30/11/2013

A DISPERSÃO PELA TERRA


Em Génesis 10 são registadas as gerações dos filhos de Noé, que formam as 70 nações disseminadas depois do dilúvio.
Geralmente é presumido que a confusão de linguagem gerada em Babel foi o motivo da dispersão dos descendentes de Noé por toda a superfície da terra. Antes disto, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma maneira de falar (Gn 11:1). E que esta dispersão se deu nos dias de Pelegue (Gn 10:25).

Contudo, temos várias razões para crer que a dispersão das nações pelas terras e ilhas é anterior a (ou pelo menos começou mais cedo), e não consequência, da confusão de Babel. E que a história da torre de Babel tem outro significado.
Tentemos uma reconstrução cronológica dos factos:

Depois do dilúvio, Deus ordenou a Noé e seus filhos: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra (Gn9:1). É improvável que todos os filhos e descendentes de Noé tenham desobedecido ao mandamento do Senhor, ficando por mais de 100 anos em um só lugar (do dilúvio ao nascimento de Pelegue são 101 anos), na terra de Sinear, de onde só saíram quando Deus confundiu a sua linguagem.
Gn 10:4-5 - Os [filhos] de Javã [que é filho de Jafé] são: Elisá, Társis, Quitim e Dodanim. Estes repartiram entre si as ilhas nas nações (lit. as ilhas dos goyim = gentios) nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, em suas nações.

Os filhos de Javã são contemporâneos de Nimrode. A repartição das ilhas das nações entre os filhos de Javã (Gn 10:4-5) parece ocorrer pelo menos uma geração antes da confusão de Babel. É natural que, com o crescimento da população, as famílias começassem a espalhar-se e as línguas a diversificarem-se pela distância e afastamento.

Gn 10:8-12 – Cuxe, filho de Cão, gerou Nimrode… O princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinear. Daquela terra saiu ele para a Assíria e edificou Nínive, Reobote-Ir e Calá…
Babel é o início do reino de Nimrode. Todas as famílias descendentes de Noé não ficaram no mesmo lugar, senão seriam todos súbditos de Nimrode. Foram todos os descendentes de Sem, Jafé e Cão súbditos de Nimrode? Improvável.

Mas então quem são “eles” que partiram do oriente e deram com uma planície na terra de Sinear e habitaram ali (Gn 11:2)?
Gn 10:25 – A Héber nasceram dois filhos: um teve por nome Pelegue, porquanto em seus dias se repartiu a terra; e o nome do seu irmão foi Joctã.

Gn 10:26-30 – … Os filhos de Joctã habitaram desde Messa, indo para Sefar, montanha do Oriente.
Gn 11:1-2 – Ora em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. Sucedeu que, partindo eles do oriente, deram com uma planície na terra de Sinear; e habitaram ali.

“Eles” terão sido os filhos de Joctã, que habitaram desde Messa, indo para Sefar, montanha do oriente (Gn 10:30)? E que depois partiram do oriente para irem habitar em Sinear? E que se juntaram aos descendentes de Nimrode em Babel na rebeldia contra Deus? Para que não fossem espalhados por toda a terra (Gn 11:4) em vez de encherem toda a terra?
Héber tinha dois filhos, Pelegue e Joctã. A linha de Joctã aliou-se a Nimrode, e apostatou, enquanto a linha de Pelegue conduziu a Abrão.

O mundo foi dividido nos dias de Pelegue e Joctã. É neste contexto que deve ser lido o incidente de Babel. Porém, o incidente de Babel tem um significado diferente do contexto de Gn 10:5, 20 e 31, baseado no uso de palavras hebraicas diferentes para língua, linguagem, que se encontram traduzidas em português com a mesma palavra ‘língua’ ou ‘linguagem’.
Referimos aqui muito resumidamente a interpretação de James Jordan (2007).The handwriting on the wall. A commentary on the book of Daniel. Powder Springs, GA: American Vision, pp. 88-101)

Em Gn 10:5, 20 e 31, a palavra traduzida ‘língua’ ou ‘linguagem’ é LASHON, significando língua (o órgão do corpo) e língua, idioma.
Em Gn 11:1 – em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar – aqui ‘linguagem’ é tradução de SAPHAH (lábio) e ‘maneira de falar’ usa a palavra DABAR (palavra).

A palavra SAPHAH, literalmente 'lábio' (1 Sam 1:13), refere-se ao conteúdo do que se fala (por ex. Ex 6:12, 30), não à forma ou idioma. ‘Uma maneira de falar’ refere-se ao vocabulário, mas “um lábio” refere-se à religião.
LASHON é empregado por exemplo em Dt 28:49, Ne 13:24, Ester 1:22,3:12, Is 28:11 onde se refere às línguas faladas pelos diferentes povos.

