06/02/2016

OS TEMPOS DOS GENTIOS (1)

A HISTÓRIA DOS 4 REINOS

O período que podemos designar como “os tempos dos gentios” começou quando Deus deu o reino a Nabucodonosor. Daniel di-lo claramente quando interpretou o sonho da estátua (Dn 2): Tu, ó rei, rei de reis, a quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória (Dn 2:37). E anos antes disso, antes que Judá caísse definitivamente nas mãos de Nabucodonosor, Jeremias já há o havia anunciado (Jr 25:9-11).
As visões de Daniel
Como já vimos em anteriores mensagens, o período que podemos identificar como as “setenta semanas” (Daniel 9) é uma fase da história do povo de Israel que começa com o regresso do cativeiro na Babilónia e termina na semana em que Jesus foi crucificado. Este período é retratado, não apenas na profecia das “setenta semanas” do capítulo 9, mas em todos os sonhos e visões registados no livro de Daniel (capítulos 2, 6, 7, 8, 9 e 10-12). Os outros livros que datam dessa mesma época – mais especificamente, dos primeiros 49 anos a seguir ao fim do cativeiro – são os livros históricos de Esdras, Neemias e Ester e os profetas Ageu, Zacarias e Malaquias.
Depois de Malaquias, o último profeta do Velho Testamento, mais nenhuma voz profética se levantou em Israel até que veio João Baptista. Este lapso de tempo durou mais de 400 anos e é frequentemente chamado de “silêncio profético”. Portanto se vos fará noite sem visão, e tereis treva sem adivinhação; pôr-se-á o sol sobre os profetas, e sobre eles se enegrecerá o dia (Mq 3:6).
No entanto, não é como se Deus tivesse deixado em branco todos estes séculos. Os acontecimentos deste tempo de “silêncio” que interessam à revelação de Deus estão documentados nas profecias e visões de Daniel.
Grande parte dos escritos de Daniel, bem que proféticos, têm um carácter predominantemente histórico. Aliás, no cânon hebraico, o livro de Daniel não se encontra entre os profetas, mas entre os livros históricos. As profecias de Daniel cobrem a história de Israel desde o terceiro ano de Jeoaquim – ano em que um primeiro grupo de judeus foi exilado para Babilónia, entre os quais Daniel –, até ao Messias e a inauguração do reino de Deus, e a subsequente destruição de Jerusalém e do templo no ano 70 da nossa era.

