15/03/2016

Um reino que não será jamais destruído

OS TEMPOS DOS GENTIOS (4)

Todas as visões, exceto a de Daniel 8 que termina com a história de Antíoco Epifânio, mostram a chegada do Reino do Filho do homem no tempo do quarto reino.
A primeira profecia registada em Daniel foi o sonho da grande estátua de Nabucodonosor, que este teve no segundo ano do seu reinado, ainda no princípio do exílio de Israel:
Uma pedra foi cortada, sem auxílio de mãos, a qual feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou. Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o cobre, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a palha das eiras no estio, e o vento os levou, e não se achou lugar algum para eles; mas a pedra que feriu a estátua se fez um grande monte e encheu toda a terra (Dn 2:34-35).
A pedra que cresceu para se tornar numa grande montanha e encher toda a terra, explica o v.44, é um reino que não passará a outro povo e subsistirá para sempre. Sem dúvida que podemos reconhecer nele o Reino de Deus.
O sonho foi de Nabucodonosor, mas a interpretação Deus a deu a Daniel. Desta maneira, Deus mostrou, tanto ao gentio Nabucodonosor como ao judeu Daniel, que a administração humana era apenas temporária até que se estabelecesse o Reino de Deus, que havia de ser governado pelo rei escolhido e Ungido por Ele (Salmo 2). Eu fiz a terra … e a dou àquele a quem for justo (Jr 27:5). O único Justo é Jesus, o Messias, a quem pertence, portanto, o direito de reinar sobre toda a terra.
A visão narrada em Daniel 7 também associa o quarto reino (dos 10 chifres) com a inauguração do Reino de Deus. Os vs. 13 e 14 descrevem como o Filho do homem recebe o domínio, a glória e o reino. A visão é vista de um lugar no céu, porque Daniel vê “vir” com as nuvens um como Filho do homem que se dirige ao Ancião de Dias (Deus Pai) para receber o domínio. Isto descreve o momento em que Jesus se assentou à direita do Pai, o que aconteceu depois de ter expiado o pecado na cruz e ressuscitado dos mortos. Dn 7:13-14 não é uma representação da Segunda Vinda de Jesus. Jesus subiu com as nuvens para o céu, como os seus discípulos viram (At 1:9).
Depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade nas alturas (Hb 1:3b).
… a força do seu poder]; o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dos mortos, e fazendo-o sentar nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro (Ef 1:19-21).
Ao assentar-se no trono, Jesus recebeu um nome acima de todo o nome (Fp 2:9), recebeu toda a autoridade e domínio, como Ele próprio afirmou:
Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra (Mt 28:18).
[Jesus Cristo] o qual, depois de ir para o céu, está a destra de Deus, ficando-lhe subordinados anjos, e potestades e poderes (1 Pe 3:22).
Esquecemo-nos muitas vezes que Jesus reina, que o Reino lhe pertence hoje e definitivamente.
Com o ministério público de Jesus, o Reino tornou-se presente e visível. Jesus disse: Se eu expulso os demónios pelo espírito de Deus, é conseguintemente chegado a vós o Reino de Deus (Mt 12:28). A pregação das boas novas do Reino vinha sempre acompanhada de curas e expulsão de demónios e espíritos imundos (Mt 4.23; 9:35; 12:28; Lc 9:2; 10:9; 11:20), provando assim que o reino com as suas bênçãos já chegara. Portanto, o Reino foi introduzido com a primeira vinda de Jesus.
Do ponto de vista histórico, a ascensão de Jesus ao seu trono ocorreu na altura em que Roma dominava na Judeia, e sobre um domínio extremamente grande. Portanto, podemos com certeza dizer que, primeiro, o reino de Deus já foi inaugurado e, segundo, que isto aconteceu no tempo do Império Romano.
Também a última visão (capítulos 10 a 12) comprova isto. Depois da passagem sobre Herodes e a sua dinastia (Dn 11:36-45), é feito referência a um tempo de angústia.
Nesse tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, o defensor dos filhos do teu povo, e haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas naquele tempo será salvo o teu povo, todo aquele que for achado inscrito no livro (Dn 12.1)
No dia de Pentecostes, Pedro disse: e acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo (At 2:21; Rom 10:12-13). Isto tornara-se possível, para judeus e gentios, com a cruz de Jesus. Historicamente, é uma realidade que começou então. Não é uma realidade futura, nem para gentios nem para judeus. É uma realidade presente, a realidade do reino de Deus.
Aos “varões judeus e habitantes de Jerusalém” (At 2:14), aos “israelitas” (At 2:22, 12) seus contemporâneos, Pedro anunciou salvação, para aquele que fora achado inscrito no livro da vida. Mas haveria também um tempo de grande angústia. Houve efetivamente um tempo de grande tribulação para os judeus não muitos anos depois. Na década de 60 d.C. cresceu a rebelião dos judeus contra a ocupação romana, que culminou numa guerra e terminou na destruição de Jerusalém pelos exércitos romanos. Esta guerra está descrita em pormenor por uma testemunha ocular, Flávio Josefo, em Guerra dos Judeus[1]. Simultaneamente, houve uma guerra civil dentro dos muros da cidade de Jerusalém, esta mais sangrenta ainda que a guerra dos romanos.
Então estive olhando por causa da voz das grandes palavras que provinham do chifre; estive olhando até que o animal foi morto, e o seu corpo, desfeito e entregue para ser queimado pelo fogo. E, quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia, foi-lhes dada prolongação de vida até certo espaço de tempo (Dn 7:11.12).
O pequeno chifre foi morto (ver também 7:24-26 - depois se assentará o tribunal para lhe tirar o domínio, para o destruir e o consumir até ao fim). Com a subjugação violenta e final de Jerusalém pelos romanos, a dinastia Herodiana foi eliminada e cessou totalmente de existir.
Aos outros animais, foi-lhes dado prolongamento de vida. Os animais representam reinos e nações de homens, que têm um “certo espaço de tempo” de vida. O Império Romano não desapareceu imediatamente quando veio o Reino de Deus, mas acabou por passar às mãos de outros povos. Continuaram, e continuam, a existir reinos de homens, como vemos na história, por exemplo, o império de Carlos Magno “onde o sol não se punha”, o império colonial inglês, o império que Hitler tentou levantar, a União Soviética, os Estados Unidos da América. Uns já terminaram e outros que existem hoje acabarão por terminar.
Apenas o Reino de Deus não será jamais destruído como o são os reinos políticos dos homens, nem passará para outro povo, como quando territórios sob o domínio de um povo são conquistados e passam a ser dominados pelo novo conquistador. Pertence para sempre ao povo de Deus. Este reino não passará a outro povo: esmiuçará e consumirá todos os outros reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre (Dn 2:44). É um reino eterno (Lc 1:33) e inabalável (Hb 12:28). Nabucodonosor percebeu que o poder da Babilónia passaria para a Pérsia (2 Cr 36:23; Es 1:2), como também o da Pérsia chegaria ao seu fim, derrotado por Alexandre o Grande. Mas o reino de Deus funciona de acordo com outras leis. O reino de Deus não é deste mundo, como afirmou Jesus a Pilatos (Jo 18:36). Não é um reino político à maneira dos homens, mas é um reino que se sobrepõe aos reinos políticos e, no fim, haverá de acabar com todos.
O reino de Deus encherá toda a terra; é universal. Os quatro grandes impérios representados na estátua são figuras do reino de Deus. Quando os reis de Judá foram achados indignos de se assentar no trono do Senhor (1 Cr 29:23), Deus entregou o domínio a reis gentios, não só o domínio sobre Israel, mas sobre todas as nações ao redor. Os quatro grandes impérios, Babilónia, Pérsia, Grécia e Roma dominavam sobre territórios extensíssimos, do Mediterrâneo até ao Extremo Oriente, onde habitavam numerosos povos diferentes. O domínio que tinham era muito maior do que o mundo conhecera até então. Estes reis e impérios antecipavam e prefiguravam o reino universal de Jesus, que abrange toda a terra.
O desenvolvimento do reino de Deus é progressivo. Começa pequeno e cresce, e acabará por encher toda a terra. A ideia de um reino cujo domínio aumenta e se fortalece já estava presente em Isaías: Um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros … para que se aumente o seu governo e venha paz sem fim sobre o trono de David, para o estabelecer e o firmar mediante o juízo e a justiça, desde agora e para sempre (Is 9:6-7). A terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar (Is 11:9). No Novo Testamento, Jesus retoma este ensino nas suas parábolas, quando compara o reino dos céus a um grão de mostarda, que é a mais pequenina de todas as sementes, mas que se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos (Mt 13:31-32). Também quando Jesus usa a imagem da uma seara para explicar o funcionamento do reino de Deus, ele fala em crescimento e maturação (Mt 9:37-38; 13:24-30). O reino de Deus, cuja ação é comparada com a do fermento introduzido na massa que é o mundo, é um agente transformador que faz crescer até tudo atingir a sua plenitude. Esta promessa é para nós.
Como o é a promessa contida em Isaías 11:9, que a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar.




