteronómio 16.
O esquema a seguir facilita a compreensão:

Esquema atualizado em 17-08-2017
Abib 14
Abib 15
Abib 16
Abib 17
Abib 18
Abib 19
Abib 20
Abib 21
Dia
Noite















1º dia dos asmos
2º dia
3º dia
4º dia
5º dia
6º dia
7º dia
Ex 12:18

Sacrifício do cordeiro à tarde
Páscoa
Lv 23:6
Festa dos asmos
O molho das primícias é movido






Sábado de festa
=solenidade










Sábado de festa
=solenidade


No dia Abib 14, o cordeiro era sacrificado à tarde (EREB) e era comido à noite (LAYIL) com pães asmos (Ex 12:6-8). Naquela noite foi a morte dos primogénitos e a partida apressada dos Israelitas do Egipto (Dt 16:1-3).
Lv 23: 5 – No mês primeiro, aos 14 do mês, pela tarde, é a páscoa do Senhor.
Dt 16:6 - … sacrificarás a páscoa, à tarde, ao pôr-do-sol, ao tempo determinado da tua saída do Egipto
Dt 16:7 – Então a cozerás, e comerás … depois, sairás pela manhã, e irás às tuas tendas.
Ex 12.15 – 7 dias comereis pães asmos; ao primeiro dia tirareis o fermento das vossas casas
Ex 12:18 – No primeiro mês, aos 14 dias do mês, à tarde, comereis pães asmos, até 21 do mês, à tarde.
Lv 23:6 – E aos 15 deste mês [Abib], é a festa dos asmos do Senhor; sete dias comereis asmos.
Dt 16:3 – Sete dias comerás pães asmos.

Dt 16:8 – Seis dias comerás pães asmos e, no sétimo dia é solenidade ao Senhor, teu Deus: nenhuma obra farás.
Ex 12:16 – E ao primeiro dia haverá santa convocação; também ao 7º dia, tereis santa convocação: nenhuma obra se fará neles.
Lv 23:7 – No primeiro dia, tereis santa convocação, nenhuma obra servil fareis
Lv 23:8 – Ao sétimo dia, haverá santa convocação
O primeiro e o sétimo dia da Festa, quando há santas convocações, são “sábados de festa”, não são sábados semanais normais.
Visto que Abib 14 não calha no mesmo dia da semana todos os anos, há necessariamente algures entre o primeiro e o último sábado de festa dos Asmos um sábado semanal normal. Em certos anos, os sábados normais poderão coincidir com os sábados de festa.
----- ----
Depois de compreender isto, algumas passagens no NT parecem contraditórias. Quando é que Jesus e os discípulos comeram a sua ceia? No dia 14 de Abib? Porque Marcos (14:12), Lucas (22:7) e Mateus (26:17) falam no “primeiro dia dos pães asmos”, “em que importava sacrificar a páscoa”? Ou no dia anterior 13 de Abib? João 13:1 fala do “dia antes da Páscoa”. Se comeram a ceia no dia 14, Jesus seria crucificado no dia 15, no sábado da festa, o que a lei não permitiu, nem está de acordo com os evangelhos (Mt 27:62; Mc 15:42; Lc 23:54; Jo 19:31, 42) que referem todos que o dia em que Jesus foi crucificado era o “dia de preparação”, portanto a parte do dia que antecedia o pôr-do-sol da festa da Páscoa. Afinal, em que dia Jesus foi crucificado? E quantos dias depois ressuscitou? Em que dia da semana?
Em vez de me debruçar sobre as contradições, decidi analisar todo o contexto temporal, ou seja estabelecer a cronologia de todos os eventos na semana em que Jesus foi crucificado e ressuscitou, começando com a sua entrada em Jerusalém. Isto ajudou a tornar tudo muito mais claro.

Cronologia de eventos
Abib 8
Jo 12:1-19 – Foi, pois, Jesus seis dias antes da páscoa, a Betânia, onde estava Lázaro que falecera … Fizeram-lhe uma ceia … Maria ungiu os pés de Jesus …
João estabeleceu o início – 6 dias antes da páscoa – (Contámos assim: Páscoa é Abib 14, Abib 13 é 1 dia antes, Abib 12 é 2 dias antes, etc.) e a ligação com a entrada de Jesus em Jerusalém no dia seguinte (Jo 12:12). De resto, João dá poucos pormenores dos acontecimentos; passa diretamente do dia da entrada triunfal para a ceia. Lucas e Mateus não são muito explícitos na cronologia dos acontecimentos dos dias seguintes até ao dia da ceia. Mas o evangelho de Marcos, começando com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, descreve dia a dia, com pormenor e cuidadosamente, a sequência de todos os acontecimentos, de todas as idas e vindas de Jesus.

