16/04/2018

O IMPÉRIO GREGO (3). Antíoco III o Grande


O fim de Antíoco III o Grande e o seu sucessor Seleuco Filopater

17-E porá o seu rosto para vir com a força de todo o seu reino, e com ele os retos, e fará o que lhe aprouver: e lhe dará uma filha das mulheres, para a corromper; mas ela não subsistirá, nem será para ele.
NIV- He will determine to come with the might of his entire kingdom and will make an alliance with the king of the South. And he will give him a daughter in marriage in order to overthrow the kingdom, but his plans will not succeed or help him.
Como vimos na mensagem anterior, Antíoco III marchou com sucesso contra o Egipto – isto enquanto Roma fez guerra a Filipe V na Segunda Guerra Macedônia (200-196), e por isso o Egipto não podia contar com o apoio de Roma.
Ptolomeu assinou um tratado de conciliação com Antíoco em 195 a.C., cedendo ao rei selêucida a posse da Celessíria. Antíoco deu também a sua filha Cleópatra em casamento a Ptolomeu V. O Egipto tornou-se praticamente um protetorado selêucida.
Mas Antíoco não seria para sempre vitorioso.
18- Depois, virará o seu rosto para as ilhas, e tomará muitas; mas um príncipe fará cessar o seu opróbrio contra ele, e ainda fará tornar sobre ele o seu opróbrio.
NIV- Then he will turn his attention to the coastlands and will take many of them, but a commander will put an end to his insolence and will turn his insolence back upon him.
Depois de ser vitorioso contra o Egipto, Antíoco III queria alargar as suas fronteiras para a Ásia Menor e Europa, “as ilhas”. Conquistou cidades costeiras que faziam parte dos domínios ptolemaicos e cidades gregas independentes. Em 192 a.C. invadiu a Grécia. Roma não gostou e exigiu a sua retirada. Antíoco recusou, insolente, e travou uma guerra de vários anos contra Roma, mas foi definitivamente vencido nas Termópilas (191 a.C.) e em Magnésia (190 a.C.). Com o tratado de Apameia (188 a.C.), entre Antíoco III e a República de Roma, que se seguiu às vitórias navais romanas e rodenses sobre a marinha selêucida, o império selêucida perdeu toda a Ásia a oeste do Tauro (Ásia Cistáurica), deixando de ter influência no Mediterrâneo.
O tratado também obrigava o rei a pagar uma indemnização a Roma, a ceder os elefantes que tinha no exército e a entregar o seu filho Antíoco IV (que será mais tarde Antíoco Epifânio) como refém.
19- Virará, então, o seu rosto para as fortalezas da sua própria terra, mas tropeçará, e cairá, e não será achado.
After this, he will turn back toward the fortresses of his own country but will stumble and fall, to be seen no more.
Para tentar obter parte do dinheiro da indemnização que tinha que pagar aos Romanos, Antíoco III voltou-se para a sua própria terra. Terá sido assassinado em 187 a.C. num templo de Baal, ao procurar apoderar-se dos seus tesouros.
20- E, em seu lugar, se levantará quem fará passar um arrecadador pela glória real; mas em poucos dias será quebrantado, e isto sem ira e sem batalha.
His successor will send out a tax collector to maintain the royal splendor. In a few years, however, he will be destroyed, yet not in anger or in battle.
Em seu lugar, levantou-se o seu filho e sucessor, Seleuco Filopater. Para obter dinheiro para pagar a pesada indemnização a Roma, Seleuco envia o seu comandante Heliodoro como arrecadador para obter dinheiro no templo de Jerusalém. O sumo-sacerdote Onias opôs-se, e com ele todo o povo. 2 Macabeus 3 relata a história de como Heliodoro acaba por regressar sem o tesouro do templo, mediante uma narrativa que recorre a uma intervenção sobrenatural de anjos.
No mesmo ano, em 175 a.C., no seu regresso a Jerusalém, Heliodoro mata o rei Seleuco.
Seleuco reinou apenas doze anos, o que foram “poucos dias” comparados com os 37 anos do reino de Antíoco III, seu antecessor.


07/01/2018

O IMPÉRIO GREGO (2). Os Ptolemeus

DE PTOLOMEU I A ANTÍOCO III O GRANDE

Nesta mensagem vamos ver o que se seguiu à morte de Alexandre, no tempo do “rei do sul”.
Para podermos seguir melhor a história, segue primeiro uma lista dos reis do norte e do sul. Com fundo azul, é indicado quem domina sobre a Judeia.

Dinastia Ptolemaica
“rei do sul”
Dinastia Selêucida
“rei do norte”
Sumos-sacerdotes em Israel
Ptolomeu I Soter  (305-285)
Seleuco I Nicator (312-282)

Onias I
Simão I o Justo
Ptolomeu II Filadelfo (285-246)
Antíoco I Soter (282-262)
Eleazar (irmão de Simão I)

Antíoco II Theos (262-247) x Berenice
Manassés (tio de Eleazar/irmão de Onias)
Ptomoleu III Evérgeta (246-221)
Seleuco II Calínico (247-227)
Onias II (filho de Simão)

Seleuco III Soter (227-224)

Ptolomeu IV Filopater (221-205)
Antíoco III o Grande (224-187)
Simão II
Ptolomeu V Epifânio (205-180)
195 a.C.
Onias III

Seleuco IV Filopater (187-176)


Antíoco IV Epifânio (176-164)
Jasão
Menelaus

Antíoco V (164-146)


Na primeira coluna retomo os versículos da tradução de João Ferreira de Almeida Edição Revista e Corrigida. Por vezes, a leitura é um pouco confuso. Por isso, usei também outras versões. Em alguns casos, juntei o versículo em inglês da New International Version (NIV) e/ou da Bíblia de Jerusalém (BJ), Nova edição revista e ampliada, Paulus Editora 2002.

