22/04/2018

O IMPÉRIO GREGO (4). Antíoco IV Epifânio


Nota: A secção sobre Antíoco IV Epifânio ocupa os vs. 21 a 32. O rei do v.36 já não pode ser o mesmo. Antíoco é selêucida, rei do norte. A certa altura, o rei do v.36 entra numa luta com o rei do sul e o rei do norte (v.40), portanto é outra personagem.

Lembramos que Antíoco III, o Grande, tirou a Judeia do domínio do rei do sul (Egipto) e integrou-a no reino do norte (Síria). Antíoco III foi durante um tempo um rei bem-sucedido, mas meteu-se com Roma e sofreu grande derrota: a redução dos territórios sob seu domínio e uma pesada indemnização a pagar a Roma. Além disso, foi obrigado a deixar o seu filho Antíoco (que passaremos a conhecer na história como “Epifânio”) como refém político em Roma.

Com a morte de Antíoco III, Seleuco IV Filopater sucedeu o seu pai no trono em 187 a.C.. Este é o arrecadador de impostos de Dn 11:20. Os impostos eram para pagar a indemnização a Roma.
21- Depois, se levantará em seu lugar um homem vil, ao qual não tinham dado a dignidade real; mas ele virá caladamente, e tomará o reino com engano.
Antíoco Epifânio não era o herdeiro legítimo do trono. Subiu ao trono de maneira irregular. Ainda durante o reinado de Seleuco IV, o filho deste, Demétrio, o herdeiro legítimo, foi enviado para Roma, trocando de lugar com Antíoco como refém. Seleuco foi assassinado por Heliodoro, um alto oficial do seu reino, em 175 a.C., e este foi por sua vez aniquilado por Antíoco Epifânio. Com o legítimo herdeiro do trono em Roma, Epifânio aproveitou a oportunidade para tomar o poder com a ajuda do rei de Pérgamo, proclamando-se co-regente com outro filho de Seleuco, ainda criança, que manda assassinar. Ele nunca é referido como rei do norte, mas é o que ele é na realidade.

É qualificado como “vil” (desprezível, abjecto, ignóbil). Não respeitou os costumes dos judeus como o fez seu pai, Antíoco III, que permitiu que os judeus vivessem segundo a seu Lei e costumes. Josefo relata várias cartas de Antíoco III que testemunhavam da amizade e estima que ele tinha para com os judeus. Epifânio, pelo contrário, apoiou os corruptos entre os judeus, “os violadores do concerto” (v.32), deixando que lhe comprassem o posto de sumo-sacerdote por dinheiro.
Em 173 a.C. Antíoco pagou o restante da indemnização de guerra imposta pelos romanos e fortaleceu o seu poder: com os braços de uma inundação arrancou os seus inimigos diante dele (v.22). Também fez prosperar económica e socialmente o seu reino: 24- Virá, também, caladamente, aos lugares mais férteis da província, e fará o que nunca fizeram seus pais, nem os pais de seus pais; repartirá entre eles a presa, e os despojos, e a riqueza, e formará os seus projetos contra as fortalezas, mas por certo tempo (v.24). “Por certo tempo”, porque haveria um limite ao seu poder e em certo momento o seu domínio sobre a Judeia (que é o que sempre está em foco) passará para outro.
“Quando Antíoco se viu consolidado no seu trono, pretendeu apoderar-se também do Egipto, a fim de reinar sobre os dois reinos. Invadiu, pois, o Egipto á frente de um exército poderoso, com carros, elefantes e cavaleiros e uma grande esquadra, e travou combate com o rei do Egipto. Ptolomeu, o qual recuou diante dele e fugiu, muitos tombando feridos. As cidades fortificadas do Egipto foram tomadas e Antíoco apoderou-se dos despojos do país” (1Mac 1:16-19).
Dn 11:25 a 27 falam desta primeira campanha, bem-sucedida, contra o Egipto.
25- E suscitará a sua força e o seu coração contra o rei do sul, com um grande exército, e o rei do sul se envolverá na guerra, com um grande e mui poderoso exército, mas não subsistirá, porque formarão projetos contra ele. 26- E os que comerem os seus manjares o quebrantarão; e o exército dele se derramará, e cairão muitos traspassados. 27- Também estes dois reis terão o coração atento para fazerem o mal e a uma mesma mesa falarão a mentira; ela, porém, não prosperará, porque o fim há-de ser no tempo determinado.
O que é que aconteceu?
Em 170-169 a.C. o Egipto quis reconquistar a Celessíria (região onde fazia parte a Judeia), e envolveu-se numa guerra com Antíoco que invade o Egipto. O Egipto tem um exército poderoso, mas não subsiste e o exército egípcio é derrotado pelo poderoso exército de Antíoco, que é como “uma inundação que arranca os inimigos diante dele” (v.22). Antíoco ocupa o país (exceto Alexandria) e captura o rei Ptolomeu VI Filometor (que é seu sobrinho) apresentando-se como o seu protetor. Em Alexandria, fora da influência de Antíoco, Ptolomeu VII (irmão de Ptolomeu VI) é proclamado rei do Egipto.
Agora, os dois reis (Epifânio e Ptolomeu VI) tinham uma coisa em comum: derrotar Ptolomeu VII e segurar o poder sobre o Egipto. Chegaram a um acordo, Ptolomeu VI foi colocado no trono como co-regente do Egipto com Antíoco. Mas na mesma mesa onde selaram o acordo, falaram mentira. Isto é, cada um tencionava trair o outro. Mas isto não prosperaria. No inverno de 169/168, os governantes ptolemaicos reconciliam-se, o que põe fim à ambição de Antíoco de manter os dois irmãos em guerra um contra o outro.
Antíoco veio a saber que o rei do Egipto havia tomado uma atitude hostil aos seus interesses e dirige novo ataque contra o Egipto, sitiando Alexandria (168 aC). Mas esta segunda campanha tem um desfecho muito diferente da primeira (vs.29-30).
29- No tempo determinado, tornará a vir contra o sul; mas não será na última vez como foi na primeira. 30- Porque virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza;
Entretanto, os Ptolemeus tinham feito uma aliança com Roma. Roma declarou o Egipto zona interdita, e enviou contra Antíoco “os navios de Quitim”. Antíoco foi humilhado e forçado a retirar os seus exércitos do Egipto e regressar.

