22/12/2020

Ester na história


Muito poucos acreditam na historicidade do livro de Ester. O livro é geralmente considerado uma história de ficção, uma fábula oriental, não um documento histórico. Além de alegadamente não ser histórico, também é criticado por sua aparente ausência de valor religioso.

Defendo a historicidade do livro de Ester. E quanto à ausência do nome de Deus no livro, isto não significa que Deus esteja ausente da história. Basta olhar para Ester 6.1. Foi coincidência se o rei não conseguia dormir naquela noite (a noite anterior ao dia em que Haman planeou enforcar Mardoqueu) e leu que Mardoqueu tinha evitado uma conspiração contra ele? Apesar de Deus não ser mencionado, o seu controlo sobre todas as coisas é visível. Ainda, o livro de Ester tem o seu lugar entre os outros livros. O projeto de Haman de matar todos os judeus (3:6) constituía uma ameaça à preservação da linhagem do Salvador prometido em Génesis.

Quando defendemos a historicidade de Ester, levanta-se uma questão fundamental, que é uma questão cronológica: onde se encaixa Ester, ou seja: qual é a identidade do rei chamado Assuero no livro de Ester?

A grande maioria dos comentadores e historiadores identifica Assuero com Xerxes. Outros, como Josefo, com Artaxerxes Longimano (Ant. 11.cap 6) [1]

Alguns identificam o Assuero de Ester com Dario, como já era o caso de Ussher. Esta é também a minha posição, já apresentada em várias mensagens deste blog. Com isso defendo que o Artaxerxes de Esdras e Neemias também é Dario, o que resulta numa cronologia internamente lógica, inteligível e justificável dos livros de Esdras-Neemias-Ester [2]

Para melhor compreensão, uma lista dos reis persas que nos interessam:

Ciro        (559-530)

Cambyses  (530-522)

Bardya (outros nomes: o Mago, Gaumata, Pseudo-Smérdis)

Dario     (521-486)

Xerxes  (486-465)

Artaxerxes                                                                              

 Resumimos também a cronologia dos factos dos livros de Esdras-Neemias-Ester, que se passam todos no tempo de Dario:

No 2º ano de Dario, os profetas Ageu e Zacarias incitam os judeus a retomarem a construção do templo (que estava parada há vários anos devido à oposição). Uma ordem do rei Dario autorizou a construção com base no decreto de Ciro. O templo é terminado no 6º ano de Dario. No 7º ano, Esdras regressa a Jerusalém, com a incumbência de ornar o templo com prata e ouro que trouxe da Babilónia. Por este tempo, Ester chega à fortaleza de Susan e no 7º ano de Assuero/Dario, Ester é levada ao rei. Recebe a coroa real e feita rainha em lugar de Vasti. No ano 12º de Assuero/Dario, Haman começa a por em ação a sua vingança contra Mardoqueu e os judeus. No 14º ano dá-se o pogrom e a vitória dos judeus que deu origem à festa do Purim. No 20º ano de Artaxerxes/Dario, Neemias vai para Jerusalém para restaurar o muro. No ano seguinte, quando este é terminado e as portas assentes, celebra-se e dedicação dos muros. Neemias regressa à Susan junto do rei no 32º ano de Artaxerxes/Dario.

 

Quem era Ester na história?

Poderá ela ser Artístone (transliteração grega do nome Artastana ou Irtasduna em elamita) identificada pelo historiador grego Heródoto como a rainha preferida de Dario I e filha de Ciro, irmã ou meia-irmã de Atossa? Artístone seria alegadamente a Irtasduna dos arquivos de Persépolis

Tentei coligir alguma informação sobre esta personagem. Nomeadamente, o que escreve o historiador Heródoto em Histórias; o que encontramos em fontes persas primárias, nomeadamente os arquivos de Persépolis; e o que dizem alguns estudos recentes sobre esta personagem.

 

Heródoto

A história do império persa aqueménida é principalmente conhecida através de autores gregos, como Ésquilo, Xénofon, Ctesias e, especialmente, Heródoto na sua obra ”Histórias”, produzida entre 440 e 430 a.C.. Eles tinham a sua informação geralmente de fontes secundárias (note-se que Dario reinou de 521 a 486 a.C.).

O que nos diz Heródoto sobre Artístone é o seguinte:

Quando foi proclamado rei, Dario casou com duas princesas, Atossa e Artístone, que eram filhas de Ciro. Atossa já tinha sido a mulher de Cambyses e também de Gaumata. Artístone era virgem. Casando com elas, Dario cimentou o seu direito legítimo ao trono do Império Persa, pois na realidade a sua ascensão ao trono resultou de uma tomada violenta do poder com o assassinato do usurpador Gaumata, o falso Bardiya (Hdt 3.78, 88).

Heródoto menciona o comandante de tropas Arsames, que era filho de Dario e sua mãe era a filha de Ciro, Artístone, a mulher favorita de Dario, que mandou fazer uma estátua dela em ouro (Hdt 7.69).

O casal tinha três filhos: Arsames, Gobryas e Artozostre (filha).


Arquivo de Persépolis

No Arquivo de Persépolis (Persepolis Fortification Tablets), uma fonte primária, aparece uma mulher chamada Irtasduna, que terá sido mulher de Dario e que parece ter sido uma das mulheres mais influentes na corte aqueménida.

O Arquivo de Persépolis é constituído por milhares de tabuletas administrativas. Há dois grupos de arquivos, segundo o local onde foram encontradas, são designadas como Fortification Tablets (PF), que datam de 509-494 a.C. (aprox. do 14º ao 28º ano de Dario) e Treasury Tables (PT) de 492-458 a.C. (do 30º ano de Dario ao princípio do reinado de Artaxerxes). Estes arquivos registam a alocação e distribuição de bens alimentares dos armazéns reais a administradores, trabalhadores agrícolas, artistas, pessoas da corte, sacerdotes e membros da família real. O arquivo é escrito em elamita cuneiforme.

Um reduzido grupo específico (J Texts) dos Fortification Tablets representa um tipo especial por causa do elevado estatuto dos indivíduos envolvidos e as elevadas quantidades de bens transacionados ou consumidos. Distinguem-se pelo uso de uma expressão cujo sentido é “dispensado perante o rei” e “dispensado por conta/em nome do rei”.

Neste grupo, aparecem duas mulheres: Irdabama e Irtasduna. Elas têm um estatuto especial no arquivo, que parece dar-lhes autoridade de usar os mantimentos da casa real. De facto, são as únicas que tomam o lugar do rei nos J Texts. As transações são ratificadas com o seu selo pessoal, o que parece indicar que as porções foram emitidas com base na sua autoridade pessoal.

Irtasduna é referida em 27 documentos. Em duas ocasiões, o seu nome é acompanhada do título durkšiš – princesa.

O Arquivo mostra que ela detinha pelo menos três propriedades, com uma fábrica de tapeçaria e também um palácio. As suas propriedades eram geridas por mordomos e tinha mão-de-obra própria. Existem ordens de Irtasduna aos gestores das suas propriedades.

Os documentos mostram a rainha a requisitar grandes quantidades de trigo, farinha, figos e vinho, e também ovelhas. Ela não aparece apenas como recetora de um grande número de ovelhas, trigo e vinho, mas também como alguém em nome de quem se consumiam grandes quantidades de alimentos, provavelmente pessoas que estavam dependentes dela.

Irtasduna tinha o seu próprio selo. Selos eram usados no antigo Médio Oriente para ratificar transações e documentos e comprar propriedades. Selos e as impressões dos selos são elementos arqueológicos importantes.

Irtasduna viajava pelo núcleo central do império, por vezes com Irdabama e por vezes na companhia do seu filho, o príncipe Arsama.

No ano de 498 a.C. (24º ano de Dario) ela fez um banquete para Dario, às custas dele, como mostra o selo.