Como fontes históricas, usei Josefo, Antiguidades e Guerras dos Judeus (tradução de William Whiston), e os livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus.

Informações históricas foram retiradas de vários sites. Ver bibliografia no fim do artigo.

5- E se fortalecerá o rei do sul, e um dos seus príncipes; e este se fortalecerá, mais do que ele, e reinará, e grande será o seu domínio.

BJ- O rei do sul tornar-se-á poderoso. Mas um de seus príncipes o ultrapassará em poder e seu império será maior que o dele.

Depois da morte de Alexandre em 323 a.C., segue-se um período de vários anos pela disputa do poder entre os seus generais. Não tendo Alexandre um sucessor, um regente foi indicado e as várias regiões governadas pelos generais na forma de satrapias. Na conferência de Triparadisus (320 a.C.) Ptolomeu é confirmado sátrapa do Egipto, Seleuco é nomeado sátrapa da Babilónia.
Depois de várias guerras entre os generais, a batalha decisiva foi disputada em 301 a.C., em Ipso, entre Antígono I Monoftalmos e uma coligação formada por Seleuco, Ptolomeu, Lisímaco, governador da Trácia, e Cassandra, da Macedónia. Ganhou a coligação. A maior parte dos territórios asiáticos foram atribuídos a Seleuco I Nicator. No entanto, antes que ele pudesse estabelecer o controlo sobre a Celessíria, a região foi ocupada por Ptolomeu I Soter, que se tinha estabelecido, em 305, como rei do Egipto (rei do sul).
Ptolomeu I Soter (o rei do sul) estabeleceu o seu domínio sobre a Celessíria em 301.
A Celessíria (área formada pelo Israel atual, os territórios Palestinianos, o Líbano e o sul da Síria), onde se incluía a Judeia, era uma região estrategicamente importante e ponto de conflito entre o norte e o sul.
Portanto, fortaleceu-se o rei do sul.
No período inicial destaca-se o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, que durou cerca de 40 anos. Ele libertou os judeus que tinham sido levados para o Egipto e que estavam numa situação de escravidão (Ant.12.2.11). Foi no seu tempo que se formou a biblioteca de Alexandria; e que foi feita a tradução do Pentateuco para Grego por 70 anciãos (a Septuaginta) designados pelo sumo-sacerdote Eleazar, a pedido de Ptolomeu, para a biblioteca de Alexandria.
Josefo testemunha da existência de um bom relacionamento entre o rei do Egipto e o sumo-sacerdote dos judeus.
O mesmo v.5 fala de um dos seus príncipes, do rei do sul, que se fortalecerá mais do que ele. Quem é?
É aquele que será o “rei do norte”.
Na conferência de Triparadisus (320 a.C.), Seleuco, um dos generais de Alexandre, fora nomeado sátrapa da Babilónia. Mas em 316, ele teve de fugir da Babilónia quando Antígono Monoftalmos, outro dos generais de Alexandre, a conquistou. Seleuco encontrou refúgio no Egipto onde reinava Ptolomeu I Soter. De 316 a 312 Seleuco esteve ao serviço de Ptolomeu como general do seu exército. Em 312 (batalha de Gaza), Seleuco reconquistou a Babilónia, com o apoio de Ptolomeu, tornando-se Seleuco I Nicator.
Seleuco e sua dinastia, que é o “rei do norte”, começou como um dos príncipes do rei do sul. Mais tarde, o rei do norte haverá de fortalecer-se mais do que o do sul e reinar com grande domínio.
Durante todo o tempo do domínio egípcio sobre a Celessíria, os Selêucidas não deixaram de reivindicar o controlo da região, conduzindo a várias “guerras sírias”. São assim chamados os vários conflitos que opuseram os reinos Ptolemaico e Selêucida para o controlo da Celessíria, região estratégica para o acesso ao Egipto.
Na 1ª guerra síria (274-271), Antíoco I Soter (rei do norte) ganha temporariamente o controlo de territórios ptolemaicos na costa da Síria, incluindo a Judeia, mas perde-os rapidamente em 271. O domínio do rei do sul continua forte.
Quando Antíoco II Theos sucede ao seu pai, ele inicia a 2ª guerra síria (260-253).
6- Mas, ao cabo de anos, eles se aliarão; e a filha do rei do sul virá ao rei do norte para fazer um tratado; mas não conservará a força do seu braço; nem ele persistirá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e os que a tiverem trazido, e seu pai, e o que a fortaleceu naqueles tempos.
BJ- Alguns anos mais tarde, eles celebrarão uma aliança, e a filha do rei do sul virá para junto do rei do norte para se ratificarem os acordos. Mas a força do seu braço não a sustentará, nem a sua descendência subsistirá; ela será entregue, ele com os da sua comitiva e o seu filho, bem como o que teve poder sobre ela.
A maior parte da informação sobre esta 2ª guerra síria (260-253) perdeu-se, mas o resultado da guerra não parece ter sido conclusivo. Para selar a paz, uma aliança é feita entre norte e sul através do casamento de Antíoco II com Berenice, filha do rei do sul Ptolomeu II Filadelfo. Para casar com Berenice, Antíoco rejeita a sua primeira mulher Laodice.
Quando Ptolomeu Filadelfo, pai de Berenice, morre, ela (o sul) não conserva a força do seu braço – isto é, a influência de Ptolomeu na corte síria – e Berenice é deixada sem proteção. Antíoco também morre e levanta-se um conflito pela sucessão entre o filho de Laodice e o filho, ainda criança (a descendência), de Berenice. Berenice e seu filho, bem como a sua comitiva, são assassinados.