Antíoco e os judeus
Vamos agora ver como a história de Antíoco se interliga com a dos judeus
22- e serão quebrantados, como também o príncipe do concerto. 23- E, depois do concerto com ele, usará de engano; e subirá, e será fortalecido com pouca gente.
Quem é o príncipe do concerto do v.22?

A palavra traduzida “príncipe” é NAGIYD. É utilizada para um líder e chefe do povo, um rei, como David (1Sam 9:16; 2Sam 5:2 etc.), Jeroboão (1Rs 14:7), Ezequias (2Rs 20:5); para líderes de tribos (1Cr 27:16) e outros altos oficiais (1Cr 27:4).

A mesma palavra também é utilizada para líderes religiosos, nomeadamente o sumo-sacerdote, ou o filho do sumo-sacerdote, e outros cargos de supervisão no templo como o maioral dos tesouros. A palavra NAGIYD nem sempre é traduzida com a mesma palavra em português: maioral (1Cr 9:11;2Cr 31:13; Ne 11:11); sumo-sacerdote (2Cr 31:10); guia (1Cr 9:20); presidente (Jer 20:1); chefe (1Cr 12:27).

O príncipe do concerto aqui é o sumo-sacerdote. Qual é a história?

O sacerdote em funções no início do reinado de Antíoco Epifânio era Onias III. Onias é caluniado diante do rei por um filho de Tobias (descendente do Tobias do tempo de Neemias) como “grande amante de dinheiro” por ter recusado pagar impostos ao predecessor de Antíoco (Josefo conta a história em Ant.12.4). O irmão de Onias, que adotou um nome grego Jasão, começou a manobrar para obter o cargo de sumo-sacerdote, prometendo a Antíoco muito dinheiro se ele fosse nomeado. Antíoco consentiu e Onias é deposto (174 a.C.). Jasão torna Jerusalém numa cidade grega, com a conivência dos outros sacerdotes e dos liberais entre e povo. Diz no livro de 2Macabeus 4: “tão logo assumiu o poder, começou a fazer passar os seus irmãos de raça para o estilo de vida dos gregos. Suprimiu os privilégios reais benignamente concedidos aos judeus … abolindo as instituições legítimas, introduziu costumes contrários à lei … construiu a praça de esportes…Verificou-se desse modo tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros, por causa da exorbitante perversidade de Jasão, esse ímpio e de modo algum sumo-sacerdote, que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar. Antes, desprezando o Santuário e descuidando-se dos sacrifícios, ….”.

Três anos depois (171 a.C.), Jasão envia um certo Menelau, irmão de Simão o benjamita, levar o dinheiro do tributo a Antíoco. Mas não contou que Menelau aproveitasse a oportunidade para comprar o sumo-sacerdócio para si próprio, mesmo não sendo de descendência sacerdotal. Agora Jasão é afastado. Menelau continua a política de Jasão. Subtraiu objetos de ouro do templo para enriquecimento próprio e para pagar subornos e manter-se no poder. Onias III, que estava exilado, ficou a saber e repreendeu-o publicamente, o que levou a que Onias fosse assassinado a mando de Menelau (2Mac 4:23-35).

Por esta altura, Antíoco conduzia a sua primeira campanha contra o Egipto, que lhe rendeu muito despojo de guerra.
28- Então tornará para a sua terra, com grande riqueza, e o seu coração será contra o santo concerto; e fará o que lhe aprouver, e tornará para a sua terra.
Porque, depois disto, se dirigiu Antíoco à Judeia com o coração contra o santo concerto?

Circulavam falsos rumores que Antíoco tinha morrido. Jasão, que tinha sido afastado do sumo-sacerdócio aproveitou isto e reuniu mil homens e desferiu um ataque contra a cidade, entregando-se sem piedade à chacina dos seus concidadãos, na tentativa de retomar o controlo. Mas não conseguiu no seu intento e foi obrigado a fugir. Chegando estas informações a Antíoco, este ficou com a impressão de que a Judeia estava em revolta contra ele. Dirigiu-se com o seu exército a Jerusalém “enfurecido em seu íntimo como uma fera” e apoderou-se da cidade à força das armas. Executou uma grande matança, oitenta mil pessoas foram mortas no espaço de três dias, e outros muitos milhares vendidos como escravos. Não contente com isso, Antíoco teve a ousadia de penetrar no templo, guiado por Menelau, e roubou parte dos tesouros do templo para encher os seus cofres do dinheiro necessitado para as suas campanhas militares. Após o que se apressou para regressar à sua terra, deixando superintendentes em Jerusalém para manter a ordem e Menelau como sumo-sacerdote, que dominava sobre os seus concidadãos de modo ainda mais atroz que os outros (a história é contada em 2Mac 5; e por Josefo em Ant,12,5).

Dois anos depois, de regresso da desafortunada segunda campanha no Egipto, Antíoco volta-se novamente contra Jerusalém.
30- […] e voltará, e se indignará contra o santo concerto, e fará como lhe apraz; e ainda voltará e atenderá aos que tiverem desamparado o santo concerto. 31- E sairão a ele uns braços, que profanarão o santuário e a fortaleza, e tirarão o contínuo sacrifício, estabelecendo a abominação desoladora. 32- E aos violadores do concerto, ele com lisonjas perverterá,
Antíoco enviou um oficial com a missão de forçar os judeus a abandonarem as leis de seus pais e mandou profanar o santuário. O templo encheu-se de lascívias e das orgias cometidas pelos pagãos que se divertiam com meretrizes, introduzindo coisas ilegais nos átrios sagrados. O altar estava coberto de oferendas proibidas pela lei. Não se podia mais celebrar o sábado, nem guardar as festas, nem simplesmente confessar que se era judeu … (2Mac 6:1-8).
A “abominação desoladora” estava instalada. Não porque Antíoco entrou no santuário para roubar o ouro ou porque mandou sacrificar porcos no altar, como muitos interpretam, mas porque foram os próprios sacerdotes ao violarem a aliança. Descuidavam-se dos sacrifícios, permitiram a profanação do templo e foram coniventes com a nomeação de um sumo-sacerdote fraudulento. Abominações desoladoras são os atos cometidos pelos próprios judeus no templo.

Daniel 11:31 diz que braços saíram que profanaram o santuário e tiraram o sacrifício costumado e estabeleceram a abominação desoladora. Estes braços não são de Antíoco, mas dos violadores da aliança claro que lisonjeados por Antíoco porque serve a sua política. Os violadores da aliança só podem ser aqueles que são da aliança. A transgressão dos sacerdotes fez com que Antíoco impusesse a remoção do sacrifício contínuo – mas não era nada que já não estivesse a acontecer desde o tempo de Jasão – e proibisse os judeus de praticarem a sua religião (sacrifícios, a circuncisão, etc.) e trouxesse o exército para executar matanças.