O exílio na Babilónia
O livro de Jeremias é testemunha por excelência dos últimos anos do período monárquico da nação de Israel precedendo o exílio. Havia muitos anos que os profetas vinham anunciando o juízo de Deus sobre Judá. Cerca de 140 anos antes, Israel (Samaria) – o reino irmão de Judá depois da divisão que se seguiu ao reinado de Salomão – tinha sucumbido às invasões assírias, porque “não andavam no caminho do Senhor” (2 Rs 17)[1].
Logo quando começou a ministrar como jovem profeta, Jeremias alertava estar para breve a invasão, vinda do norte, de exércitos de uma nação estrangeira. No Velho Testamento, vemos Deus usar com frequência nações gentias como instrumento do seu juízo. Os caldeus da Babilónia, tais como outros povos invasores, são sempre descritos como vindos do norte, que é a direção simbólica de onde vem o juízo (Jr 1:14-15; 4:6-7; 6:1, 22; 10:22; 13:20; 20:4-5; 21:4-7; 25:9).
Durante o ministério de Jeremias em Jerusalém, a situação de Judá chegara a um ponto sem retorno. Deus proibiu mesmo ao profeta Jeremias de orar pelo povo (Jr 15:1-6; 16:15). A paciência de Deus chegara a um limite.
No terceiro ano de Jeoaquim, rei de Judá, Nabucodonosor veio a Jerusalém e sitiou a cidade. O Senhor entregou-lhe nas mãos o rei e alguns dos utensílios do templo, que foram levados para Babilónia (2 Cr 36:6-7). Nabucodonosor também levou um grupo de jovens israelitas, de linhagem real e dos nobres, entre os quais se encontravam Daniel e os seus amigos Sadraque, Mesaque e Abed-Nego, que foram educados na corte do rei da Babilónia (Dn 1:1-4).
Os últimos reis de Judá
(2 Rs 23; 2 Cr 36; Jr 22)
Josias
Jeoacaz (Salum) reinou 3 meses.
Jeoaquim (Eliaquim) reinou 11 anos.
Joaquim (Conias, Jeconias) reinou 3 meses.
Zedequias (Matatias) reinou 11 anos.
Com a primeira incursão de Nabucodonosor no tempo de Jeoaquim, Judá passou a ser uma espécie de protectorado da Babilónia. Era Nabucodonosor que determinava quem ocupava o trono de Judá. Depois de 11 anos de reinado, Jeoaquim foi sucedido por seu filho Joaquim, que não agradou a Nabucodonosor, que o deportou para Babilónia e o substituiu no trono em Jerusalém por Zedequias. Juntamente com o rei Joaquim, foi deportada grande parte da população, principalmente da classe alta, bem como os artífices e ferreiros, ou seja a mão-de-obra especializada, e os homens de guerra (2 Rs 24:6-16; 2 Cr 36:8-10). Neste grupo encontrava-se Ezequiel, que foi profeta entre os exilados de Judá na Babilónia. O profeta Jeremias escreveu uma carta aos exilados (Jr 29) a dizer que eles edificassem casas e tivessem uma vida normal na Babilónia, e que procurassem a paz da cidade para onde iam.
Durante o reinado de Zedequias, em Jerusalém, Jeremias intensificava os seus avisos, aconselhando vivamente ao rei, aos líderes da nação e ao povo, como também às nações em redor, de se submeterem ao jugo da Babilónia (Jr 27:5-7; 38:2-3, 17-18). Isto lhes seria para preservação da vida: Servi ao rei da Babilónia, e vivereis (Jr 27:11, 12, 17). Mas a sua mensagem caiu em ouvidos moucos. Em desobediência ao Senhor, Jerusalém opôs resistência.
O que aconteceu na corte de Nabucodonosor, onde estavam Daniel e seus amigos, ocupando altos cargos no reino, devia, contudo, ajudar a compreender os que ainda estavam em Judá que a submissão a Nabucodonosor não era uma coisa má, mas um tempo em que seriam protegidos. Sabemos que cartas circulavam (Jr 29; Jr 27:1-3; Jr 29:24-25). É bem possível que Daniel tenha po­­­­sto por escrito o sonho de Nabucodonosor (Dn 2) e a sua interpretação e enviado por carta a Jerusalém. É provável que a história de Sadraque, Mesaque e Abed-Nego na fornalha tenha chegado ao conhecimento do povo em Jerusalém. O facto de Nabucodonosor ter feito um decreto que ninguém blasfemasse a Deus e que fez prosperar os três amigos de Daniel (Dn 3:29-30) devia ser algo que confirmasse o que Jeremias dizia. As visões reveladas a Daniel eram de extrema importância para manter viva a esperança do povo judeu naquele tempo. O texto do capítulo 4 de Daniel foi enviado pelo próprio rei Nabucodonosor a todos os povos e nações, a glorificar a Deus. Deus estava trabalhando a converter o império babilónico. Judeus fiéis estavam a governar a terra com um rei convertido. Que desculpas tinham os que recusavam submeter-se a Nabucodonosor? A sua rebelião era uma rejeição do seu próprio Deus e de seus profetas, Jeremias, Ezequiel e Daniel.
Assim, onze anos depois do exílio do rei Joaquim, a cidade de Jerusalém caiu definitivamente nas mãos de Nabucodonosor, depois de um difícil cerco de três anos (Jr 39; Ez 33:21). A cidade e o templo foram queimados (2 Cr 36:19-21). O que restava dos tesouros do templo e quase todo o povo foram levados para o cativeiro. Apenas ficaram na terra os mais pobres. Um judeu, Gedalias, foi nomeado governador de Judá (Jr 40:7-16; 2 Rs 25:22-26).
Israel encontrava-se naquela situação porque transgredira a lei de Moisés. Em consequência, vieram sobre ele as suas maldições. Antes de atravessar o Jordão e entrar na terra prometida, no quadragésimo e último ano da travessia do deserto, a segunda geração de israelitas fora chamada a ouvir os estatutos do Senhor (Dt 4:1-40; Dt 28:15-68; 30, 31, 32). A primeira geração tinha perecido toda, com exceção de Josué e Calebe, por incredulidade. Guardar os estatutos do Senhor garantiria a posse (Dt 4:1) e a permanência na terra (Dt 4:26, 40; Dt 30:18). Não os guardando (e isto aconteceu como Moisés previu), pereceriam imediatamente da terra, seriam destruídos, desarreigados e espalhados entre os povos (Dt 4:26-27). Isto tornou-se realidade quando Nabucodonosor tomou Jerusalém e a destruiu, bem como o templo, e levou o povo para o exílio, de onde se espalharam e estabeleceram comunidades judaicas por todo o Império Neo-Babilónico.
Sim, todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se, para não obedecer à tua voz; por isso, a maldição, o juramento que está escrito na Lei de Moisés, servo de Deus, se derramou sobre nós; porque pecámos contra ele. E ele confirmou a sua palavra, que falou contra nós e contra os nossos juízes que nos julgavam, trazendo sobre nós um grande mal; porquanto nunca debaixo de todo o céu aconteceu como em Jerusalém (oração de Daniel em Dn 9:11-12).
A realidade política, religiosa e espiritual de Judá mudou drasticamente. Como nação perdeu o seu território e autonomia de governo. Passaram a ser um povo exilado, sem terra, unido apenas pela religião.
Daniel, que estava no primeiro grupo de judeus que fora deportado para Babilónia, presenciou o princípio da dominação babilónica e viveu durante todo o tempo que durou este império na corte do rei, como conselheiro e ministro com elevadas responsabilidades. Já numa idade avançada, passados os 70 anos do cativeiro profetizados por Jeremias (Jr 25:8-12; 29:10), viveu também a transferência do poder para a Medo-Pérsia. A última profecia de Daniel (capítulos 10 a 12) data do terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, já depois do decreto que autorizara o regresso dos judeus à terra de Israel.
Após a tomada da Babilónia pelos medos e os persas, uma parte dos judeus[2] voltou à sua terra com a autorização e ajuda de Ciro (Ed 1). Habitaram na terra, mas não a possuíram no sentido de terem domínio, independência e autoridade política sobre o território. Passaram a estar debaixo do governo de sucessivos impérios gentios. Isto porque perderam o direito à terra. Anularam a aliança com Deus (Jr 31:32; Is 63:10). Lamentando-se no exílio, achando que a terra devia continuar em sua posse porque eram descendência de Abraão, Ezequiel esclareceu-os: Comeis a carne com sangue, levantais os olhos para os vossos ídolos, e derramais sangue; porventura haveis de possuir a terra? (Ez 33:24-26; 36:20; Is 63:18).
Pela aliança do Sinai, Israel fora constituído reino de sacerdotes e nação santa (Ex 19:6). Enquanto povo sacerdotal de Deus, deviam dar o exemplo, ser o modelo para as outras nações (Dt 28: 9-10; 2 Sam 7:23). Mas em vez disso, conformaram-se com o mundo gentio e fizeram pior do que eles. Muitos foram mortos, os restantes foram expulsos da sua terra, exilados para uma terra estranha e dominados por outros povos. Perderam o trono e o reino terreno.
Israel falhara na sua missão de povo sacerdotal, pelo que Deus entregou também todos os outros reinos e nações a Nabucodonosor da Babilónia para que o servissem a ele, a seu filho e ao filho de seu filho, até que também chegue a vez da sua própria terra, quando muitas nações e grandes reis o farão seu escravo (Jr 27:5-7). A condição espiritual do povo de Deus reflete-se na condição dos povos em redor.
Regressados do exílio, Neemias diz assim:
Eis que hoje somos servos; e até na terra que deste a nossos pais, para comerem o seu fruto e o seu bem, eis que somos servos nela. Seus abundantes produtos são para os reis, que puseste sobre nós, por causa dos nossos pecados; e segundo a sua vontade dominam sobre os nossos corpos e sobre o nosso gado; estamos em grande angústia (Ne 9:36-37).
Conforme Daniel dissera a Nabucodonosor, este era a quem Deus conferiu o reino, o poder, a força e a glória; a cujas mãos foram entregues os filhos dos homens, onde quer que eles habitem … para que dominasses sobre todos eles (Dn 2:37-38). O mesmo é dito mais tarde de Ciro, o persa: o Senhor Deus dos céus me deu todos os reinos da terra (2 Cr 36:23; Ed 1:2). O juízo sobre Israel veio na forma do seu pecado. Desejaram ter um rei como tinham as outras nações (1 Sm 8:5); adoraram os deuses pagãos, os Baalins e os Astarotes; fizeram alianças com outras nações em vez de confiar na proteção do Senhor (2 Rs 16:7-8; 2 Cr 28:20-21).
A dominação gentia sobre Israel, que durou todo o tempo desde a conquista de Judá por Babilónia até que veio o reino de Deus pode ser chamado “o tempo dos gentios”. Os gentios dominariam até que viesse a libertação definitiva, na pessoa do Ungido, o Renovo do Senhor, o novo David.