7- Mas, do renovo das suas raízes, um se levantará em seu lugar, e virá com o exército, e entrará nas fortalezas do rei do norte, e operará contra elas, e prevalecerá.
8- E também os seus deuses, com a multidão das suas imagens, com os seus vasos preciosos de prata e ouro, levará cativos para o Egipto; e, por alguns anos, ele persistirá contra o rei do norte.
NIV- For some years he will leave the king of the north alone.
BJ- Por alguns anos manterá distância do rei do norte.
9- E entrará no reino do rei do sul, e tornará para a sua terra.
Para vingar a morte de Berenice, Ptolomeu III Evérgeta (o Benfeitor), irmão de Berenice (o renovo das suas raízes), declara a guerra ao recém-coroado filho de Laodice, Seleuco II Calínico, dando início à 3ª guerra síria (246-241).
Ptolomeu invade a Síria com um grande exército e levou os deuses e riquezas da Síria para o Egipto. Mas dificuldades no seu país impedem-no de conservar o controlo sobre a Síria, e ele torna para a sua terra e mantém a distância.
Seleuco Calínico consegue restabelecer o seu poder e faz uma tentativa de invadir o Egipto em 242 a.C., mas ele sofre uma derrota e retira-se (v.9).
10- Mas seus filhos intervirão, e reunirão grande número de exércitos: e um deles virá apressadamente, e inundará, e passará; e, voltando, levará a guerra até à sua fortaleza.

11- Então o rei do sul se exasperará, e sairá, e pelejará contra ele, contra o rei do norte; ele porá em campo grande multidão e a multidão será entregue na sua mão.
NIV- Then the king of the south will march out in a rage and fight against the king of the North, who will raise a large army, but it will be defeated.