[1] Foi editado em 2007, pelas Edições Sílabo, a primeira tradução completa em Português de A guerra dos Judeus.

06/03/2016

O PEQUENO CHIFRE (2)- Herodes

OS TEMPOS DOS GENTIOS (4)
Daniel 7 traz uma descrição do quarto reino. O quarto animal/reino (Roma) tinha dez chifres, que correspondem a dez reis que se levantaram daquele mesmo reino (v.24). Creio não ser importante dar-nos ao trabalho de tentar identificar quem eram os 10 chifres do animal. Um chifre simboliza poder e, portanto, os 10 chifres representam reinos, províncias, distritos do império ou algo semelhante. Na realidade, é provável que tenham sido mais do que 10, mas 10 é um número simbólico que indica plenitude quantitativa (todos), portanto, os 10 chifres representam o império na sua totalidade.
De entre estes 10, subiu um pequeno chifre. Note-se bem que se trata de outro “pequeno chifre”, a não confundir com o primeiro pequeno chifre do terceiro reino helenístico que representava Antíoco Epifânio. Em Daniel 11, no seguimento imediato do relato sobre Antíoco e os Macabeus e, portanto, no tempo do fim do período Asmoneu (Dn 11:32-35), surge uma nova personagem: este rei que fará segundo a sua vontade (Dn 11:36-45).
Este “rei que faz segundo a sua vontade” aparece na continuação natural da história, devendo por isso ser identificado com uma figura inserida no quarto reino, o Império Romano. Visto que saiu de entre os 10 chifres do reino, significa que o pequeno chifre fazia de alguma maneira parte dele.
Assim como no terceiro reino são referenciados apenas o reino do Norte e do Sul, porque estão ligados à história de Israel, esta nova personagem também terá que ser uma figura com relação direta à história do povo judeu. Este pequeno chifre é, para o povo de Israel, a face visível do quarto animal. O anjo tinha dito a Daniel: agora vim para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos últimos dias (Dn 10:14).
Que nos diz a história? Antipater, governador da Idumeia (edomitas) aliara-se com Roma para tomar o poder na Judeia que então estava independente e governada pela dinastia dos Asmoneus. O general romano Pompeu conquistou a Judeia e como recompensa pelo seu apoio e lealdade a Roma, Antipater foi feito cidadão romano. O filho de Antipater é aquele que no Novo Testamento aparece como o Rei Herodes. Herodes nasce portanto legitimamente dentro do quarto império. Além disso, foi nomeado rei da Judeia pelo Senado de Roma. Herodes juntou 3 domínios (3 chifres) debaixo da sua autoridade: era tetrarca da Galileia, prefeito da região de Celessíria e rei da Judeia. À sua morte, o governo sobre estes territórios foi dividido entre os seus filhos Arquelau (que ficou com a Judeia), Antipas e Filipe. Pode dizer-se que Herodes foi um chifre que arrancou 3 chifres[1].
Herodes e a sua dinastia eram, de facto, a face visível do Império Romano em Israel, a par dos governadores e procuradores romanos bem como das legiões estacionadas na região.
O Rei Herodes sucedeu no governo da Judeia à dinastia dos Macabeus, com o apoio de Roma. Herodes reinava em Israel quando Jesus nasceu. Foi um rei déspota, malévolo e cruel. Matou vários dos seus filhos e a própria mulher. Ninguém se lhe conseguia opor; fazia tudo segundo a sua vontade.
Pelos rumores do oriente e do norte será perturbado, e sairá com grande furor, para destruir e exterminar muitos (Dn11:44), parece apontar para o episódio da matança dos inocentes. Os magos que vieram do oriente e que tinham visto a estrela perturbaram-no muito: Herodes alarmou-se (Mt 2:3). Iludido pelos magos, enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém. Herodes o Grande tentou matar o Messias (Mt 2:16). É a isso que se refere o texto bíblico quando diz que não teve respeito ao desejo de mulheres (Dn 11:37). O desejo das mulheres judias era de ser a mãe do Salvador (Gn 3:15). O Messias também é o desejo de todas as nações (Ag 2:7).
Daniel (capítulo 7) repete várias vezes que este pequeno chifre tinha uma boca que falava, com insolência, palavras contra o Altíssimo (Dn 7:8,11,20,25 e também Dn 11:36). Isto pode referir-se ao facto de Herodes, rei dos judeus, introduzir o culto de César em Israel, ou ao facto de se opor à vinda do Messias, tentando matá-lo.
Mudar os tempos e a lei» (Dn 7:25) é, na verdade, opor-se ou impedir a vinda do Messias. A palavra “tempos” devia mais corretamente ser traduzida “tempos determinados”. É a mesma palavra que a usada em Daniel 2:21: ele [Deus] muda o tempo e as estações (os tempos determinados); ele remove os reis e estabelece os reis. Deus tinha determinado o tempo em que Ele estabeleceria o Seu Rei. Herodes procurou mudar estes tempos.
A lei que o chifre cuidou mudar não era a TORAH; não é esta a palavra usada aqui. A palavra aqui traduzida “lei” significa mandado, ordem, prescrição, decreto real. Trata-se do que Deus decretou: Eu constituí o meu rei sobre o meu santo monte Sião (Salmo 2:6).
Herodes tentou mudar os tempos determinados no plano de Deus e o decreto de Deus, tentando matar Jesus pouco depois de este ter nascido, no massacre das crianças de Belém (Mt 2).
O pequeno chifre fez guerra contra os santos (Dn 7:21, 25). Herodes tentou matar Jesus. Os seus sucessores, mencionados no Novo Testamento, mataram e perseguiram os santos, os seguidores de Jesus: Herodes Antipas matou João Baptista (Mt 14:1-11; Lc 9:7-9); Herodes Agripa I matou Tiago, irmão de João, e aprisionou Pedro (At 12:1-4); e Herodes Agripa II, o último da dinastia, enviou Paulo em cadeias a Roma (At 25 e 26). A dinastia Herodiana, que manteve sempre o favor de Roma, continuou no governo da Judeia e regiões circunvizinhas até à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C..




[1] A identidade de Herodes como o segundo pequeno chifre é defendida por James Farquharson, Daniel's Last Vision and Prophecy, respecting which Commentators have greatly differed from each other, showing its Fulfilment in events recorded in authentic history, publicado na Escócia em 1838; Philip Mauro in The seventy weeks and the great tribulation, 1921; James Jordan in Daniel: Historical and chronological comments, XIV e XV (Biblical Horizons, 1996).