[1] Devido às transgressões de Salomão, o reino dividiu-se no princípio do reinado do seu filho, Roboão, em dois reinos, Judá no sul e Israel no norte. O reino de Israel é também identificado como Samaria, a sua capital, ou Efraim, a tribo maior. Costuma-se dizer que o reino de Judá era formado por apenas duas tribos, Judá e Benjamim, e Israel pelas restantes dez tribos. Isto não é correto. Também faziam parte de Judá, as tribos de Simeão e de Levi. Em Génesis 49:5-8, Jacob profetizou que Simeão e Levi, por causa da violência que fizeram para salvar a honra da sua irmã Dina (Gn 34) seriam “divididos e espalhados em Israel”. Simeão não ocupou um território próprio delimitado com fronteiras, como no caso das outras tribos, mas foi absorvido no meio da tribo de Judá (ver a divisão da terra em Josué 19:1-9). Geograficamente, Simeão vivia em Judá, passando portanto a fazer parte de Judá. Levi, a tribo sacerdotal, não recebeu território algum, apenas teve direito a cidades dentro dos territórios das outras tribos. Quando o reino se dividiu, Jeroboão, rei de Israel, os lançou fora e instituiu um culto alternativo. Os levitas deixaram as suas possessões e foram para Judá e Jerusalém (1 Cr 11:13-16).
[2] A designação Judeus começou a ser usada a partir do tempo do exílio. Tem origem na palavra JEHUDIM (judaítas), que indicava os membros da tribo de Judá (JEHUDA) e que deu nome ao reino de Judá.

24/01/2016

O muro de Neemias (esquema)



Cronologia 7 semanas (7) – Neemias o governador


Retomamos o fio à meada com uma recapitulação do que se passou desde a tomada da Babilónia pelos persas até ao tempo de Ester:

Ano 3465


Tomada da Babilónia mês VII.  Fim dos 70 anos para Babilónia  Jr 25:6-11; 2Cr 36:22. Entrada triunfal de Ciro mês VIII (= Dário o medo recebe o reino Dn 5:31). Gubaru morre. Ciro constitui sátrapas e 3 presidentes incl. Daniel (Dn 6:1-3). Petição e conspiração contra Daniel. Cova dos leões. Luta oficial por Cassandane, mulher de Ciro mês XII
3466

70º
ano do cativeiro.
= Ciro ano 1 como Rei de Nações. Cambises instalado como rei de Babilónia mês I. Ciro instalado como rei dos medos por Ciaxeres II. Daniel ora e recebe profecia (Dn 9). Cambises removido mês IX/X e Ciro indigitado rei da Babilónia além de Rei de Nações. Gabriel confirma Dario o medo (Dn 11:1). Decreto de Ciro.
3467

1
Primeiro ano do regresso dos judeus a Jerusalém e início das primeiras 7 semanas (49 anos) da profecia de Daniel 9 em que “as praças e circunvalações se reedificarão, mas em tempos angustiosos”.

Os judeus regressam a Jerusalém, na primavera, sob a direção de Zorobabel (governador) e Jesua. Fazem parte do grupo: Neemias (como “tirshata”), Esdras, Mordecai. Edificação do altar. Leitura da lei e festa dos tabernáculos mês VII (Ed 3:1-7, Ne 8,9). Aliança é selada (Ne 10).
3468

2
Ciro ano 3. Segundo ano da vinda a Jerusalém. Visão Daniel 10. Começo da obra do templo mês II. Começo da oposição. Cessa a obra até ao 2º ano de Dario.
3469

3





Neste tempo em que as obras do templo pararam, Esdras e Neemias, que vieram com Zorobabel e Jesua devem ter regressado a Babilónia. Neemias porque era um oficial ao serviço do rei (Ne 1:11). Esdras era escriba e sacerdote.
3470

4
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5
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6
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17
3484

18
3485

19
2º ano de Dario. Ageu e Zacarias começam a profetizar mês VI. Fundou-se o templo mês IX (Ag 2:10,18; Zc 8)). Mês XI visão de Zacarias 1 do homem no cavalo vermelho entre as murteiras. Zc 1:12 - até quando não terás compaixão de Jerusalém e das cidades de Judá, contra as quais estás indignado faz já 70 anos? (refere ao início do cerco no 9º ano de Zedequias, ano 3415)
3486

20
3º ano de Dario/Assuero. Dario dá um banquete. Rainha Vasti é deposta (Es 1)
3487

21
Zc 7:1-5 - 4º ano de Dario, 4º dia, mês IX - perguntaram aos sacerdotes e aos profetas: Continuaremos nós a chorar, com jejum, no 5º mês, como temos feito por tantos anos? … Quando jejuastes e pranteastes no 5º e no 7º mês durante estes 70 anos … (refere-se à queda de Jerusalém no 11º ano de Zedequias)
3488

22
5º ano de Dario
3489

23
6º ano de Dario. Na cidadela de Susã, Ester é colocada sob os cuidados de Hegai, guarda das mulheres (Es 2:1-14). O templo é terminado no mês XII (Adar), dia 3.
3490