12- E, aumentando a multidão, o seu coração se exaltará; mas, ainda que derribará muitos milhares, não prevalecerá.
NIV- When the army is carried off, the king of the South will be filled with pride and will slaughter many thousands, yet he will not remain triumphant.
Mas os seus filhos (v.10) continuarão a contender pela Celessíria e acabarão por vencer.
Os filhos de Seleuco II Calínico são Seleuco III Soter e Antíoco III o Grande. Seleuco III Soter reinou apenas 3 anos e foi assassinado. Depois da sua morte, o reino passou para o seu irmão, Antíoco III o Grande.
Os filhos (plural) - os irmãos - prepararam-se para a guerra e juntaram um exército. Mas foi um deles, Antíoco III que invadiu e conquistou grandes partes da Celessíria na quarta guerra Síria (219-217).
Ptolomeu IV Filopater, o rei do sul, reage e sai com um grande exército contra as forças selêucidas de Antíoco III. Com um exército de 68.000 homens Antíoco luta contra o exército de 75.000 de Ptolomeu IV Filopater. Antíoco acaba por ser derrotado na batalha de Ráfia (217), na faixa de Gaza, e perde o controlo da Celessíria nas condições de paz.
Para Ptolomeu seria uma vitória apenas temporária (não prevalecerá), porque o Antíoco III haveria de voltar alguns anos mais tarde (v.13) – ao cabo de anos).
O seu coração se exaltará” pode ter a ver com a atitude de Ptolomeu Filopater descrita numa história contada no livro apócrifo de 3 Macabeus. Depois da vitória na batalha, regressando ao Egipto, Ptolomeu decidiu entrar no templo em Jerusalém, no santo dos santos. O sumo-sacerdote Simão opôs-se, bem como o povo. E em consequência Ptolemeu iniciou uma perseguição aos judeus, de que foram milagrosamente salvos. A historicidade desta história é questionada, no entanto, é bem possível que algo tenha acontecido.
E ajuda a explicar porque os judeus se apartaram dos egípcios para apoiar a vinda de Antíoco.
13- Porque o rei do norte tornará, e porá em campo uma multidão maior do que a primeira, e ao cabo de tempos, isto é, de anos, virá à pressa com grande exército e com muita fazenda.
NIV- For the king of the North will muster another army, larger than the first; and after several years, he will advance with a huge army fully equipped.
14- E, naqueles tempos, muitos se levantarão contra o rei do sul;
e os filhos dos prevaricadores do teu povo se levantarão para confirmar a visão; mas eles cairão.
NIV- In those times many will rise against the king of the South. The violent men among your own people will rebel in fulfillment of the vision, but without success.
A morte de Ptolemeu IV Filopater em 204 a.C. foi seguida por um sangrento conflito interno pela regência, sendo Ptolomeu V ainda uma criança, o que deixou o país enfraquecido e num estado próximo da anarquia. Aproveitando as vantagens desta agitação, Antíoco III prepara a 5ª guerra síria (202-195).
Antíoco III alia-se com Filipe V, rei da Macedónia, com o objetivo de conquistarem e repartirem entre eles as posses egípcias fora do Egipto.
Mas não são apenas os poderes políticos e militares macedónios e selêucidas que se levantam contra o rei do sul (v.14). Internamente, Ptolomeu V enfrenta graves problemas, agitação e sedição em todo o reino, bem como problemas económicos que conduzem ao aumento de impostos, alimentando ainda mais a revolta. Já em 206, a cidade de Tebas revoltara-se e ficou fora do controlo ptolemaico durante vinte anos.
Também entre o povo judeu, levantaram-se contra o rei do sul, em apoio ao rei do norte, como já referimos acima.
Além disso, muitos judeus eram de opinião que o governo selêucida era preferível ao egípcio, porque sentiam fortemente o peso dos impostos cobrados pelos Tobíadas, que apoiavam o lado do sul. Estes Tobíadas eram certamente da mesma família de Tobias do tempo de Zorobabel e Neemias. Josefo conta que no tempo de Ptolomeu Evérgeta, o sumo-sacerdote Onias II recusou pagar impostos ao rei (do sul). Segundo Josefo, porque que era um “grande amante de dinheiro” (Ant.12.4). José, filho de Tobias, repreendeu Onias por não cuidar da preservação do povo e de pôr a nação em perigo, não pagando. José prudentemente aliou-se ao rei do Egipto, oferecendo dinheiro ao rei e Ptolomeu concedeu-lhe a cobrança de impostos na Celessíria, o que ele fez pela força, durante 22 anos, e enriqueceu grandemente e tornou-se poderoso. Quando morre, no tempo de Seleuco Soter, o povo revolta-se. Os anciãos, o sumo-sacerdote Simão (filho de Onias) e grande parte do povo estão do lado oposto ao Egipto.
Serão estes aliados do Egipto os filhos dos prevaricadores? A palavra significa ladrões, violentos. Visto que eles caíram, devem ter sido aliados do rei do sul, que será o lado perdedor. Eles reivindicavam uma visão para justificar a sua tomada de posição, o roubo e a violência. Nisto lembram Ez 7:22-26 onde saqueadores (v.22) buscam do profeta uma visão (v.26) para justificarem os seus pecados (Jordan, p.555).
15- E o rei do norte virá, e levantará baluartes, e tomará a cidade forte; e os braços do sul não poderão subsistir, nem o seu povo escolhido, pois não haverá força que possa subsistir
NIV- Then the king of the North will come and build up siege ramps and will capture a fortified city. The forces of the South will be powerless to resist; even their best troops will not have the strength to stand.
16- O que, pois, há-de vir contra ele fará segundo a sua vontade, e ninguém poderá permanecer diante dele: e estará na terra gloriosa, e por sua mão se fará destruição
NIV- The invader will do as he pleases no one will be able to stand against him. He will establish himself in the Beautiful Land and will have the power to destroy it.
Alguns anos depois (v.13 ao cabo de tempos) da sua derrota em Rafia, Antíoco III volta ao ataque. Na batalha de Panias (que é Cesareia Filipe no Novo Testamento) em 200 a.C. Antíoco ocupa Celessíria.
Scopas, o general egípcio, foi derrotado em Panias e fugiu para Sidon, uma cidade fortificada, onde ele foi obrigado a entregar-se.
Josefo (Ant.12.130) relata que no tempo das guerras de Antíoco o Grande contra Ptolomeu Filopater e sue filho Ptolomeu Epífanes, os judeus e os habitantes de Celessíria sofreram muito porque o domínio sobre a região mudava constantemente pelo que os judeus se sentiam como um navio na tempestade, levado pelas ondas de um para outro lado.
Mas o sul não tinha forças para resistir. Os problemas internos levaram Ptolemeu a procurar uma rápida e desfavorável paz.  Com o fim de se focar na frente interna, Ptolemeu assinou um tratado de conciliação com Antíoco em 195 a.C., cedendo ao rei selêucida a posse da Celessíria.
Diz Josefo que os judeus (Ant.12.3.133), de sua própria vontade, passaram para Antíoco e o receberam na cidade de Jerusalém (v.14 levantaram-se contra o rei do sul). Assim, o rei do norte estava na terra gloriosa.
Começou o domínio do rei do norte sobre a Judeia.
Inicialmente os judeus granjearam o favor de Antíoco que lhes concedeu o direito de viverem de acordo com as suas próprias leis, mas no tempo de seu filho, Antíoco Epifânio, haverá destruição.


Bibliografia
www.britannica.com
https://www.ancient.eu (Ancient History Encyclopedia)
Wikipedia
BEITZEL, Barry J. The New Moody Atlas of the Bible. Chicago: Moody Publishers (2009)
JAMIESON, FAUSSET & BROWN. Commentary on Daniel 11. https://www.blueletterbible.org/
JORDAN, James B. The handwriting on the wall. A commentary on the book of Daniel, American Vision, Powder Springs, Georgia (2007)
JOSEPHUS. The works of Josephus. Translated by William Whiston. New updated edition. 1987.

O IMPÉRIO GREGO (1) Alexandre o Grande

Nos estudos bíblicos, geralmente, pouca atenção é dada ao chamado período “intertestamentário”, entre os últimos livros do VT, Esdras, Neemias, Ester e Malaquias, que pertencem ao período persa, e o nascimento de Jesus. No entanto, Daniel, que viveu todo o período babilónico, em exílio na própria Babilónia, ocupando um elevado cargo no reino, profetiza acerca deste período, com algum detalhe.
Aos quatro reinos sucessivos, sob o domínio dos quais viviam os judeus a seguir à monarquia, chamei de “tempo dos gentios”. Por sua infidelidade à aliança, Israel perdeu a sua autonomia, mas continua debaixo da misericórdia de Deus e encontra-se sob a proteção destes reinos gentios.