Quando estes atos abomináveis são trazidos para dentro do santuário, é o lugar santo onde Deus habita (ou que representa a sua habitação) que é profanado. Deus não recebe coisas abomináveis. Quando estas entram no seu templo, Deus abandona o seu santuário e quando não há mais nada a fazer, destrói-o.

Há várias ocorrências disto na Bíblia. Os sacerdotes filhos de Eli trouxeram o pecado bem dentro do tabernáculo. Não se importavam com o Senhor (v.12). Não só roubavam do que o povo vinha sacrificar, como se deitavam com as mulheres que serviam à porta da tenda da congregação, e fizeram transgredir o povo (1Sm 2:12-25). Em consequência, Deus trouxe um inimigo contra Israel, os filisteus, e abandonou o seu santuário (a arca da sua presença foi levada pelos filisteus), e o sumo-sacerdote Eli e os seus filhos foram mortos e os seus descendentes como que “vomitados” do serviço no santuário (1 Sm 2:30-34; 3:11-14).

No tempo de Ezequiel, o mesmo aconteceu. Ezequiel viu em visão (Ez 8-11:13) as abominações cometidas dentro do templo pelos sacerdotes. Vês o que eles estão fazendo? As grandes abominações que a casa de Israel faz aqui, para que me afaste do meu santuário (Ez 8:6-18)? Os próprios sacerdotes trouxeram religiões estranhas (idolatria) dentro do templo. Em consequência, Ezequiel viu a glória do Senhor levantar-se e sair do templo (Ez 9:3; 10:18). E também viu na sua visão Deus ordenar ao homem vestido de linho para espalhar brasas acesas sobre a cidade. Deus trouxe os caldeus e Nabucodonosor contra Israel, para destruir o templo e a cidade, levar o povo para o exílio e matar o sumo-sacerdote (Jr 4:1;7:30; 13:27; 52:24-26; Ez 5:9,11;6:11; 8:1-18; 2 Cr 36:14-17).

Foram as abominações cometidas no templo pelos sacerdotes de Israel que contaminaram o lugar santo e fizeram com que Deus retirasse a sua presença e desolasse a sua casa. Abominações não são ações cometidas por estranhos à aliança, mas são cometidas na presença de Deus pelo próprio povo de Deus, representados pelos seus sacerdotes. Porque os filhos de Judá fizeram o que era mau perante mim, diz o Senhor: puseram os seus ídolos abomináveis na casa que se chama pelo meu nome, para a contaminarem (Jr 7:30).

Israel era separado das outras nações para serem sacerdotes diante de Deus. Deus habitava no meio deles. Na terra, tanto israelitas como estrangeiros e outros habitantes podiam cometer abominações. Mas no templo, apenas israelitas (representados pelos seus sacerdotes) tinham acesso, por isso só eles podiam cometer atos abomináveis. Como sacerdotes e levitas, o seu dever era “guardar” a santidade do santuário, assim como Adão fora incumbido de guardar o jardim para não deixar entrar a corrupção que o contaminaria. Adão não guardou o jardim/santuário e foi expulso. Os sacerdotes e levitas não guardaram o tabernáculo, também não guardaram o templo, mas estabeleceram nele a abominação que resultou na desolação.

Assim, não era a presença de exércitos inimigos no templo, quer filisteus, quer Nabucodonosor, quer os porcos sacrificados por Antíoco, mas esta presença e a ação profanadora do inimigo era a consequência visível da abominação cometida por Israel. A abominação trazia um juízo, executado mediante o exército de um povo estranho.
Eis o dia, eis que vem (v.10) … o dia da indignação do Senhor (v.19) … De tais preciosas joias fizeram o seu objeto de soberba e fabricaram suas abomináveis imagens e seus ídolos detestáveis; portanto eu fiz que isso lhes fosse por sujeira, e o entregarei na mão dos estrangeiros, por presa, e aos perversos da terra por despojo; eles o profanarão. Desviarei deles o meu rosto, e profanarão o meu recesso; nele entrarão profanadores, e o saquearão (Ez 7:20-22)
Mas ainda não era o “tempo do fim”. A invasão de Antíoco foi só um aviso.

Os macabeus
Antíoco submeteu, com suas lisonjas, os violadores da aliança, mas o povo que conhece o seu Deus se tornou forte e fez proezas (Dn 11:32). Os violadores da aliança não se preocuparam em estar a quebrar as leis de Deus. Mas quanto aos outros, o livro de Macabeus relata histórias de coragem, de como judeus fiéis, coagidos a violarem a lei, enfrentavam perseguições e torturas.
Entretanto, a resistência é organizada pelos macabeus, uma família sacerdotal que, sob a liderança inicial de Judas Macabeu, conseguiram juntar um grande número de homens e formar um exército de guerrilha, “o pequeno socorro” (v.34). Sendo poucos, lutaram contra o exército sírio muito maior. Conseguiram purificar o templo e restaurar o culto, o que levou à instituição da festa de Hanukkah. Dizem os livros de 1 Macabeus que a purificação do santuário sucedeu no 25º dia do mês de Quisleu, no mesmo mês e dia em que três anos antes, Antíoco havia feito construir, sobre o altar dos holocaustos, a Abominação da desolação e que os pagãos o tinham profanado (1Mac 1:54; 4:52-54).
Nota: Os livros dos Macabeus não fazem parte do cânone da Bíblia, mas são uma fonte importante para a história daquele tempo. Josefo segue 1Mac nas suas Antiguidades. 1Macabeus é um livro que canta as proezas dos Macabeus em muitas (demasiadas) palavras lisonjeiras, tentando mostrá-los como verdadeiros herdeiros do trono de David e legítimos sumos-sacerdotes.
Ajudados com poucos, ou com pequeno socorro- o exército dos macabeus eram poucos e com poucos ganharam do exército sírio muito maior. Esta é uma interpretação. Outra interpretação diz que o socorro foi pequeno, ou insuficiente, porque os macabeus, embora conseguissem restaurar o templo e reconquistar por algum tempo a independência de Israel, tomaram para si o trono (que não lhes pertencia de direito porque eles não eram descendência de David, nem da casa de Judá) e tomaram também para si, ilegitimamente, o cargo de sumo-sacerdote, ao qual também não tinham direito, não sendo da linhagem de Zadoque.
Desde Menelau, nunca mais um sumo-sacerdote legítimo da casa de Zadoque ministrou em Israel. É isto o que significa o príncipe da aliança foi quebrado.
Mesmo quando o templo foi purificado depois da profanação pelas forças de Antíoco, a abominação foi só parcialmente resolvida. O legítimo sumo-sacerdote nunca mais foi reinstalado no cargo. Verdadeiros abusos introduziram-se desde o tempo do rei Herodes, nomeando e destituindo arbitrariamente os sumos-sacerdotes. Quando, depois da deposição de Arquelau (6 d.C.), a Judeia passou a ser uma província romana, cada novo procurador nomeava um novo sumo-sacerdote. Josefo (Ant.20) escreve que o número de sumos-sacerdotes, desde os dias de Herodes até ao dia em que Tito tomou e queimou o templo e a cidade (cerca de 107 sete anos), foi de 28, alguns dos quais só ocuparam o cargo durante escassos meses. A maior parte deles eram familiares de Anás que, embora tivesse efetivamente sido sumo-sacerdote durante cerca de 7 anos (7-13 d.C.), conservou na prática a autoridade até à sua morte.
Note-se que em Daniel 11, contrariamente ao livro de Macabeus, não há menção de uma restauração depois do estabelecer da abominação desoladora. Esta restauração só acontecerá com Jesus.
Os vs.32 a 35 fala de “entendidos entre o povo que ensinarão a muitos, mas cairão, e serão provados e purificados, ….