 

 


Figura. - Selo de Irtasduna

Imagem retirada de Garrison, M. (1991). Seals and the Elite at Persepolis: Some Observations on Early Achaemenid Persian Art. Ars Orientalis, 21, 1-29. Retrieved December 8, 2020, from http://www.jstor.org/stable/4629411

O selo mostra uma variante do encontro heróico. Um herói, com barba quadrada, uma veste do tipo assíro e uma adaga, agarra dois touros rampantes que têm cabeça humana e cornos. Na parte inferior do selo há traços do que parece ser um incensário. Do lado esquerdo, uma planta estilizada que consiste em dois (ou três) vasos ou cestos um por cima do outro dos quais emergem folhas. Por cima disto há um torso e cabeça que formam uma figura masculina contida num duplo círculo do qual irradiam raios que terminam em estrelas. A figura olha e estende ambas as mãos para sua esquerda. Na mão parece ter uma espécie de pluma ou folha de palma. Estilisticamente, o selo tem tradições assiro-babilónicas, mesopotâmicas mas também siro-palestinianas.


 Atossa

Outra personagem histórica por vezes associada com Ester é Atossa. Ussher menciona a semelhança sonora de Atossa com Hadassah.

Atossa era filha de Ciro, de acordo com Heródoto, e irmã mais velha de Arístone, segundo Heródoto. Atossa fora consorte de Cambises II e, depois da morte deste, passou para o harém de Gaumata (o Pseudo-Smerdis). Quando Dario matou este, ele também tomou posse do harém, casou com Atossa e fê-la sua consorte principal. Atossa tinha quatro filhos com Dario, sendo Xerxes o mais velho. Mas Xerxes não era seu primogénito (Dario tinha três filhos com a sua primeira mulher) e a escolha de Dario de nomear Xerxes como co-regente (em 496 a.C.) seria devida à grande influência e poder de Atossa. Durante o reino de seu filho ela manteve o importante estatuto de rainha-mãe.

Porém, a sua fama de rainha influente no reino persa como relatada por Heródoto em «Histórias» poderá ter tido origem na peça “Os Persas” do dramaturgo grego Ésquilo, encenada pela primeira vez em 472 a.C.. A peça fala da derrota de Xerxes contra a frota grega na batalha de Salamis, mas a verdadeira protagonista é a figura imponente de Atossa, a mãe de Xerxes (embora o nome dela não seja mencionado na tragédia), que está no coração da ação, em contraste com o fraco Xerxes. A imagem da poderosa Atossa é uma imagem literária e não um facto histórico comprovado.

Relativamente à questão da sucessão existe uma fonte primária. Numa inscrição em três línguas (antigo persa, acadiano e elamita), Xerxes diz que havia outros filhos de Dario, mas que era a vontade de Ahura Mazda, a divindade persa, que Dario o fez rei. O facto de mencionar outros filhos implica que a sua nomeação como sucessor não era evidente, concordando assim com Heródoto. Mas Xerxes não faz qualquer menção do papel que a sua mãe possa ter tido. A genealogia registada na inscrição nomeia apenas a linha paterna. Atossa e seu pai, Ciro, de quem Atossa teria a sua importância, não são mencionados. Contrariamente a outros registos de reis elamitas onde as rainhas eram mencionadas com nome. Também temos o exemplo de Nabonido que, em várias inscrições, honra a sua mãe Adad-guppi. Se Atossa tivesse tanto poder, porque é que Xerxes não se referiu a ela? E terá sido realmente filha de Ciro ou invenção de Heródoto?

Ainda, apesar do seu aparente papel importante na corte persa, Atossa não é mencionada no arquivo de Persépolis (nota) e a sua existência tem sido questionada.

 

Ester

O nome hebraico de Ester era Hadassah (Ester 2:7). Vem de HADAS, que significa murta.

A palavra HADAS aparece apenas 6 vezes em todo o Velho Testamento.

Em Neemias 8:15, diz que ramos de murtas estavam entre os ramos de árvores com que tinham que fazer as cabanas da festa dos tabernáculos.

Em Isaías 41:19 e 55:13, a murta está relacionada com bênção e renovação.

Is 41:18-19 – Abrirei rios em lugares altos, e fontes no meio dos vales; tornarei o deserto em tanques de águas, e a terra seca em mananciais. Plantarei no deserto ocedro, a árvore de sita, e a murta, e a oliveira … para que todos vejam, e saibam, e considerem, e juntamente entendam que a mão do Senhor fez isto.

Is 55:13 – Em lugar do espinheiro, crescerá a faia; e em lugar da sarça, crescerá a murta.

 Em Zacarias, a palavra aparece três vezes, na profecia no 2º ano de Dario (Zac 1:7-17), do homem montado num cavalo que está entre as murtas (Zac 1:8, 10, 11). A mensagem desta profecia é de esperança – Nós andámos pela terra, e eis que toda a terra está tranquila e em descanso (1:11). E o Senhor diz assim: Voltei-me para Jerusalém com misericórdia; a minha casa nela será edificada (1:16).  

A presença das murtas parece particularmente oportuna (ou será apenas coincidência?) neste preciso tempo em que será a presença de Hadassah (murta) na corte do rei da Pérsia a garantir que os judeus fiquem salvos e o futuro de Jerusalém assegurado.

Ester seria o nome persa de Hadassah. Observamos na Bíblia que é comum os judeus adotarem, ou serem dado outro nome na cultura onde passam a estar inseridos. É o caso de Daniel, chamado Belteshazar e dos seus amigos Hananias, Misael e Azarias respetivamente Sadrach, Mesach e Abed-nego.

A interpretação mais antiga e corrente é que Ester significaria estrela, do persa ‘stara’, usado para designar o planeta Venus. Ou teria origem em Ishtar, uma divindade assiro-babilónica, associada ao amor e à guerra.

Ou ainda, ao dizer “Hadassah, que é Ester” implicaria simplesmente que Ester é o equivalente na língua persa (ou na língua meda, ASTRA) do hebraico Hadassah, significando igualmente murta [3].

Outra interpretação interessante é que se pode reconhecer em Ester a raiz hebraica de três letras S-T-R (סתר‎) que significa esconder-se, ocultar-se, estar escondido, ser protegido [4]. Isto aplica-se porque Ester ficou de certo modo escondida, não revelando a sua origem, o seu povo, a pedido de Mardoqueu.

Se Ester e Hadassah significam ambos ‘murta’, o caminho fica aberto para Hadassah/Ester ter recebido outro nome. E explicaria porque o nome de Ester não aparece em nenhum outro documento que a Bíblia.

Quanto ao nome Artístone: será a transliteração grega de um nome persa feminino, Irtasduna. A forma grega é conhecido apenas em Heródoto. O elamita Ir-taš-du-na ou Ir-da-iš-du-na reflete o antigo persa Rtastuna, pilar de Rta, significando algo como pilar da verdade [5].

Mas o que me intriga é que todos estes nomes – Ester, Artístone, Irtasduna – têm as três letras (consoantes) principais em comum, embora não na mesma ordem: S-T-R / R-T-S / R-T-S. Não poderiam ser todas formas do mesmo nome nas línguas diferentes?

 

Ester é Irtasduna dos arquivos de Persépolis?

Encontramos na história de Ester na Bíblia elementos que se coadunam com a sua identificação com Irtasduna/Artístone.

Heródoto escreveu que Artístone era a mulher favorita de Dario. Ester 2:17 diz que o rei amou a Ester mais do que a todas as mulheres, e ela alcançou perante ele graça e benevolência.

Irtasduna, na sua qualidade de rainha, recebia convidados e organizava banquetes, tendo acesso a recursos significativos. Estes banquetes traziam o rei à corte da rainha, como se vê nos arquivos de Persépolis. Na bíblia, vemos Ester fazer pelo menos dois banquetes para o rei, convidando além do rei também Haman (5:8; 7:2).

As propriedades de Irtasduna e a fábrica de tapeçaria proporcionavam-lhe um rendimento próprio que lhe permitia ser economicamente independente do rei. O palácio em Kuganaka fortalece o seu poder real, aliada ao rei mas não necessariamente subserviente.

Ester recebeu de Dario a casa de Haman (Ester 8:1). Com “casa” entende-se, certamente, não apenas uma casa de habitação, mas toda o seu património, seus bens. Ester pôs Mardoqueu sobre a casa de Haman. Ester passou a ter propriedades próprias, como Irtasduna.

