14/08/2015

A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (2) – o jubileu messiânico


Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade para … (Dn 9:24)

A palavra “semana” (shabua) em hebraico pode representar uma semana de dias ou uma semana de anos. Génesis 29:27-28 é um exemplo onde o termo é usado para indicar sete anos. De modo semelhante, frequentemente, dias simbolizam anos (por exemplo: Nm 14:34, Ez 4:6).

Setenta semanas de dias são 490 dias, enquanto setenta semanas de anos totalizam 490 (70 x 7 anos = 490) anos. Em atenção ao contexto e aos acontecimentos profetizados, concluímos tratar-se de semanas de anos, se considerados literalmente.

A estrutura 70 x 7 já estava presente no tempo de duração das assolações de Jerusalém. 70 anos de descanso da terra, um ano por cada sábado (ciclo de 7 anos) da terra não guardado (Lv 26:34; 43; 2 Cr 36:21), equivalem a 70 ciclos sabáticos de 7 anos = 490 anos. O mesmo padrão sabático aparece agora na resposta trazida pelo anjo Gabriel. Tendo o exílio chegado ao fim, ainda havia 70 semanas (70 x 7= 490 anos) para cumprir os desígnios de Deus como se encontram resumidos no v.24.

Certamente que Daniel percebeu muito bem o significado destes símbolos e números, que eram tão fundamentais nos termos da aliança entre Deus e Israel. O sábado fora por Deus instituído como sinal da aliança (Ex 31:13-17; Ez 20:12, 20) por Ele ter libertado o povo que estava escravizado no Egipto e se ter tornado seu Deus. E, à imagem do dia de descanso do Criador a seguir aos 6 dias da obra de criação, o sábado funciona também como símbolo profético de uma obra consumada e, portanto, como sinal da era messiânica de libertação redentora, restituição e descanso.

Para Daniel, a profecia era claramente messiânica. Ela dizia respeito à aliança de Deus com Israel e, especialmente, à consumação da aliança. Nós sabemos que Jesus iniciou o que podíamos chamar de era messiânica. Eumpriu a obra que tinha para fazer e disse: Está consumado (Jo19:28-30). Como é que Daniel entendeu o número 70 da profecia?


Jubileu


Numa mensagem anterior, já vimos que um período de seis anos de trabalho da terra era coroado com um sétimo ano sabático. Um período de sete vezes sete anos, ou seja 7 semanas ou 49 anos, era coroado com um ano de jubileu, o quinquagésimo ano. Este quinquagésimo ano era, por sua vez, o primeiro ano de um novo ciclo de 49 anos.

Também contarás sete semanas[1] de anos, sete vezes sete anos, de maneira que os dias das sete semanas de anos te serão quarenta e nove anos […] E santificareis o ano quinquagésimo e apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de Jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e tornareis, cada um à sua família. O ano quinquagésimo vos será jubileu, não semeareis, nem segareis o que nele nascer de si mesmo, nem nele vindimareis as uvas das vidas não tratadas. Porque jubileu é, santo será para vós, a novidade do campo comereis. Neste ano de jubileu, tornareis cada um à sua possessão (Lv 25:8-13).

Quais são as características de um jubileu? Além de constituir um adicional ano de descanso para a terra, a seguir ao ano sabático normal, está associado a duas coisas: a restituição da terra e a libertação pessoal.

Depois da conquista de Canaã, a terra fora dividida por Josué entre as doze tribos de Israel. A terra podia ser vendida, mas não em perpetuidade. Se alguém vendesse a sua parte da terra, esta dever-lhe-ia ser restituída, ou senão devia ser resgatada, no ano do jubileu, para que a terra não ficasse alienada para sempre do seu proprietário. No ano do jubileu, a terra era restituída ao seu proprietário original.

A terra de Canaã, prometida a Israel, é uma figura terrena do Reino de Deus. Pela obra de Jesus na cruz, a terra – cujo domínio Adão perdeu – é resgatada e restituída àquele que tem o direito de possui-la e reinar sobre ela, o Filho do homem, Jesus, como segundo Adão, e seu corpo, a Igreja.

O conceito do jubileu aplicava-se de maneira semelhante às pessoas (Lv 26:35-55). No ano do jubileu era apregoado liberdade aos moradores na terra. Cada um voltaria à sua possessão, e à sua família. Se alguém empobrecesse e se vendesse, ou se oferecesse a alguém para trabalhar como servo ou escravo por não ter meios de subsistência, no ano do jubileu devia ser resgatado e libertado. O interveniente neste processo de libertação e resgate era o Go’el, ou Redentor (ver a história de Rute), figura de Cristo.

O aspeto da libertação pessoal prefigura a salvação e libertação trazida por Jesus Cristo, a libertação da lei do pecado e da morte (Rm 8:2), a liberdade do Espírito (2 Co 3:17, Gl 2:4), a libertação do império das trevas (Cl 1:13), a liberdade que vem pelo conhecimento da verdade (Jo 8:32).

No tempo da Velha Aliança, o cumprimento literal do jubileu, tal como o do sábado, era importante. Demonstrava a fé que tinham (ou não) em Deus. Um episódio relatado em Jeremias 34 retrata a importância do jubileu. O cerco de Nabucodonosor a Jerusalém, e o exílio do rei Joaquim e de muitas pessoas para Babilónia, assustou grandemente o rei Zedequias e o povo, pelo que fizeram uma aliança para dar a liberdade (um jubileu) aos seus servos hebreus. Os príncipes despediram forro os seus servos. Mas quando Nabucodonosor levantou o cerco e se retirou para ir pelejar contra o Egipto, os ricos sentiram-se aliviados e voltaram a sujeitar os servos libertados. Desfizeram o jubileu e a aliança a que se tinham comprometido. Isto fez com que Deus deu ordem para o exército do rei da Babilónia voltar para Jerusalém e a queimar a fogo (Jr 34:21-22).

70 semanas, consideradas na sua totalidade, são 10 vezes 7 semanas. São 10 jubileus. O número 10 na Bíblia indica algo que é completo e perfeito no sentido de plenitude quantitativa. 10 representa a totalidade. 10 jubileus são todos os jubileus necessários até à perfeita libertação. 10 jubileus apontam para o último e perfeito jubileu, o jubileu messiânico. Exatamente 10 vezes 49 anos era o tempo que os judeus teriam de esperar, desde a ordem de saída para edificar Jerusalém, até que viesse o Messias, que viria proclamar a verdadeira liberdade aos cativos e oprimidos, e anunciar o “ano aceitável do Senhor” (Is 42:7: 61:1-2). Na sinagoga de Cafarnaum, no princípio do seu ministério, terminando a leitura em Isaías 61, Jesus disse: Hoje se cumpriu a escritura que acabais de ouvir (Lc 4:17-21).