33- E os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia cairão pela espada, e pelo fogo, e pelo cativeiro, e pelo roubo, por muitos dias. 34- E, caindo eles, serão ajudados com pequeno socorro; mas muitos se ajuntarão a eles com lisonjas. 35- E alguns dos entendidos cairão, para serem provados, e purificados, e embranquecidos, até ao fim do tempo, porque será ainda no tempo determinado.
Isto caracteriza a condição dos judeus desde os dias de Antíoco Epifânio ao tempo de Herodes (11:36) e depois até à vinda do reino com Jesus.



16/04/2018

O IMPÉRIO GREGO (3). Antíoco III o Grande


O fim de Antíoco III o Grande e o seu sucessor Seleuco Filopater

17-E porá o seu rosto para vir com a força de todo o seu reino, e com ele os retos, e fará o que lhe aprouver: e lhe dará uma filha das mulheres, para a corromper; mas ela não subsistirá, nem será para ele.
NIV- He will determine to come with the might of his entire kingdom and will make an alliance with the king of the South. And he will give him a daughter in marriage in order to overthrow the kingdom, but his plans will not succeed or help him.
Como vimos na mensagem anterior, Antíoco III marchou com sucesso contra o Egipto – isto enquanto Roma fez guerra a Filipe V na Segunda Guerra Macedônia (200-196), e por isso o Egipto não podia contar com o apoio de Roma.
Ptolomeu assinou um tratado de conciliação com Antíoco em 195 a.C., cedendo ao rei selêucida a posse da Celessíria. Antíoco deu também a sua filha Cleópatra em casamento a Ptolomeu V. O Egipto tornou-se praticamente um protetorado selêucida.
Mas Antíoco não seria para sempre vitorioso.
18- Depois, virará o seu rosto para as ilhas, e tomará muitas; mas um príncipe fará cessar o seu opróbrio contra ele, e ainda fará tornar sobre ele o seu opróbrio.
NIV- Then he will turn his attention to the coastlands and will take many of them, but a commander will put an end to his insolence and will turn his insolence back upon him.
Depois de ser vitorioso contra o Egipto, Antíoco III queria alargar as suas fronteiras para a Ásia Menor e Europa, “as ilhas”. Conquistou cidades costeiras que faziam parte dos domínios ptolemaicos e cidades gregas independentes. Em 192 a.C. invadiu a Grécia. Roma não gostou e exigiu a sua retirada. Antíoco recusou, insolente, e travou uma guerra de vários anos contra Roma, mas foi definitivamente vencido nas Termópilas (191 a.C.) e em Magnésia (190 a.C.). Com o tratado de Apameia (188 a.C.), entre Antíoco III e a República de Roma, que se seguiu às vitórias navais romanas e rodenses sobre a marinha selêucida, o império selêucida perdeu toda a Ásia a oeste do Tauro (Ásia Cistáurica), deixando de ter influência no Mediterrâneo.
O tratado também obrigava o rei a pagar uma indemnização a Roma, a ceder os elefantes que tinha no exército e a entregar o seu filho Antíoco IV (que será mais tarde Antíoco Epifânio) como refém.
19- Virará, então, o seu rosto para as fortalezas da sua própria terra, mas tropeçará, e cairá, e não será achado.
After this, he will turn back toward the fortresses of his own country but will stumble and fall, to be seen no more.
Para tentar obter parte do dinheiro da indemnização que tinha que pagar aos Romanos, Antíoco III voltou-se para a sua própria terra. Terá sido assassinado em 187 a.C. num templo de Baal, ao procurar apoderar-se dos seus tesouros.
20- E, em seu lugar, se levantará quem fará passar um arrecadador pela glória real; mas em poucos dias será quebrantado, e isto sem ira e sem batalha.
His successor will send out a tax collector to maintain the royal splendor. In a few years, however, he will be destroyed, yet not in anger or in battle.
Em seu lugar, levantou-se o seu filho e sucessor, Seleuco Filopater. Para obter dinheiro para pagar a pesada indemnização a Roma, Seleuco envia o seu comandante Heliodoro como arrecadador para obter dinheiro no templo de Jerusalém. O sumo-sacerdote Onias opôs-se, e com ele todo o povo. 2 Macabeus 3 relata a história de como Heliodoro acaba por regressar sem o tesouro do templo, mediante uma narrativa que recorre a uma intervenção sobrenatural de anjos.
No mesmo ano, em 175 a.C., no seu regresso a Jerusalém, Heliodoro mata o rei Seleuco.
Seleuco reinou apenas doze anos, o que foram “poucos dias” comparados com os 37 anos do reino de Antíoco III, seu antecessor.


07/01/2018

O IMPÉRIO GREGO (2). Os Ptolemeus

DE PTOLOMEU I A ANTÍOCO III O GRANDE

Nesta mensagem vamos ver o que se seguiu à morte de Alexandre, no tempo do “rei do sul”.
Para podermos seguir melhor a história, segue primeiro uma lista dos reis do norte e do sul. Com fundo azul, é indicado quem domina sobre a Judeia.