Irtasduna emitiu cartas e dispensava bens “em nome do rei”. Assuero autorizou Ester a escrever cartas em nome do rei, e de selá-las com o anel do rei (8:8).

Numa monografia recente sobre Mulheres na Antiga Pérsia (1996), M. BROSIUS analisou todas as fontes gregas sobre a influência das mulheres persas. Sua conclusão é clara: se as mulheres exerciam sua influência, era sempre no interesse dos familiares, não por sede de sangue ou interesse pessoal. Nas palavras de Brosius: “A principal motivação para a ação era o bem-estar de sua família, para salvar a vida de um membro da família ou para garantir a continuidade de sua família. As mulheres podiam agir dentro de limites bem definidos, mas não podiam fazer justiça com as próprias mãos. Elas precisavam de consultar o rei e obter o seu consentimento; se elas ignorassem sua autoridade e simplesmente agissem por si mesmas, também ficariam sujeitas à punição do rei ” [6].

Esta conclusão numa investigação histórica moderna condiz exatamente com aquilo que Ester fez e o modo como ela teve de o fazer. Ela exerceu a sua influência para defender o seu povo. Mas precisou para isto de obter o consentimento do rei, não podendo agir por si própria.

Por outro lado, Heródoto escreve que Artístone era filha de Ciro, e virgem. Ester 2.2 corrobora a última afirmação. Mas será um facto histórico que Irtasduna era filha de Ciro? Não há uma fonte primária inequívoca e Heródoto não era uma testemunha contemporânea.

 

Conclusão:

Sem podermos provar que Ester era efetivamente a Irtasduna dos arquivos de Persépolis, é certamente uma boa candidata.



[1] Josefo é incoerente com a informação que fornece sobre Dario, Xerxes e Artaxerxes. Ester 1.1 diz que Assuero reinou desde Índia a Etiópia, sobre 127 províncias. Josefo diz o mesmo de Dario (Ant 11.33) e de Artaxerxes (Ant.11.186). Ele situa Esdras e Neemias no tempo de Xerxes, mas refere ocorrências relativas a Neemias no ano 25 e no ano 28 de Xerxes (Ant 11.168, 179), o que não é possível porque Xerxes só reinou 20 anos.

 [2] Ussher situa a ação de Esdras e Neemias no tempo de Artaxerxes, sucessor de Xerxes.

 [3] Yahuda, A. (1946). The Meaning of the Name Esther. Journal of the Royal Asiatic Society of Great Britain and Ireland, (2), 174-178. Retrieved December 7, 2020, from http://www.jstor.org/stable/25222106 justifica esta interpretação do ponto de vista linguístico.

 [4] Brown, Francis (2012). The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon. Boston MA: Houghton, Mifflin and Company

[5] https://iranicaonline.org/articles/artystone-persian-female

[6] Maria Brosius, Women in Ancient Persia, 559-331 B.C., Oxford: Claredon, 1998, citada por Ronayne, Jack (2018). The Influence of Irtashduna’s Power on the Royal Court of Achaemenid Persia


Bibliografia

GARRISON, M.B. Seals and the Elite at Persepolis: Some Observations on Early Achaemenid Persian Art. Ars Orientalis, Vol. 21 (1991), pp. 1-29

HENKELMAN, Wouter. "Gebiederesse van dit land ... " Vrouwen in Achaimenidisch Perzie, UNlVERSITEIT UTRECHT (Academia.edu)

RONAYNE, Jack (2018). The Influence of Irtashduna’s Power on the Royal Court of Achaemenid Persia

31/05/2020

Quem é o Artaxerxes de Esdras e Neemias?

Os eventos descritos e a informação cronológica fornecida nos livros de Esdras, Neemias, Ester, Ageu e Zacarias permitem uma verificação bíblica interna da cronologia dos acontecimentos.

A principal questão em causa é a identidade do rei Artaxerxes de Esdras e Neemias, e do rei Assuero no livro de Ester.

Defendo que o Artaxerxes de Esdras e Neemias não é Artaxerxes I Longimano, como é assumido por muitos. Há muitas evidências que nos permitem deduzir que o Artaxerxes de Esdras e Neemias é, de facto, Dario Histaspes, o mesmo Dario que autorizou o recomeço das obras no segundo ano do seu reinado (Esdras 5-6) e em cujo sexto ano o templo foi terminado.

Um fator que nos ajuda é o facto de os livros de Esdras e Neemias, bem como as profecias de Ageu e Daniel, indicarem as datas dos acontecimentos até ao ínfimo pormenor, com anos, meses e mesmo dias, possibilitando assim a apuramento rigoroso da cronologia.

 

A questão dos nomes dos reis persas

Os nomes comummente utilizados de Dario, Xerxes, Assuero ou Artaxerxes não são os nomes próprios dos reis persas, mas são nomes de trono, títulos. Não há consenso sobre o que significam exatamente estes nomes de trono, pelo que não aprofundaremos esta matéria. Para a nossa defesa, basta-nos saber que os reis usavam vários títulos, por vezes ao mesmo tempo, e num mesmo documento. Documentos arqueológicos da época confirmam isto. Visto que os judeus viviam então na proximidade da cultura persa dominante, era natural que usassem estes nomes de trono da maneira como os persas faziam.

Além disso, estes nomes que são hoje usados universalmente são os nomes que os historiadores gregos, como Heródoto, deram aos vários monarcas persas e que não são mais do que corrupções gregas de palavras persas.

Assim sendo, os nomes Dario, Xerxes, Assuero e Artaxerxes podem referir-se a qualquer um deles. Torna-se então necessário descobrir quem é quem no contexto do texto bíblico.

Só para lembrar: a lista dos reis persas que interessam ao nosso estudo:

Ciro                        reinou 9 anos

Cambises            reinou 8 anos

Gaumata             reinou menos de um ano

Dario I Histaspes              reinou 36 anos                        

Xerxes                 reinou 21 anos

Artaxerxes I Longimano               reinou 41 anos

 

Comecemos com o que é mais fácil e óbvio. O Artaxerxes de Esdras é indiscutivelmente o mesmo que o de Neemias. Esdras e Neemias são contemporâneos, ambos aparecem na mesma época em Jerusalém e estão presentes na dedicação dos muros (Ne 12:31, 36).

A idade de Esdras não permite identificar o rei Artaxerxes como Artaxerxes I Longimano.

Esdras era filho de Seraías (Ed 7:1). Seraías era o sumo-sacerdote quando Nabucodonosor tomou Jerusalém, e foi morto logo a seguir, juntamente com outros líderes religiosos, militares e civis (Jr 52:24-27; 2Rs 25:18-21). Portanto, naquele tempo, Esdras devia já ter nascido ou, no mínimo, ter sido gerado. Entre a tomada de Jerusalém (ano 3418) e o decreto de Ciro (ano 3468) decorreram cerca de 50 anos. A dedicação dos muros parece ter ocorrido no 20º ano de Artaxerxes. Em Nisan (1º mês) daquele ano Neemias falou com o rei (Ne 2:1). Foi para Jerusalém. Iniciou-se a construção do muro, que acabou em 52 dias, no dia 25 de Elul, que é o sexto mês (Ne 6:15). Depois que o muro foi edificado, Neemias levantou as portas (Ne 7:1), e provavelmente pouco tempo depois fizeram a dedicação dos muros (Ne 12:27-14), onde Esdras esteve presente.

Se se tratasse do 20º ano de Artaxerxes Longimano, e segundo as datas consensualmente atribuídas aos reis persas, da destruição de Jerusalém (586 a.C.) ao 20º ano de Artaxerxes Longimano (aprox. 444 a.C.) são 142 anos. Esta não é uma longevidade consentânea com aquela época da história. O último que encontramos com uma idade acima dos 100 anos foi Josué.

O mesmo acontece no caso de Neemias. Na lista dos que subiram primeiro, logo a seguir ao decreto de Ciro (536 a.C.), com Zorobabel e Jeshua, Neemias é mencionado em terceiro lugar (Ed 2:1-2; Ne 7:5-7). Trata-se do mesmo Neemias, filho de Hacalias, que reconstruiu os muros. (Em Ne 3:16, é mencionado outro Neemias mas, para evitar confusão com Neemias o governador, ele é identificado pela sua parentela, filho de Azbuc.)