Abib 9
Jo 12:12 – No dia seguinte, ouvindo uma grande multidão, que viera à festa, que Jesus vinha a Jerusalém, tomaram ramos de palmeira ….
Mt 21:12 e Lc 19:45-47 situam aqui o episódio da purificação do templo.
Mc 11:11 – E Jesus entrou em Jerusalém, no templo, e, tendo visto tudo em redor, como fosse já tarde, saiu para Betânia com os doze.

Abib 10
Mc 11:12-14 – E, no dia seguinte, quando saíram de Betânia, teve fome … vendo ao longe uma figueira …
Mc 11:15 – E vieram a Jerusalém; e Jesus, entrando no templo, começou a expulsar os que vendiam e compravam no templo …
Mc 11:19 – E sendo já tarde, saiu para fora da cidade.

Abib11
Mc 11:20 – E eles, passando pela manhã, viram que a figueira se tinha secado …
Mc 11:27 – E tornaram a Jerusalém, e andando ele pelo templo … (Jesus ensina no templo)
Mc 12:13 – E saindo ele do templo … (sermão profético)

Abib 12
Mc 14:1 – E dali a dois dias era a páscoa, e a festa dos pães asmos, e os principais dos sacerdotes e os escribas buscavam como o prenderiam com dolo, e o matariam. Mas eles diziam: Não na festa, para que, porventura, se não faça alvoroço entre o povo.
Mc 14:3 – E estando ele em Betânia, assentado à mesa em casa de Simão … (Marcos coloca aqui o episódio da unção de Jesus por Maria, com algumas diferenças do evangelho de João. Mas isto não é relevante na sequência; o que é relevante aqui é o que diz Mc 14:1 – daqui a dois dias é Páscoa. Faltava só um dia para a Páscoa.

Abib 13
Mc 14:12 – E, no primeiro dia dos pães asmos, quando sacrificavam a páscoa, disseram-lhe os discípulos: Aonde queres que vamos fazer os preparativos para comer a páscoa?
Aqui, como Mt 26:17 e Lc 22:7, parecem indicar que o dia da ceia de Jesus com os discípulos era o dia 14, o dia em que se sacrificava e comia a páscoa (ver esquema acima).
Mas, se a ceia de Jesus com os discípulos acontece no dia 14, a narrativa de Marcos omite um dia, o dia 13. E é estranho que Marcos tivesse omitido um dia, porque desde o dia da entrada triunfal em Jerusalém, Marcos relata cuidadosamente todas as idas e vindas de Jesus e alguma ocorrência em todos os dias.
João, por outro lado, parece indicar que a ceia foi anterior à festa da Páscoa, portanto no dia 13. Jo 13:1-2 – Ora, antes da festa da páscoa,…. E, acabada a ceia … (segue a narrativa da ceia e os ensinamentos daquela noite).
Além disso, a narrativa do dia da crucificação diz claramente que aquele dia era a “preparação”, parasceve do sábado, do grande sábado, isto é do sábado da festa da páscoa (Jo 19:14, 31). E ainda, o sacrifício do cordeiro em Abib 14 segundo Exodo 12 não prefigura Jesus como o Cordeiro que morreu pelos nossos pecados? Não é natural que o sacrifício de Jesus tenha acontecido nesse dia?
Por isso, deduzo que a ceia de Jesus e os discípulos foi uma ceia de páscoa antecipada ou uma ceia de despedida de Jesus dos seus discípulos.
Depois da ceia, nessa mesma noite, Jesus sai com os seus discípulos para o Monte das Oliveiras (Mt 26:30; Mc 14:26; Lc 22:39), para um lugar chamado Getsémani (Mt 26:36; Mc. 14:32).
Nessa noite Jesus é preso e levado à casa do sumo-sacerdote (Mt 26:57; Mc 14:53; Lc 22:54).
O canto do galo anuncia o amanhecer (Mc14:72; 15:1), quer se trate de um galo verdadeiro, quer de um grito de um oficial no templo que chamava a madrugada para o início do serviço no templo.

Abib 14
Ao amanhecer Jesus é levado a Pilatos (Mt 27:1; Mc 15.1).
Jo 19:14 – E era a preparação da páscoa
Jesus é crucificado à hora terceira (Mc 15:25), cerca das 9 da manhã. Da hora sexta à hora nona, houve trevas (Mt 27:45; Mc15:33). À hora nona, Jesus entrega o espírito. Era por volta das 3 horas da tarde.
João usa outro sistema de contar as horas que os evangelhos sinópticos, mas isto não interfere aqui na cronologia.
Jo 19:31 – Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto que era a preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que se lhe quebrassem as pernas.
Mc 15:42 – E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado. Chegou José de Arimateia.
Jesus foi sepultado antes do escurecer, no dia 15 de Abib, antes de começar a celebração do “sábado da festa”. O sepulcro não estava muito longe, por causa da preparação dos judeus (Jo 19:42).
Lc 23:54-56 - e era o dia da preparação, e começava o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galileia, seguiram, também, e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e unguentos;
Lc 23:56 – e no sábado repousaram, conforme o mandamento.
Repousaram, do pôr-do-sol do dia 15 ao pôr-do-sol do dia 16.
Este sábado que começava ao pôr-do-sol do dia 15 de Abib era, repito, o sábado da festa dos Pães Asmos, não o sábado semanal.