Dinastia Ptolemaica
“rei do sul”
Dinastia Selêucida
“rei do norte”
Sumos-sacerdotes em Israel
Ptolomeu I Soter  (305-285)
Seleuco I Nicator (312-282)

Onias I
Simão I o Justo
Ptolomeu II Filadelfo (285-246)
Antíoco I Soter (282-262)
Eleazar (irmão de Simão I)

Antíoco II Theos (262-247) x Berenice
Manassés (tio de Eleazar/irmão de Onias)
Ptomoleu III Evérgeta (246-221)
Seleuco II Calínico (247-227)
Onias II (filho de Simão)

Seleuco III Soter (227-224)

Ptolomeu IV Filopater (221-205)
Antíoco III o Grande (224-187)
Simão II
Ptolomeu V Epifânio (205-180)
195 a.C.
Onias III

Seleuco IV Filopater (187-176)


Antíoco IV Epifânio (176-164)
Jasão
Menelaus

Antíoco V (164-146)


Na primeira coluna retomo os versículos da tradução de João Ferreira de Almeida Edição Revista e Corrigida. Por vezes, a leitura é um pouco confuso. Por isso, usei também outras versões. Em alguns casos, juntei o versículo em inglês da New International Version (NIV) e/ou da Bíblia de Jerusalém (BJ), Nova edição revista e ampliada, Paulus Editora 2002.

Como fontes históricas, usei Josefo, Antiguidades e Guerras dos Judeus (tradução de William Whiston), e os livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus.

Informações históricas foram retiradas de vários sites. Ver bibliografia no fim do artigo.

5- E se fortalecerá o rei do sul, e um dos seus príncipes; e este se fortalecerá, mais do que ele, e reinará, e grande será o seu domínio.

BJ- O rei do sul tornar-se-á poderoso. Mas um de seus príncipes o ultrapassará em poder e seu império será maior que o dele.

Depois da morte de Alexandre em 323 a.C., segue-se um período de vários anos pela disputa do poder entre os seus generais. Não tendo Alexandre um sucessor, um regente foi indicado e as várias regiões governadas pelos generais na forma de satrapias. Na conferência de Triparadisus (320 a.C.) Ptolomeu é confirmado sátrapa do Egipto, Seleuco é nomeado sátrapa da Babilónia.
Depois de várias guerras entre os generais, a batalha decisiva foi disputada em 301 a.C., em Ipso, entre Antígono I Monoftalmos e uma coligação formada por Seleuco, Ptolomeu, Lisímaco, governador da Trácia, e Cassandra, da Macedónia. Ganhou a coligação. A maior parte dos territórios asiáticos foram atribuídos a Seleuco I Nicator. No entanto, antes que ele pudesse estabelecer o controlo sobre a Celessíria, a região foi ocupada por Ptolomeu I Soter, que se tinha estabelecido, em 305, como rei do Egipto (rei do sul).
Ptolomeu I Soter (o rei do sul) estabeleceu o seu domínio sobre a Celessíria em 301.
A Celessíria (área formada pelo Israel atual, os territórios Palestinianos, o Líbano e o sul da Síria), onde se incluía a Judeia, era uma região estrategicamente importante e ponto de conflito entre o norte e o sul.
Portanto, fortaleceu-se o rei do sul.
No período inicial destaca-se o reinado de Ptolomeu II Filadelfo, que durou cerca de 40 anos. Ele libertou os judeus que tinham sido levados para o Egipto e que estavam numa situação de escravidão (Ant.12.2.11). Foi no seu tempo que se formou a biblioteca de Alexandria; e que foi feita a tradução do Pentateuco para Grego por 70 anciãos (a Septuaginta) designados pelo sumo-sacerdote Eleazar, a pedido de Ptolomeu, para a biblioteca de Alexandria.
Josefo testemunha da existência de um bom relacionamento entre o rei do Egipto e o sumo-sacerdote dos judeus.
O mesmo v.5 fala de um dos seus príncipes, do rei do sul, que se fortalecerá mais do que ele. Quem é?
É aquele que será o “rei do norte”.
Na conferência de Triparadisus (320 a.C.), Seleuco, um dos generais de Alexandre, fora nomeado sátrapa da Babilónia. Mas em 316, ele teve de fugir da Babilónia quando Antígono Monoftalmos, outro dos generais de Alexandre, a conquistou. Seleuco encontrou refúgio no Egipto onde reinava Ptolomeu I Soter. De 316 a 312 Seleuco esteve ao serviço de Ptolomeu como general do seu exército. Em 312 (batalha de Gaza), Seleuco reconquistou a Babilónia, com o apoio de Ptolomeu, tornando-se Seleuco I Nicator.
Seleuco e sua dinastia, que é o “rei do norte”, começou como um dos príncipes do rei do sul. Mais tarde, o rei do norte haverá de fortalecer-se mais do que o do sul e reinar com grande domínio.
Durante todo o tempo do domínio egípcio sobre a Celessíria, os Selêucidas não deixaram de reivindicar o controlo da região, conduzindo a várias “guerras sírias”. São assim chamados os vários conflitos que opuseram os reinos Ptolemaico e Selêucida para o controlo da Celessíria, região estratégica para o acesso ao Egipto.
Na 1ª guerra síria (274-271), Antíoco I Soter (rei do norte) ganha temporariamente o controlo de territórios ptolemaicos na costa da Síria, incluindo a Judeia, mas perde-os rapidamente em 271. O domínio do rei do sul continua forte.
Quando Antíoco II Theos sucede ao seu pai, ele inicia a 2ª guerra síria (260-253).
6- Mas, ao cabo de anos, eles se aliarão; e a filha do rei do sul virá ao rei do norte para fazer um tratado; mas não conservará a força do seu braço; nem ele persistirá, nem o seu braço, porque ela será entregue, e os que a tiverem trazido, e seu pai, e o que a fortaleceu naqueles tempos.
BJ- Alguns anos mais tarde, eles celebrarão uma aliança, e a filha do rei do sul virá para junto do rei do norte para se ratificarem os acordos. Mas a força do seu braço não a sustentará, nem a sua descendência subsistirá; ela será entregue, ele com os da sua comitiva e o seu filho, bem como o que teve poder sobre ela.
A maior parte da informação sobre esta 2ª guerra síria (260-253) perdeu-se, mas o resultado da guerra não parece ter sido conclusivo. Para selar a paz, uma aliança é feita entre norte e sul através do casamento de Antíoco II com Berenice, filha do rei do sul Ptolomeu II Filadelfo. Para casar com Berenice, Antíoco rejeita a sua primeira mulher Laodice.
Quando Ptolomeu Filadelfo, pai de Berenice, morre, ela (o sul) não conserva a força do seu braço – isto é, a influência de Ptolomeu na corte síria – e Berenice é deixada sem proteção. Antíoco também morre e levanta-se um conflito pela sucessão entre o filho de Laodice e o filho, ainda criança (a descendência), de Berenice. Berenice e seu filho, bem como a sua comitiva, são assassinados.