26/02/2016

O PEQUENO CHIFRE Antíoco Epifânio

OS TEMPOS DOS GENTIOS (3)

Comparando os sonhos e visões dos vários capítulos de Daniel (2, 7, 8 e 10-12), podemos acompanhar a sucessão e a história dos reinos gentios, no que diz respeito a Israel, desde Nabucodonosor da Babilónia até ao tempo em que Jesus inaugurou o reino de Deus e se assentou no trono do seu reino.
Os dois primeiros reinos, Babilónia e Pérsia, não levantam problemas de interpretação, pois o próprio texto bíblico os esclarece na revelação que Daniel recebeu.
A cabeça de ouro da estátua do sonho de Nabucodonosor representa o primeiro reino, a Babilónia. Em Daniel 7, o mesmo é descrito como um leão com asas de águia.
Belsazar foi o último descendente de Nabucodonosor no trono da Babilónia. No terceiro ano do seu reino, Daniel viu em sonho um carneiro com dois chifres: estes dois chifres são os reis da Média e da Pérsia (Dn 8:20). A Daniel foi revelado que estava para breve o fim do domínio babilónico e a vinda dos medos e dos persas, que já eram conhecidos de Daniel. Eram nações que estavam a fortalecer o seu poder na região. No princípio, os medos eram mais poderosos, mas os persas acabaram por dominar, daí o chifre que cresceu mais do que o outro. Estes conquistaram a Babilónia na pessoa de Ciro.
A Pérsia é o segundo reino.
Na mesma visão do carneiro com dois chifres (Dn 8), Daniel viu chegar, do Ocidente, um bode com um chifre entre os olhos que derrotou o carneiro representativo da Pérsia. Este chifre engrandeceu-se rapidamente mas no auge da sua força foi deitado abaixo. O bode peludo é o rei da Grécia; o chifre grande entre os olhos é o primeiro rei (Dn 8:21). A Grécia já era uma potência colonizadora forte no Mediterrâneo no tempo de Daniel. Por isso, a profecia pôde designá-la pelo nome. Mas o chifre foi quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão deste povo (Dn 8:21-22). Estes já não são mencionados pelo nome, mas podemos confirmar na história a sua identidade. O terceiro reino é o império de Alexandre o Grande, e a subsequente divisão do seu imenso reino, após a sua morte prematura [em 323 a.C.], entre os seus quatro generais, passando a haver quatro reinos (8:22). Pode dizer-se que o terceiro reino é o da dominação helenística.
A narrativa bíblica (Dn 11:5-20) refere apenas dois dos quatro reinos helenísticos, o do Norte e o do Sul, porque a sua história diz diretamente respeito ao povo judeu. Durante 125 anos, a região da Judeia, que se situava entre a Síria no norte (governada pela dinastia Selêucida) e o Egipto no sul (dinastia dos Ptolomeus), foi objeto de contínuas lutas e frequente campo de batalha. Em [198 a.C.] Antíoco III o Grande, o rei do Norte, derrotou os egípcios e anexou a Judeia à Síria.
Perto do fim deste reino helenístico (“no fim do seu reinado”), saiu de um dos quatro chifres um chifre pequeno que se fez forte (Dn 8:9-14), que é o “rei de feroz catadura e entendido de intrigas” (8:23). Pela descrição que é feita dele, é o mesmo que o homem vil (Dn 11:21-32), personagem que a grande maioria dos estudiosos da Bíblia identifica como Antíoco IV, conhecido como Epifânio, que subiu ao trono da Síria em 176 a.C. mediante intrigas (8:23). Esta personagem recebe um grande destaque na narrativa (Dn 8:9-14, 23-26; 11:21-32).
Se olharmos para o quadro cronológico comparativo de Daniel no post anterior (o tempo dos gentios-2), compreende-se que se trata da mesma personagem que aparece para o fim do terceiro reino, e que pertence portanto ainda ao reino da Grécia.
O rei de feroz catadura levantou-se quando os prevaricadores acabaram (Dn 8:23). Esta frase enigmática na versão portuguesa tem uma tradução mais esclarecedora noutras versões[1], e em versões mais recentes - quando os transgressores tiverem chegado ao cúmulo - significando que o rei feroz se levantou por causa das transgressões que chegaram ao cúmulo. Quando Israel fazia compromissos com o inimigo e se afastava dos caminhos do Senhor, deixava o caminho livre para o inimigo atacar e dominar, como se vê repetidamente na história bíblica. É o que iria novamente acontecer aos judeus, desta vez sob Antíoco IV Epifânio.
Qual é a história? Os acontecimentos foram despoletados pela nomeação do sumo-sacerdote por Antíoco. O sumo-sacerdote, por vezes chamado o “príncipe da aliança” (Dn 11:22-23; Ez 44:3; 45:7), era a autoridade judaica máxima. Ele controlava o dinheiro do templo e detinha o poder financeiro, daí que o templo e o posto de sumo-sacerdote se tornassem cada vez mais um campo de rivalidades e intrigas entre judeus, como também de interesse para o poder governante. À morte do sumo-sacerdote Onias, Antíoco deu o posto a Jason, irmão de Onias. Mais tarde, zangou-se com ele e deu o sumo-sacerdócio a Menelaus, que não era sequer de linhagem sacerdotal. Menelaus apoiava a política de Antíoco de impor a lei e cultura helenística aos judeus, incluindo o culto dos deuses gregos. Muitos judeus aderiram ao helenismo.
Mas, mais tarde, quando Antíoco regressou, derrotado, de uma campanha contra o Egipto, voltou-se contra Jerusalém.
No tempo determinado tornará a vir em direção do sul [Egipto]; mas não será na última vez como foi na primeira (Nota: numa primeira campanha, ele fora bem sucedido). Porque virão contra ele navios de Quitim, que lhe causarão tristeza; e voltará, e se indignará contra a santa aliança, e fará o que lhe aprouver; voltará e atenderá aos que tiverem abandonado a santa aliança. E braços serão colocados sobre ele, que profanarão o santuário e a fortaleza, e tirarão o sacrifício contínuo, estabelecendo abominação desoladora. (Dn 11:29-31)
Antíoco saqueou e incendiou a cidade. Desta vez foi pela força que obrigou o povo a abandonar os seus costumes, a circuncisão, os holocaustos e as libações, o Sábado. Proibiu o sacrifício diário e profanou o templo, onde erigiu um altar a Zeus e sacrificou uma porca. Os que se recusavam a obedecer ao rei, eram perseguidos e executados. A história é contada nos livros apócrifos dos Macabeus.
E [o chifre pequeno] se engrandeceu até contra o exército do céu; e a alguns do exército, e das estrelas, lançou por terra, e os pisou. E se engrandeceu até contra o príncipe do exército; e por ele foi tirado o sacrifício contínuo, e o lugar do seu santuário foi lançado por terra. E um exército foi dado contra o sacrifício contínuo, por causa da transgressão; e lançou a verdade por terra, e o fez, e prosperou. (Dn 8:10-12)
E se fortalecerá o seu poder, mas não pela sua própria força; e destruirá maravilhosamente, e prosperará, e fará o que lhe aprouver; e destruirá os poderosos e o povo santo. E pelo seu entendimento também fará prosperar o engano na sua mão; e no seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos que vivem em segurança; e se levantará contra o Príncipe dos príncipes, mas sem mão será quebrado (Dn 8:24-25).
Mas havia entre o povo judeu quem resistisse. O povo que conhece ao seu Deus se tornará forte e ativo. Os entendidos entre o povo ensinarão a muitos; todavia cairão pela espada e pelo fogo, pelo cativeiro e pelo roubo, por algum tempo (Dn 11:32-33). Um sacerdote temente a Deus, chamado Matatias, matou o oficial que tentou oferecer o sacrifício a Zeus e depois fugiu para as montanhas com os seus cinco filhos. Muitos juntaram-se a eles. Quando Matatias morreu, o seu filho Judas cognominado Macabeu (de maqqabi = martelo), continuou a luta.
Depois de duras batalhas, o culto foi restaurado e o templo purificado. A dedicação do altar do templo deu origem à festa judaica de Hannukah, celebrada no dia 25 de dezembro. A desolação tinha durado 2300 dias (Dn 8:9-14, 23-26).
Depois ouvi um santo que falava; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão do sacrifício contínuo, e da transgressão assoladora, para que sejam entregues o santuário e o exército, a fim de serem pisados? E ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado (Dn 8:13-14).
Não satisfeitos com a purificação do templo apenas, os Macabeus conseguiram reconquistar a independência da Judeia. A dinastia dos Macabeus (também chamados Asmoneus) de sacerdotes-governantes, estabelecida por Simão Macabeu, governou a Judeia durante cerca de 80 anos, de 140 a 37 a.C. até que divisões internas e uma guerra de sucessão ameaçaram a unidade do reino. Na luta pelo trono entre os dois filhos de Alexandre Janeu, Roma interveio e subjugou a Judeia, que foi colocada debaixo da supervisão de um governador: Antipater da Idumeia, pai de Herodes. Começou o quarto reino, o Império Romano.