‘Lábio’ (SAPHAH) está associado à confissão religiosa. Darei lábios puros aos povos (Sof 3:9); o que proferiram os teus lábios, isto guardarás (Dt 23:23); nunca os meus lábios falarão injustiça (Jó 27:4); as minhas razões provam a sinceridade do meu coração, e os meus lábios proferem o puro saber (Jó 33:3); proclamei as boas novas de justiça na grande congregação, jamais cerrei os lábios (Sl 40:9); sou homem de lábios impuros (Is 6:5); …
O que aconteceu em Babel não foi em primeiro lugar e apenas uma divisão de línguas mas uma divisão em termos de religião.

Os Semitas foram estabelecidos como representantes sacerdotais em Gn 9:26-27. O pecado de um ramo do povo sacerdotal afetou toda a humanidade – toda a terra (Gn 11;1 e 11:9) – em termos de língua e religião, embora toda a humanidade não estivesse presente em Babel.

04/11/2013

SEM, CÃO, JAFÉ e CANAÃ

O primeiro período da história da humanidade, de Adão até ao dilúvio, não traz qualquer dificuldade no cálculo da cronologia.

Entre Noé, Sem e Arfaxade (que se seguem na linhagem de Jesus), há uma aparente descontinuidade.
Gn 5:32 diz que Noé era da idade de 500 anos quando gerou Sem, Cão e Jafé.

Trata-se de trigémeos? Ou consta apenas o ano de nascimento do primogénito?
Gn 7:6 diz que Noé tinha 600 anos (isto é, no ano 600 da vida de Noé) quando as águas do dilúvio inundaram a terra.

Gn 8:13 - No ano 601 da vida de Noé, no primeiro dia do primeiro mês secaram as águas e Noé removeu a cobertura.
Gn 11:10 – Sem era da idade de 100 anos quando gerou a Arfaxade, 2 anos depois do dilúvio.

Portanto, se o dilúvio teve lugar no ano 1656, Arfaxade nasceu 2 anos depois, portanto em 1658.
Como Gn 5:32 menciona Sem em primeiro lugar, estaríamos inclinados a dizer que Sem é o primogénito. Mas se isto fosse o caso Sem devia ter 100 anos quando o dilúvio começou e não 2 anos depois do dilúvio. Sabemos, porém, que Sem está incluído na linhagem da semente redentora que levará até Jesus, por isso ele é mencionado primeiro. Mas não é o primogénito.

Isto leva-nos ao tema do primogénito.
A história de Caim, Abel e Sete já nos revelou que ser o primogénito não significa necessariamente ser um elo na linhagem que garante a continuação da promessa de Gn 3:15, ou seja na linhagem genealógica de Jesus.

Caim era o primogénito. Mas Abel seria o herdeiro, se não tivesse sido morto, pelo que Eva disse quando deu à luz Sete: Deus me concedeu outro descendente em lugar de Abel (Gn 4:25).
Sem também não era o primogénito, mas era o herdeiro. Quem era o primogénito? Cão ou Jafé?

A maioria defende que Jafé era o mais velho e Cão o mais novo, baseado em Gn 9:24 que diz que Noé soube o que lhe fizera o filho mais moço, que por sua vez remete ao v.22 que diz que Cão, tendo entrado na tenda do pai, viu a sua nudez. Além disso, baseiam-se em Gn 10:21 (King James Bible) onde diz que Jafé é o irmão mais velho de Sem.
Aparentemente, não há que se enganar.
No entanto, relativamente a este último versículo, várias traduções (entre outras a que usamos de João Ferreira de Almeida) dizem que Sem é irmão mais velho de Jafé. Neste caso, Jafé será o mais novo e Cão o mais velho. Mas então o que fazer de Gn 9:24 que parece indicar que Cão era o mais novo?

Há prós e contras para as duas interpretações.

Proponho a seguinte hipótese:
- Cão é o mais velho, e perdeu o direito de primogenitura a favor de Sem, o segundo filho, o irmão do meio. Do modo como, provavelmente, Caim perdeu a primogenitura para Abel.

- Jafé é o mais novo. Nada é dito dele que lhe tivesse feito perder o seu direito de primogénito se ele fosse o mais velho.

- Canaã, filho mais velho e herdeiro de Cão, é o mais novo a que se refere Gn 9:24. Possivelmente foi adotado por Noé, tal como Jacó adotou como seus os filhos de José, Efraim e Manassés. Canaã é amaldiçoado porque Cão perdeu o seu direito de primogénito e, por conseguinte, foi excluído da linhagem da semente da mulher.