Abib 15
Mc 16:1 – E, passado o sábado, Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago, e Salomé, compraram aromas para irem ungi-lo.
Isto terá sido provavelmente na noite desse dia, depois do pôr-do-sol, quando já não vigoravam as restrições do sábado. As mulheres não foram certamente ao túmulo para ungir o corpo porque entretanto já era noite, e preparavam-se para o fazer na madrugada do dia seguinte.

Abib 16
Mt 28:1 – E, no fim do sábado, quando já despontava o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.
Mt 28:1, Mc 16:1; Lc 24:1 e Jo 20:1 dizem todos que Maria Madalena foram ao sepulcro no primeiro dia da semana, de manhã cedo de madrugada, ao nascer do sol. Diziam: “quem nos revolverá a pedra da porta do sepulcro?” (Mc 16:3) Mas o túmulo já estava aberto.
Se Jesus tivesse ficado mais uma noite no túmulo, as mulheres teriam tido um dia inteiro para tratar o corpo com os aromas e as especiarias. Mas não tiveram oportunidade. Quando foram lá, o corpo de Jesus já não estava.
Por isso penso que foi naquele dia, logo antes da madrugada, que Jesus ressuscitou.

Mas depois temos uma dificuldade com a comparação com Jonas em Mt 12:40 – Como Jonas esteve 3 dias e 3 noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem 3 dias e 3 noites no seio da terra.
Ressuscitando na madrugada de 16, Jesus esteve apenas 2 noites no túmulo.
Mas daqui a pouco já voltamos a esta questão.

O primeiro dos sábados
Que dia da semana era em que Jesus ressuscitou?
Tendo-se sempre considerado o sábado da festa como um sábado normal, deduziu-se sempre que Jesus ressuscitou na madrugada do dia de domingo, o primeiro dia da semana. Seria uma explicação válida se este sábado anual de festa coincidisse com um sábado semanal.
Só que, não é isto que diz a versão grega original destes versículos. Vou colocar o termo grego em substituição da palavra em português.
Mt 28:1 – E, no fim do SABBATON, quando já despontava o primeiro SABBATON, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.
Mc 16:1-2 – E, passado o SABBATON, Maria … compraram aromas para irem ungi-lo. E, no primeiro SABBATON, foram ao sepulcro, de manhã cedo, ao nascer do sol.
Lc 24.1 – E, no primeiro SABBATON, muito de madrugada, foram elas ao sepulcro. E acharam a pedra revolvida…
Jo 20:1 – E no primeiro SABBATON, Maria Madalena foi ao sepulcro, de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra tirada do sepulcro.
Jo 20:19 – Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro SABBATON, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus …
Em todos estes versículos, a palavra no Grego SABBATON (do hebraico SABBATH) é traduzida por DIA DA SEMANA.
A palavra SABBATON ocorre mais de 60 vezes no Novo Testamento, e em todos os casos EXCETO aqui (e At 20:7, 1Cor 16:2 e Lc 18:12, mas que não comprometem esta interpretação), é traduzida SÁBADO, e tem sempre referência a um dia de Sábado (SABBATH).
Porquê logo aqui SABBATON é traduzido “dia da semana” e não “Sábado”?
A tradução literal do Grego nestes versículos é “o primeiro dos Sábados” (Young’s Literal Translation: Mt 28:1 - And on the eve of the sabbaths, at the dawn, toward the first of the sabbaths, came Mary the Magdalene, and the other Mary, to see the sepulcher.)
O que é o primeiro dos sábados?
Lv 23:10 – Quando houverdes entrado na terra que vos hei-de dar, e segardes a sua sega, então trareis um molho das primícias da vossa sega ao sacerdote. 11 – Ele moverá o molho perante o Senhor, para que sejais aceitos; ao seguinte dia do sábado o moverá o sacerdote. 15 – Depois para vós contareis desde o dia seguinte ao sábado, desde o dia em que trouxerdes o molho da oferta movida; sete sábados (a nossa tradução diz “semanas inteiras”) serão.
Explicando: O molho era movido no dia 16 de Abib, no dia a seguir ao sábado anual da festa da Páscoa. Depois, sete sábados (que correspondem a 7 semanas) eram contados e no dia seguinte ao 7º sábado, o 50º dia era a Festa das Semanas, Pentecostes. Para contar estes 7 sábados, começava-se a partir do “primeiro sábado”, não o sábado da festa, mas o primeiro sábado semanal depois do mover do molho de primícias.
Mt 28:1 – E, no fim do SABBATON, quando já despontava o primeiro SABATTON,…
Este versículo diz que o Sábado, o da festa da Páscoa, já tinha passado, e outro Sábado estava a amanhecer (o dia começa ao nascer do sol). Este novo dia era, agora sim, um Sábado semanal normal. Este dia de sábado normal começava ao nascer do sol do dia 16.
Portanto, Abib 16 era um sábado, iniciando-se o dia ao nascer do sol.
Jesus ressuscitou no limiar de um novo dia, que era um sábado, e não um domingo.
E o que reforça esta data é que, na madrugada desse dia, o sacerdote movia o molho das primícias. E que diz 1Cor 15:20?– Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormem.