Se o Artaxerxes de Neemias fosse Artaxerxes Longimano, no ano que foi para Jerusalém (20º ano do rei), Neemias seria cerca de 92 anos mais velho do que quando foi com Zorobabel para Jerusalém! Assumindo que tivesse pelo menos 20 anos quando foi a primeira vez a Jerusalém, é pouco provável que com uma idade de mais de 112 anos participasse ativamente nas obras de reconstrução, e de armas na mão.

O Artaxerxes de Neemias não pode, portanto, ser o Longimano. Também não pode ser Xerxes, porque este reinou apenas 21 anos, e Neemias foi governador do ano 20 ao ano 32 do mesmo rei (Ne 5:14; 13:6). O Artaxerxes de Neemias, e por conseguinte também de Esdras, não pode ser outro que ser Dario Histaspes.

Isto tem lógica e pode ser observado na lógica interna da narrativa. No 2º ano de Dario, Zorobabel e povo metem mãos à obra e colocam-se os fundamentos do templo (Ag 2:10, 18) e no 6º ano de Dario terminou a construção do templo (Ed 6:15). “Passadas estas coisas”, no 7º ano de Artaxerxes/Dario (Ed 7:7), ou seja no ano seguinte, Esdras foi para Jerusalém com prata e ouro para adornar o templo e ensinar o povo. Estranho seria um salto de 58 anos do capítulo 6 para o capítulo 7 de Esdras, do 6º ano de Dario para alegadamente o 7º ano de Artaxerxes I Longimano, isto é, entre o acabar do templo e o adornar do templo (Ed 7:27).

Alguns anos mais tarde, Neemias, confrontado com o facto de que os muros de Jerusalém permaneciam derrubados e as portas queimadas a fogo, foi para Jerusalém no 20º de Dario (Ne 2) e regressou no 32º ano (Ne 2:1; 13:6).

 

Isto é posto em causa por alguns, pelas seguintes alegações:

- Na genealogia de Esdras (Ed 7:1-5), faltariam nomes, e Esdras não seria filho direto de Seraías, mas algum descendente. Mas era preciso provar esta alegação. Perguntamos nós então: por que razão haveria de faltar um nome nesta genealogia? Em 1 Crónicas 6:1-15 encontra-se a linhagem sacerdotal de Eleazar, de onde descende Esdras. Lemos que Hilquias (sumo-sacerdote no tempo do rei Josias) gerou Azarias, este gerou Seraías (que foi morto), e este gerou Jozadac (que foi levado para o cativeiro), que é o pai de Jesua (Esdras 3:2). Esdras é um irmão mais novo de Jozadac.

- Diz Esdras 6:14 que a casa de Deus foi edificada e aperfeiçoada, “conforme o mandado de Ciro e de Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia”. Com base na conjunção “e”, alegam que se trata aqui de três reis; e que Artaxerxes não é Dario. Mas então porque é que o versículo seguinte diz que “e acabou-se esta casa no dia terceiro do mês de Adar, que era o sexto ano do reinado do rei Dario”? Se Artaxerxes fosse outro que Dario, não deveria dizer que a casa acabou no ano X do rei Artaxerxes?

Como resolvemos esta frase: “conforme o mandado de Ciro e de Dario, e de Artaxerxes, rei da Pérsia”? Já acima falámos do uso de vários nomes de trono pela mesma pessoa. O VAV conjuntivo, aqui traduzido “e” nem sempre é traduzido “e”. Podemos observar que muitos versículos iniciam com “e” (VAV), mas este mesmo VAV é por vezes é traduzido “pois”, “então”, “mas”, etc.

Neste caso, é uma situação de hendíade. Hendíade ou hendíadis é a figura que consiste em exprimir por dois substantivos, ligados por conjunção copulativa, uma ideia que usualmente se designa por um substantivo e um adjetivo ou complemento nominal. Por extensão, é o uso de duas palavras para expressar um só conceito. Uma situação destas encontramos em 1Sam 28:3 – em Ramá VAV (e) sua cidade. A conjunção VAV não é traduzido “e”, mas - em Ramá que era a sua cidade -, porque Ramá era a cidade de Samuel, não outra.

Aqui no nosso caso, devemos ler: Dario, que é Artaxerxes. Em português poderíamos dizer: Dario, ou seja, Artaxerxes.

 

Ainda há a questão de quem é o Assuero de Ester. Este Assuero é comummente identificado com Xerxes, mas muito provavelmente é, também, Dario.

Ester foi feita rainha no sétimo ano de Assuero/Dario. Mardoqueu, que educou Ester como filha, fora transportado para Jerusalém com os exilados deportados por Nabucodonosor com Jeconias (Joaquim), rei de Judá (Ester 2:5-6), em 596 a.C.

O nome de Mardoqueu também se encontra na lista dos que regressaram a Jerusalém com Zorobabel e Jesua (Ed 2:2).

Mardoqueu era filho de Jair, filho de Simei, filho de Quis, homem benjamita (Ester 2:5).

Há quem alegue não ter sido Mardoqueu que foi transportado, mas o primeiro da lista: Quis. Mas quando olhamos bem para as listas genealógicas em 1Cr 8:33 e 9:39, nomeadamente a descendência benjamita, lemos que Quis era pai de Saul. E Simei, uma figura que aparece nos dias finais de David (2Sam 16:5), que é da casa de Saul. Esta referência genealógica que situa Mardoqueu em sua família é de um tipo diferente da de Esdras. Aqui faltam efetivamente muitos nomes. Mas penso que a menção específica de Simei é porque existe alguma relação (vejam a história de Simei em 2Sam 16:1-4; 19:11-23 e 1Reis 2:36-46). Mardoqueu é aquele que “limpou” o nome desta família que foi manchada pela atitude de Simei.

Voltando à cronologia, se Mardoqueu foi levado para o cativeiro com Jeconias, em 597 a.C., no princípio do reinado de Dario (520 a.C.), ele já teria pelo menos 77 anos, assumindo que fora exilado como recém-nascido. Se Assuero fosse Xerxes, Mordecai teria no mínimo 120 anos quando se deu o episódio de Haman (no ano 12º deste rei) e a tentativa de perseguição aos judeus. Aqui podemos novamente dizer que esta longevidade não é consentânea com a época.

Dois livros apócrifos do Velho Testamento trazem também luz sobre este assunto. 1Esdras 3:1-2 é cópia do versículo de Ester 1:3, mas em vez de usar o nome Assuero, usa Dario. E no Apêndice ao livro de Ester, o rei de Ester é chamado Artaxerxes em todos os capítulos, como o Artaxerxes de Esdras e Neemias.

Um pormenor interessante é o seguinte: quando Neemias foi falar com o rei sobre a sua preocupação com Jerusalém, a rainha estava sentada ao lado dele (Ne 2:6). Este pormenor realmente só faz sentido aqui se a rainha era Ester, judia.

 

Conclusão:

O livro de Esdras a partir do capítulo 5 e todo o livro de Neemias, bem como o livro de Ester, passam-se no tempo de Dario, conhecido na história como Dario filhos de Histaspes.


23/05/2020

CRONOLOGIA ESDRAS – NEEMIAS (revisto, novamente)


Numa mensagem anterior (que entretanto retirei) fiz uma revisão dos eventos no reinado de Dario devido ao problema de cronologia colocado pela sequência de eventos em Neemias 1:1 e Neemias 2:1 no 20º ano do rei Artaxerxes. Observei que o 9º mês, de quisleu (Ne 1:1), é cronologicamente anterior ao 1º mês de Nisan (Ne 2.1) no mesmo 20º ano do rei Artaxerxes (que é Dario o Grande ou Hystaspes). Os meses são sempre numerados de 1 a 12 a partir do 1º mês do ano que é Nisan/Abib (Ex 12.2).

Além de Neemias 1:1 e 2:1, têm de se considerar as profecias de Ageu e Zacarias no 6º, 7º, 9º e 11º mês no reinado do mesmo rei Dario, no 2º ano, pelo que surgiu um problema de cronologia.