24
7º ano de Dario. Dedicação do templo no início do ano. Celebração da Páscoa (Ed 6:19-22). Esdras sobe a Jerusalém (chega no mês V), levando prata e ouro para ornar o templo (Ed 7-8). Esdras toma conhecimento da transgressão do povo (Ed 9-10).
Ester é levada ao rei, no 10º mês (Es 2:16) e casa com Dario. O banquete de Ester (Es 2:15-18)
3491

25
3492

26
3493

27
10º
3494

28
11º ano de Dario. Hamã é engrandecido. Mordecai recusa inclinar-se perante ele e provoca a ira de Hamã.
3495

29
Hamã lança sortes, do início ao fim do ano, para definir o dia para destruir os judeus (Es  3:7)
3496

30
Foram enviadas as cartas autorizando a matança dos judeus no dia 13 do 12º mês. Ester e Mordecai conseguem reverter a situação a favor dos judeus. Cumprimento da “batalha de Gogue e Magogue” no dia 13 do 12º mês. Vitória dos judeus e instituição da festa do Purim.
3497

31
Depois disto (quando?) Assuero impôs tributo sobre a terra (Es 10:1)
Mordecai torna-se o segundo depois do rei Assuero/Dario (Es 10:3)
3498

32
15º
3499

33
16º
3500

34
17º
3501

35
18º
3502

36
19º
3503

37
20º ano de Dario.
No mês de quisleu (IX), no ano 20º, estando eu na cidadela de Susã, veio Hanani, um de meus irmãos, com alguns de Judá; então lhes perguntei pelos judeus que escaparam, e que não foram levados para o exílio e acerca de Jerusalém. Disseram-me: os restantes, que não foram levados para o exílio e se acham lá na província, estão em grande miséria e desprezo: os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas queimadas a fogo. (Ne 1:1-3)
Pensa-se que a inscrição de Behistun, no Irão, escrita em três línguas de escrita cuneiforme, terá sido escrita por Dario no 5º ano do seu reino. A inscrição relata como Dario derrubou todos os nove pretendentes ao trono, bem como outros feitos e conquistas de Dario nos primeiros anos do seu reinado. Ao dominar sobre um grande império, tornou-se “arta-xerxes” (grande xá) do Império Persa. Isto explica a mudança de nome de Dario para Artaxerxes quando passamos dos eventos do 4º ano (Ageu, Zacarias) para o 7º ano, ano da ida de Esdras para Jerusalém.
Esdras 6:14 – Edificaram a casa e a terminaram segundo o mandado do Deus de Israel, e segundo o decreto de Ciro, de Dario, e (isto é) de Artaxerxes, rei da Pérsia. Apenas duas pessoas são nomeadas aqui.
Depois de Esdras ir a Jerusalém no 7º ano de Artaxerxes/Dario, Neemias parte no 20º ano deste rei, depois de tomar conhecimento através de Hanani da situação em que se encontrava o povo e a cidade de Jerusalém. Os que se acham na província estão em grande miséria e desprezo; os muros de Jerusalém estão derribados, e as suas portas queimadas a fogo (Ne 1:1-4). Os judeus já tinham tentado começar a reconstrução dos muros logo desde a sua chegada, como dá a entender a carta de Reum e Sinsai a Artaxerxas/Ciro ou Cambises que diz que vão restaurando os seus muros (Ed 4:12). Na sequência desta carta, os judeus tinham sido proibidos de continuar a edificar a cidade, incluindo evidentemente os muros (Ed 4:21). E a obra da casa de Deus cessou até ao segundo ano de Dario (Ed 4:24). Parece, no entanto, que continuou a haver construção em Jerusalém. Quando no segundo ano de Dario, o profeta Ageu começa a profetizar, ele acusa-os de habitarem em casas apaineladas, enquanto a casa de Deus permanecia em ruinas. No segundo ano de Dario, os judeus recomeçaram a obra do templo, sem autorização. Sabemos isto porque Tatenai, governador dalém do Eufrates, lhes foi perguntar: Quem vos deu ordem para reedificardes esta casa e restaurardes este muro? (Ed 5:3). O muro aqui refere-se provavelmente ao muro do templo e não da cidade. Do segundo ao sexto ano de Dario, todo o esforço de construção incidiu provavelmente apenas no templo. No 20º ano de Artaxerxes/Dario, 13 anos depois de terminar as obras do templo e de orná-lo com as ofertas que Edras trouxe, ainda não tinham conseguido avançar com as obras de restauro dos muros, devido à condição de grande miséria em que se achavam (Ne 1:3).
Com a autorização de Dario de construir o templo parecia ter chegado uma interrupção nos tempos angustiosos. Contudo, houve outro acontecimento que deve ter causado grande angústia entre os judeus espalhados por todo o Império persa, e naturalmente também em Judá, e que terá certamente abrandado e dificultado o trabalho de construção. No 12º ano do rei Assuero/Dario (somos de opinião que o Assuero de Ester é Dario), começou Haman a procurar destruir todos os judeus, porque Mordecai recusara-se a inclinar-se perante ele. Com a conivência do rei, Haman enviou cartas a todas as províncias para que se destruíssem, matassem e aniquilassem de vez a todos os judeus, moços e velhos, crianças e mulheres, em um só dia, no dia treze do duodécimo mês, que é o mês de Adar, e que lhes saqueassem os bens (Es 3:13). Estas cartas suscitaram o ódio de todos os povos contra os judeus, preparando-se um massacre geral. Para salvar o seu povo, Ester declarou a sua descendência, o que não fizera antes por obediência a Mordecai, e pediu a vida do seu povo. O rei concedeu que os judeus de cada cidade se reunissem e se dispusessem para defender a sua vida, para destruir, matar e aniquilar qualquer força armada que viesse contra eles, no mesmo dia que tinha sido determinado por Haman para destruição dos judeus (Ester 8:10-14). Os judeus mataram 75.000 (Ester 9) e também Haman foi morto.
Mas as dificuldades não terminaram ainda. Depois destes acontecimentos, o rei Assuero/Dario impôs tributo sobre a terra e sobre as terras do mar (Es 10:1), também sobre o povo de Judá, que tomaram dinheiro emprestado até para o tributo do rei (Ne 5:4). (O tributo imposto por Assuero depois do seu 12º ano é uma prova de que Assuero é Dario, e não Xerxes, porque Dario subjugou todas as ilhas do Egeu, mas Xerxes perdeu-as todas antes do 12º ano do seu reinado.)
Realmente, a conjuntura económica e social não estava favorável aos judeus. Assim, no vigésimo ano de Artaxerxes/Dario, os muros continuavam em ruínas e as portas ainda estavam queimadas como quando foram incendiados pelas tropas de Nabucodonosor. Contudo, alguma obra estava a ser feita quando Neemias chegou a Jerusalém (Ne 2:16).
Neemias pediu ao rei, estando a rainha [Ester] assentada junto dele, que o enviasse a Jerusalém a fim de reedificar cidade. Lembremos que depois da vitória dos judeus no 13º ano do reinado de Assuero/Dario, Mordecai tornou-se uma figura importante no reino, o segundo depois do rei, e que procurava o bem-estar e prosperidade do seu povo (Es 10:3). Também a rainha Ester tinha autoridade em assuntos que diziam respeito aos judeus (Es 10:29). Por isso, certamente, o pedido de Neemias foi bem recebido pelo rei que concordou em enviá-lo.