O sábado semanal anterior
Se Abib 16 era um sábado, o sábado semanal anterior seria Abib 9. Conseguimos provar que Abib 9 era um sábado?
Abib 9 foi o dia em que Jesus entrou triunfalmente em Jerusalém. Haveria dia melhor que um Sábado para Jesus mostrar que Ele era “Senhor do Sábado”?
Jesus previu que alguém iria perguntar aos discípulos porque soltavam o jumentinho (Lc 19.33; Mt21:3). Um jumento era um animal de carga, e também os animais tinham direito ao descanso no sábado (Ex 23.12; Dt 5:12-15).
Depois, no mesmo dia, Jesus foi ao templo onde expulsou os vendedores (Mt 21:12; Lc 19:45-47). Apenas Marcos situa o episódio do templo no dia seguinte.
O que fez Jesus no templo? Expulsou os que vendiam e compravam no templo. Coisas que eram proibidas ao sábado. Mc 11:16 - E não consentia que alguém levasse algum vaso pelo templo. Frase estranha, que parece não ter muito sentido no contexto, a não ser que se refira à proibição de transportar cargas pesadas no sábado. Outra coisa proibida no sábado.
Uma situação semelhante encontramos descrita em Neemias 13:15-22 relativamente ao Sábado.

Ao terceiro dia
Mas como interpretar a comparação com Jonas em Mt 12:40? – Como Jonas esteve 3 dias e 3 noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem 3 dias e 3 noites no seio da terra.
Jesus falou várias vezes do seu sofrimento futuro (Mt 16:21; 17:22-23; 20:18-19; Mc 8:31; 9:31; 10:34; Lc 9:22; 24:21,46).
Mt 16:21 – Começou Jesus a mostrar aos seus discípulos, que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia.
Mt 20: 18-19 – Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lo-ão à morte. E o entregarão aos gentios, para que dele escarneçam, e o açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará.
Não está aqui que Jesus ficasse sepultado na morte durante 3 dias e 3 noites, mas que a sua ressurreição seria no 3º dia de toda esta sequência de sofrimentos – ser entregue aos sacerdotes, aos gentios (Pilatos), ser condenado e escarnecido e crucificado, e morto. Isto começou na noite do dia 13 de Abib depois da ceia com a sua prisão e interrogação na casa do sumo-sacerdote de noite; no dia 14 de Abib perante Pilatos e a crucificação e sepultamento; esteve sepultado a noite de 14 e todo o sábado 15 de Abib, e ressuscitou na madrugada de 16 de Abib, ao nascer do sol (Mc 16:1), sendo ainda escuro (Jo 20:1). Foram 3 dias de calendário: 13, 14 e 15. Ao terceiro dia ressuscitou.
Quando olhamos para o esquema da Páscoa e Festa dos Pães Asmos, 16 de Abib, a madrugada do dia que Jesus ressuscitou, é o 3º dia. 14 de Abib foi o 1º dia, o dia da crucificação o 2º.
No próprio dia da ressurreição (Lc 24:13), os discípulos que iam a Emaús diziam - Lc 24:7 – sobre tudo isso, é hoje o terceiro dia desde que essas coisas aconteceram. Se esse dia era o 3º dia, Abib 15 era o 2º dia, e Abib 14 o 1º dia, e Abib 13 o dia em que tudo começou.

Abib 8
9
10
11
12
13
14
15
16
dia


















Ceia em Betânia
Entrada triunfal








Ceia
Preparação (parasceve)
Páscoa


Molho das primícias



Expulsão dos vendedores no templo








Jesus preso
Jesus perante Pilatos
Jesus crucificado
Sábado da festa
Repouso

3º dia festa pães asmos

















túmulo vazio


SÁBADO
domingo
2ª feira
SÁBADO

Contrariamente à tradição, penso poder concluir que Abib 16 – em cuja madrugada Jesus ressuscitou - não era um Domingo. Era na realidade o despontar de um Sábado. Era o “primeiro sábado” que iniciava a contagem de sete sábados para a Festa de Pentecostes. E era o dia em que o sacerdote movia o molho das primícias perante o Senhor.