O preço do resgate, tanto da terra como das pessoas, era calculado segundo o número de anos desde o último jubileu (Lv 25:15-16; 50-52). Quanto mais anos, maior o preço a pagar. O preço que Jesus pagou para o nosso resgate foi o mais alto: a sua própria vida.

Esta profecia de Daniel é, sem a menor dúvida, uma profecia messiânica. O foco da profecia é o Messias (= o Ungido). A sua vinda era a razão de ser de toda a esperança judaica, de todo o plano de Deus para a redenção, não só do povo de Israel mas de toda a humanidade (todas as nações, todas as famílias da terra). E o enquadramento temporal revelado a Daniel demarcava o período em que se havia de cumprir a redenção messiânica.


O anjo Gabriel


O anjo Gabriel é outra testemunha do significado messiânico da profecia das Setenta Semanas, por ser ele especificamente o anjo mensageiro do Messias. No Velho Testamento, só aparece duas vezes, e ambas as vezes a Daniel.

No Novo Testamento, Gabriel também aparece duas vezes. A primeira vez a Zacarias e a segunda, a Maria. Ao sacerdote Zacarias (Lc 1:11-22), anuncia que vai ter um filho e esse filho irá adiante do Messias, no espírito e poder de Eliaspara habilitar para o Senhor um povo preparado (Lc 1:17). João Baptista foi o predecessor de Jesus e veio como testemunha, a fim de que ele [Jesus] fosse manifestado a Israel (Jo 1:31). A mensagem de Gabriel para Zacarias era messiânica, sem dúvida. E mais, identificando-se com a resposta «Eu sou Gabriel» (Lc 1:19), quando Zacarias duvidou e perguntou «Como saberei isto?», o anjo estabeleceu uma associação direta com a profecia messiânica que ele deu ao profeta Daniel.

A Maria, Gabriel diz que ela conceberá um filho que deverá chamá-lo pelo nome de Jesus. Jesus vem da raiz yasha, que significa salvar. É o anúncio do Salvador que todo o Israel esperava. É lhe também dito que o filho receberá o trono de David e que reinará para sempre. O anjo veio anunciar o nascimento do Messias, o Ungido (Lc 1:26-38)!

Zacarias e Maria perceberam que o tempo determinado pelo anjo Gabriel na profecia de Daniel estava agora a chegar muito perto do seu término.




[1] A palavra usada aqui no hebraico não é shabua, mas shabbath (que vem da mesma raiz) e que significa descanso.

11/08/2015

A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (1) - a oração de Daniel

Antes de entrarmos na análise da questão cronológica associada à profecia de Daniel, convém compreender de que fala esta profecia e que indicações cronológicas fornece.

A profecia (Dn 9:23-27) veio em resposta à oração de Daniel, no primeiro ano de Dario o medo (que numa mensagem anterior identificámos como sendo a mesma pessoa que Ciro), quando ele recordou os termos em que Jeremias escrevera aos exilados no princípio do reinado de Zedequias, a seguir à deportação do rei Joaquim:
Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos, atentarei para vós e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar […] Então me invocareis, passareis a orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o Senhor, e farei mudar a vossa sorte; congregar-vos-ei de todas as nações, e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio (Jr 29:10-14).


A oração da aliança
Israel estava no exílio porque quebrara a aliança com Deus. O que lhe sobreveio estava previsto nas maldições da lei (Lv 26; Dt 28:15-68). Daniel confessa-o: Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se, para não obedecer à tua voz; por isso a maldição e imprecações que estão escritas na lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós; porque temos pecado contra ele (Dn 9:11).

O último e maior castigo era perecerem da terra e serem espalhados pelas nações, quando o pecado se tivesse acumulado do tal maneira que mais nada havia a fazer. Mas não importava para onde tivessem sido desterrados: de lá buscareis ao Senhor teu Deus, e o acharás, quando o buscares de todo o teu coração e de toda a tua alma. Quando estiveres em angústia, e todas estas coisas te sobrevierem nos últimos dias, e te voltares para o Senhor teu Deus, e lhe atenderes a voz, então o Senhor teu Deus não te desamparará, porquanto é Deus misericordioso, nem te destruirá, nem se esquecerá da aliança que jurou a teus pais (Dt 4:29-31).

Daniel busca a Deus; confessa o seu pecado e o do seu povo; admite que fizeram mal, que não obedeceram a Deus; e aceita o castigo, que considera justo: Por isso, o SENHOR cuidou em trazer sobre nós o mal, e o fez vir sobre nós; pois justo é o SENHOR, nosso Deus, em todas as suas obras, que fez, pois não obedecemos à sua voz (Dn 9:14).

A oração que Daniel fez (Dn 9:3-19) é uma oração que está em conformidade com Levítico 26:40-43:

Mas se confessarem a sua iniquidade, e a iniquidade de seus pais, na infidelidade que cometeram contra mim; como também que andaram contrariamente para comigo, pelo que também fui contrário a eles, e os fiz entrar na terra dos seus inimigos;

Se o seu coração incircunciso se humilhar, e tomarem eles por bem o castigo da sua iniquidade, então me lembrarei da minha aliança com Jacob, e também da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão, e da terra me lembrarei.

Mas a terra na sua assolação, deixada por eles, folgará nos seus sábados; e tomarão eles por bem o castigo da sua iniquidade, visto que rejeitaram os meus juízos e a sua alma se aborreceu dos meus estatutos.

Mesmo assim, estando eles na terra dos seus inimigos, não os rejeitarei nem me aborrecerei deles, para consumi-los e invalidar a minha aliança com eles, porque eu sou o SENHOR seu Deus. Antes por amor deles me lembrarei da aliança com os seus antepassados, que tirei do Egipto à vista das nações, para lhes ser por Deus: Eu sou o SENHOR (Lv 26:40-45).

Este tipo de oração é chamado uma oração Todah[1], e é um pré-requisito para Deus renovar a sua aliança e restaurar as bênçãos: Então me lembrarei da minha aliança.
É à aliança que Daniel faz apelo no princípio da sua oração: Ah! Senhor! Deus grande e temível, que guardas a aliança e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos (Dn 9:4).