O rei perguntou-lhe: Quanto durará a tua ausência, quando voltarás? Neemias marcou um certo prazo (Ne 2:4-6). Este prazo foi de 12 anos, porque no ano trinta e dois de Artaxerxas Neemias foi ter com ele (Ne 13:6). Observamos que o 32º ano de Artaxerxes/Dario corresponde ao 49º ano das primeiras 7 semanas da profecia de Daniel 9. O regresso de Neemias encerra este ciclo de 7 semanas.
Mas há um problema a resolver, que é o seguinte. Diz Neemias 6:15 que o muro se acabou no dia 25 do mês de Elul, que é o 6º mês (mas não diz em que ano), em 52 dias.
A maioria dos comentários deduz que os muros foram reedificados em 52 dias, e teriam portanto sido terminados no primeiro ano da chegada de Neemias a Jerusalém, isto é no 20º ano do rei Artaxerxes/Dario. Se for este o caso, a nossa hipótese cai por terra.
Porém, podemos apontar várias razões que nos levam a crer que a reedificação dos muros durou na realidade quase 12 anos, o tempo da estadia de Neemias em Jerusalém, e não apenas 52 dias como parece dar a entender Esdras 6:15.
Sabemos que Neemias foi governador (PECAH) na terra de Judá do ano 20 ao ano 32 do rei Artaxerxes (Ne 5:14).
Perante a gravidade da situação que foi comunicada por Hanani, Neemias marcara ao rei um prazo de 12 anos (Ne 2:6; 5:14; 13:6). Se pensasse que podia fazer a obra num mais curto prazo de tempo, Neemias não teria pedido ao rei 12 anos para reedificar Jerusalém.
A cidade era espaçosa e grande (Ne 7:4), mas havia pouca gente nele. Isto ainda era assim depois de os muros terem sido reedificados. Na realidade, dos judeus que voltaram à sua terra depois do exílio, só uma pequena parte se instalou em Jerusalém. Deitaram sorte para trazer um de dez que habitasse na santa cidade de Jerusalém, e as nove partes permaneciam noutras cidades, nas suas cidades de origem (Ne 11:1-). Seriam poucos os trabalhadores para fazer a reconstrução do muro, portanto, outros teriam que vir de fora da cidade e certamente fazer turnos.
Quando olhamos para a sucessão dos factos que ocorreram em Jerusalém durante o tempo de Neemias como governador (que são apresentados numa narrativa cronológica desde o começo das obras até à dedicação do muro), é difícil encaixar todos os eventos num tão curto período de 52 dias. Vejamos:
- O desagrado dos locais (Sambalate e Tobias) que alguém viesse procurar o bem dos filhos de Israel já era notório quando Neemias foi primeiro aos governadores dalém do Eufrates entregar as cartas do rei (Ne 2:9-10). Ainda nenhuma obra tinha sido iniciado e já a oposição estava no ar. Continuam os “tempos angustiosos”.
- Chegado a Jerusalém, Neemias foi inspeccionar os muros de noite. Contemplou os muros que estavam assolados, cujas portas tinham sido consumidos pelo fogo (Ne 2:13).
- Ouvindo dos planos de reedificar os muros, Sambalat e Tobias desprezaram os judeus (Ne 2:19-20).
- Encorajados por Neemias, o povo dispôs-se a edificar (Ne 3). O capítulo3 de Neemias descreve quem faz o quê sobre toda a extensão do muro.
O bom senso diz que é improvável, senão impossível, que em 52 dias se levante uma obra destas dimensões, estando escrito que os muros de Jerusalém estavam derrubados e as portas queimadas a fogo e perante a dimensão do muro.
Embora os arqueólogos não estejam de acordo sobre a dimensão do muro, o texto bíblico mostra que tem 11 portas, 10 mencionadas em Ne 3 (porta das ovelhas, porta do peixe, porta velha, porta do vale, porta do monturo, porta da fonte, porta das águas, porta dos cavalos, porta oriental e porta da guarda) e 1 mencionada em Ne 12:39, mais quatro torres. Trata-se, portanto, de uma cidade grande. Cidades mais pequenas tinham geralmente só uma porta, para maior segurança e facilidade de defesa.
Tantas portas significa que havia necessidade de muita madeira (Ne 2:8), tempo para cortar a madeira e fabricar as portas. 52 dias não são sequer dois meses …
- Tendo Sambalat ouvido que edificavam o muro, ardeu em ira e foi buscar o apoio do exército estacionado em Samaria (Ne 4:2-3).
- Apesar do desprezo mostrado pelos opositores, Neemias orou e os judeus continuaram a edificar com muito afinco e todo o muro se fechou até metade da sua altura (Ne 4:6).
- Ouvindo Sambalat e Tobias, a quem já se tinham reunido arábios, amonitas e asdoditas (Ne 4:7), que a reparação dos muros ia avante e que já se começavam a fechar-lhe as brechas, ficaram muito irados e ajuntaram-se de comum acordo para atacarem Jerusalém, suscitar confusão e atemorizar os judeus. Pensavam agir em segredo e ataca-los repentinamente, mas os judeus foram informados destes planos (Ne 4: 11-12).
- Agora os trabalhadores passaram a trabalhar armados (Ne 4:13-23)… em tempos angustiosos.
- Surge uma questão interna (Neemias 5). Havia uma fome e houve quem tivesse que hipotecar os seus bens para ter alimentos, além de ter emprestado dinheiro para pagar o tributo imposto pelo rei. Alguns aproveitaram-se da situação e exploraram estas famílias. Neemias repreendeu os nobres e magistrados e disse-lhes: sois usurários, exigindo-lhes que restituíssem terras, bens e dinheiro. A fome (Ne 5:3), as constantes ameaças, e esta questão interna terão certamente atrasado a obra.
- O muro estava edificado e nele já não havia brechas nenhumas, embora ainda não tivessem sido postas as portas nos portais, quando se deu a tentativa de Sambalat, Tobias e Gesém de matar Neemias (Ne 6:1-14).
- Finalmente acabou-se o muro no dia 25 do mês de Elul, que é o 6º mês, em 52 dias. (Ne 6:15).
Como não estavam ainda colocadas as portas, parece-me mais praticável que os 52 dias corresponda o tempo que durou a colocação das portas após o término da reconstrução do muro propriamente dito.
- Uma vez reedificado o muro e assentadas as portas, Neemias, que era o governador (Ne 8:8; 10:1), nomeou Hanani, seu irmão, e Hananias, o maioral da fortaleza, sobre Jerusalém (Ne 7:1-2). Nomear um substituto significa que Neemias estava a preparar-se para regressar a Susã, visto que a sua missão em Jerusalém terminara conforme o que tinha acordado com o rei. Isto prova também que as obras não terminaram antes do 31º ou o mais tardar o 32º ano de Dario/Artaxerxes.
- Deus pôs no coração de Neemias ajuntar os nobres, os magistrados e o povo para registar as genealogias. Achou o livro da genealogia dos que subiram primeiro com Zorobabel e Jesus. Neste parêntese entre o término das obras e a dedicação do muro (Ne12), Neemias recorda os acontecimentos dos primeiros tempos depois do regresso do exílio (Ne 7:6 a 12:26), o início dos 49 anos.
- Dedicação dos muros (Ne 12:27-45).
 Neemias organizou dois coros que andaram em procissão sobre o muro, desde a porta da fonte, um coro numa direção, o segundo na direção oposta, encontrando-se na porta da guarda, de onde foram para o templo. Também o povo ia por cima do muro (Ne 12:38).
- ano 3515 AH.
No ano 32 de Artaxerxes, Neemias voltou para Babilónia (Ne 13:6), mas regressou depois de algum tempo. Entretanto, Eliasibe o sacerdote tinha-se aparentado com Tobias e fez para este uma câmara no templo.