Nota: quanto à questão da identidade de Dario e Artaxerxes, refiro à mensagem QUEM É O ARTAXERXES DE ESDRAS E NEEMIAS? publicada em setembro 2015.

Se, no ano 20º do rei Artaxerxes, o 9º mês antecede o 1º mês, assumi que o reinado deste rei não era contado desde o 1º mês (Nisan). Se fosse o caso, o 1º mês a seguir ao 9º mês já seria no 21º ano do rei. A não ser que o vigésimo ano em Ne 1:1 não se refira ao ano de reinado do rei, mas a outra ocorrência, quer da vida pessoal de Neemias, ou da história dos judeus. Mas não encontro (até agora) qualquer evidência de um outro evento relevante na vida de Israel que tenha ocorrido 20 anos antes.

O reinado de Dario também não podia ser contado desde o 7º mês (Tishri), dado os eventos ano relatados em Ageu e Zacarias serem todos no 2º ano de Dario, começando no 6º mês (Ageu).
Pareceu-me então que a única solução era a apresentada por Anstey (pp.248-249), que os anos dos reis eram contados, não desde o 1º ou do 7º mês do ano, mas desde o dia em que um rei ascendia ao trono. O que no caso de Dario teria ocorrido algures entre o 25º e o 30º dia do 9º mês do ano, em atenção aos dados fornecidos nos livros de Esdras, Neemias, Ester, Ageu e Zacarias. O 24º dia do 9º mês era o dia em que foram postos os fundamentos do templo (Ag 2:18); este dia era no mesmo ano que o 1º dia do 6º mês (primeira profecia de Ageu), e antes do último dia do 9º mês, em que Neemias recebeu a visita de Hanani.

Isto alterou a ordem das profecias de Zacarias no 2º ano de Dario. Se os anos de reinado de Dario começavam a contar a partir dos últimos dias do 9º mês, a profecia do 11º mês (Zac 1:7) antecedia a profecia do 8º mês que abre o livro de Zacarias (1:1). E ao mesmo tempo colocava a profecia de Zac 2:1 antes de todas profecias do livro de Ageu.

No entanto, penso que estava errada com esta interpretação, por isso esta nova revisão.

Porquê?                                                                                             

A arqueologia (inscrição de Behistun) revela explicitamente que Dario matou Gaumata – o alegado usurpador – no dia 10 do 7º mês e é aclamado rei logo a seguir[1]. E não há razão para duvidar deste facto. Portanto, isto aponta para o 7º mês como o início do reinado de Dario.

Isto resolve a situação de Ne 1:1 e 2:1, mas não resolve a cronologia em Ageu e Zacarias. No caso de o ano começar no 7º mês, a primeira profecia de Ageu no 6º mês do 2º ano de Dario seria a última. O que não pode ser, porque no dia 24 daquele mesmo mês se puseram à obra (Ag 1.14-15) e o templo foi fundado no 9º mês (Ag 2:10, 18). Mas então o 9º mês já não seria no 2º mas o 3º ano de Dario.

Atento ao documento histórico que situa o início do reinado de Dario no 7º mês, e considerando correta a ordem cronológica em que são apresentadas as profecias de Ageu e Zacarias no texto bíblico, vejo apenas uma solução possível para conciliar Ageu/Zacarias e Neemias: que o sistema de contar os anos do rei Dario é diferente na Pérsia e em Judá.

Na Pérsia, ter-se-á usado o sistema de contagem a partir de Tishri (7º mês). E é o sistema usado por Neemias, porque era na Pérsia onde Neemias estava naquele momento.

Em Judá, o ano de Dario é contado a partir de Nisan (1º mês). Isto não é descabido, porque era a maneira como era contado o reinado dos reis de Judá no tempo da monarquia. O resto do ano anterior (do 7º ao 12º mês) é considerado o ano de acessão (ano zero) de Dario, começando o primeiro ano oficial do rei no primeiro mês do ano seguinte.





















[1] Arno Poebel. Chronology of Darius’ First Year of Reign. The American Journal of Semitic Languages and Literatures, vol 55, nº 2 (April 1938), pp.142-165.

RECONSIDERAR A “SAÍDA DA ORDEM” (Daniel 9:25)


Tenho defendido que foi o decreto de Ciro que dava início (a saída da ordem) às 70 semanas da profecia de Daniel 9. No entanto, queria considerar uma alternativa a esta interpretação, que me parece ser mais correta.

”A saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém” (Dn 9:25) não terá sido o decreto de Ciro, mas a palavra do Senhor falada através dos profetas Ageu e Zacarias no 2º ano de Dario.

Em que está fundamentada esta interpretação?

Dn 9:25 – Desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Messias …

A palavra hebraica usada aqui, e geralmente traduzida “ordem”, é DABAR, que significa simplesmente PALAVRA. DABAR é utilizado numerosas vezes (1439x), traduzido “palavra” ou, em forma de verbo, “falar”, aplicada para palavras de homens e quando se trata da palavra falada por Deus através dos seus profetas. Por exemplo, os 10 “mandamentos” são os 10 DABARIM (plural de DABAR).

Outra palavra usada para os mandados e ordenamentos de Deus, e também para os mandados dos reis é MITZVAH. Esta palavra é frequente em Esdras e em Neemias (Esdras 7:11; 9:10,14;10:3; Neemias 1:5,9; 9:13,14,16,29,34; 10:29,32;11:23).

A palavra em Daniel 9:25 que foi traduzida “ordem” ou “comando” tem sido interpretada como um decreto de um rei. Tem-se procurado nos alegados decretos mencionados nos livros de Esdras e Neemias (nos decretos de Ciro, Dario, Artaxerxes) o ponto de partida da profecia. Já abordei este assunto em anteriores mensagens.

Se a palavra DABAR é utilizada para a Palavra de Deus, também o é para a palavra de um rei. Como podemos ver em alguns casos: Neemias 2:18 – as palavras do rei, que ele me tinha dito; Ester 1:12 – a rainha Vasti recusou vir conforme à palavra (DABAR) do rei; Ester 1:19 – um édito (DABAR) real; Ester 2:8 – o mandado (DABAR) do rei.

Mas será isto fundamento suficiente para interpretar DABAR em Daniel 9:25 como o decreto de um rei, neste caso Ciro?

Que palavras são usadas para os decretos reais de Nabucodonosor, Dario o medo, Ciro, Dario e Artaxerxes nos livros de Daniel, Esdras e Neemias?

Dn 3:4 – o arauto apregoava em alta voz: Ordena-se a vós [da parte de Nabucodonosor], ó povos, nações … O verbo aramaico aqui é AMAR, usado para comandar, falar, declarar (no caso de pessoas).

Nas seguintes passagens, a palavra traduzida como decreto ou ordem é TE’AM:
Dn 3:10, 29; 4:6– tu, ó rei, [Nabucodonosor], fizeste um decreto (TE’AM);
Dn 3:29; 4-6 – Por mim [Nabucodonosor], é feito um decreto
Dn 6:26 – Da minha parte [Dario o medo] é feito um decreto

Em Esdras, 4:19, 21; 5:3, 9,13, 17 “dar ordem” ou “ordenar” é SUM (aramaico).

Em Esdras 5 e 6 é repetidamente feito referência ao decreto ou ordem de Ciro. Sempre é usada a palavra TE’AM (Esdras 5:3, 9, 13, 17; Esdras 6:1), nunca DABAR.

A mesma palavra TE’AM é aplicada para o decreto de Dario no seu 2º ano que autoriza a retoma dos trabalhos (Esdras 6:1, 8, 11, 12).

Esdras 7: 13 e 21 trata dos decretos (TE’AM) no 7º ano do rei Artaxerxes (que é Dario) que autorizam Esdras a levar para Jerusalém sacerdotes e levitas e prata e ouro para ornar o templo. Que é outro dos decretos por vezes apontado para início das 70 semanas.