Perto do fim do domínio da Babilónia, no primeiro ano de Belshazar, Daniel tem uma visão (Dn 7). Depois do domínio do leão com asas de águia (Babilónia), viria um segundo animal, o urso (Pérsia), e o terceiro, o leopardo, com quatro asas de ave nas suas costas, e quatro cabeças (Dn 7:6).

É deste período que vamos agora tratar.

Noutra visão, no terceiro ano de Belshazar (Dn 8), Daniel vê o carneiro (Pérsia), e “um bode que vinha do ocidente, com uma ponta notável entre os olhos” o qual quebrou a força do carneiro. Este bode engrandeceu-se em grande maneira, mas no auge do seu poder, a grande ponta foi quebrada e subiram quatro, também notáveis no seu lugar. E de uma delas saiu uma ponta pequena.

Com a visão, Daniel recebe a interpretação: O bode peludo é o rei da Grécia; e a ponta grande que tinha entre os olhos, é o primeiro rei; o ter sido quebrada, levantando-se quatro em lugar dela, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, mas não com a força dela (Dn 8:22).

Alexandre Magno (o Grande), o primeiro rei

Ao derrotar o rei da Pérsia, Alexandre Magno dá início ao terceiro reino (ventre e coxas de cobre) da estátua que Nabucodonosor viu no seu sonho no início do seu reinado (Dn 2:32, 39).

Depois da morte de seu pai, Filipe II da Macedônia (uma região a norte da Grécia), em 336 a.C., Alexandre sucede-o e inicia uma conquista muito rápida, em apenas dez anos, do Médio Oriente, e de toda a Ásia até à Índia. Isto só foi possível porque o seu pai tinha preparado o caminho. Transformara um país fraco e atrasado numa monarquia forte, com um grande exército equipado com armas e táticas então revolucionárias. Foi conquistando a Grécia (era o tempo de Aristóteles e Demóstenes) e tinha o sonho de conquistar a Pérsia.

O caminho da Macedônia para Ásia passava pelo Helesponto (hoje tem a designação de Dardanelos), o estreito que liga o mar Egeu e o Mar de Mármara. Dali partiu à conquista do Médio Oriente. Depois de duas vitórias sobre o exército persa, no rio Granico e na batalha de Isso, Dario o rei persa fugiu. Alexandre não o perseguiu, mas marchou primeiro para sul, através da Síria, tomando Damasco, Sidon, e Tiro, depois de um cerco de sete meses, em 332 a.C., e depois Gaza.

Josefo (Ant.11.317-339) conta que quando estava cercando Tiro, Alexandre escreveu ao sumo-sacerdote judeu pedindo provisões para o seu exército. O sumo-sacerdote recusou, tendo jurado fidelidade ao rei persa. Alexandre ficou muito zangado e ameaçou com uma expedição contra Jerusalém. Depois do cerco de Tiro e a conquista de Gaza, Alexandre marchou para Jerusalém. Ouvindo isto, o sumo-sacerdote Jadua ficou aterrorizado e ordenou ao povo que oferecesse sacrifícios e pedisse a Deus que os livrasse. A seguir, num sonho, Deus disse-lhe para ter coragem, adornar a cidade e abrir as portas, e que o povo, trajado de vestes brancas, e os sacerdotes nos seus trajos e ornamentos próprios, recebessem Alexandre. Assim fizeram. Saíram em procissão, os sacerdotes e a multidão do povo, e encontraram Alexandre num lugar chamado Safa, de onde se tinha uma vista sobre Jerusalém e o templo. O exército, que estava na expectativa de saquear a cidade, ficou admirado quando viu Alexandre aproximar-se do sumo-sacerdote, saudá-lo e adorar a Deus, após o que entrou pacificamente na cidade e ofereceu sacrifícios no templo. De acordo com Josefo, Alexandre disse que, quando estava na Macedônia considerando como poderia obter o domínio na Ásia, ele teve um sonho em que viu este mesmo sumo-sacerdote com as suas vestimentas, que o exortou a passar o mar, que ele lhe daria o domínio sobre a Pérsia. Ainda de acordo com Josefo, os judeus teriam mostrado a Alexandre o livro de Daniel onde estava escrito que alguém destruiria o reino dos Persas, e ele entendeu que fosse ele próprio.

Muitos duvidam da historicidade desta narrativa porque não se encontra em nenhum outro documento escrito, mas é razoável assumir que Jerusalém foi tomada pacificamente, tendo os líderes judeus se submetido voluntariamente a Alexandre. E assim evitaram a destruição.

Jadua é uma figura bíblica; é o último sacerdote registado no livro de Neemias. É descendente de Jeshua que veio com Zorobabel a Jerusalém depois do exílio. Jeshua gerou a Joiaquim, e Joiaquim gerou a Eliasib, e Eliasib gerou a Joiada. E Joiada gerou a Jónatas, e Jónatas gerou a Jadua (Ne 12:10-11).

Depois de submeter o Egipto, Alexandre dirige-se então contra os Persas. Na batalha de Gaugamela, em 331 a.C., Alexandre obtém a vitória decisiva sobre os Persas.

Através das suas conquistas, Alexandre divulga a cultura e língua grega através da Ásia Menor, Egipto, Mesopotâmia até Índia, iniciando a era helenística.

Em 323 a.C. Alexandre morre subitamente, no auge do seu poder.

Depois da morte de Alexandre, segue-se um período de disputas pelo governo do império entre os seus diádocos, generais e comandantes das regiões administrativas do império de Alexandre. Na batalha de Ipso, em 301 a.C., o império ficou definitivamente desintegrado, a as regiões divididas entre os vitoriosos: Seleuco, Lisímaco, Cassandro e Ptolomeu.