7- Mas, do renovo das suas raízes, um se levantará em seu lugar, e virá com o exército, e entrará nas fortalezas do rei do norte, e operará contra elas, e prevalecerá.
8- E também os seus deuses, com a multidão das suas imagens, com os seus vasos preciosos de prata e ouro, levará cativos para o Egipto; e, por alguns anos, ele persistirá contra o rei do norte.
NIV- For some years he will leave the king of the north alone.
BJ- Por alguns anos manterá distância do rei do norte.
9- E entrará no reino do rei do sul, e tornará para a sua terra.
Para vingar a morte de Berenice, Ptolomeu III Evérgeta (o Benfeitor), irmão de Berenice (o renovo das suas raízes), declara a guerra ao recém-coroado filho de Laodice, Seleuco II Calínico, dando início à 3ª guerra síria (246-241).
Ptolomeu invade a Síria com um grande exército e levou os deuses e riquezas da Síria para o Egipto. Mas dificuldades no seu país impedem-no de conservar o controlo sobre a Síria, e ele torna para a sua terra e mantém a distância.
Seleuco Calínico consegue restabelecer o seu poder e faz uma tentativa de invadir o Egipto em 242 a.C., mas ele sofre uma derrota e retira-se (v.9).
10- Mas seus filhos intervirão, e reunirão grande número de exércitos: e um deles virá apressadamente, e inundará, e passará; e, voltando, levará a guerra até à sua fortaleza.

11- Então o rei do sul se exasperará, e sairá, e pelejará contra ele, contra o rei do norte; ele porá em campo grande multidão e a multidão será entregue na sua mão.
NIV- Then the king of the south will march out in a rage and fight against the king of the North, who will raise a large army, but it will be defeated.

12- E, aumentando a multidão, o seu coração se exaltará; mas, ainda que derribará muitos milhares, não prevalecerá.
NIV- When the army is carried off, the king of the South will be filled with pride and will slaughter many thousands, yet he will not remain triumphant.
Mas os seus filhos (v.10) continuarão a contender pela Celessíria e acabarão por vencer.
Os filhos de Seleuco II Calínico são Seleuco III Soter e Antíoco III o Grande. Seleuco III Soter reinou apenas 3 anos e foi assassinado. Depois da sua morte, o reino passou para o seu irmão, Antíoco III o Grande.
Os filhos (plural) - os irmãos - prepararam-se para a guerra e juntaram um exército. Mas foi um deles, Antíoco III que invadiu e conquistou grandes partes da Celessíria na quarta guerra Síria (219-217).
Ptolomeu IV Filopater, o rei do sul, reage e sai com um grande exército contra as forças selêucidas de Antíoco III. Com um exército de 68.000 homens Antíoco luta contra o exército de 75.000 de Ptolomeu IV Filopater. Antíoco acaba por ser derrotado na batalha de Ráfia (217), na faixa de Gaza, e perde o controlo da Celessíria nas condições de paz.
Para Ptolomeu seria uma vitória apenas temporária (não prevalecerá), porque o Antíoco III haveria de voltar alguns anos mais tarde (v.13) – ao cabo de anos).
O seu coração se exaltará” pode ter a ver com a atitude de Ptolomeu Filopater descrita numa história contada no livro apócrifo de 3 Macabeus. Depois da vitória na batalha, regressando ao Egipto, Ptolomeu decidiu entrar no templo em Jerusalém, no santo dos santos. O sumo-sacerdote Simão opôs-se, bem como o povo. E em consequência Ptolemeu iniciou uma perseguição aos judeus, de que foram milagrosamente salvos. A historicidade desta história é questionada, no entanto, é bem possível que algo tenha acontecido.
E ajuda a explicar porque os judeus se apartaram dos egípcios para apoiar a vinda de Antíoco.
13- Porque o rei do norte tornará, e porá em campo uma multidão maior do que a primeira, e ao cabo de tempos, isto é, de anos, virá à pressa com grande exército e com muita fazenda.
NIV- For the king of the North will muster another army, larger than the first; and after several years, he will advance with a huge army fully equipped.
14- E, naqueles tempos, muitos se levantarão contra o rei do sul;
e os filhos dos prevaricadores do teu povo se levantarão para confirmar a visão; mas eles cairão.
NIV- In those times many will rise against the king of the South. The violent men among your own people will rebel in fulfillment of the vision, but without success.
A morte de Ptolemeu IV Filopater em 204 a.C. foi seguida por um sangrento conflito interno pela regência, sendo Ptolomeu V ainda uma criança, o que deixou o país enfraquecido e num estado próximo da anarquia. Aproveitando as vantagens desta agitação, Antíoco III prepara a 5ª guerra síria (202-195).
Antíoco III alia-se com Filipe V, rei da Macedónia, com o objetivo de conquistarem e repartirem entre eles as posses egípcias fora do Egipto.
Mas não são apenas os poderes políticos e militares macedónios e selêucidas que se levantam contra o rei do sul (v.14). Internamente, Ptolomeu V enfrenta graves problemas, agitação e sedição em todo o reino, bem como problemas económicos que conduzem ao aumento de impostos, alimentando ainda mais a revolta. Já em 206, a cidade de Tebas revoltara-se e ficou fora do controlo ptolemaico durante vinte anos.
Também entre o povo judeu, levantaram-se contra o rei do sul, em apoio ao rei do norte, como já referimos acima.
Além disso, muitos judeus eram de opinião que o governo selêucida era preferível ao egípcio, porque sentiam fortemente o peso dos impostos cobrados pelos Tobíadas, que apoiavam o lado do sul. Estes Tobíadas eram certamente da mesma família de Tobias do tempo de Zorobabel e Neemias. Josefo conta que no tempo de Ptolomeu Evérgeta, o sumo-sacerdote Onias II recusou pagar impostos ao rei (do sul). Segundo Josefo, porque que era um “grande amante de dinheiro” (Ant.12.4). José, filho de Tobias, repreendeu Onias por não cuidar da preservação do povo e de pôr a nação em perigo, não pagando. José prudentemente aliou-se ao rei do Egipto, oferecendo dinheiro ao rei e Ptolomeu concedeu-lhe a cobrança de impostos na Celessíria, o que ele fez pela força, durante 22 anos, e enriqueceu grandemente e tornou-se poderoso. Quando morre, no tempo de Seleuco Soter, o povo revolta-se. Os anciãos, o sumo-sacerdote Simão (filho de Onias) e grande parte do povo estão do lado oposto ao Egipto.
Serão estes aliados do Egipto os filhos dos prevaricadores? A palavra significa ladrões, violentos. Visto que eles caíram, devem ter sido aliados do rei do sul, que será o lado perdedor. Eles reivindicavam uma visão para justificar a sua tomada de posição, o roubo e a violência. Nisto lembram Ez 7:22-26 onde saqueadores (v.22) buscam do profeta uma visão (v.26) para justificarem os seus pecados (Jordan, p.555).
15- E o rei do norte virá, e levantará baluartes, e tomará a cidade forte; e os braços do sul não poderão subsistir, nem o seu povo escolhido, pois não haverá força que possa subsistir
NIV- Then the king of the North will come and build up siege ramps and will capture a fortified city. The forces of the South will be powerless to resist; even their best troops will not have the strength to stand.
16- O que, pois, há-de vir contra ele fará segundo a sua vontade, e ninguém poderá permanecer diante dele: e estará na terra gloriosa, e por sua mão se fará destruição
NIV- The invader will do as he pleases no one will be able to stand against him. He will establish himself in the Beautiful Land and will have the power to destroy it.
Alguns anos depois (v.13 ao cabo de tempos) da sua derrota em Rafia, Antíoco III volta ao ataque. Na batalha de Panias (que é Cesareia Filipe no Novo Testamento) em 200 a.C. Antíoco ocupa Celessíria.
Scopas, o general egípcio, foi derrotado em Panias e fugiu para Sidon, uma cidade fortificada, onde ele foi obrigado a entregar-se.
Josefo (Ant.12.130) relata que no tempo das guerras de Antíoco o Grande contra Ptolomeu Filopater e sue filho Ptolomeu Epífanes, os judeus e os habitantes de Celessíria sofreram muito porque o domínio sobre a região mudava constantemente pelo que os judeus se sentiam como um navio na tempestade, levado pelas ondas de um para outro lado.
Mas o sul não tinha forças para resistir. Os problemas internos levaram Ptolemeu a procurar uma rápida e desfavorável paz.  Com o fim de se focar na frente interna, Ptolemeu assinou um tratado de conciliação com Antíoco em 195 a.C., cedendo ao rei selêucida a posse da Celessíria.
Diz Josefo que os judeus (Ant.12.3.133), de sua própria vontade, passaram para Antíoco e o receberam na cidade de Jerusalém (v.14 levantaram-se contra o rei do sul). Assim, o rei do norte estava na terra gloriosa.
Começou o domínio do rei do norte sobre a Judeia.
Inicialmente os judeus granjearam o favor de Antíoco que lhes concedeu o direito de viverem de acordo com as suas próprias leis, mas no tempo de seu filho, Antíoco Epifânio, haverá destruição.


