Entre Noé, Sem e Arfaxade (que se seguem na linhagem de
Jesus), há uma aparente descontinuidade.
Gn 5:32 diz que Noé era da idade de 500 anos quando gerou
Sem, Cão e Jafé.
Trata-se de trigémeos? Ou consta apenas o ano de nascimento
do primogénito?
Gn 7:6 diz que Noé tinha 600 anos (isto é, no ano 600 da
vida de Noé) quando as águas do dilúvio inundaram a terra.
Gn 8:13 - No ano 601 da vida de Noé, no primeiro dia do
primeiro mês secaram as águas e Noé removeu a cobertura.
Gn 11:10 – Sem era da idade de 100 anos quando gerou a
Arfaxade, 2 anos depois do dilúvio.
Portanto, se o dilúvio teve lugar no ano 1656, Arfaxade
nasceu 2 anos depois, portanto em 1658.
Como Gn 5:32 menciona Sem em primeiro lugar, estaríamos
inclinados a dizer que Sem é o primogénito. Mas se isto fosse o caso Sem devia
ter 100 anos quando o dilúvio começou e não 2 anos depois do dilúvio. Sabemos,
porém, que Sem está incluído na linhagem da semente redentora que levará até
Jesus, por isso ele é mencionado primeiro. Mas não é o primogénito.
Isto leva-nos ao tema do primogénito.
A história de Caim, Abel e Sete já nos revelou que ser o
primogénito não significa necessariamente ser um elo na linhagem que garante a
continuação da promessa de Gn 3:15, ou seja na linhagem genealógica de Jesus.
Caim era o primogénito. Mas Abel seria o herdeiro, se não
tivesse sido morto, pelo que Eva disse quando deu à luz Sete: Deus me concedeu
outro descendente em lugar de Abel
(Gn 4:25).
Sem também não era o primogénito, mas era o herdeiro. Quem
era o primogénito? Cão ou Jafé? A maioria defende que Jafé era o mais velho e Cão o mais novo, baseado em Gn 9:24 que diz que Noé soube o que lhe fizera o filho mais moço, que por sua vez remete ao v.22 que diz que Cão, tendo entrado na tenda do pai, viu a sua nudez. Além disso, baseiam-se em Gn 10:21 (King James Bible) onde diz que Jafé é o irmão mais velho de Sem.
Aparentemente, não há que se enganar.
No entanto, relativamente a este último versículo, várias
traduções (entre outras a que usamos de João Ferreira de Almeida) dizem que Sem é irmão mais velho de Jafé. Neste
caso, Jafé será o mais novo e Cão o mais velho. Mas então o que fazer de Gn
9:24 que parece indicar que Cão era o mais novo?Há prós e contras para as duas interpretações.
Proponho a seguinte hipótese:
- Cão é o mais velho, e perdeu o direito de primogenitura a
favor de Sem, o segundo filho, o irmão do meio. Do modo como, provavelmente,
Caim perdeu a primogenitura para Abel.- Jafé é o mais novo. Nada é dito dele que lhe tivesse feito perder o seu direito de primogénito se ele fosse o mais velho.
- Canaã, filho mais velho e herdeiro de Cão, é o mais novo a que se refere Gn 9:24. Possivelmente foi adotado por Noé, tal como Jacó adotou como seus os filhos de José, Efraim e Manassés. Canaã é amaldiçoado porque Cão perdeu o seu direito de primogénito e, por conseguinte, foi excluído da linhagem da semente da mulher.
Penso que a solução pode ser encontrada no significado da
terra de Canaã, a terra prometida, a terra da herança. De quem é a posse? A
terra que pertence ao filho mais novo (considerando Cão o mais novo) passaria a
ser a terra que Deus prometeu a Abraão? Logicamente, não deveria ser a terra do
filho primogénito que passasse a ser a terra prometida, a terra que mana leite
e mel, duplamente abençoada? E esta terra passaria a ser herança daquele que
substitui o primogénito?
Olhemos para dois exemplos onde se trata de primogenitura:
1) Jacó e Esaú, e 2) a situação de Ruben, Judá e José.