11/07/2017

O DÉCIMO-QUINTO ANO DE TIBÉRIO

Segundo Lucas 3:1-2, João Batista começou o seu ministério (veio a palavra de Deus a João) no 15º ano de Tibério. Esta data ajuda-nos a determinar o ano de nascimento de Jesus.
O 15º ano de Tibério corria de 18 setembro do ano 28 a 18 setembro do ano 29 d.C.
Se esta data é inserido nas Escrituras, significa que é uma data que Deus permite que utilizemos para determinar a cronologia bíblica. Terá também sido uma data conhecida, utilizada pelos contemporâneos de Jesus e de Lucas.
Tibério começou a governar como Imperador no ano14 d.C. O antecessor de Tibério, Augusto, morreu em 19 de agosto do ano 14 d.C., com 75 anos de idade. O Senado reuniu em 17-18 de setembro do ano 14, data em que conferiram oficialmente a Tibério o título de Imperador.
Alguns defendem que o início do governo de Tibério não é o ano 14, mas o ano 12, alegando a existência de uma coregência. De facto, amplos poderes foram conferidos a Tibério nesse ano, mas não se tratava de uma coregência de modo a que o seu reino (Gr. HEGEMONIA) começasse nessa data. A razão para alguns quererem adiantar o início do reino de Tibério para 12 tem a ver com a ideia generalizada de que Herodes morreu em 4 a.C. baseado em informações tiradas de Josefo. Mas visto que Jesus nasceu quando Herodes ainda era vivo, e se a morte de Herodes fosse em 4 a.C., em 28-29 d.C. Jesus teria já muito mais de 30 anos e não quase trinta anos como afirma Lc 3:23.
Numa anterior mensagem (fevereiro 2017), já vimos que Herodes não morreu em 4, mas em 1 a.C..
Também podemos confirmar a data de 14 d.C. para o início do reino de Tibério Imperador (KAISAR), da seguinte maneira:
Conhecemos o ano da morte de Tibério. Segundo Suetónio, Tibério morreu quando tinha 78 anos de idade, e no ano 23 do seu reino, no dia 17 antes das Calendas de abril, quando Gnaeus Acerronius Proculus e Gaius Pontius Nigrinus eram cônsules. As Calendas (Lat. KALENDAE) referiam-se ao primeiro dia do mês.
Era costume em Roma designar o ano referindo-se aos dois magistrados, os cônsules, mandatados para aquele ano. O mandato de cônsul tinha a duração de um ano, começando em 1 de janeiro. A referência aos dois cônsules em exercício era suficiente para indicar o ano. As listas consulares começam em 509 a.C. e terminam em 541 d.C. quando foi abolida a prática da nomeação de cônsules. Devido a este método de datação, era importante manter registos. Muitas destas listas foram conservadas, quer na forma de inscrições monumentais, convencionalmente referidas como fasti, ou indiretamente através dos escritos de antigos historiadores que tinham acesso aos registos onde estavam inscritos os nomes dos cônsules.
A data consular da morte de Tibério corresponde, no calendário gregoriano, a 16 de março do ano 37. Portanto, 37 menos 23 leva-nos ao ano 14.
Mas há uma dificuldade adicional: De que dia contar o início do reinado de Tibério? A partir do dia em que Augusto morreu, 19 de agosto? Ou a partir do dia em que o Senado lhe conferiu o título, 18 de setembro? Ou a partir de 1 de janeiro desse ano ou do ano seguinte?
Thomas Lewin, em Fasti Sacri (1865), baseado em Tácito, Plínio o Velho, Dio Cássio e Filo, prova que não pode ser 1 de janeiro. Portanto, 19 de agosto será a data que Tibério substituiu de facto o seu predecessor, até que é nomeado e entra em exercício de jure em 18 de setembro.
Portanto, as datas do reino de Tibério são setembro de 14 d.C. a setembro 37 d.C.
Assim, usando o calendário gregoriano, o 15º ano de Tibério apanha a última parte do ano 28 (cerca de 3 meses e meio) e o ano 29 até 18 de setembro.