[1] Nomeadamente, na NIV when rebels have become completely wicked; na versão neerlandesa da NBG, als de boosdoeners de maat hebben volgemaakt (literalmente: quando os iníquos encheram a medida).

06/02/2016

OS TEMPOS DOS GENTIOS (2)

 - DANIEL 2, 7, 8, 10-12. Quadro-resumo dos quatro reinos

Coloquei as visões de Daniel (capítulos 2, 7, 8 e 10-12), que tratam dos quatro reinos de governação gentia, num quadro cronológico e comparativo, de modo a se perceber melhor o desenvolvimento da história. Também ajuda a perceber quem é quem nesta história. Percebemos que há dois “pequenos chifres”, um no tempo da Grécia, outro no tempo de Roma. O primeiro “pequeno chifre” parece corresponder ao “homem vil”, e o segundo “pequeno chifre” ao rei que fará segundo a sua vontade. Nas próximas mensagens falaremos dos “tempos dos gentios”, e vamos tentar identificar estas personagens.


Daniel 2
2º ano de Nabucodonosor
Daniel 7
1º ano de Belsazar
Daniel 8
3º ano de Belsazar
Daniel 10-12
3º ano de Ciro

Deus fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos dias (v.28).
Quatro animais subiam do mar. Os animais são 4 reinos que se levantarão da terra (v.3, 17), mas os santos receberão o reino (v.18)
Entende, filho do homem, pois esta visão se refere ao tempo do fim (v.17); o que há de acontecer no último tempo da ira (v.19); porque esta visão se refere ao tempo determinado do fim (v.19)
Agora vim para fazer-te entender o que há de suceder ao teu povo nos últimos dias (10:14)
BABILÓNIA
Nabucodonosor é a cabeça de ouro (da estátua), a quem o Deus do céu conferiu o reino o poder, a força e a glória (vs.32,37,38).
Como leão, com asas de águia (v.4)


MEDO-PÉRSIA
O peito e os braços de prata. Depois de Nab. se levantará outro reino, inferior ao dele (v.32, 39)
Como urso (v.5)
Carneiro com 2 chifres … são os reis da Média e da Pérsia (vs.3-4, 20)
Ainda 3 reis se levantarão na Pérsia; e o 4º será culminado de grandes riquezas … e empregará tudo contra o rei da Grécia (11:2)
GRÉCIA
Um terceiro reino, de bronze, o qual terá domínio sobre toda a terra (v.32,39)
Como leopardo, com 4 asas de ave e 4 cabeças (v.6)
Bode com 1 chifre; é o rei da Grécia (vs.5-8, 21).
O chifre quebrou e em seu lugar saíram 4 chifres (=4 reinos) (vs.8, 22).