Neemias 11:23 menciona um mandado (MITZVAH) do rei e Neemias 2:18 refere as palavras (DABARIM) no 20º ano do rei Artaxerxes. Esta última autorização é, por alguns, interpretada como sendo o decreto de Artaxerxes Longimano que dá início às 70 semanas. Mas este rei não emitiu nenhuma ordem, apenas deu algumas cartas de recomendação conforme o pedido de Neemias.

Podemos, com alguma segurança, dizer que em nenhum destes casos é usada a palavra DABAR para dar uma ordem real, e muito especificamente não no caso de Ciro.

Esdras 5:13 – No primeiro ano de Ciro, rei de Babilónia, o rei Ciro deu ordem (TE’AM) para que esta casa de Deus se edificasse.
Daniel 9:25 – Desde a saída da ordem (DABAR) para restaurar e edificar, até ao Messias …

Os profetas Ageu e Zacarias começaram a profetizar no 2º ano de Dario. A obra do templo, que mal tinha iniciado quando regressaram do cativeiro, estava interrompida há cerca de 16 anos.

A primeira profecia de Ageu, no 6º mês, 1º dia do mês, Deus diz: Subi ao monte, e trazei madeira, e edificai a casa (Ag 1:8), e “Eu sou convosco” (Ag 1:13).

E o Senhor levantou o espírito de Zorobabel, de Jesua e do resto do povo, e trabalharam na casa do Senhor, no 24º dia desse mês.

Quando olhamos para o livro de Esdras e o relato do primeiro e segundo ano do regresso a Jerusalém, lemos que se levantou Jesua, filho de Josadaque, e seus irmãos, os sacerdotes, e Zorobabel … e edificaram o altar e começaram os preparativos para a obra da casa do Senhor (Esd 3:2, 8). Mas não há nenhuma palavra de Deus. E rapidamente perderam alento perante a oposição, e a obra parou.
No 2º ano de Dario, 16 anos depois, foi a primeira vez que Deus disse “Eu sou convosco” desde que Ezequiel viu a glória de Deus sair do templo no 6º ano do cativeiro (equivale ao 5º ano de Zedequias) (Ez 8-9).

No 7º mês (Ag 2:1-9) veio novamente a palavra do Senhor a dizer a Zorobabel e Jesua: Esforça-te. A glória desta última casa será maior do que a da primeira.

No 9º mês, no 24º dia, foi o dia em que se fundou o templo do Senhor (Ag2:18).

As profecias continuam em Zacarias:

No 11º mês do mesmo 2º ano de Dario, há uma pergunta do anjo do Senhor – Ó Senhor dos Exércitos, até quando não terás compaixão de Jerusalém, e das cidades de Judá, contra as quais estiveste irado estes 70 anos? (Zac 1:12). O Senhor respondeu: Voltei-me para Jerusalém com misericórdia; a minha casa nela será edificada (Zac 1:16).

Há vários períodos de 70 anos (com início e fim diferentes) que funcionam como um elo entre o fim da monarquia e o regresso depois do cativeiro de Jerusalém. E que servem para estabelecer a cronologia de modo seguro. Um primeiro período de 70 anos vai do 3º ano de Jeoaquim, quando um primeiro grupo (onde se inclui Daniel) é levado para o cativeiro na Babilónia, ao decreto de Ciro, que assinala o regresso do povo depois do cativeiro.

Aqui em Zacarias 1:12, um segundo período de 70 anos pode ser observado: o fim deste período é o 2º ano de Dario. Mas onde é o inicio? Para datar o início deste período, precisamos de considerar outra situação em Zacarias, que também faz referência a um período de 70 anos:

No 4º ano de Dario, no 9º mês, alguns foram saber junto do profeta Zacarias se tinham de continuar a jejuar no quinto mês (Zc 7:3). Ao que Zacarias respondeu: Quando jejuastes, no 5º e no 7º mês, durante estes 70 anos, jejuastes vós para mim? (Zc 3:5).

O jejum no 5º mês refere-se ao mês em que a cidade de Jerusalém foi destruída (2Rs 25:8-9), e o jejum do 7º mês ao mês em que Gedalias, o governador posto sobre o resto do povo por Nabucodonosor, foi assassinado (2Rs 25:25).

Portanto: o período de 70 anos que chegou ao fim no 4º ano de Dario começou no ano em que Jerusalém foi destruída, no 11º ano do rei Zedequias. E o período de 70 anos que chegou ao fim no 2º ano de Dario, começou quando Nabucodonosor iniciou o cerco de Jerusalém, no 9º ano do rei Zedequias (2Rs 25:1).

Ainda no mesmo episódio no 4º ano de Dario, o Senhor diz: O jejum do 4º mês (2Rs 25:3-7), e o jejum do 5º, e o jejum do 7º, e o jejum do 10º mês será para a casa de Judá gozo, alegria, e festividades solenes (Zac 8:19).

Isto significa que entre o 2º e o 4º ano de Dario, chegou finalmente o fim completo das assolações de Jerusalém! E por isso, apresenta-se-me como um momento adequado para iniciar uma nova era com o período de 70 semanas da profecia de Daniel 9. Mais adequado, tenho que admitir, do que o decreto de Ciro.

No 1º ano de Dario o medo (Dn 9.1-2), Daniel entendeu o significado dos 70 anos da profecia de Jeremias: Acontecerá, quando se cumprirem os 70 anos, visitarei o rei de Babilónia e esta nação (Jr 25:11-12) e Certamente que, passados 70 anos, em Babilónia, vos visitarei (Jer 29:10). Este período terminaria no 1º ano de Ciro com o decreto de Ciro.

Penso que é mais correto ser a PALAVRA de Deus em Daniel 9:25 “a saída da palavra (DABAR) para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Messias”, palavra falada através dos profetas Ageu e Zacarias no 2º ano de Dario, do que o decreto de Ciro ou qualquer outra palavra falada por um homem.

Por outro lado, isto não resolve o mistério da duração das “70 semanas”. Com o 2º ano de Dario em aproximadamente 519 a.C., os alegados 490 anos da profecia também não chegam ao tempo de Jesus, como é caso do decreto de Ciro.

Continuo convicta de que as “70 semanas” contêm efetivamente uma chave cronológica. Mas, como já disse, nenhuma solução satisfatória foi ainda apresentada.

Qualquer interpretação já entrou num automatismo de considerar que se trata de semanas de anos. E se não fossem semanas de anos? Pelo menos não anos na nossa compreensão atual de 365 dias. Naquele tempo, em Israel, não se usava este nosso calendário solar que vem dos romanos, mas um calendário lunissolar em que todos os anos tinham uma duração diferente. Como doze meses lunares são apenas 354 dias, mais ou menos a cada três anos tinha que se introduzir um 13º mês para acertar.

Além disso, esta interpretação deita naturalmente por terra a hipótese que coloquei em anteriores mensagens de que as primeiras 7 semanas da profecia correspondiam aos 49 anos desde o decreto de Ciro até ao 32º ano de Artaxerxes/Dario com a dedicação do muro.

04/11/2019

O TEMPO DAS PRAGAS NO EGIPTO (revisto)


Em 5-4-2014 publiquei uma mensagem sobre este assunto, em que apresentei a teoria de Floyd Nolen Jones relativamente ao tempo que passou desde a primeira até à última das pragas do Egipto. Floyd Nolen Jones (p.70) apresenta um quadro com a cronologia das pragas e demonstra uma duração de 40 dias contados a partir da primeira “praga” (a vara que se tornou em serpente) até a noite da morte dos primogénitos.

Após uma nova análise dos capítulos de Êxodo 7 a 12, defendo uma tese um pouco diferente.
Segundo a leitura que faço da narrativa bíblica, o tempo que passou desde que Moisés e Aarão foram falar a Faraó pela primeira vez (Ex 5:1-5) até à noite da morte dos primogénitos é de 28 dias, ou seja de uma “lua”, um mês lunar.