A aliança é o cerne da oração de Daniel, porque são as alianças que regem o relacionamento entre Deus e os homens. Era a aliança que fez de Israel povo peculiar de Deus de entre todos os povos (Ex 19:5). Era pela aliança que Deus era o seu Senhor e habitava no meio deles.

Mas é Deus, como Criador e Senhor, que estabelece os termos e condições da aliança. Todas as alianças de Deus contêm uma promessa, mas também contêm mandamentos. Uma aliança pressupõe lealdade e fidelidade de ambas as partes. Deus cumpre a sua promessa; o homem obedece aos mandamentos.

Efésios 2:12 fala das alianças da promessa. Qual é a promessa? A promessa foi dada, logo após a queda do homem, em Génesis 3:15. É a promessa de um Redentor. A promessa é garantida através da fidelidade e obediência às condições (mandamentos) da aliança.

Basicamente, há apenas duas alianças: a aliança com Adão e a aliança com Cristo, o segundo Adão. A promessa era: Tenha ele domínio (Gn 1:26). E o mandamento era cultivar e guardar o jardim, onde estava uma árvore da qual não podia comer (Gn 2:15-17). Mas o primeiro homem falhou em guardar a santidade do jardim, deixando entrar a corrupção. Não foi fiel à aliança. A quebra da aliança pelo primeiro homem afetou toda a humanidade. O segundo Adão veio para reconquistar o que o primeiro perdeu. A vinda e vitória do segundo Adão é a promessa contida em Génesis 3:15. Todas as alianças posteriores, com os patriarcas e com a nação de Israel, foram feitas para assegurar a realização da promessa, que foi cumprida por Jesus, o segundo Adão.

A Abraão, Deus prometeu que na sua descendência/semente estaria a bênção para todas as nações da terra (isto é: toda a humanidade afetada pelo pecado de Adão). Bênção é o oposto da maldição a que a criação ficou sujeita depois do pecado de Adão. Bênção é a restauração das condições do Éden. A promessa feita por Deus a Abraão ficou segura pela fé. Abraão creu e isto lhe foi imputado como justiça.

É a aliança com Abraão que estabeleceu os fundamentos de Israel.

A aliança do Sinai, que veio muito tempo depois, estabeleceu Israel como reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19:6). Enquanto propriedade particular e povo sacerdotal de Deus, Israel devia dar o exemplo, refletir o nome de Deus, ser o modelo para as outras nações (Dt 28: 9-10; 2 Sm 7:23). Isto implicava a obediência e fidelidade a determinadas regras e condições. Estas condições estavam estipuladas nos mandamentos da Lei (de Moisés). Obediência trazia bênção, desobediência maldição. As bênçãos refletem a condição ideal do Éden.

Na aliança do Sinai, o sumo-sacerdote, como representante do povo, era o “segundo outorgante” da aliança, uma figura de Cristo com quem a última (nova) aliança havia de ser feita. Mas, à semelhança de Adão, os sacerdotes falharam na sua missão de guardar a santidade do santuário e do povo. O copo do pecado transbordou no tempo dos filhos de Eli (1 Sm 2:12-36). As abominações cometidas por eles no tabernáculo e no serviço do Senhor fizeram com que a arca fosse tomada pelos filisteus (1 Sm 4). O próprio Deus foi como que em cativeiro.

A incapacidade de Israel cumprir a lei obrigava a que se renovasse constantemente a aliança. O homem podia não ser fiel, mas Deus é fiel e cumpre a sua promessa. Assim, quando Israel quebrava a aliança, a aliança era renovada com o “remanescente fiel”.

A aliança de Deus com Israel foi renovada na pessoa de David, homem segundo o coração de Deus (2 Sm 7). Porém, também os descendentes de David no trono de Israel, a começar com Salomão, quebraram a lei de Deus. Do último rei (legal) Joaquim/Jeconias, o Senhor disse: Registai este como se não tivera filhos; homem que não prosperará nos seus dias, e nenhum dos seus filhos prosperará, para se assentar no trono de David, e ainda reinar em Judá (Jr 22:30). Mais nenhum descendente de Joaquim se sentaria no trono de Israel (Zedequias não era filho, mas tio de Joaquim, e só obteve o trono porque Nabucodonosor o colocou lá).

Israel falhara na sua missão sacerdotal. Acumulou pecado sobre pecado e as piores maldições acabaram por cair sobre a nação. Deus usou Nabucodonosor para executar os seus juízos. Ele invadiu Jerusalém, queimou-a e arrasou o templo. O povo foi levado para o exílio e espalhado pelas nações.

Esta era a situação dramática em que Daniel e seu povo se encontravam. Estava agora tudo perdido? O que era feito da aliança? O que era feito das promessas de Deus? Daniel percebeu que era necessário outra vez renovar a aliança, e é disso que ele lembra ao Senhor.

Anos antes, ainda Nabucodonosor estava às portas de Jerusalém, Deus prometera uma nova aliança. Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá … Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei … não ensinará jamais cada um ao seu próximo … porque todos me conhecerão (Jr 31:31-34). A referência a este versículo em Hb 8:8-11 indica que esta promessa aponta para a nova aliança em Jesus. Perdoarei as suas iniquidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei (Jr 31:34) aponta para a cruz.

Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias (Jr 31:33; Hb 10:16), isto é, depois dos dias que Israel passaria debaixo da governação gentia, que duraria quatro impérios (Babilónia, Pérsia, Grécia e Roma).

A oração de Daniel era para que Deus se lembrasse da sua promessa, incluída na nova aliança que vinha sendo anunciada ainda antes da queda de Jerusalém às mãos da Babilónia. A profecia designada como a das “Setenta Semanas” é a resposta de Deus ao pedido de Daniel e à oração Todah de confissão e arrependimento. A mensagem do anjo é a confirmação da promessa da Nova Aliança, na vinda do Ungido para cumprir a bênção de Abraão, expiando o pecado e trazendo a justiça eterna. A profecia confirma a renovação da aliança por mais 70 semanas (490 anos) até à manifestação do Ungido, que confirmará a aliança na sua morte, no seu sangue.


A cidade e o santuário

Depois de apelar à aliança, confessar o pecado do seu povo e reconhecer a justiça de Deus, Daniel intercede especificamente pela cidade de Jerusalém e pela casa de Deus que estavam em ruínas à vista de todas as nações em redor.

Aparte-se a tua ira e o teu furor da tua cidade de Jerusalém, do teu santo monte … e sobre o teu santuário assolado faz resplandecer o teu rosto (Dn 9:16-17).