Quando regressou a Jerusalém, Neemias também viu que o povo tinha voltado a cair em pecado. Não guardaram o sábado, deixando as portas abertas aos mercadores (Ne 13:15-22) e casaram-se com mulheres estrangeiras (Ne 13:23-29). Era nomeadamente o caso de um dos filhos de Joiada, filho do sumo-sacerdote Eliasibe, contaminando o sacerdócio.

27/12/2015

Cronologia 7 semanas (6) – Gogue e Magogue

Muitos estranharão inserirmos aqui, no contexto do livro de Ester, as profecias em Ezequiel 38 e 39 sobre Gogue, da terra de Magogue.
A batalha de Gogue e Magogue é frequentemente interpretada como pertencendo a um futuro escatológico. Uma exceção foi Matthew Henry (1662-1714), que no seu comentário afirma ser muito provável que esta profecia tenha tido o seu cumprimento algum tempo depois do regresso de Israel do cativeiro, embora ele não consiga situá-la exatamente no tempo.
Um autor contemporâneo, James Jordan, numa série artigos intitulados «Esther: Historical & Chronologial Comments» propõe que Ezequiel 38-39 descreve o ataque de Hamã e seus confederados contra os judeus. Os acontecimentos, narrados no livro de Ester, no 13º ano de Assuero/Dario, são a realização da profecia da batalha de Gog e Magog.
Vamos analisar esta hipótese.

O contexto histórico
Primeiro, temos que pôr a visão do profeta Ezequiel capítulos 38-39 no seu contexto.
No ano 12º do exílio, Ezequiel recebe a notícia de que a cidade de Jerusalém tinha caído (33:21). A terra foi tornada em desolação; os montes de Israel tão desolados que ninguém passava por eles (33:28). As ovelhas espalharam-se por toda a terra porque os seus pastores não as apascentaram (34:1-9). Mas, a seguir, e no ponto mais negro da história de Israel, vem uma série de profecias sobre o restauro de Israel à sua terra. “Vós, ó montes de Israel, vós produzireis os vossos ramos e dareis o vosso fruto para o meu povo de Israel o qual está prestes a vir (36:8)… Tomar-vos-ei de entre as nações e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra” (36:24). Israel estava no exílio; a sua esperança pereceu, o vale de ossos mortos que Ezequiel viu era toda a casa de Israel. Mas eles seriam reestabelecidos na sua própria terra (37:11-14)… Israel seria novamente uma nação: a vara de José juntou-se à vara de Judá (37:1-22). Quando regressaram do exílio, sob a direção de Zorobabel e Jesua, eram um povo, conhecidos como “judeus”, já não havia divisão entre Israel/Efraim e Judá como foi o caso durante o tempo da monarquia dividida. Nestes capítulos 36 e 37 de Ezequiel há predições sobre o que viria a ser a Nova Aliança, mas uma primeira realização destas profecias de Ezequiel dá-se com o regresso dos judeus à sua terra e a reconstrução do santuário. O regresso do exílio constituíra para os judeus uma nova oportunidade, uma espécie de segundo Êxodo, desta vez não do Egipto, mas agora da Babilónia. Depois das alianças mosaica e davídica, veio a aliança da restauração (frequentemente esquecida, e pouco conhecida). A aliança davídica fracassou, o povo foi exilado. Mas Deus renova a sua aliança; novas promessas são dadas (Isaías, Jeremias, Ezequiel) – que serão realizadas no “Renovo”. O período depois do exílio constitui o tempo de formação para uma nova aliança; o regresso do povo à terra era o primeiro passo em direção à Nova Aliança. Era a primeira fase dos “últimos dias”. A aliança da restauração tinha como promessa não a posse de uma Canaã terrena, mas a vinda do Renovo e com ele a era messiânica, o derramar do Espírito, e a vinda do reino de Deus.
No profeta Jeremias encontramos a mesma ideia. “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a David um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado; Senhor Justiça Nossa. Portanto, eis que vêm dias, diz o Senhor, em que nunca mais dirão: Tão certo como vive o Senhor que fez subir os filhos de Israel da terra do Egipto; mas: Tão certo como vive o senhor, que fez subir, que trouxe a descendência da casa de Israel da terra do Norte, e de todas as terras para onde os tinha arrojado; e habitarão na sua terra” (Jr23:5-8). Isto profetizou Jeremias depois que Joaquim/Jeconias fora levado para Babilónia em exílio (Jr 22:20-30). A referência dos judeus não mais seria o Êxodo, mas o regresso do exílio na Babilónia.
Portanto, o contexto da profecia em Ezequiel 38-39 é a de um povo que, do exílio, reunido, foi novamente trazido à sua terra, com uma nova aliança (Restauração), com um novo templo, um novo sumo-sacerdote (Zc 3).