Jesus e João Batista
No 15º ano de Tibério, João Batista começou o seu ministério (Lc 3:1-2). Foi nesse ano que ele se mostrou a Israel (Lc 1:80). A palavra traduzida com o verbo “mostrar” é um substantivo em Grego “anadeixis” (anadeixis), que significa o ato de designar, mostrar/apresentar publicamente, designar alguém para um ofício, proclamar ou anunciar alguém eleito para um cargo. Na forma de verbo (anadeiknymi), ocorre duas vezes no NT, em At 1:24 – mostra qual destes dois tens escolhido - e Lc 10:1 – designou o Senhor outros setenta.
João, como seu pai Zacarias, era sacerdote. A idade para iniciar o ministério sacerdotal em Israel era de 30 anos. Atendendo ao significado da palavra, Lc 1:80 deve referir-se à designação de João para o ministério logo após o seu 30º aniversário.
Quando Jesus foi batizado por João, ele “começava a ser de quase trinta anos” (Lc 3:23). Algumas traduções dizem cerca de trinta anos, mas isso não está correto.
Quem diz “cerca de” demonstra que não tem o conhecimento exato. “Quase” demonstra maior rigor. É provável que Lucas sabia a idade correta de Jesus, ou pelo menos o ano em que nasceu, porque os factos lhe foram transmitidos “pelos mesmos que os presenciariam, desde o princípio, e foram ministros da palavra” (Lc 1:2). Embora ele não nos dá uma data como nós a daríamos – dia X do mês Y do ano Z –  ele narra uma série de eventos relacionados no tempo que nos permitem, com alguma paciência e investigação, e oração, reconstruir pelo menos o ano em que Jesus nasceu. Lucas não teria indicado o 15º ano de Tibério se tivesse sido o 16º ou 17º. Não faria sentido.
Sabemos que Jesus foi gerado quando Isabel estava no seu sexto mês de gravidez. Há portanto uma diferença de idade de cinco a seis meses entre os dois. João não podia ter 30 anos antes de setembro do ano 28 quando começou o 15º ano de Tibério. Por isso, Jesus só podia ter 30 ou quase 30, no mínimo 5 meses depois, e portanto, necessariamente, no ano 29 d.C..  Data apoiada também pela astronomia que revelou a chegada dos magos a Jerusalém no final do ano 2 a.C., e a morte de Herodes entre finais de janeiro/fevereiro do ano a.C.
E então já podemos ter por certo que Jesus nasceu no ano 2 a.C.

Bibliografia
Thomas Lewin, Fasti Sacri or A Key to the Chronology of the New Testament (1865)

29/06/2017

O TURNO DE ABIAS

A vida de Jesus está cronologicamente interligada com a de João Batista. Há vários momentos na vida de João que talvez possam ajudar a desvendar a cronologia da vida de Jesus, a começar pela narrativa da sua concepção e nascimento.
O sacerdote Zacarias, na ordem do seu turno, entrou no santuário, quando lhe apareceu o anjo Gabriel anunciando-lhe o nascimento de um filho (Lc 1:5-22). Terminados os dias do seu ministério, Zacarias voltou para a sua casa e, passados esses dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e ocultou-se por cinco meses (Lc 1:23-24). Quando Isabel estava no seu sexto mês de gravidez (Lc 1:36), o mesmo anjo foi ter com Maria, anunciando o nascimento de Jesus (Lc1:26-38).
O que poderia ajudar a definir a data do nascimento de Jesus, e de João Batista, seria o conhecimento de quando é que o turno de Abias (Lc 1:5) estava de serviço no templo.
1Crónicas 1:24 relata como, no tempo de David, se organizou o serviço do santuário. Entre os filhos de Eleazar e os filhos de Itamar foram constituídos 24 turnos de sacerdotes. Os de Eleazar estavam em maior número, 16, os de Itamar eram apenas 8 turnos. A ordem dos turnos foi repartida por sortes, alternadamente, começando por Eleazar[i].
Nesta lista, o turno de Abias (que seria o turno a que pertencia Zacarias) aparece em 8º lugar.
Cada turno servia durante uma semana, entrando e saindo no sábado (2Cr 23:8).
Há várias dificuldades associadas à questão dos turnos de sacerdotes. Como se organizavam os turnos ao longo do ano, havendo 24 turnos? E quando servia o oitavo turno de Abias? Outra dificuldade são as disrupções que o sacerdócio sofreu no tempo do exílio, quando não havia templo, e noutras alturas como no tempo de Antíoco Epífanes, e como isto afetava a sequência dos turnos.
Quando os Judeus voltaram a Jerusalém depois do decreto de Ciro, apenas 4 famílias sacerdotais regressaram com Zorobabel e Jesua (Esdras 2:36-39; Ne 7:39-42): os filhos de Jedaías (2º turno), de Imer (16º turno), de Pasur e de Harim (3º turno). Pasur não aparece na lista de 1Cr 24, mas com base em 1Cr 9:12 (a lista dos sacerdotes que ficaram a viver em Jerusalém depois do regresso do exílio) deduzo que se trata dos filhos do turno de Malquias (5º turno).
Em Neemias 12:1-7 há uma lista de 22 sacerdotes que subiram com Zorobabel e Jesua. Estes 22 foram os chefes dos sacerdotes nos dias de Jesua.
E Neemias 12:12-21 há outra lista de sacerdotes, cabeças de família, agora nos dias de Joiaquim. Joiaquim era filho de Jesua, e foi sumo-sacerdote depois dele. Esta segunda lista tem apenas 20 nomes. Quando comparamos esta com a primeira, dois nomes desapareceram (Hatus e Reum); dois passaram a um só (Piltai, de Miniamim e Moadias); e foi acrescentado um (Adna, de Harim).