Analisemos novamente a história, dia a dia, no livro do Êxodo:

Dia 1 – Moisés e Aarão vão falar com Faraó pela primeira vez (5:1-5). Naquele mesmo dia (5:6), Faraó deu ordem para que daqui em diante não mais se desse palha aos israelitas para fazerem os tijolos, como ontem e anteontem.
Esta ordem foi implementada logo no mesmo dia porque no dia seguinte,

Dia 2 – Os filhos de Israel foram açoitados, dizendo-lhes os capatazes de Faraó: Por que não acabastes vossa tarefa ontem e hoje (5:14), fazendo tijolos como antes? Por isso, os oficiais dos filhos de Israel foram clamar a Faráo, que não lhes deu ouvidos e encontraram-se com Moisés e Aarão quando saíram de Faraó (5:20).

Dia 3 – Deus ordena Moisés para ir falar com Faraó. Moisés está inseguro (eis que sou incircunciso dos lábios, como pois me ouvirá Faraó?) e põe Aarão para seu profeta. Então Moisés e Aarão entraram a Faraó e Aarão lançou a sua vara que se tornou em serpente (6:1-13, 28-30; 7:1-13). Faraó recusou ouvir e o Senhor diz a Moisés para ir a Faraó, pela manhã (7:15).

Dia 4 – Quando Faraó saiu às águas pela manhã, Moisés já estava à espera dele na beira do rio (7:15). Aarão é mandado estender a sua vara sobre as águas do Egipto. Moisés e Arão fizeram o que o Senhor lhes tinha ordenado, e a água se tornou em sangue. Os peixes morreram, o rio cheirou mal, não se podia beber (7:19-24).

Dias 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 – Cumpriram-se 7 dias, depois que o Senhor feriu o rio.

Dia 12 – Depois disse o Senhor a Moisés para novamente ir ter com Faraó. Subiram rãs que cobriram a terra. Faraó chamou a Moisés e Arão para tirar as rãs. Moisés pergunta a Faraó quando é que ele havia de rogar para que as rãs fossem retiradas e ficassem somente no rio. Faraó respondeu: amanhã (8-9-10).

Dia 13 – Moisés clamou ao Senhor conforme tinha combinado com Faraó no dia anterior. Morreram as rãs, que foram ajuntados em montões. Porém, Faraó viu que havia alívio, e não os ouviu.

Dia 14 – Sem qualquer aviso prévio a Faraó, Moisés e Arão foram instruídos para estender a vara e houve piolhos por toda a terra. O coração de Faraó continua endurecido (8:16-19). Disse mais o Senhor a Moisés: Levanta-te pela manhã cedo (8:20), e põe-te diante de Faraó; eis que ele sairá às águas.

Dia 15 – Então, pela manhã cedo (8:20), segundo a ordem do Senhor, Moisés apresenta-se a Faraó. Desta vez o Senhor vai enviar enxames de moscas, mas fará distinção entre o povo do Egipto e o povo de Israel. “Amanhã se dará este sinal” (Ex 8:24).

Dia 16 – Ex 8:24 – vieram grandes enxames de moscas. Faraó chamou a Moisés. Moisés disse: eis que saio de ti, e orarei ao Senhor, que estes enxames de moscas se retirem amanhã (8:29).

Dia 17 – Os enxames de moscas se retiraram conforme a palavra de Moisés (8:31). Mas ainda esta vez Faraó endureceu o coração.

Dia 18 – Novo aviso de Moisés a Faraó: pestilência sobre o gado, com distinção entre os rebanhos do Egipto e os dos israelitas (9:1-4). Amanhã fará o Senhor isto na terra (9:5).

Dia 19 – No dia seguinte (9:6), todo o gado dos egípcios morreu. Faraó enviou ver, e eis que do gado de Israel não morrera nenhum, mas Faraó continua endurecido (9:7).

Dia 20 – Sem aviso, Moisés e Arão tomaram cinza de forno e o atiraram para o céu e tornou-se em tumores nos homens e nos animais (9:8-12).

Dia 21 – Pela manhã cedo (9:13), Moisés apresenta-se novamente a Faraó. Eis que amanhã por este tempo (9:18) farei chover saraiva mui grave.

Dia 22 – Moisés estende a vara para o céu e o Senhor deu trovões e saraiva em toda a terra do Egipto, exceto na terra de Gosen. Faraó manda chamar Moisés. Moisés promete que os trovões e a saraiva cessarão quando ele sair da cidade (9:29-33). A praga cessou, mas Faraó continua endurecido. Depois disse o Senhor a Moisés; entra a Faraó (10:1)

Dia 23- Assim foram Moisés e Arão novamente a Faraó: se recusares deixar ir o meu povo, eis que amanhã trarei gafanhotos (10:4) ao teu território. Depois de avisar Faraó, Moisés virou-se e saiu da presença de Faraó (10:6). Os oficiais de Faraó tentam convencê-lo a deixar ir os israelitas, porque o Egipto está arruinado (v.7). Moisés e Arão são levados outra vez a Faraó e expulsos da presença (10:8-11). Moisés estendeu a sua vara, e o Senhor trouxe um vento oriental todo aquele dia e aquela noite (10:13).

Dia 24 – Pela manhã (10:13), o vento oriental trouxe os gafanhotos, que cobriram a superfície da terra e devoraram tudo. Faraó apressou-se a chamar Moisés (10:16). Quando Moisés saiu da presença de Faraó, o Senhor trouxe um forte vento ocidental que levantou os gafanhotos e os lançou no mar Vermelho. Porém, o coração de Faraó continua endurecido.

Dia 25, 26, 27 – Ex 10:21-23 – Sem aviso a Faraó, o Senhor disse a Moisés para estender a mão para o céu, e virão trevas espessas sobre toda a terra do Egipto por 3 dias (10:22). Os filhos de Israel tinham luz nas suas habitações. Mas entre os egípcios, não viu um ao outro, e

Dia 28 – Depois dos dias em que ninguém se levantou do seu lugar (10:23), Faraó manda chamar Moisés. Mais uma vez Faraó não aceita as exigências de Moisés. A partir desse momento, nunca mais se verão (10:26-27).
Antes de se retirar da presença de Faraó, Moisés, ainda o avisa “A meia-noite passarei pelo meio do Egito e todo o primogénito na terra do Egipto morrerá. Haverá grande clamor como nunca houve”. E Moisés saiu de Faraó em ardor de ira (11:4-8).

Noite de 28 para 29 - E aconteceu, à meia-noite, que o Senhor feriu a todos os primogénitos na terra do Egipto (12:29).
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Entre o capítulo 11 – a última visita de Moisés a Faraó – e Ex 12:29 – quando começa a noite da morte dos primogénitos, há um parêntese. O Senhor fala a Moisés “este mês vos será o principal dos meses; será o primeiro mês do ano” (12:2) e instrui-o sobre a celebração da Páscoa (12:3-28).

Floyd Nolen Jones interpreta isto como um intervalo de 10 dias entre o último aviso a Faraó e a concretização da ameaça.

No entanto, julgo que a narrativa não dá lugar a um intervalo. Moisés disse a Faraó que aconteceria à meia-noite. Podemos pensar, mas não disse em que dia exatamente. Contudo, quando olhamos para o ritmo da narrativa do mês que passou, a rapidez alucinante em que as pragas se seguiram umas às outras, não há razão para crer que houve um intervalo de dias entre o aviso e a execução.

Em meu ver, a noite de 28 a 29 do tempo das pragas é o começo do dia 14 de Abib, a noite em que tinham que comer o cordeiro, e essa mesma noite fugiriam.

10 de Abib (12:3), o dia em que cada casa tinha que tomar para si um cordeiro, era o primeiro dia da praga das trevas (dia 25). Mas para o povo de Israel não era problema; eles tinham luz nas suas casas (10:23).

1 de Abib, o primeiro dia do mês que, para Israel, passaria a ser o primeiro dos meses do ano (12:2)  corresponde ao dia 16 do tempo das pragas, que era o dia da praga das moscas. O que distingue este dia e esta praga dos anteriores é que é a primeira praga em que a terra de Gosen, onde habitava o povo de Israel, era separada (8:23). Não estava sujeita às pragas que os egípcios sofreram. Isto assinala o começo de um novo período para o povo de Israel, “o princípio dos meses, o primeiro dos meses do ano”.

A instrução sobre a Páscoa (Ex 12) terá sido dada a Moisés nesse princípio de mês, ou mesmo antes, e não depois do aviso a Faraó da morte dos primogénitos porque não se coaduna com o correr da narrativa.