De que fala Ezequiel 38-39?
Neste contexto histórico e espiritual, Ezequiel 38 e 39 fala da invasão de um exército composto de muitos povos, uma grande multidão (38:4-7), dirigido por Gogue, da terra de Magogue, príncipe de Meseque e Tubal (38:2), contra um povo que se recuperou da espada, um povo que se congregou dentre muitos povos sobre os montes de Israel que estavam desolados (38:8); contra um povo que vivia seguro, habitando sem muros e sem ferrolhos nas portas (38:11-12, 14). Mas os intentos de Gogue serão frustrados. Apesar da multidão que está com ele, é contra ela que a espada é chamada (38:21-23); é ele e as suas tropas que cairão (39:4). Eles serão sepultados no que será chamado o Vale das Forças (ou multidão) de Gogue.
§  O templo fora reconstruído num período de paz, com a autorização do rei Dario. No 2º ano do seu reinado, quando se iniciou a edificação do templo, na visão de Zacarias, a terra estava repousada e tranquila (Zc 1:11). O templo foi terminado no final do 6º ano e inaugurado no início do 7º ano de Dario. Depois da inauguração do templo, Dario casou com Ester. Quando se preparou o ataque aos judeus, no 13º ano de Dario, em Jerusalém, os muros da cidade e as portas ainda estavam em ruinas e as portas queimadas (Ne 1:1-3). No resto do enorme reino de Dario, os judeus habitavam “sem muros”, desprotegidos, no meio de outros povos.

§  O reino de Dario era enorme; tinha 127 províncias onde habitavam muitos povos. O exército de Gogue era constituído por uma multidão de muitos povos. Os povos que são mencionados pelo nome podem ser encontrados na lista das nações em Génesis 10. Magog, Meseque, Tubal, Gomer, Togarma e Társis são da descendência jafetita. Cuxe (etíopes), Pute, Sabá e Dedã são descendentes de Cão. Ez 38:2 menciona a Pérsia/os persas. A capital da Pérsia, Susã, estava na província de Elão (Dn 8:1). Os elamitas pertencem ao reino da Pérsia, ou são identificados como os persas. Os elamitas são descendentes de Sem.
Nas palavras de Jordan, a noção parece ser a de uma conspiração de povos primordiais contra o verdadeiro remanescente semita.
As cartas de Hamã, cuja ordem era para todos os povos se reunirem e aniquilarem os judeus, e saquearem os seus bens, dirigiam-se aos sátrapas do rei, aos governadores de todas as províncias e aos príncipes de cada povo; eram escritas em muitas línguas, a cada povo na sua própria língua… (Ester 3:12-14).
§  Gogue e suas tropas serão sepultados no que será chamado o Vale das Forças (ou multidão) de Gogue; em hebraico, o vale de HAMON-GOG. A palavra hebraica traduzida forças ou multidão é HAMON (HMN).
HAMON faz lembrar Hamã (HAMAN), o agagita (Es3:1), que arquitetou o ataque contra os judeus. A palavra é escrita exatamente da mesma maneira (HMN), com as mesmas consoantes, já que o hebraico não tem vogais.
Podemos encontrar afinidades entre Hamã e Gogue?
Hamã, enquanto “agagita”, era descendente de AGAG, o rei amalequita vencido por Saul. Também AGAG e GOG têm uma sonoridade parecida e escrevem-se com as mesmas letras.
Os amalequitas eram o povo que Israel teve de enfrentar pouco depois de sair do Egipto (Ex 17). A promessa de Deus foi: eu hei de riscar totalmente a memória de Amaleque de debaixo do céu … e também disse: haverá guerra do Senhor contra Amaleque de geração em geração.
Depois disso, Israel ainda enfrentará os amalequitas muitas vezes: Nm 13:29; 14:25,45; Jz 3:13; 6:3; 1Sm 14:48.
Em Dt 25:17-19, é dito a Israel acerca de Amaleque: Quando o Senhor teu Deus te houver dado sossego de todos os teus inimigos em redor, na terra que o senhor teu Deus te dá por herança, para a possuíres, apagarás a memória de Amaleque de debaixo do céu; não te esqueças.
A Saul (1Sam 15) foi ordenado ferir Amaleque e destruí-lo totalmente e nada poupar. Mas ele desobedeceu, tomou vivo Agague e poupou o melhor dos animais. Assim continuamos a encontrar os amalequitas no tempo de David (1Sam 27:8), e nos dias de Ezequias, rei de Judá (1Cr 4:41-43). Depois do cativeiro, Israel voltou à sua terra. Amaleque, na figura de Hamã, prepara um novo ataque.
O príncipe de Meseque e Tubal aplica-se a Hamã?
Algumas versões traduziram “o príncipe de Rosh, de Meseque e de Tubal”, o que não está correta. ROSH não é um lugar ou um povo, mas significa primeiro, princípio, principal. Portanto, o NASI ROSH é o príncipe-mor, o príncipe e chefe que está sobre os outros. Isto aplica-se perfeitamente a Hamã: Assuero pôs o trono de Hamã acima de todos os príncipes (Es 3:1).
§  Tal como na profecia sobre Gogue, no livro de Ester os judeus obtiveram uma estrondosa vitória sobre o inimigo. O ataque perpetrado por Hamã e a multidão de povos com ele contra os judeus em todo o reino da Pérsia reverteu-se numa vitória destes, que originou a festa de Purim (Es 9).
O número de mortos que os judeus mataram nesse dia 13 do mês de Adar foi 75.000. Este número é consentâneo com a quantidade de armas que queimaram e saquearam, e o tempo que levaram a sepultar todos os mortos.
Desta vez, Amaleque foi totalmente destruído. Foram enforcados os 10 filhos de Hamã. Dez é o número que indica a totalidade.