De um dos chifres saiu um chifre pequeno (rei feroz) (vs.9-14,23-26)
Rei poderoso, cujo reino é quebrado e repartido para os 4 ventos (11:3-4)
Lutas Sul / Norte (11:5-20)


Um homem vil, do Norte (11:21-32)
O povo que conhece o seu Deus se torna forte e activo; todavia caem pela espada e pelo fogo (11:33-35)
ROMA
Um quarto reino … forte como o ferro … ele fará em pedaços e esmiuçará (v.33, 40-43).
Animal terrível com 10 chifres que são 10 reis (vs.7-8,19-25)
Um pequeno chifre que sobe dentre os 10; tem boca que fala com insolência; faz guerra contra os santos e prevalece contra eles,
 (vs.8, 20-21, 24-25).

O rei que fará segundo a sua vontade (11:36-45)

Uma pedra feriu a estátua nos pés (quarto reino) e são juntamente esmiuçados o ferro, barro, bronze, prata e ouro (v.34).
É tirado o domínio ao pequeno chifre e aos quatro animais (v.11-12, 26).

Tempo de angústia (12:1).

REINO DE DEUS
Uma pedra cortada sem mãos torna-se numa grande montanha que enche toda a terra. Este reino não será jamais destruído; não passará a outro povo (v.34-34,44-45).
Foi dado domínio eterno ao Filho do homem; o seu reino jamais será destruído (vs.13-14,26-27).
Os santos possuíram o reino (vs.18,27)

Tempo em que será salvo o teu povo (12:1)
Muitos ressuscitarão (2:2)
Os que forem sábios resplandecerão como as estrelas (12:3)


OS TEMPOS DOS GENTIOS (1)

A HISTÓRIA DOS 4 REINOS

O período que podemos designar como “os tempos dos gentios” começou quando Deus deu o reino a Nabucodonosor. Daniel di-lo claramente quando interpretou o sonho da estátua (Dn 2): Tu, ó rei, rei de reis, a quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória (Dn 2:37). E anos antes disso, antes que Judá caísse definitivamente nas mãos de Nabucodonosor, Jeremias já há o havia anunciado (Jr 25:9-11).
As visões de Daniel
Como já vimos em anteriores mensagens, o período que podemos identificar como as “setenta semanas” (Daniel 9) é uma fase da história do povo de Israel que começa com o regresso do cativeiro na Babilónia e termina na semana em que Jesus foi crucificado. Este período é retratado, não apenas na profecia das “setenta semanas” do capítulo 9, mas em todos os sonhos e visões registados no livro de Daniel (capítulos 2, 6, 7, 8, 9 e 10-12). Os outros livros que datam dessa mesma época – mais especificamente, dos primeiros 49 anos a seguir ao fim do cativeiro – são os livros históricos de Esdras, Neemias e Ester e os profetas Ageu, Zacarias e Malaquias.
Depois de Malaquias, o último profeta do Velho Testamento, mais nenhuma voz profética se levantou em Israel até que veio João Baptista. Este lapso de tempo durou mais de 400 anos e é frequentemente chamado de “silêncio profético”. Portanto se vos fará noite sem visão, e tereis treva sem adivinhação; pôr-se-á o sol sobre os profetas, e sobre eles se enegrecerá o dia (Mq 3:6).
No entanto, não é como se Deus tivesse deixado em branco todos estes séculos. Os acontecimentos deste tempo de “silêncio” que interessam à revelação de Deus estão documentados nas profecias e visões de Daniel.
Grande parte dos escritos de Daniel, bem que proféticos, têm um carácter predominantemente histórico. Aliás, no cânon hebraico, o livro de Daniel não se encontra entre os profetas, mas entre os livros históricos. As profecias de Daniel cobrem a história de Israel desde o terceiro ano de Jeoaquim – ano em que um primeiro grupo de judeus foi exilado para Babilónia, entre os quais Daniel –, até ao Messias e a inauguração do reino de Deus, e a subsequente destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 da nossa era.