A desolação de Jerusalém era motivo de profunda tristeza (ver Lamentações de Jeremias). Qual era o significado e a importância da cidade e do templo para Israel, por estes estarem no âmago das preocupações de Daniel?
Quando Israel saiu do Egipto, Deus disse: E me farão um santuário para que eu possa habitar no meio deles (Ex 25:8), e mostrou a Moisés o modelo do tabernáculo a ser levantado. O tabernáculo era erguido no meio do acampamento, no meio do povo, e ia adiante de Israel em todas as suas caminhadas.

O tabernáculo, e mais tarde o templo, era a habitação de Deus no meio do seu povo. Não que Deus morasse em casas construídas por homens (1Rs 8:27), mas o templo simbolizava a presença de Deus, como testemunho da aliança entre Ele e o povo.

No tempo dos Juízes, quando os filhos de Eli conspurcaram o templo e fizeram ofensa ao nome do Senhor do templo (1Sm 2), vieram os filisteus contra Israel. Israel perdeu a batalha e os filisteus tomaram a arca, que foi para o cativeiro. Deus sobremodo se aborreceu de Israel. Por isso abandonou o tabernáculo de Silo, a tenda da sua morada entre os homens, e passou a arca da sua força ao cativeiro, e a sua glória, à mão do adversário (Sl 78:59-60). Deus é Santo. Não havendo santidade na casa da sua habitação, Deus não podia lá ficar, para não deixar mal o seu nome. A arca, o objeto central e mais importante no Santo dos Santos, representava o trono de Deus[2].

Depois daquele episódio, a arca da presença de Deus nunca mais voltou ao tabernáculo. Mais tarde, não sabemos quando, o tabernáculo foi destruído (Jr 7:12-14; 26:6, 9). Passados sete meses entre os filisteus, a arca foi devolvida a Israel e ficou na casa de Abinadabe durante muitos anos, até David a querer levar para Jerusalém. Depois da tentativa falhada de David, a arca ainda ficou três meses em casa de Obede-Edom antes de ser introduzida na tenda que armou para ela em Jerusalém (2Sm 6).

Quando Israel passasse o Jordão e entrasse na terra prometida, tinham que buscar o lugar que o Senhor escolheria para ali pôr o seu nome e a sua habitação (Dt 12:5-14). A aliança renovada com David implicava uma nova casa, uma nova habitação, como testemunho da aliança e símbolo da presença de Deus. Esta casa havia de estar em Jerusalém e seria o lugar onde ofereceriam os holocaustos, sacrifícios, dízimos e ofertas. Lá comereis perante o Senhor vosso Deus, e vos alegrareis em tudo em que puserdes a vossa mão, vós e as vossas casas, no que vos tiver abençoado o Senhor vosso Deus (Dt 12:7).

Mas este lugar só existiria depois de habitarem na terra e terem alcançado descanso dos seus inimigos (Dt 12:10-12). Por isso o templo não foi edificado por David (embora este preparasse o plano e todos os materiais), mas por Salomão. Foi construído quando a terra estava em descanso (1 Rs 8:56). David conquistara toda a terra conforme prometido a Abraão e Josué, até ao Eufrates (Gn 15:18; Dt 1:17; 11:24; Js 1:4; 2 Cr 9:26). Assim o templo está associado, não somente com a presença de Deus no meio do seu povo, mas também com a posse da terra. Passareis o Jordão, e habitareis na terra que vos fará herdar o Senhor vosso Deus; e vos dará descanso de todos os vossos inimigos em redor, e morareis seguros. Então haverá um lugar que escolherá o Senhor vosso Deus, para ali fazer habitar o seu nome (Dt 12:10-11).

E o Senhor avisou a Salomão: Se vos desviardes, e deixardes os meus estatutos e os meus mandamentos, que vos prescrevi, e fordes e servirdes a outros deuses, e os adorardes, então vos arrancarei da minha terra que vos dei, e esta casa, que santifiquei ao meu nome, lançarei longe da minha presença e a tornarei em provérbio e motejo entre todos os povos (2 Cr 7:19-20; 1 Rs 9:6-8).

Deste modo podemos ligar o templo ao sábado. O sábado (descanso) era o sinal da aliança através do qual era provada a fidelidade do vassalo. Não guardar o sábado é não respeitar o repouso. O templo é construído a seguir ao repouso. Portanto, sem repouso, não há templo/presença de Deus. Israel era constantemente acusado de não guardar o sábado. E foi a falta de guardar o sábado que lhes valeu 70 anos de cativeiro.

Os reis da linhagem de Salomão não foram fiéis à aliança davídica. Pouco a pouco foram perdendo os domínios conquistados por David. Pouco a pouco os tesouros do templo foram entregues ao inimigo, como tributo ou pagamento de proteção, porque não confiavam na força do seu Deus. Também os sacerdotes não foram fiéis à aliança. Ezequiel (capítulos 8 a 11) descreve como os próprios sacerdotes cometiam abominações no meio do templo e como, em consequência disto, a glória do Senhor se retirou do santuário, saiu do templo e, a seguir, saiu da cidade. A glória do Senhor passou a estar com os exilados na Babilónia (Ez 1:28; 3:23), onde Deus tinha enviado o seu povo para preservação da vida.

Era grande vergonha para Israel, Deus abandonar e destruir o seu templo à vista de todas as nações (Dn 9:16). Era vital para Israel que Deus retirasse a sua ira de sobre a cidade. Significava misericórdia e benevolência de Deus para com Israel. Embora a glória de Deus estivesse com o seu povo no exílio, eles não deixavam de ver Jerusalém como o lugar que Deus escolheu para ali fazer habitar o seu nome, porque a tua cidade e o teu povo são chamados pelo teu nome (Dn 9:19).

Por isso, a cidade e o templo constituíam a grande preocupação de Daniel.

Estando Daniel ainda a orar, apareceu-lhe o anjo Gabriel. As palavras faladas pelo anjo são a resposta à oração de súplicas de Daniel.

No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado, considera, pois, a coisa e entende a visão (Dn 9:23).

No princípio das suas súplicas pela restauração da cidade, do templo e do povo, saíra a palavra (dabhar, traduzido ordem) de Deus. Saíra a ordem (dabhar) para restaurar e edificar Jerusalém (v.25). E o anjo fora enviado para lho explicar. A resposta do anjo tratará, portanto, da restauração acerca da qual Daniel tinha estado a orar.