Bibliografia
www.britannica.com
https://www.ancient.eu (Ancient History Encyclopedia)
Wikipedia
BEITZEL, Barry J. The New Moody Atlas of the Bible. Chicago: Moody Publishers (2009)
JAMIESON, FAUSSET & BROWN. Commentary on Daniel 11. https://www.blueletterbible.org/
JORDAN, James B. The handwriting on the wall. A commentary on the book of Daniel, American Vision, Powder Springs, Georgia (2007)
JOSEPHUS. The works of Josephus. Translated by William Whiston. New updated edition. 1987.

O IMPÉRIO GREGO (1) Alexandre o Grande

Nos estudos bíblicos, geralmente, pouca atenção é dada ao chamado período “intertestamentário”, entre os últimos livros do VT, Esdras, Neemias, Ester e Malaquias, que pertencem ao período persa, e o nascimento de Jesus. No entanto, Daniel, que viveu todo o período babilónico, em exílio na própria Babilónia, ocupando um elevado cargo no reino, profetiza acerca deste período, com algum detalhe.
Aos quatro reinos sucessivos, sob o domínio dos quais viviam os judeus a seguir à monarquia, chamei de “tempo dos gentios”. Por sua infidelidade à aliança, Israel perdeu a sua autonomia, mas continua debaixo da misericórdia de Deus e encontra-se sob a proteção destes reinos gentios.

Perto do fim do domínio da Babilónia, no primeiro ano de Belshazar, Daniel tem uma visão (Dn 7). Depois do domínio do leão com asas de águia (Babilónia), viria um segundo animal, o urso (Pérsia), e o terceiro, o leopardo, com quatro asas de ave nas suas costas, e quatro cabeças (Dn 7:6).

É deste período que vamos agora tratar.

Noutra visão, no terceiro ano de Belshazar (Dn 8), Daniel vê o carneiro (Pérsia), e “um bode que vinha do ocidente, com uma ponta notável entre os olhos” o qual quebrou a força do carneiro. Este bode engrandeceu-se em grande maneira, mas no auge do seu poder, a grande ponta foi quebrada e subiram quatro, também notáveis no seu lugar. E de uma delas saiu uma ponta pequena.

Com a visão, Daniel recebe a interpretação: O bode peludo é o rei da Grécia; e a ponta grande que tinha entre os olhos, é o primeiro rei; o ter sido quebrada, levantando-se quatro em lugar dela, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, mas não com a força dela (Dn 8:22).

Alexandre Magno (o Grande), o primeiro rei

Ao derrotar o rei da Pérsia, Alexandre Magno dá início ao terceiro reino (ventre e coxas de cobre) da estátua que Nabucodonosor viu no seu sonho no início do seu reinado (Dn 2:32, 39).

Depois da morte de seu pai, Filipe II da Macedônia (uma região a norte da Grécia), em 336 a.C., Alexandre sucede-o e inicia uma conquista muito rápida, em apenas dez anos, do Médio Oriente, e de toda a Ásia até à Índia. Isto só foi possível porque o seu pai tinha preparado o caminho. Transformara um país fraco e atrasado numa monarquia forte, com um grande exército equipado com armas e táticas então revolucionárias. Foi conquistando a Grécia (era o tempo de Aristóteles e Demóstenes) e tinha o sonho de conquistar a Pérsia.