Na história bíblica, no capítulo 11 de Daniel, intervêm apenas o “rei do sul” e o “rei do norte”.

O “rei do sul” é a dinastia ptolemaica, fundada por Ptolomeu I Soter (= Salvador), que governará o Egipto (Dn 11:8,42) até ao ano 30 a.C., com a morte de Cleópatra VII.

O “rei do norte” representa a dinastia selêucida, fundada por Seleuco I Nicator, que governa a Síria.
Um dos principais pontos de disputa entre o norte e o sul era o controlo sobre a região estratégica da Celessíria (área formada pelo Israel atual, os territórios Palestinianos, o Líbano e o sul da Síria), onde se incluía portanto a Judeia.

Nas próximas mensagens vamos seguir a história deste período, passo a passo, através do capítulo 11 de Daniel. A profecia de Daniel 11 vê-se realizada literalmente na história dessa época.

Em grandes linhas, depois da morte de Alexandre, a Judeia é dominada por mais de 100 anos pelo Egipto (Dn 11:5-9). Com Antíoco III o Grande inicia-se o domínio sírio sobre a Judeia (Dn 11:10-20), primeiro pacífico, mas depois complicado para os judeus sob o governo de Antíoco Epifânio (Dn 11:21-32). A profanação do templo conduz a uma revolta (Dn 11:32b-35), liderada pelos Macabeus, que darão início a um período de relativa autonomia sob a dinastia dos Asmoneus até à intervenção de Roma e o governo de Herodes. A história dos Macabeus está descrita nos livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus, que constituem a fonte principal para este período.

Podemos ver, nesta sucessão de reinos que dominavam sobre a Judeia, as quatro cabeças do leopardo (Dn 7:6). O primeiro reino, o do próprio Alexandre o Grande; o segundo, o domínio egípcio (ptolemaico); o terceiro, o domínio sírio (selêucida); o quarto, a dinastia dos Macabeus (ou Asmoneus).

Daniel 8:5, 8-9, 21-22 mostra o bode com uma ponta grande. Quando a ponta grande é quebrada, sobem 4 no seu lugar, e de uma delas uma ponta pequena. A ponta grande é Alexandre. As quatro pontes pequenas são reinos consecutivos que governaram sobre a Judeia: 1) o reino logo após a morte de Alexandre governado por um regente, 2) o domínio egípcio dos Ptolomeus; 3) o domínio sírio dos Selêucidas; 4) a governação dos Asmoneus. A ponta pequena que sai de uma destas quatro pontas (da terceira) é Antíoco Epifânio, que é o “homem vil” de Daniel 11:21-32.

24/11/2017

JOÃO 2:20


Respondeu-lhes Jesus: Derrubai este templo, e em três dias o levantarei. Disseram-lhe então os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias? (Jo 2:19-20)

Estes 46 anos podem ajudar-nos com a cronologia da vida de Jesus?

O templo e o santuário

Observamos que nesta mesma passagem da purificação do templo (Jo 2:13-22), o Grego tem duas palavras diferentes traduzidas ‘templo’.

No v. 14 - No templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, de ovelhas … - e no v. 15 - Tendo feito um chicote, expulsou todos do templo … a palavra grega é íeron (hieron).

Nos vs. 19, 20 e 21 é usada a palavra naoς (naos). Algumas versões (ex. Bíblia de Jerusalém) traduzem esta palavra como ‘santuário’.

‘Hieron’ refere-se ao inteiro recinto do templo, incluindo os átrios, os pórticos e todas as dependências, ou seja, o espaço público onde todos os israelitas podiam entrar.

O ‘naos’ é o santuário interior: o lugar santo, onde apenas os sacerdotes podiam entrar, e o santo dos santos, apenas o sumo-sacerdote uma vez no ano.

Esta diferença é clara em João que utiliza sempre ‘hieron’ (Jo 5:14; 7:28; 8:20; 18:20) e ‘naos’ apenas nesta passagem de 2:19-21. A mesma diferenciação encontramos por ex. em Mc 11:11 (hieron) e 15:38 (naos).

Segundo Josefo, Herodes empreendeu a muito grande tarefa de (re)construir o templo no 18º ano do seu reinado (Ant. 15.380). Mas numa parte do templo, nem o rei podia entrar, e Herodes não entrou no santuário porque ele não era sacerdote. Ele tratou da obra dos átrios e espaços exteriores (periboloς é o termo usado por Josefo em Guerras 1.401); e estes construiu em oito anos (Antiguidades 15.420). O santuário interior (naoς) foi construído pelos próprios sacerdotes e isto em um ano e seis meses (Ant. 15.421). Quando o ‘naos’ foi acabado de construir houve grande alegria e celebrou-se uma festa.

Portanto, deduzimos que os 46 anos indicados pelos judeus em Jo 2:20 têm referência à construção do “naos” (santuário interior) pelos sacerdotes e não do templo (hieron) na sua totalidade por Herodes.

Ainda tem a questão do verbo oikodomhjnh (Jo 2:20), que é um aorista indicativo passivo, significando literalmente “foi construído” e compreende-se melhor como já estando erguido há 46 anos, não se referindo à duração do ato de construir (Finegan § 595).

Josefo diz que a festa de celebração da obra do “naos” coincidiu com o dia da inauguração do rei (Ant. 15.423). Uma fonte extra bíblica, o Tratado Rosh Hashanah no Mishna, elucida que o Ano Novo para reis é 1 de Nisan (Finegan § 164).