** Nesta lista não segui a ordem do texto de Neemias.
Em itálicos, os nomes que não correspondem nem com a lista de Ne 12:1-7, nem com a lista de Ne 12:12-21, por isso não tenho a certeza que estejam no lugar correto da lista como membro da família.

Provavelmente as 4 famílias sacerdotais que regressaram do exílio foram subdivididas, acabando por organizar-se em 24 turnos como originalmente e tomando a designação inicial destes. Josefo, cujos ancestrais pertenciam ao turno de Jeoiaribe, refere que a divisão original de 24 turnos esteve em existência até aos seus dias (Antiguidades). E uma inscrição encontrada nas ruinas de uma sinagoga em Cesareia, que data de final século III, início século IV d.C. traz quatro nomes idênticos aos da lista de 1Crónicas 24: Hezir (17º), Hapizez (18º), Petaías (19º) e Jeezquel (20º), corroborando assim Josefo (FINEGAN, #240).
Zacarias pertencia ao turno de Abias. Julga-se que este turno se refere ao 8º turno conforme a designação estabelecida em 1Cr 24 (v.10). O turno de Abias nada tem então a ver com um sacerdote de nome Abias que aparece nas listas de Neemias 12:1-7; 10:1-8 e 12:12-21.
Mais difícil e menos consensual é a organização do serviço dos 24 turnos no templo ao longo do ano, semana a semana. As Escrituras não apresentam pormenores. Apenas ficamos a saber que cada turno servia durante uma semana, entrando e saindo no sábado (2Cr 23:8).
Josefo e a Mishná, uma obra do judaísmo rabínico, também afirmam que a troca de turnos era feita no dia de Sábado, o turno que saía oferecia o sacrifício da manhã e o turno que entrava, o sacrifício da tarde. A Mishná afirma que nas três grandes festas do ano – Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos – todos os turnos estavam de serviço (FINEGAN, #241).
Têm sido propostos vários sistemas para a organização dos turnos sacerdotais na esperança de poder calcular corretamente a data do nascimento de Jesus.
No fundo, há duas grandes correntes de opinião, com variantes:
a)         Uns defendem um ciclo regular que reinicia todos os anos, no 1º mês (isto porque Êxodo 12:2 estabelece Abibe como início dos meses do ano), ou no 7º mês (isto porque o templo de Salomão foi inaugurado no 7º mês e depois do exílio, o altar foi reconstruído no 7º mês). Dentro deste sistema, há alguns que pensam que havia uma interrupção da rotatividade por ocasião das 3 grandes festas, em que todos os turnos estariam de serviço, a rotatividade retomando normalmente depois da festa.
b)         Outros defendem um sistema de rotatividade contínua, ininterrupta, dos 24 turnos. Depois de um ciclo de 24 semanas, recomeça novo ciclo de 24 semanas, seja qual for o momento do ano.

Antes de analisarmos os problemas com estas propostas, convém saber como funciona o calendário que os Judeus utilizavam, e ainda utilizam.
O calendário hebraico é um calendário baseado em unidades de tempo diferentes entre si – o ano solar, o mês lunar, a semana de sete dias, e o dia do pôr-do-sol ao pôr-do-sol.
A unidade da semana foi estabelecida desde o princípio dos tempos pelo próprio Senhor, como podemos ler em Génesis 1. A semana da Criação, culminando no dia de descanso do Senhor, forma a base da unidade de tempo.
O ano solar – que corresponde à rotação da terra em volta do sol – é de 365 ¼ dias. Isto requer que de 4 em 4 anos o ano tem mais um dia, 366 dias (ano bissexto). Um ciclo lunar tem 29 dias, 12 horas, 44 minutos e 3 1/5 segundos (29,53059). Isto faz com que doze meses lunares perfazem apenas 354 dias, alternando entre meses de 29 e de 30 dias. Os 11 dias que faltam para o ano solar são compensados com um mês adicional intercalado a cada 2 ou 3 anos, sempre a seguir ao 12º mês de Adar, e é chamado Segundo Adar ou Ve-Adar. Isto para os meses não “viajarem” ao longo dos anos.
O que define a regularidade deste mês intercalar é um ciclo de 19 anos, designado como ciclo metónico. A designação vem do filósofo Meton de Atenas que descreveu este sistema em 433 a.C., mas o sistema já era conhecido pelos astrónomos da Babilónia no século 8 a.C.. No ano 353 d.C., Rav HILEL fez calendários usando este ciclo de 19 anos e é onde se baseia o calendário hebraico utilizado ainda hoje.
Neste ciclo de 19 anos, há 12 anos de 12 meses e 7 anos de 13 meses. O mês intercalar é sempre é inserido no 3º, 6º, 8º, 11º, 14º, 17º e 19º ano do ciclo.
Não se sabe se os sacerdotes do Velho Testamento usavam este ciclo calculado de 19 anos do mesmo modo, ou se a inserção do mês adicional se fazia de modo mais empírico.