O caminho da Macedônia para Ásia passava pelo Helesponto (hoje tem a designação de Dardanelos), o estreito que liga o mar Egeu e o Mar de Mármara. Dali partiu à conquista do Médio Oriente. Depois de duas vitórias sobre o exército persa, no rio Granico e na batalha de Isso, Dario o rei persa fugiu. Alexandre não o perseguiu, mas marchou primeiro para sul, através da Síria, tomando Damasco, Sidon, e Tiro, depois de um cerco de sete meses, em 332 a.C., e depois Gaza.

Josefo (Ant.11.317-339) conta que quando estava cercando Tiro, Alexandre escreveu ao sumo-sacerdote judeu pedindo provisões para o seu exército. O sumo-sacerdote recusou, tendo jurado fidelidade ao rei persa. Alexandre ficou muito zangado e ameaçou com uma expedição contra Jerusalém. Depois do cerco de Tiro e a conquista de Gaza, Alexandre marchou para Jerusalém. Ouvindo isto, o sumo-sacerdote Jadua ficou aterrorizado e ordenou ao povo que oferecesse sacrifícios e pedisse a Deus que os livrasse. A seguir, num sonho, Deus disse-lhe para ter coragem, adornar a cidade e abrir as portas, e que o povo, trajado de vestes brancas, e os sacerdotes nos seus trajos e ornamentos próprios, recebessem Alexandre. Assim fizeram. Saíram em procissão, os sacerdotes e a multidão do povo, e encontraram Alexandre num lugar chamado Safa, de onde se tinha uma vista sobre Jerusalém e o templo. O exército, que estava na expectativa de saquear a cidade, ficou admirado quando viu Alexandre aproximar-se do sumo-sacerdote, saudá-lo e adorar a Deus, após o que entrou pacificamente na cidade e ofereceu sacrifícios no templo. De acordo com Josefo, Alexandre disse que, quando estava na Macedônia considerando como poderia obter o domínio na Ásia, ele teve um sonho em que viu este mesmo sumo-sacerdote com as suas vestimentas, que o exortou a passar o mar, que ele lhe daria o domínio sobre a Pérsia. Ainda de acordo com Josefo, os judeus teriam mostrado a Alexandre o livro de Daniel onde estava escrito que alguém destruiria o reino dos Persas, e ele entendeu que fosse ele próprio.

Muitos duvidam da historicidade desta narrativa porque não se encontra em nenhum outro documento escrito, mas é razoável assumir que Jerusalém foi tomada pacificamente, tendo os líderes judeus se submetido voluntariamente a Alexandre. E assim evitaram a destruição.

Jadua é uma figura bíblica; é o último sacerdote registado no livro de Neemias. É descendente de Jeshua que veio com Zorobabel a Jerusalém depois do exílio. Jeshua gerou a Joiaquim, e Joiaquim gerou a Eliasib, e Eliasib gerou a Joiada. E Joiada gerou a Jónatas, e Jónatas gerou a Jadua (Ne 12:10-11).

Depois de submeter o Egipto, Alexandre dirige-se então contra os Persas. Na batalha de Gaugamela, em 331 a.C., Alexandre obtém a vitória decisiva sobre os Persas.

Através das suas conquistas, Alexandre divulga a cultura e língua grega através da Ásia Menor, Egipto, Mesopotâmia até Índia, iniciando a era helenística.

Em 323 a.C. Alexandre morre subitamente, no auge do seu poder.

Depois da morte de Alexandre, segue-se um período de disputas pelo governo do império entre os seus diádocos, generais e comandantes das regiões administrativas do império de Alexandre. Na batalha de Ipso, em 301 a.C., o império ficou definitivamente desintegrado, a as regiões divididas entre os vitoriosos: Seleuco, Lisímaco, Cassandro e Ptolomeu.

Na história bíblica, no capítulo 11 de Daniel, intervêm apenas o “rei do sul” e o “rei do norte”.

O “rei do sul” é a dinastia ptolemaica, fundada por Ptolomeu I Soter (= Salvador), que governará o Egipto (Dn 11:8,42) até ao ano 30 a.C., com a morte de Cleópatra VII.

O “rei do norte” representa a dinastia selêucida, fundada por Seleuco I Nicator, que governa a Síria.
Um dos principais pontos de disputa entre o norte e o sul era o controlo sobre a região estratégica da Celessíria (área formada pelo Israel atual, os territórios Palestinianos, o Líbano e o sul da Síria), onde se incluía portanto a Judeia.

Nas próximas mensagens vamos seguir a história deste período, passo a passo, através do capítulo 11 de Daniel. A profecia de Daniel 11 vê-se realizada literalmente na história dessa época.

Em grandes linhas, depois da morte de Alexandre, a Judeia é dominada por mais de 100 anos pelo Egipto (Dn 11:5-9). Com Antíoco III o Grande inicia-se o domínio sírio sobre a Judeia (Dn 11:10-20), primeiro pacífico, mas depois complicado para os judeus sob o governo de Antíoco Epifânio (Dn 11:21-32). A profanação do templo conduz a uma revolta (Dn 11:32b-35), liderada pelos Macabeus, que darão início a um período de relativa autonomia sob a dinastia dos Asmoneus até à intervenção de Roma e o governo de Herodes. A história dos Macabeus está descrita nos livros deuterocanónicos 1 e 2 Macabeus, que constituem a fonte principal para este período.

Podemos ver, nesta sucessão de reinos que dominavam sobre a Judeia, as quatro cabeças do leopardo (Dn 7:6). O primeiro reino, o do próprio Alexandre o Grande; o segundo, o domínio egípcio (ptolemaico); o terceiro, o domínio sírio (selêucida); o quarto, a dinastia dos Macabeus (ou Asmoneus).

Daniel 8:5, 8-9, 21-22 mostra o bode com uma ponta grande. Quando a ponta grande é quebrada, sobem 4 no seu lugar, e de uma delas uma ponta pequena. A ponta grande é Alexandre. As quatro pontes pequenas são reinos consecutivos que governaram sobre a Judeia: 1) o reino logo após a morte de Alexandre governado por um regente, 2) o domínio egípcio dos Ptolomeus; 3) o domínio sírio dos Selêucidas; 4) a governação dos Asmoneus. A ponta pequena que sai de uma destas quatro pontas (da terceira) é Antíoco Epifânio, que é o “homem vil” de Daniel 11:21-32.