Este diálogo sobre o ‘naos’ tem lugar na primeira páscoa do ministério de Jesus. A páscoa celebra-se em 14 de Nisan.

Assim, na primeira Páscoa (no mês de Nisan) do ministério de Jesus tinham passado 46 anos desde que se celebrou a edificação do “naos” do templo.
Agora trata-se de descobrir qual o ano.

Cronologia do reinado de Herodes segundo Josefo

Herodes foi nomeado rei pelos Romanos, quando Calvino e Pollione eram cônsules (Ant. 14.389). Isto é o ano 40 a.C.. Era costume em Roma designar o ano pela menção dos dois cônsules em exercício nesse ano. Os cônsules eram eleitos por um ano. Bastava a referência aos dois cônsules para determinar o ano (Finegan § 172).

Depois de um cerco de vários meses, Herodes conquista Jerusalém pela força, em outubro, no dia da Expiação (Tishri 10). O cerco começara no início desse mesmo ano – no terceiro ano desde que fora feito rei em Roma –, depois de passado o rigor do inverno (Ant. 14.465), e continuou durante o verão (Ant. 14.473).

Mas quanto ao ano em que isto aconteceu, Josefo não é coerente. Ele diz que foi no ano em que Agrippa e Gallo eram cônsules – isto seria 37 a.C. – e 27 anos depois que Pompeu conquistou Jerusalém (em 63 a.C.) – isto seria 36 a.C.

A isto acresce outra dificuldade: se o ano novo para reis é 1 de Nisan, a partir de Nisan de que ano é contado o reinado de Herodes? Nisan antes da conquista, sendo o primeiro ano um ano incompleto mas ainda assim considerado o primeiro ano? Ou a partir de Nisan depois da conquista, havendo assim um “ano de acessão” (um período de alguns meses) não contado?

Como resolver este problema?

No ano 31 a.C., em 2 de setembro, teve lugar a batalha de Actium, em que Octaviano (mais tarde conhecido como Augusto) derrota Marco António. Josefo afirma que este ano corresponde ao 7º ano de Herodes (Ant. 15.121).

Assim sendo, o 7º ano de Herodes corre de Nisan 31 a.C. a Nisan 30 a.C.

Por conseguinte, o 1º ano de Herodes começa oficialmente em Nisan de 37 a.C., a conquista de Jerusalém em outubro desse mesmo ano.

Isto também está de acordo com Ant. 14.465, onde Josefo diz que o cerco a Jerusalém começou depois do rigor do inverno, no terceiro ano desde que fora feito rei em Roma.

O 18º ano de Herodes, quando empreende a obra do templo, corresponde então a Nisan 20 a.C. a Nisan 19 a.C.

O ‘naos’ durou um ano e seis meses a construir. A festa foi celebrada em Nisan na mesma data que a da inauguração rei. Isto significa que a edificação do ‘naos’ terá sido celebrada no final do décimo-nono ano de Herodes, em Nisan de 18 a.C.

46 anos depois (Jo 2:20) leva-nos ao ano 29 d.C.,  à páscoa em que ocorre o que está descrito em João 2:13-21 e a primeira páscoa do ministério de Jesus.

Disto deduzimos que Jesus iniciou o seu ministério na páscoa de 29 d.C..

Podemos provar que isto está correto com o apoio de outros testemunhos?

O nascimento de Jesus

Nas anteriores mensagens chegámos à conclusão que Jesus nasceu em data incerta do ano 2 a.C., antes da vinda dos magos a Belém (em aprox. 25 de dezembro de 2 a.C.) e antes da morte de Herodes que ocorreu pouco depois do eclipse de 10 de janeiro 1 a.C.

Jesus foi batizado ainda ele não tinha 30 anos. Começava a ser de quase trinta anos (Lc 3:23). Tinha quase. Se nasceu em 2 a.C., tem 29 anos em 28 d.C. e completa 30 anos no ano 29 (o ano da primeira páscoa).

Jesus nasceu cerca de 5 meses depois de João Batista.

João Batista era de família sacerdotal. Começou a sua pregação no 15º ano de Tibério, entre agosto/setembro do ano 28 e agosto/setembro do ano 29, quando fez 30 anos (ver mensagem O ANO QUINZE DE TIBÉRIO, julho 2017).

Admitindo que João começou a pregar logo no início do 15º ano de Tibério (ano 28), em agosto, Jesus não podia fazer 30 anos antes de finais de janeiro/fevereiro do ano 29. Mas pode ter sido batizado por João um pouco antes, no fim do ano 28 ou princípio do ano 29, e começado o seu ministério na páscoa do ano 29 que nesse ano terá sido em 18 de abril. Este prazo dá tempo suficiente para integrar os eventos descritos por João entre o batismo e a primeira páscoa. O batismo foi imediatamente seguido pelo período de 40 dias no deserto (Mc 1:12). Depois da temporada no deserto, Jesus regressa onde João estava a batizar (Jo1:36) e este o vê passar. Dois dos discípulos de João vão atrás de Jesus e ficam com ele aquele dia (Jo1:37-42). No dia seguinte, Jesus quis ir a Galileia (Jo 1:43) e no terceiro dia, está presente nas bodas de Caná na Galileia (Jo 2:1). Depois desce a Cafarnaum (a norte do mar da Galileia) onde ficou “não muitos dias” com os primeiros discípulos antes de subir para a sua primeira páscoa em Jerusalém. Não sabemos quantos dias são “não muitos dias”, mas como João não menciona qualquer acontecimento entre Cafarnaum e a primeira páscoa, não deve ter sido um período muito longo. Pouco mais de 60 dias terão decorrido entre o batismo e a descida a Jerusalém.