O exílio na Babilónia
O livro de Jeremias é testemunha por excelência dos últimos anos do período monárquico da nação de Israel precedendo o exílio. Havia muitos anos que os profetas vinham anunciando o juízo de Deus sobre Judá. Cerca de 140 anos antes, Israel (Samaria) – o reino irmão de Judá depois da divisão que se seguiu ao reinado de Salomão – tinha sucumbido às invasões assírias, porque “não andavam no caminho do Senhor” (2 Rs 17)[1].
Logo quando começou a ministrar como jovem profeta, Jeremias alertava estar para breve a invasão, vinda do norte, de exércitos de uma nação estrangeira. No Velho Testamento, vemos Deus usar com frequência nações gentias como instrumento do seu juízo. Os caldeus da Babilónia, tais como outros povos invasores, são sempre descritos como vindos do norte, que é a direção simbólica de onde vem o juízo (Jr 1:14-15; 4:6-7; 6:1, 22; 10:22; 13:20; 20:4-5; 21:4-7; 25:9).
Durante o ministério de Jeremias em Jerusalém, a situação de Judá chegara a um ponto sem retorno. Deus proibiu mesmo ao profeta Jeremias de orar pelo povo (Jr 15:1-6; 16:15). A paciência de Deus chegara a um limite.
No terceiro ano de Jeoaquim, rei de Judá, Nabucodonosor veio a Jerusalém e sitiou a cidade. O Senhor entregou-lhe nas mãos o rei e alguns dos utensílios do templo, que foram levados para Babilónia (2 Cr 36:6-7). Nabucodonosor também levou um grupo de jovens israelitas, de linhagem real e dos nobres, entre os quais se encontravam Daniel e os seus amigos Sadraque, Mesaque e Abed-Nego, que foram educados na corte do rei da Babilónia (Dn 1:1-4).
Os últimos reis de Judá
(2 Rs 23; 2 Cr 36; Jr 22)
Josias
Jeoacaz (Salum) reinou 3 meses.
Jeoaquim (Eliaquim) reinou 11 anos.
Joaquim (Conias, Jeconias) reinou 3 meses.
Zedequias (Matatias) reinou 11 anos.
Com a primeira incursão de Nabucodonosor no tempo de Jeoaquim, Judá passou a ser uma espécie de protectorado da Babilónia. Era Nabucodonosor que determinava quem ocupava o trono de Judá. Depois de 11 anos de reinado, Jeoaquim foi sucedido por seu filho Joaquim, que não agradou a Nabucodonosor, que o deportou para Babilónia e o substituiu no trono em Jerusalém por Zedequias. Juntamente com o rei Joaquim, foi deportada grande parte da população, principalmente da classe alta, bem como os artífices e ferreiros, ou seja a mão-de-obra especializada, e os homens de guerra (2 Rs 24:6-16; 2 Cr 36:8-10). Neste grupo encontrava-se Ezequiel, que foi profeta entre os exilados de Judá na Babilónia. O profeta Jeremias escreveu uma carta aos exilados (Jr 29) a dizer que eles edificassem casas e tivessem uma vida normal na Babilónia, e que procurassem a paz da cidade para onde iam.
Durante o reinado de Zedequias, em Jerusalém, Jeremias intensificava os seus avisos, aconselhando vivamente ao rei, aos líderes da nação e ao povo, como também às nações em redor, de se submeterem ao jugo da Babilónia (Jr 27:5-7; 38:2-3, 17-18). Isto lhes seria para preservação da vida: Servi ao rei da Babilónia, e vivereis (Jr 27:11, 12, 17). Mas a sua mensagem caiu em ouvidos moucos. Em desobediência ao Senhor, Jerusalém opôs resistência.
O que aconteceu na corte de Nabucodonosor, onde estavam Daniel e seus amigos, ocupando altos cargos no reino, devia, contudo, ajudar a compreender os que ainda estavam em Judá que a submissão a Nabucodonosor não era uma coisa má, mas um tempo em que seriam protegidos. Sabemos que cartas circulavam (Jr 29; Jr 27:1-3; Jr 29:24-25). É bem possível que Daniel tenha po­­­­sto por escrito o sonho de Nabucodonosor (Dn 2) e a sua interpretação e enviado por carta a Jerusalém. É provável que a história de Sadraque, Mesaque e Abed-Nego na fornalha tenha chegado ao conhecimento do povo em Jerusalém. O facto de Nabucodonosor ter feito um decreto que ninguém blasfemasse a Deus e que fez prosperar os três amigos de Daniel (Dn 3:29-30) devia ser algo que confirmasse o que Jeremias dizia. As visões reveladas a Daniel eram de extrema importância para manter viva a esperança do povo judeu naquele tempo. O texto do capítulo 4 de Daniel foi enviado pelo próprio rei Nabucodonosor a todos os povos e nações, a glorificar a Deus. Deus estava trabalhando a converter o império babilónico. Judeus fiéis estavam a governar a terra com um rei convertido. Que desculpas tinham os que recusavam submeter-se a Nabucodonosor? A sua rebelião era uma rejeição do seu próprio Deus e de seus profetas, Jeremias, Ezequiel e Daniel.
Assim, onze anos depois do exílio do rei Joaquim, a cidade de Jerusalém caiu definitivamente nas mãos de Nabucodonosor, depois de um difícil cerco de três anos (Jr 39; Ez 33:21). A cidade e o templo foram queimados (2 Cr 36:19-21). O que restava dos tesouros do templo e quase todo o povo foram levados para o cativeiro. Apenas ficaram na terra os mais pobres. Um judeu, Gedalias, foi nomeado governador de Judá (Jr 40:7-16; 2 Rs 25:22-26).