Através das palavras do anjo, Deus deu descanso e esperança a Daniel, tal como aconteceu com Jeremias anos antes, quando Deus lhe dissera para efetuar a escritura de compra de um terreno na hora em que a cidade estava a ser sitiada por Nabucodonosor. Eis que eu os congregarei de todas as terras, para onde os lancei na minha ira, no meu furor e na minha grande indignação; tornarei a trazê-los a este lugar, e farei que nele habitem seguramente (Jr 32:37). Agora Deus responde a Daniel, confirmando que o seu povo voltaria à sua terra e que o templo e a cidade seriam reedificados, embora isto acontecesse em tempos angustiosos (Dn 9:25).

Sabe, e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas: as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos (Dn 9:25).




[1] Desenvolvimento da oração Todah em Meredith G. Kline. The Covenant of the Seventieth Week. The Law and the Prophets. (1974), pp. 452-469.
[2] Artigo de Peter J. Leithart, The Holy City Revisited, Biblical Horizons nº 59 (1994).

08/08/2015

O DECRETO DE CIRO (1)

1) O decreto de Ciro constitui o ponto de transição entre o fim do domínio babilónico e a libertação do cativeiro e, simultaneamente, o começo de um novo período na existência nacional de Israel, já não como nação soberana e independente, mas como um povo unido pela sua religião debaixo da governação de um rei gentio.

O decreto de Ciro foi o decreto que veio em cumprimento das profecias de Jeremias. Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos atentarei para vós, escreveu Jeremias de Jerusalém aos exilados na Babilónia (Jr 29:10). Isto significava que quando chegasse o fim do domínio babilónico, terminaria o cativeiro dos judeus e o povo poderia voltar para casa (Jr 25:8-12). Foi um decreto de liberdade.

2 Crónicas 36:21-23 estabelece claramente esta transição:

… para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da desolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram.
Porém, no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias), despertou o SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá; quem, dentre vós é de todo o seu povo, que suba, e o SENHOR, seu Deus, seja com ele.”
O livro de Esdras, que continua a narração histórica de 2 Crónicas, abre com o decreto de Ciro. É este decreto que desencadeou a grande viragem na história do povo judeu após o cativeiro na Babilónia, e que inicia o tempo da restauração de Israel. Os livros de Esdras e Neemias relatam o regresso a Jerusalém e a reedificação do templo, da cidade e dos muros no meio de feroz oposição.

2) O decreto de Ciro no seu primeiro ano, aliado ao reconhecimento que Dario o medo e Ciro são a mesma pessoa (ver mensagem anterior – Dario o medo), constitui a única data AH (Anno Hominis) que permite uma verificação bíblica interna. Se Dario o medo e Ciro são duas pessoas diferentes, não há nenhuma indicação na Bíblica que nos diz quantos anos reinou esse Dario. E as datas oferecidas pela cronologia consensual inviabilizam a duração bíblica, ou dos 70 anos do cativeiro, ou do domínio babilónico. Mas, se Dario é Ciro, o primeiro ano de Dario/Ciro é o fim dos 70 anos de domínio babilónico e, ao mesmo tempo, temos uma data precisa para o seu decreto e o regresso do povo.


3) Na opinião de muitos, e é também a minha convicção, o decreto de Ciro é igualmente o ponto de partida da profecia das 70 semanas de Daniel - a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém (Dn 9:25).
Defendo também que as primeiras 7 semanas (49 anos) desta profecia terminam com a dedicação dos muros de Jerusalém no livro de Neemias. Os eventos descritos e a informação cronológica fornecida nos livros de Esdras, Neemias, Ester, Ageu e Zacarias permitem uma verificação bíblica interna da cronologia dos acontecimentos.

Se podermos demonstrar a viabilidade desta tese, é derrubada a principal alternativa ao decreto de Ciro, que é o decreto de Artaxerxes Longimanos (alegadamente o que autorizou Neemias a ir a Jerusalém para a edificar), cuja principal vantagem é de enquadrar-se mais ou menos perfeitamente na cronologia consensual. A sua desvantagem é que requer dados externos para justificá-la.


4) Por outro lado, se assumirmos que o decreto de Ciro é o ponto de partida das 70 semanas da profecia de Daniel, deparamos com um problema sério.
A profecia das Setenta Semanas prevê um determinado tempo – 7 semanas e 62 semanas e 1 semana - desde um ponto até outro ponto definido na história. A duração efetiva deste tempo apresenta, contudo, um problema. Entre a cronologia bíblica apresentada por Daniel e a cronologia secular utilizada por todos os historiadores, quer seculares quer cristãos, existe um desfasamento.

Com base na cronologia secular, o decreto de Ciro é datado por volta do ano 536 a.C.. Segundo a profecia são 7 e 62 semanas (483 anos) até à manifestação do Ungido, que foi no seu batismo. Subtraindo 483 anos, chegamos ao ano 53 a.C., pelo que faltam ainda perto de 80 anos para chegar ao batismo de Jesus por volta do ano 26 d.C. (assumindo que Jesus nasceu no ano 4 antes da nossa era). A cronologia secular apresenta assim um excesso de aproximadamente 80 anos em comparação com a cronologia das semanas de Daniel.

Desta discrepância resultou a questão que tem ocupado as mentes de muitos estudiosos: devem as 70 semanas de Daniel ser interpretadas como 490 anos literais ou trata-se de uma indicação de tempo com conotações meramente simbólicas? Ou há outro decreto que o de Ciro que indica o início das 70 semanas?

A procura de uma solução para este problema tem dado várias interpretações.
De todas estas questões trataremos em próximas mensagens.

Mas antes de aprofundarmos as dificuldades cronológicas associadas à profecia de Daniel, vamos analisar mais de perto de que fala esta profecia no capítulo 9 de Daniel.

19/07/2015

Dario o medo

Na cronologia consensual existe um intervalo de cerca de 3 anos entre a tomada da Babilónia com a ocupação do trono por Dario o medo (539  a.C.) e o decreto de Ciro no primeiro ano do seu reinado (536 a.C.). Sendo que o início do reinado de Nabucodonosor é datado 605-604 a.C., isto significa que a duração do domínio babilónico não foram na realidade 70 anos, mas apenas cerca de 66 anos.

Por outro lado, através de 2 Crónicas 36, fica claro que os setenta anos de repouso da terra equivalem aos 70 anos de domínio babilónico profetizado por Jeremias, sendo imediatamente seguidos pela libertação do povo judeu através do decreto de Ciro no primeiro ano do seu reinado.