Desde a primeira vez que Moisés e Aarão foram falar com Faraó até a noite dos primogénitos foram 28 dias, o que equivale a um mês lunar.

24/07/2019

A FESTA DOS TABERNÁCULOS (SUKKOTH)


Qual o significado do ritual da festa dos tabernáculos (SUKKOTH) no sétimo mês?

SUKKOTH é a forma plural de SUKKAH (subst.f.). O que é uma SUKKAH?

O que foi ordenado fazer naquela festa?

Lv 23:40 - Ao primeiro dia, tomareis para vós ramos de formosas árvores, ramos de palmas, ramos de árvores espessas e salgueiros de ribeiras; e vos alegrareis perante o Senhor vosso Deus por sete dias.

Lv 23:42-43 - Sete dias habitareis debaixo de SUKKOTH; todos os naturais em Israel habitarão em SUKKOTH; para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em SUKKOTH, quando os tirei da terra do Egipto.

Pelo material mencionado em Lv 23 usado para fazer os SUKKOTH, deduzimos que SUKKOTH não são tendas no sentido de habitações amovíveis feitas de pano grosso ou lona.

Encontramos a palavra SUKKAH no sentido de abrigos ou refúgios construídos no campo com ramos de árvores, madeira e folhagem como cabanas para o gado (Gn 33:17), ou abrigos para os que guardam o gado nos campos (Jó 26:18; Is 1:8). Jonas, por exemplo, fez para si uma SUKKAH, onde se assentou debaixo da sua sombra (Jonas 4:5). Também são os abrigos (nas nossas traduções aparece com tendas) levantados por um exército no campo (1Rs 20:12,16; 2Sam 11:11).

Porque é que na festa os israelitas eram chamados a viver em SUKKOTH em lembrança da saída do Egipto?

É estranho porque na narrativa do êxodo não há menção de os israelitas no deserto viverem em SUKKOTH, mas sim em tendas (OHEL) (Ex 16:16; 33:8, 10). Também Abraão habitava em tendas (Gn 12:8;13:3, 5; etc.), o que é aliás o habitáculo normal para nómadas e quem vive no deserto, não a SUKKAH. É difícil encontrar ramos de árvores formosas no deserto. O tabernáculo que Moisés levantou no deserto também é referido com a palavra OHEL.

A palavra SUKKAH aparece também em relação à habitação de Deus:

Sl 18:11 – Fez das trevas o seu lugar oculto; o pavilhão (SUKKAH) que o cercava era a escuridão das águas e as nuvens dos céus.

Jó 36:29 – Porventura, também se poderão entender as extensões das nuvens, e os trovões da sua tenda (SUKKAH)?

Is 4:5-6 – E criará o Senhor, sobre toda a habitação do monte de Sião, e sobre as suas congregações, uma nuvem de dia, e um fumo, e um resplandor de fogo chamejante de noite, porque sobre toda a glória haverá proteção. E haverá um tabernáculo (SUKKAH) para sombra contra o calor do dia, e para refúgio e esconderijo contra a tempestade e contra a chuva.

Observamos aqui que a SUKKAH do Senhor vem sempre associada a nuvens.

Também nas seguintes passagens, onde são utilizadas variantes de SUKKAH provindo da mesma raiz/verbo SAKAK, está presente a associação com nuvens:

Sl 105:39 – Estendeu uma nuvem por coberta (MASAK).
Sl 27:5 – No dia da adversidade me esconderá no seu pavilhão (SOK).
Lam 3:44 – Cobriste-te (SAKAK) de nuvens para que não passe a nossa oração.

O verbo SAKAK significa tecer, especialmente ramos de árvores para construir uma cobertura ou sebe. Daí que também significa geralmente cobrir, proteger, defender.

É usado para os querubins que cobrem (SAKAK) a arca com as suas asas (Ex 25:20; 37:9;1Rs 8:7; 1Cr 28:18) e o véu que cobre a arca (Ex 40:3, 21). Sl 91:4 – ele te cobrirá (SAKAK) com as suas penas.
Sl 140:7 – Senhor Deus, fortaleza da minha salvação, tu cobriste (SAKAK) a minha cabeça no dia da batalha.
Sl 5:11 – Alegrem-se todos os que confiam em ti; exultem eternamente, porquanto tu os defendes (SAKAK).

Este cobrir com ramos de árvores produz sombra. Jó 40:22 – as árvores sombrias o cobrem (SAKAK) com sua sombra. A SUKKAH de Jonas produziu sombra. As nuvens produzem sombra.

Como é que isto se relaciona com a narrativa do êxodo? Porque esta é a memória evocada com a festa de SUKKOTH: para que saibam as vossas gerações que eu fiz habitar os filhos de Israel em SUKKOTH, quando os tirei da terra do Egipto (Lv 23:43).

SUKKOTH foi o primeiro lugar onde os israelitas se juntaram e acamparam depois de terem saído de Ramesses.

Ex 12:37 – Partiram os filhos de Israel de Ramesses para SUKKOTH, coisa de seiscentos mil de pé, somente de varões.
Num 33:5 – Partidos, pois, os filhos de Israel de Ramesses, acamparam-se em SUKKOTH.
Ex 13:20 – Assim partiram de SUKKOTH, e acamparam em Etam, à entrada do deserto.

Esta é o único momento na narrativa do êxodo e da caminhada pelo deserto que aparece a palavra SUKKOTH.

Acontece que é também aqui que aparece pela primeira vez a nuvem que protegeu/cobriu Israel na sua fuga dos inimigos e que os guiou no deserto.

Rabi Akiba interpretou o termo não como um (nome de) lugar, mas à luz do versículo: os israelitas partiram de SUKKOTH, isto é das nuvens em que tinham estado acampados e que depois os conduziram pelo deserto. A SUKKAH simboliza a nuvem de glória debaixo da qual viveu a geração do êxodo. Segundo a interpretação rabínica, a SUKKAH é símbolo da nuvem de glória do Senhor e a festa representa a experiência de viver na sua sombra.

Ainda, a proximidade entre SUKKOTH e o dia da Expiação (YOM KIPPUR), que fala de remissão dos pecados, a SUKKAH restaura o relacionamento harmonioso e amoroso entre Deus e seu povo. Debaixo da SUKKAH, a pessoa está na presença de Deus porque o pecado foi perdoado e o relacionamento restaurado, e por isso pode alegrar-se.


Uma última questão relaciona-se com a cronologia: a duração da festa, 7 dias, corresponde à duração da estadia dos israelitas em SUKKOTH?

É possível, nenhuma data específica é mencionada entre o dia 15 do 1º mês em que iniciaram a saída (Num 33:3) e o dia 15 do 2º mês já depois de terem atravessado o mar (Ex16:1).

É possível, porque foi o lugar em que todos os israelitas se juntaram, provavelmente vindo de lugares diferentes, antes de verdadeiramente iniciar a caminhada e  – presume-se – terão necessitado de alguns dias para tomar medidas organizacionais e logísticas para um tão grande grupo de refugiados, para usar um termo atual.

O nome dado ao lugar, SUKKOTH, além de se referir à proteção do Senhor, poderá também ser o nome dado a este primeiro acampamento, porventura muito improvisado e rudimentar, um mero refúgio no deserto, por causa da pressa com que tiveram de fugir.

A festa dos pães asmos tem a mesma duração de 7 dias. Ambos são memoriais da libertação do Egipto (Ex 12:39-42; Lv 23:49-43) mas com um foco diferente.

Possível, mas certamente tem igualmente um significado simbólico relacionado com o número sete.


Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Omnipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei (Salmo 91:1-2).


Bibliografia

Jeffrey L. RUBENSTEIN, The symbolism of the Sukkah. Judaism 43 (1994). Disponível em https://as.nyu.edu/content/dam/nyu-as/faculty/documents/SymbolismSukka.pdf

James JORDAN, The Oddness of the Feast of Booths. Biblical Horizons Newsletter 90 (December 1996)

Léxicos de Gesenius e Strong's (www.blueletterbible.org)