Com este calendário, voltando à questão dos turnos sacerdotais, nem sempre o ano tem o mesmo número de semanas.
E é aqui que está a fraqueza do sistema a). É difícil fazer com que 24 turnos oficiem exatamente duas vezes por ano (24 x 2 = 48 semanas).
Quer o ciclo anual recomece no 1º ou no 7º mês, sempre com o primeiro turno de Jeoiaribe, haverá sempre alguns dos primeiros turnos que cheguem a oficiar 3 vezes no ano, principalmente nos anos em que há um mês intercalar, significando mais semanas nesse ano. E nos anos mais curtos, e considerando que a rotatividade é interrompida por causa das festas (cuja duração não é uma semana simples de sábado a sábado, mas pode começar a meio de uma semana até o meio da semana seguinte), neste caso, o 24º turno pode vir a servir apenas uma vez por ano.
Com base em Dt 18:6-8, isto seria ilegal porque todos os sacerdotes levíticos tinham igual direito aos benefícios de servir no santuário. Não seria justo um sistema que deixasse que um turno de sacerdotes servisse duas semanas por ano, outro, três, e outro apenas uma [1].
Ao contrário, o sistema b) de rotatividade contínua, ininterrupta, dos 24 turnos, garante uma distribuição justa do serviço sacerdotal e obedece assim ao estipulado em Dt18:6-8.
E parece que tem maior sustentação histórica. O Seder Olam afirma que o turno que estava de serviço quando Jerusalém foi destruída no ano 70 era o primeiro turno, o de Joiaribe. Jerusalém foi destruída no mês de Av, que é o 5º mês, em 9 de agosto de acordo com o nosso calendário. Portanto, se o 1º turno estava de serviço no 5º mês, nunca o 1º mês nem o 7º podiam ser o ponto de partida anual fixo da rotatividade dos turnos.
A única maneira de garantir uma distribuição justa do serviço sacerdotal é os 24 turnos se sucederem na sua ordem em 24 semanas seguidas e recomeçar de novo, seja em que mês do ano for. Assim não há lacunas, não há serviços “saltados” por uma semana devido aos dias de festa, e não há uma data anual para fazer um “reset”.
E tem a vantagem de, desde que se conheça qual o turno de serviço numa data conhecida, poder fazer um cálculo para trás, semana a semana até ao ano apontado para o nascimento de Jesus. Isto porque o ciclo de sete dias é um sistema rotativo contínuo e ininterrupto sem qualquer conexão com calendários lunares ou solares. O Sábado só pode ser determinado contando para trás até ao Sábado anterior.
Era o trabalho dos sacerdotes promover e manter a observância do Sábado em Israel. E a Lei exigia também a contagem dos anos sabáticos e dos jubileus, e dos dias e semanas das várias festas no ano. Os turnos sacerdotais são inextricavelmente sincronizados com o Sábado. Havendo 24 turnos, havia 24 grupos de sacerdotes que garantiam a contagem do tempo de 24 semanas até ao seu próximo serviço.
É, no entanto, possível que tenha havido uma interrupção do serviço do templo no ano 63 d.C. quando o general romano Pompeu invadiu Jerusalém. Como se fazia então a contagem? A sequência foi interrompida e retomada depois, ou continuou simplesmente?
Mas mesmo resolvendo este problema, há outro ainda. Há 24 turnos, portanto, cada um serve pelo menos duas vezes por ano.
Com base nos eventos astronómicos, sabemos que os magos chegaram a Belém por volta de 25 de dezembro do ano 2 a.C., quando Jesus já tinha nascido. Pouco tempo depois, Herodes morre.
Jesus nasceu seguramente no ano 2 ou 3 a.C.. Mas quando exatamente? Em que mês, em que dia? Isto continua incerto.
As opiniões divergem. Muitos apontam para um nascimento em 1 de Tishri (15 de setembro), o dia das Trombetas, do ano 3 a.C., em consonância com Apocalipse 12:1-2 e o evento astronómico que o versículo descreve (ver mensagens sobre a Estrela de Belém). É de facto um dia que simbolicamente se apresenta muito apropriado. Outros muitos continuam a defender a data tradicional próxima de 25 de dezembro. Há variadíssimas datas sugeridas para a semana em que oficiava Zacarias do turno de Abias.
Penso que esta questão ainda não tem bem fundamentados todos os dados necessários para se poder dar uma resposta segura.

[i] O que não está claro é se a repartição foi feita «Eleazar-Itamar-Eleazar Itamar etc. terminando com 8 turnos de Eleazar» ou se o sorteio foi feito assim «Eleazar-Eleazar- Itamar-Eleazar-Eleazar-Itamar etc.», já que o número de turnos de Eleazar era o dobro dos turnos de Itamar. Mas este é um pormenor que agora não intervém no caso.

[1] http://www.torahtimes.org/writings/machloqet-cohanim/article.html