"Os que escaparam da espada a esses levou ele [Nabucodonosor] para Babilónia, onde se tornaram seus servos e de seus filhos, até ao tempo do reino da Pérsia; para que se cumprisse a palavra do Senhor por boca de Jeremias, […] todos os dias da desolação [a terra] repousou até que os setenta anos se cumpriram. Porém, no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor por boca de Jeremias, despertou o SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra, e me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá; quem entre vós e de todo o seu povo, que suba, e o SENHOR seu Deus seja com ele". (2Cr 36:20-23; ver também Esdras 1:1-4).

Portanto, biblicamente, de acordo com estas passagens, não parece existir nenhum lapso de tempo relevante entre o fim do domínio babilónico (tomada de Babilónia por Dario o medo) e o decreto de Ciro, emitido no seu primeiro ano.

Quem é então este Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, que foi constituído rei sobre o reino dos caldeus, e em cujo primeiro ano Daniel entendeu que os 70 anos tinham chegado ao seu fim (Dn 9:1-2)?

Várias hipóteses têm sido avançadas. Mas, primeiro, convém saber um pouco da história dos medos e dos persas.
Muito antes de Nabucodonosor subir ao palco da história, a queda do seu império e quem o destruiria já tinha sido profetizado, como podemos ler nos capítulos Isaías 13 e 14 e Jeremias 50 e 51. São os reis dos medos que Deus despertaria contra a Babilónia.

Eis que eu despertarei contra eles [Babilónia] os medos … (Is 13:17)
O SENHOR despertou o espírito dos reis dos medos, porque o seu intento contra Babilónia é para a destruir (Jr 51:11)
Consagrai contra ela [Babilónia] as nações, os reis dos medos, os seus governadores, todos os seus vice-reis (Jr 51:28)

O capítulo 5 de Daniel descreve o banquete dado pelo rei Belsazar na noite anterior à tomada da Babilónia (que foi tomada de surpresa, sem batalha). Uma das palavras que uns dedos de mão de homem escreveram na parede do palácio real foi peres, que Daniel interpretou assim:
Dividido foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas […] Naquela mesma noite foi morto Belsazar, rei dos caldeus. E Dario, o medo, com cerca de sessenta e dois anos, se apoderou do reino (Dn 5:28, 30-31).
Aqui, os medos e os persas aparecem juntos, como povos aos quais o reino da Babilónia fora dado.

Pouco tempo antes da morte de Belsazar, Daniel tivera uma visão onde viu a continuação da história depois da Babilónia (Dn 8).
Eis que um carneiro estava diante do rio, o qual tinha dois chifres, e os dois chifres eram altos, mas um mais alto do que o outro, e o mais alto subiu por último (Dn 8:3)
Aquele carneiro que viste com dois chifres são os reis da Média e da Pérsia (Dn 8:20).

O carneiro, que representa a Média e a Pérsia juntos, destruiu e engrandeceu-se sobre os poderes (simbolizados por animais) que existiam antes dele (v.4), portanto, Babilónia e as nações que integravam o império. Este novo domínio equivale ao reino de prata no sonho da estátua de Nabucodonosor (Dn 2:31-39).
Os dois chifres na cabeça do carneiro são os reinos da Média e da Pérsia, como duas forças dentro de um mesmo reino. No tempo de Isaías, a Média já era um grande poder. A Pérsia não existia e, por isso, este nome não era conhecido, nem podia ter sido utilizado pelo profeta. A região da Pérsia era, anteriormente, conhecida como Elão. Em Isaías 21:2, a Média está associada a Elão, subindo ambas contra a Babilónia (v.9). A antiga Elão tinha a sua capital em Susã, que mais tarde passou a ser a capital do Império Persa. Os Aqueménidas (dinastia a que pertencia Ciro) terminaram com a existência do Elão como poder político independente.

Os medos eram mais antigos e culturalmente dominantes. Os persas eram inicialmente tributários dos medos mas, com Ciro, a Pérsia tornou-se dominante. A Pérsia é o chifre mais alto que subiu por último. Com Ciro, persas e medos passam a formar um só reino.

 MEDOS                                                                                              PERSAS

Ciaxares I                                                                             (dinastia Aqueménida)
       |

Astíages                                                                                                Ciro I

       |                                                     |                                                    |

Ciaxares II           Mandana  (=irmã de Ciaxares II)              X             Cambises I

                                                                                                     |
                                                                                     Ciro II (é o Ciro da Bíblia)