Israel encontrava-se naquela situação porque transgredira a lei de Moisés. Em consequência, vieram sobre ele as suas maldições. Antes de atravessar o Jordão e entrar na terra prometida, no quadragésimo e último ano da travessia do deserto, a segunda geração de israelitas fora chamada a ouvir os estatutos do Senhor (Dt 4:1-40; Dt 28:15-68; 30, 31, 32). A primeira geração tinha perecido toda, com exceção de Josué e Calebe, por incredulidade. Guardar os estatutos do Senhor garantiria a posse (Dt 4:1) e a permanência na terra (Dt 4:26, 40; Dt 30:18). Não os guardando (e isto aconteceu como Moisés previu), pereceriam imediatamente da terra, seriam destruídos, desarreigados e espalhados entre os povos (Dt 4:26-27). Isto tornou-se realidade quando Nabucodonosor tomou Jerusalém e a destruiu, bem como o templo, e levou o povo para o exílio, de onde se espalharam e estabeleceram comunidades judaicas por todo o Império Neo-Babilónico.
Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se, para não obedecer à tua voz; por isso, a maldição, o juramento que está escrito na Lei de Moisés, servo de Deus, se derramou sobre nós; porque pecámos contra ele. E ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande mal; porquanto nunca debaixo de todo o céu aconteceu como em Jerusalém (oração de Daniel em Dn 9:11-12).
A realidade política, religiosa e espiritual de Judá mudou drasticamente. Como nação perdeu o seu território e autonomia de governo. Passaram a ser um povo exilado, sem terra, unido apenas pela religião.
Daniel, que estava no primeiro grupo de judeus que fora deportado para Babilónia, presenciou o princípio da dominação babilónica e viveu durante todo o tempo que durou este império na corte do rei, como conselheiro e ministro com elevadas responsabilidades. Já numa idade avançada, passados os 70 anos do cativeiro profetizados por Jeremias (Jr 25:8-12; 29:10), viveu também a transferência do poder para a Medo-Pérsia. A última profecia de Daniel (capítulos 10 a 12) data do terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, já depois do decreto que autorizara o regresso dos judeus à terra de Israel.
Após a tomada da Babilónia pelos medos e os persas, uma parte dos judeus[2] voltou à sua terra com a autorização e ajuda de Ciro (Ed 1). Habitaram na terra, mas não a possuíram no sentido de terem domínio, independência e autoridade política sobre o território. Passaram a estar debaixo do governo de sucessivos impérios gentios. Isto porque perderam o direito à terra. Anularam a aliança com Deus (Jr 31:32; Is 63:10). Lamentando-se no exílio, achando que a terra devia continuar em sua posse porque eram descendência de Abraão, Ezequiel esclareceu-os: Comeis a carne com sangue, levantais os olhos para os vossos ídolos, e derramais sangue; porventura haveis de possuir a terra? (Ez 33:24-26; 36:20; Is 63:18).
Pela aliança do Sinai, Israel fora constituído reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19:6). Enquanto povo sacerdotal de Deus, deviam dar o exemplo, ser o modelo para as outras nações (Dt 28: 9-10; 2 Sam 7:23). Mas em vez disso, conformaram-se com o mundo gentio e fizeram pior do que eles. Muitos foram mortos, os restantes foram expulsos da sua terra, exilados para uma terra estranha e dominados por outros povos. Perderam o trono e o reino terreno.
Israel falhara na sua missão de povo sacerdotal, pelo que Deus entregou também todos os outros reinos e nações a Nabucodonosor da Babilónia para que o servissem a ele, a seu filho e ao filho de seu filho, até que também chegue a vez da sua própria terra, quando muitas nações e grandes reis o farão seu escravo (Jr 27:5-7). A condição espiritual do povo de Deus reflete-se na condição dos povos em redor.
Regressados do exílio, Neemias diz assim:
Eis que hoje somos servos; e até na terra que deste a nossos pais, para comerem o seu fruto e o seu bem, eis que somos servos nela. Seus abundantes produtos são para os reis, que puseste sobre nós, por causa dos nossos pecados; e segundo a sua vontade dominam sobre os nossos corpos e sobre o nosso gado; estamos em grande angústia (Ne 9:36-37).
Conforme Daniel dissera a Nabucodonosor, este era a quem Deus conferiu o reino, o poder, a força e a glória; a cujas mãos foram entregues os filhos dos homens, onde quer que eles habitem … para que dominasses sobre todos eles (Dn 2:37-38). O mesmo é dito mais tarde de Ciro, o persa: o Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra (2 Cr 36:23; Ed 1:2). O juízo sobre Israel veio na forma do seu pecado. Desejaram ter um rei como tinham as outras nações (1 Sm 8:5); adoraram os deuses pagãos, os Baalins e os Astarotes; fizeram alianças com outras nações em vez de confiar na proteção do Senhor (2 Rs 16:7-8; 2 Cr 28:20-21).
A dominação gentia sobre Israel, que durou todo o tempo desde a conquista de Judá por Babilónia até que veio o reino de Deus pode ser chamado “o tempo dos gentios”. Os gentios dominariam até que viesse a libertação definitiva, na pessoa do Ungido, o Renovo do Senhor, o novo David.