Esta data de finais de janeiro/fevereiro do ano 2 a.C. para o nascimento de Jesus enquadra-se também muito bem com o recenseamento/juramento associado ao título de Pater Patriae de Augusto recebido em fevereiro de 2 a.C. (ver mensagem RECENSEAMENTO DE QUIRINO, fevereiro 2017) razão pela qual José e Maria se deslocaram a Belém.

Também Josefo faz referência a um juramento situando-o entre 12 a 15 meses antes da morte de Herodes, portanto, dentro do período em consideração: todo o povo dos judeus deu garantias da sua boa vontade para com César e o governo do rei, mas mais de 6.000 dos fariseus recusaram-se a fazer o juramento (Ant. 17.42). Tudo indica que se trata do mesmo alistamento de Lucas.

Por outro lado, esta hipótese não se enquadra com as datas astronómicas do aparecimento e progressão da “estrela de Belém” (ver mensagens A ESTRELA DE BELÉM, maio 2017). Apenas o efeito “coroa”, isto é o movimento circular visível de Júpiter por cima da estrela Régulo devido à retrogressão em 29 de novembro 3 a.C. e o retomar da sua rota normal em 29 de março 2 a.C., pode parecer uma aproximação à data de nascimento de Jesus. Mas não quero atribuir muita importância à sequência e datas dos eventos astronómicos, embora bastante extraordinários. Fora o facto de os magos terem seguido uma estrela, provavelmente o planeta Júpiter, e chegado a Belém num período em que Júpiter estava numa posição estacionária e zenital sobre Belém, o que ocorreu astronomicamente no final do ano 2 a.C., e o prazo de dois anos para baixo definido para a matança das crianças de Belém associado ao tempo do nascer da estrela (Mt 2:16), não há mais indicações bíblicas de que as datas das várias e sucessivas conjunções de planetas em 3 e 2 a.C. tenham correspondência exata com datas de concepção e nascimento de Jesus.

Na mensagem A ESTRELA DE BELÉM (3) cheguei a considerar a possibilidade de usar as datas astronómicas da progressão de Júpiter para determinar a data do nascimento de Jesus. Apresentavam-se várias alternativas: 11 de setembro de 3 a.C. (por causa de Ap 12:1), 17 de junho 2 a.C. e 25 de dezembro 2 a.C. (a interpretação tradicional). A solução melhor pareceu-me então a do nascimento em junho, quando aliada à interpretação do 6º mês da anunciação (Lc 1:26) não como o 6º mês da gravidez de Isabel mas como o 6º mês do ano. O que também anularia a necessidade de estabelecer com exatidão a semana do turno de Abias.

Agora, porém, nenhuma destas hipóteses me parece válida, quando temos em conta a referência aos 46 anos da construção do santuário.

A data de 11 de setembro (Tishri 1) 3 a.C. é defendida por alguns por analogia com Apocalipse 12:1-2. Mas em meu ver este é um versículo altamente simbólico, nem específico da figura de Maria, mas alargável a Israel e a Igreja. No limite pode-se interpretar este versículo como condensando numa só frase todo o período da gravidez, desde a concepção até ao dar à luz. Além disso, com o nascimento em 11 de setembro 3 a.C., Jesus completaria 30 anos em 28 d.C., demasiado cedo portanto, além de não se enquadrar com o 15º ano de Tibério para João Batista e existir um prazo demasiado longo entre o batismo com quase 30 anos e a primeira páscoa em 29.

Com o nascimento em junho de 2 a.C. Jesus não teria ainda 30 anos na primeira páscoa do seu ministério no ano 29. O que poderá não ser um impedimento, já que Jesus não era de família sacerdotal como João Batista e nada indica que teria obrigatoriamente que ter 30 anos. Mas Lucas 3:23 diz que Jesus começava a ser de quase trinta anos quando foi batizado e logo de seguido levado ao deserto para a tentação de 40 dias. Mas como já dissemos acima, terá havido pouco mais de 60 dias entre o batismo e a páscoa. Com estes cerca de 60 dias até à páscoa e ainda o tempo até ao mês de junho há demasiado tempo para fazer (quase) trinta anos. Portanto, esta hipótese também não se coloca. A não ser que a primeira páscoa seja no ano 30 d.C. Mas nesse caso, o tempo entre o batismo com quase 30 anos e a páscoa do ano 30 é um prazo demasiado comprido para os poucos eventos descritos em João ocorridos antes da primeira páscoa (ver também mensagem A DURAÇÃO DO MINISTÉRIO DE JESUS, setembro 2017).

Muito menos é válida a hipótese (tradicional) do nascimento em 25 de dezembro 2 a.C. Esta situaria necessariamente a primeira páscoa no ano 30.

Concluindo:
Depois de todas as mensagens ao longo do ano 2017, em que procurei estabelecer a data do nascimento de Jesus, a minha proposta é que Jesus nasceu no ano 2 a.C. em janeiro/fevereiro, por me parecer a data que melhor concilia os dados bíblicos com os extra-bíblicos, sem torcer o que diz a Bíblia para encaixar nos dados extra-bíblicos.

Bibliografia
The Works of Josephus. Translated by William Whiston. New updated edition. 1987

Jack Finegan. Handbook of biblical chronology. Revised edition 1998