Quem tomou Babilónia, de acordo com todos os registos históricos e arqueológicos, foi Ciro, também conhecido como Ciro II, da dinastia Aqueménida da Pérsia. Ciro tinha também ascendência meda, pelo lado materno. Era neto de Astíages, rei dos medos. Segundo Heródoto, Ciro revoltou-se contra Astíages, provocando uma guerra, da qual saiu vitorioso e se tornou soberano dos reinos unidos dos medos e dos persas. Por isso, os dois poderes continuam a ser mencionados juntos. Primeiro, fala-se em medos e persas (Dn 5:28; 6:8, 12, 15), mais tarde em persas e medos (Ester 1:19), o que ilustra muito bem o crescimento do segundo chifre em detrimento do primeiro (Dn 8:3).
Antes de apresentar as várias propostas para a identidade de Dario o medo, ainda é preciso ter em atenção um aspecto que é a questão dos nomes. Dario, tal como Xerxes, Artaxerxes e Assuero não são nomes próprios, nem cognomes, mas nomes de trono, títulos honoríficos, com um significado descritivo. Não há consenso sobre o que significam exactamente estes nomes, mas os historiadores não põem em causa que os reis na antiguidade costumavam usar mais do que um nome ou título. Documentos da época confirmam isto. Visto que os judeus viviam então na proximidade da cultura persa dominante, era natural que usassem estes nomes de trono da maneira como os persas faziam e não os nomes gregos (que foram dados posteriormente) e que nós usamos hoje como se de nomes próprios se tratasse.
Dario, em hebraico Dar’yavesh, palavra de origem persa, significaria simplesmente “senhor” ou “detentor do ceptro”. Assim, o nome Dario não oferece qualquer ajuda na identificação desta personagem de Dario o medo.
De acordo com alguns, Dario o medo seria Astíages (avô materno de Ciro), ou Ciaxares II (cunhado de Ciro), que teria sido colocado temporariamente no trono da Babilónia por Ciro após a conquista e Ciro só ocuparia o trono cerca de três anos mais tarde. Esta teoria apoia-se em algumas versões que traduzem que Dario o medo recebeu o reino, e não, como noutras traduções, apoderou-se do reino (Dn 5:31). O verbo aramaico quebal pode querer dizer tanto receber como tomar[1]. A diferença está na forma do verbo: a forma usada é Pael, que é uma forma intensiva do verbo e corresponde ao hebraico Piel que exprime geralmente uma acção intensiva ou intencional. A tradução apoderou-se do reino ou tomou o reino seria mais apropriada do que recebeu o reino.
Outra hipótese é que Dario seria Cambises, filho de Ciro. Era habitual os monarcas estabelecerem um dos seus filhos como co-regente durante as suas ausências, e isto foi efectivamente o caso de Cambises e Ciro. Várias tabletas foram encontradas[2] que mencionam Cambises como “rei da Babilónia”, enquanto Ciro é designado como “rei de nações (terras) ”. Cambises foi efectivamente co-regente com Ciro. Porém, é pouco provável que Cambises seja Dario o medo, pela idade de 62 anos (Dn 5:31) que tinha no momento da tomada de Babilónia.
A hipótese que, provavelmente, tem mais apoiantes é que Dario seria Gubaru, governador de Gutium, uma região da Média, e oficial de Ciro. Como comandante do exército de Ciro, Gubaru tomou Babilónia sem qualquer batalha, de acordo com a Crónica de Nabónido. Depois, Ciro nomeou-o governador da Babilónia. Morreu ainda no mesmo ano ou no ano seguinte, de acordo com as crónicas. Embora possamos pôr em questão o facto de um governador usar o título de “rei”, estes elementos enquadram-se relativamente bem no relato bíblico, se não fosse pelo episódio de Daniel na cova dos leões (Dn 6). Este episódio tem lugar no princípio do reino de Dario. O decreto que o rei Dario emitiu depois que Daniel saiu ileso da cova dos leões, um decreto dirigido aos povos, nações e homens de todas as línguas, que habitam em toda a terra (Dn 6:25-28) não é da mão de um mero governador de uma província, mas do rei de toda a nação.
Isto leva-nos à tese que se nos apresenta como a mais provável. O rei de toda a nação, de todo o império era Ciro, pelo que Dario o medo não será outro que o próprio Ciro, o persa. Isto é corroborado por uma adição deuterocanónica ao livro de Daniel (como capítulo 14): a história de Bel e o Dragão, uma variante da história de Daniel na cova dos leões, na qual o rei é identificado pelo nome de Ciro, não Dario.
Só Ciro, como “rei de nações”, podia emitir um decreto que abrangesse todo o seu império (ver situação semelhante em Dn 4:1). Do ponto de vista bíblico, Ciro é aquele a quem Deus deu o reino, como anteriormente o dera a Nabucodonosor (Dn 2:37-38). Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra (2 Cr 36:22; Ed 1:2). Ciro é o verdadeiro sucessor do poder babilónico, cuja cabeça era Nabucodonosor. Ciro é o cabeça do segundo reino, de prata, da estátua de Daniel 2. Dario é um título que lhe assenta.
Ciro é conhecido como “o persa” mas, como neto de Astíages, também era “medo”, podendo ser chamado filho de Assuero (Dn 9:1). Assuero é uma forma grega de Ahashverosh, que é uma hebraização de Ciaxares, que por sua vez é uma corruptela do persa Uwxshstra[3].
Em Esdras 6:1-3 lemos que, no segundo ano do rei Dario (este é Dario Histaspes, sucessor de Cambises), foi encontrado em Acmeta, na província da Média, um memorial escrito com as palavras de um decreto baixado por Ciro no seu primeiro ano relativamente à edificação do templo em Jerusalém. Isto indica que Ciro poderá ter estado na Média quando baixou o seu decreto.
Provavelmente, a razão porque Daniel fala aqui em Dario o medo e não em Ciro o persa é para fazer a ligação com as profecias de Isaías e Jeremias, que falavam dos medos como povo que derrubaria Babilónia. Assim seria perceptível para os judeus. Quando Ciro conquistou a Babilónia foi na qualidade de Dario o medo, em cumprimento das profecias e porque ainda não tinha sido feito a transição da predominância meda para a predominância persa. Daniel 10-12 recorda a última visão de Daniel no terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia (Dn 10:1). Agora já aparece com o nome Ciro.
Ainda, a personagem de Dario em Daniel 6 enquadra-se bem na descrição que Heródoto dá de Ciro: um chefe de montanha, simples, ousado, vigoroso, com uma grande ambição e génio militar, mas também um monarca paternal, amável, clemente, educado e familiar com o seu povo (Citado por Anstey, The Romance of Bible Chronology, p. 267.).
Assim não há nada de estranho em Daniel 6:28 que diz que Daniel prosperou no reinado de Dario, e no reinado de Ciro, o persa, a palavra “e” devendo ser lido como “a saber” ou “isto é”[4].
A favor da identificação de Dario o medo com Ciro é certamente o facto de não haver qualquer interrupção da cronologia entre o fim dos 70 anos de domínio babilónico e o começo do domínio persa e, simultaneamente, a libertação dos judeus que se segue aos 70 anos de cativeiro, no primeiro ano de Ciro. Não faz qualquer sentido existir um interregno de cerca de três anos com “outro” Dario o medo. Não faz sentido, também, à luz da oração de Daniel. Daniel orou ao lembrar-se das profecias de Jeremias que falavam de 70 anos. Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos atentarei para vós e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar, profetizara Jeremias (Jr 29:10). O que também é corroborado por 2 Crónicas 36:21: … até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da desolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram. Porém, no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor por boca de Jeremias, despertou o Senhor o espírito de Ciro, rei da Pérsia … (2Cr 36:21-22).


[1] Informações sobre palavras hebraicas retiradas do Léxico de Gesenius, Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures, edição de P. Tregelles, 1847, acessível em www.blueletterbible.org.
 
[2] Robert D. Wilson, Studies in the book of Daniel (1917)
[3] William H. Shea. Darius the Mede; An Update. Andrews University Seminary Studies 20 (1982): 229-247, e Darius the Mede in his Persian-Babylonian Setting. Andrews University Seminary Studies 29 (1991): 235-257, referida por James B. Jordan, Daniel: Historical and chronological comments V, Biblical Chronology, 7.4 (1995).
[4] Ver James M. Bulman, The identification of Darius the Mede, Westminster Theological Journal 35 (1973), 247-267.