[1] Devido às transgressões de Salomão, o reino dividiu-se no princípio do reinado do seu filho, Roboão, em dois reinos, Judá no sul e Israel no norte. O reino de Israel é também identificado como Samaria, a sua capital, ou Efraim, a tribo maior. Costuma-se dizer que o reino de Judá era formado por apenas duas tribos, Judá e Benjamim, e Israel pelas restantes dez tribos. Isto não é correto. Também faziam parte de Judá, as tribos de Simeão e de Levi. Em Génesis 49:5-8, Jacob profetizou que Simeão e Levi, por causa da violência que fizeram para salvar a honra da sua irmã Dina (Gn 34) seriam “divididos e espalhados em Israel”. Simeão não ocupou um território próprio delimitado com fronteiras, como no caso das outras tribos, mas foi absorvido no meio da tribo de Judá (ver a divisão da terra em Josué 19:1-9). Geograficamente, Simeão vivia em Judá, passando portanto a fazer parte de Judá. Levi, a tribo sacerdotal, não recebeu território algum, apenas teve direito a cidades dentro dos territórios das outras tribos. Quando o reino se dividiu, Jeroboão, rei de Israel, os lançou fora e instituiu um culto alternativo. Os levitas deixaram as suas possessões e foram para Judá e Jerusalém (1 Cr 11:13-16).
[2] A designação Judeus começou a ser usada a partir do tempo do exílio. Tem origem na palavra JEHUDIM (judaítas), que indicava os membros da tribo de Judá (JEHUDA) e que deu nome ao reino de Judá.