Esaú vendeu o seu
direito de primogenitura a Jacó (Gn 25:27-34). Mais tarde, Jacó engana Isaque e
recebe a bênção do primogénito (Gn 27:35), que teria sido de Esaú se este não
tivesse vendido o direito. Esaú ficou sem
bênção alguma (Gn 27:36-37; Hb 12:16-17).
Ruben, primogénito de Jacó, perdeu o direito e a bênção
porque se deitou com a concubina de seu pai (Gn 35:22; 49:3-4). Em 1 Crónicas
5:1-2 lemos que Ruben não foi contado como primogénito e que a sua
primogenitura foi dada aos filhos de José. De Judá veio o príncipe, porém o
direito da primogenitura foi de José.
Depreendemos destes dois exemplos que o direito de
primogenitura não era inalienável. O primogénito de facto podia perder este
direito, por pecado, até mesmo vendê-lo.
Em que consistia esse direito de primogenitura e a bênção
associada?
- Deus te dê do orvalho do céu e da exuberância da terra, e fartura
de trigo e de mosto (Gn27:28) = prosperidade vinda da terra, porção dobrada (Dt
21:17)
- Sirvam-te povos, e nações te reverenciem: sê senhor de
teus irmãos e os filhos de tua mãe se encurvem a ti (Gn 27:29) = autoridade,
domínio, precedência (2 Cro 21:3)
- Maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te
abençoar. (Gn27:29)
Esaú viveria longe dos lugares férteis da terra, sem orvalho
que cai do alto. Viveria da espada e serviria a seu irmão (Gn 27:40).
Ruben perdeu o direito. Simeaõ e Levi também não entraram em
linha de conta pela violência que fizeram (Gn 49:5-7). A autoridade, o domínio,
o cetro passou a pertencer a Judá, quarto filho de Lia (Gn 49:8-12). A bênção
do primogénito - a porção dobrada - foi para José, filho mais velho de Raquel (os
filhos das concubinas de Jacó não entraram em linha de conta), através de
Efraim e Manassés, filhos de José.
Depois de Jacó, o direito de primogenitura é repartido por
dois. José recebeu o direito de primogenitura – a bênção da porção dobrada –,
mas quem está na linhagem de Jesus é Judá, não José. Judá é o príncipe, que
terá o domínio, de onde virá a dinastia de David, o rei.
Esta transmissão da primogenitura de Jacó para um filho de
Lia e um filho de Raquel está em concordância com Deuteronómio 21:15-17: Se um
homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem aborrece, e uma e
outra lhe derem filhos, e o primogénito for da aborrecida, no dia em que fizer
herdar a seus filhos aquilo que possuir não poderá dar a primogenitura ao filho
da amada, preferindo-o ao filho da aborrecida, que é o primogénito. Mas ao
filho da aborrecida reconhecerá por primogénito, dando-lhe dobrada porção de
tudo quanto possuir; porquanto é o primogénito do seu vigor: o direito da
primogenitura é dele.
Isto também dá a entender que o direito de primogenitura não
pode ser alienada pelo pai por capricho. Embora José fosse o filho mais amado
de Jacó (Gn 37:3), Jacó não o podia privilegiar sobre os filhos de Lia (Ruben,
Simeão, Levi e Judá).O que me leva a concluir que Jafé, nada tendo feito para desmerecer o direito de primogénito, não terá sido por Noé (por Deus) preterido a favor de Sem. Cão, sendo o mais velho, sim, perdeu o direito de primogenitura pelo seu comportamento.
Quem considera Jafé o mais velho (é o caso de Jordan), não
tem explicação para a preferência de Sem sobre Jafé. Diz apenas que em todo o
livro de Génesis, o filho primogénito é posto de lado a favor de um filho mais
novo, indicando assim a necessidade de um segundo Adão (JORDAN, J. The sin of
Ham and the curse of Canaan. An Exposition of Genesis 9:20-27. Part 1 & 2. Biblical Horizons Newsletter, nº 96,
97, 98. 1997).
Mas tiraria o Senhor a primogenitura a alguém sem uma razão
válida, para simbolicamente ilustrar a necessidade de um segundo Adão, filho
mais novo?