16/07/2015

70 ANOS DE ASSOLAÇÕES DE JERUSALÉM

No primeiro ano de Dario, filho de Assuero, da linhagem dos medos, o qual foi constituído rei sobre o reino dos caldeus, no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi, pelos livros, que o número de anos, de que falara o Senhor ao profeta Jeremias, em que haviam de durar as assolações de Jerusalém, era de 70 anos (Dn 9:1-2).

Jeremias 25:11-12 e 29:10 são as únicas passagens naquele livro que falam em 70 anos. E são certamente estas que vieram à mente de Daniel, agora que o domínio babilónico acabara de ser quebrado. Belsazar, último rei dos caldeus, fora morto e Dario, o medo, com cerca de sessenta e dois anos, se apoderou do reino (Dn 5:30-31).

Acontecerá, porém, que, quando se cumprirem os setenta anos, castigarei a iniquidade do rei de Babilónia e a desta nação, diz o Senhor, como também a da terra dos caldeus; farei deles ruínas perpétuas (Jr 25:12).

Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos atentarei para vós e cumprirei para convosco a minha boa palavra, tornando a trazer-vos para este lugar […] congregar-vos-ei de todas as nações e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor, e tornarei a trazer-vos ao lugar donde vos mandei para o exílio (Jr 29:10-14)

Nestas passagens, os 70 anos estão diretamente relacionados com a duração do reino da Babilónia. Quando se cumprissem para Babilónia 70 anos, o povo seria liberto.

A palavra em Jeremias 25 veio no 4º ano de Jeoaquim (ano 3398), que é o 1º ano de Nabucodonosor (Jr 25:1). Será este o ponto de partida dos 70 anos para Babilónia. Os 70 anos para Babilónia cumpriram-se então no ano 3468 (3398+70), quando Babilónia foi tomada, Belsazar rei dos caldeus, morto, e Dario o medo se apoderou do reino (Dn 5:30-31).

“Logo que se cumprirem para Babilónia setenta anos atentarei para vós” (Jr 29:10). No primeiro ano de Dario, Daniel entendeu que os 70 anos tinham chegado ao fim e ora a Deus (Dn 9:3-9).

Nas passagens de Daniel 9 e também de 2Cr 36:20-22, observamos um paralelismo entre os 70 anos para Babilónia e os 70 anos das assolações de Jerusalém.

Algumas versões da Bíblia — nomeadamente a King James Version — traduzem Jr 29:10 “passados setenta anos em Babilónia” (after seventy years be accomplished at Babylon), relacionando assim a duração de 70 anos com estadia dos judeus na Babilónia, embora a maior parte das outras versões traduza for Babylon (= para Babilónia) (Jr 29:10).

E 2Cr 36:20-22 liga os 70 anos com a desolação da terra: Os que escaparam da espada a esses levou ele [Nabucodonosor] para Babilónia, onde se tornaram seus servos e de seus filhos, até ao tempo do reino da Pérsia; para que se cumprisse a palavra do Senhor por boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da desolação repousou até que os setenta anos se cumpriram. No primeiro ano de Ciro… (2 Cr 36:20-22).

De acordo com 2 Crónicas 36:20-23, a desolação da terra tem a duração dos 70 anos do cativeiro, até ao tempo do reino da Pérsia, quando Ciro ordenou por escrito o regresso do povo e a construção do templo em Jerusalém.

Até que a terra se agradasse dos seus sábados (2 Cr 36:21). Este versículo traz luz sobre a razão pela qual se deu o exílio do povo de Israel e a duração do mesmo: está relacionado com a falta de cumprimento do sábado, um dos mais antigos e importantes requerimentos da lei.

O conceito do sábado tem origem na obra da criação. Seis dias, Deus trabalhou, depois avaliou a sua obra, viu que estava tudo muito bom, e descansou. Mas o sábado como instituição só aparece depois que Deus libertou o povo de Israel do Egipto, servindo como sinal da aliança entre Ele e Israel, para se lembrarem de que foram servos no Egipto e que o Senhor os tirou de lá (Dt 5:15). Por isso, o sábado tornou-se símbolo de redenção e libertação do cativeiro, e também de descanso do trabalho de escravo.

Ao mesmo tempo, o cumprimento do sábado era sinal de reconhecimento de que Deus era Senhor. Isto, porque somos servos de quem nos liberta, ou de quem nos compra. Na lei, a obrigação de guardar o sábado estava inscrita logo a seguir ao primeiro mandamento — Eu sou o Senhor e não terás outros deuses — (Ex 20; Dt 5).

O significado do sábado foi primeiro ensinado a Israel através da provisão do maná. Guardar o sábado era um teste para Israel, para provar que confiavam (descansavam) no Senhor para o suprimento das suas necessidades. Deus deu-lhes o sábado como descanso, e eles tinham de o guardar (Ex 31:12-18). Seis dias deviam colher o maná, no sétimo dia, dia de descanso, não haveria. Mas no sexto dia estavam autorizados a colher uma porção dobrada para não terem de trabalhar no sétimo dia (sábado).

O exílio de Israel na Babilónia estava relacionado com o não cumprimento do sábado, e muito especificamente o sábado da terra.

Ao entrarem na terra que Deus lhes iria dar (Lv 25:1-7), teriam que guardar o sábado (descanso) da terra. Seis anos semeavam, o sétimo era ano sabático; não se podia semear. No sétimo ano, os frutos da terra em descanso lhes seriam para alimento. Ao guardarem o sábado da terra, Deus abençoá-los-ia com uma colheita extraordinária no sexto ano (Lv 25:20-22) para poderem alimentar-se no sétimo ano até haver nova colheita no oitavo ano (que é o primeiro ano de um novo ciclo sabático).

Se 70 anos constituíam a penalização por não guardar o descanso, um ano por cada sábado, isto quer dizer que Israel não guardara os sábados ao longo de 490 anos, o que representa a maior parte da sua existência como nação, desde o tempo de Saul. A terra ficou a descansar até que se agradasse dos seus sábados; todos os dias da desolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram (2Cr 36:21). Aconteceu o que estava previsto na lei: Então a terra folgará nos seus sábados, todos os dias da sua assolação, e vós estareis na terra dos vossos inimigos; nesse tempo a terra descansará (Lv 26:34; 43). A terra repousou o tempo equivalente a todos os anos sabáticos que Israel não cumpriu. Quando os 70 anos passassem, haveria libertação do cativeiro e regresso à terra para cultivá-la.

Com o fim do domínio babilónico, o começo do reino da Pérsia e o decreto de Ciro a autorizar o povo regressar à sua terra e reedificar o templo, começou um novo período na vida da nação de Israel.