Jeremias 49:34-39
Esta profecia de Jeremias é um oráculo contra Elão. Ela insere-se nas profecias de Jeremias contra as nações (Jr 46-49). Deus dissera que todas as nações seriam dadas a Nabucodonosor (Jr 25:9). Ele conquistou-as uma atrás da outra: Egipto, Filistia, Fenícia, Moabe, Amom, Edom, Síria, Quedar e Hazor. Mas quando chega a vez de Elão, nada é dito de Nabucodonosor. Todos os comentadores sugerem que a derrota de Elão em Jr 49:34-39 é a derrota da Pérsia quando conquistada por Alexandre o Grande. Susã era a capital do Elão, e Daniel estava na cidadela de Susã quando recebeu a visão em Daniel 8. Nesta visão, ele vê o carneiro da Pérsia (Dn 8:3-4, 20) engrandecer-se e depois ser vencido pelo bode que representa Alexandre (Dn 8:5-7, 21).
Uma interpretação diferente é dada por James Jordan quando sugere que esta passagem em Jeremias é mais provavelmente uma profecia dos eventos em Ester. Dn 8:2 mostra expressamente a ligação entre Susã e Elão, o que é importante porque os eventos em Ester ocorrem na cidade real de Susã, capital de Elão-Pérsia desde o tempo de Dario.
O que segue é traduzido de Jordan, J. - Esther: Historical & Chronological comments (I), Biblical Chronology, nº 3, 1996.
Jr 49:35 – Deus diz que quebrará o arco de Elão, a fonte do seu poder. Os persas eram conhecidos por serem bons arqueiros. Depois diz: Trarei sobre Elão os quatro ventos dos quatro ângulos do céu, e os espalharei na direção de todos estes ventos (v.36). Os quatro ventos não são um símbolo de invasão militar, como habitualmente interpretado, mas de uma invasão Espiritual.
Zc 2:6 afirma que Deus espalhou o seu povo como os quatro ventos do céu, isto é: depois do regresso do exílio, quando a Pérsia dominava o mundo. O símbolo é identificado. Zc 6:5 mostra os santos como os quatro ventos do céu saindo sobre cavalos para levar a conquista espiritual de Deus ao mundo daquele tempo. O mundo, que estava em paz em Zc 1, seria agora abalado porque o Templo de Deus fora restaurado e o Espírito Santo derramando-se no mundo (Zc 4).
Os quatro ventos são a manifestação humana do grande vento do Espírito; em hebraico, “espírito” é “sopro”. Ezequiel, escrevendo na mesma época que Jeremias, fala dos quatro ventos no capítulo 37. Ali a nação de Israel é figurada como ossos secos espalhados pelo vale. “Poderão reviver estes ossos?” é perguntado a Ezequiel. Estes ossos são toda a casa de Israel, são os ossos dos apóstatas, que o próprio Deus espalhou (Ez 6). Podem eles viver? Esta passagem não trata da ressurreição individual, mas da ressurreição e restauração do Israel idólatra e apóstata enquanto nação sacerdotal de Deus às nações. Ezequiel é dito para profetizar aos ossos, que o Sopro (Espírito) entre neles. Especificamente, é-lhe dito para dizer: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam (Ez 37:9). Noutras palavras, Israel não será restaurado por uma rajada de vento misteriosa do Espírito caindo do céu. Mas será restaurado quando o povo justo, especialmente os profetas, lhe trazem o Espírito. Serão os quatro ventos, o povo santo de Deus, que restauram Israel quando o exílio está terminado. Trata-se de uma predição dos eventos que ocorrem em Zacarias.
Semelhantemente, quando Daniel vê os quatro ventos do céu agitar o grande mar gentio em Daniel 7.2, é uma imagem da obra evangelista do povo de Deus no mundo. Esta obra evangelista traz os quatro grandes guardiões angélicos de Israel, grandes monstros que mostram os dentes contra os inimigos dos judeus. Quando um monstro deixa de fazer o seu trabalho, é substituído pelo seguinte.
Daniel 8:8, que fala dos quatro sucessores de Alexandre como “quatro chifres notáveis que saíram para os quatro ventos do céu”, é geralmente visto como os quatro impérios gregos para o norte, sul, este e oeste de Israel. Mas é mais provável que sejam os chifres de poder e proteção apontados para os quatro ventos, no sentido que apontam para Israel. Primeiro protegem Israel e, mais tarde, um deles, o pequeno chifre, vira-se contra Israel.
Tudo isto serve para esclarecer que o símbolo dos quatro ventos do céu é um símbolo da obra evangelística do povo de Deus, não um símbolo de exércitos gentios invadindo um país. Elão será conquistado pelo evangelho, pela ação dos judeus, não por um exército inimigo.
O Elão pagão será destruído diante dos seus inimigos. Deus enviará a espada atrás deles até consumi-los. Então Deus porá o seu trono em Elão (Jr 49:37-38) e restaurará a sorte de Elão (v.39).

Quando serão cumpridas estas coisas? Foram cumpridas nos eventos do livro de Ester. Hamã incitou os elamitas persas que odiavam os judeus a ataca-los. Mas Deus inverteu a sorte do seu povo. Os judeus tiveram autorização para usar a espada contra os que os odiavam. Muitos elamitas converteram-se à verdadeira fé (Ester 8:17) antes que acontecesse o massacre dos elamitas que procuravam o mal aos judeus (Ester 9). Assim, como predito, os quatro ventos do evangelismo vieram primeiro, e depois a espada da destruição. Depois disso, Ester e Mordecai tornaram-se grandes na terra, e o trono de Deus foi estabelecido.