Penso que a solução pode ser encontrada no significado da terra de Canaã, a terra prometida, a terra da herança. De quem é a posse? A terra que pertence ao filho mais novo (considerando Cão o mais novo) passaria a ser a terra que Deus prometeu a Abraão? Logicamente, não deveria ser a terra do filho primogénito que passasse a ser a terra prometida, a terra que mana leite e mel, duplamente abençoada? E esta terra passaria a ser herança daquele que substitui o primogénito?
Olhemos para dois exemplos onde se trata de primogenitura: 1) Jacó e Esaú, e 2) a situação de Ruben, Judá e José.

Esaú vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó (Gn 25:27-34). Mais tarde, Jacó engana Isaque e recebe a bênção do primogénito (Gn 27:35), que teria sido de Esaú se este não tivesse vendido o direito. Esaú ficou sem bênção alguma (Gn 27:36-37; Hb 12:16-17).
Ruben, primogénito de Jacó, perdeu o direito e a bênção porque se deitou com a concubina de seu pai (Gn 35:22; 49:3-4). Em 1 Crónicas 5:1-2 lemos que Ruben não foi contado como primogénito e que a sua primogenitura foi dada aos filhos de José. De Judá veio o príncipe, porém o direito da primogenitura foi de José.

Depreendemos destes dois exemplos que o direito de primogenitura não era inalienável. O primogénito de facto podia perder este direito, por pecado, até mesmo vendê-lo.
Em que consistia esse direito de primogenitura e a bênção associada?

- Deus te dê do orvalho do céu e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto (Gn27:28) = prosperidade vinda da terra, porção dobrada (Dt 21:17)
- Sirvam-te povos, e nações te reverenciem: sê senhor de teus irmãos e os filhos de tua mãe se encurvem a ti (Gn 27:29) = autoridade, domínio, precedência (2 Cro 21:3)

- Maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar. (Gn27:29)
Esaú viveria longe dos lugares férteis da terra, sem orvalho que cai do alto. Viveria da espada e serviria a seu irmão (Gn 27:40).

Ruben perdeu o direito. Simeaõ e Levi também não entraram em linha de conta pela violência que fizeram (Gn 49:5-7). A autoridade, o domínio, o cetro passou a pertencer a Judá, quarto filho de Lia (Gn 49:8-12). A bênção do primogénito - a porção dobrada - foi para José, filho mais velho de Raquel (os filhos das concubinas de Jacó não entraram em linha de conta), através de Efraim e Manassés, filhos de José.
Depois de Jacó, o direito de primogenitura é repartido por dois. José recebeu o direito de primogenitura – a bênção da porção dobrada –, mas quem está na linhagem de Jesus é Judá, não José. Judá é o príncipe, que terá o domínio, de onde virá a dinastia de David, o rei.

Esta transmissão da primogenitura de Jacó para um filho de Lia e um filho de Raquel está em concordância com Deuteronómio 21:15-17: Se um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem aborrece, e uma e outra lhe derem filhos, e o primogénito for da aborrecida, no dia em que fizer herdar a seus filhos aquilo que possuir não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preferindo-o ao filho da aborrecida, que é o primogénito. Mas ao filho da aborrecida reconhecerá por primogénito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto possuir; porquanto é o primogénito do seu vigor: o direito da primogenitura é dele.
Isto também dá a entender que o direito de primogenitura não pode ser alienada pelo pai por capricho. Embora José fosse o filho mais amado de Jacó (Gn 37:3), Jacó não o podia privilegiar sobre os filhos de Lia (Ruben, Simeão, Levi e Judá).

O que me leva a concluir que Jafé, nada tendo feito para desmerecer o direito de primogénito, não terá sido por Noé (por Deus) preterido a favor de Sem. Cão, sendo o mais velho, sim, perdeu o direito de primogenitura pelo seu comportamento.

Quem considera Jafé o mais velho (é o caso de Jordan), não tem explicação para a preferência de Sem sobre Jafé. Diz apenas que em todo o livro de Génesis, o filho primogénito é posto de lado a favor de um filho mais novo, indicando assim a necessidade de um segundo Adão (JORDAN, J. The sin of Ham and the curse of Canaan. An Exposition of Genesis 9:20-27. Part 1 & 2. Biblical Horizons Newsletter, nº 96, 97, 98. 1997).
Mas tiraria o Senhor a primogenitura a alguém sem uma razão válida, para simbolicamente ilustrar a necessidade de um segundo Adão, filho mais novo?

26/10/2013

GENESIS 5 E 11

No texto anterior falámos das motivações dos tradutores da LXX para alongar a cronologia bíblica.

Este desejo de alongar a cronologia, de afirmar que existiam culturas muito mais antigas do que a Bíblia afirma, existe desde sempre e continua hoje.

Em 1655, um certo Isaac La Peyrère encontrou uma solução para resolver alguns problemas de cronologia bíblica. Escreveu um livro intitulado Prae-Adamitae, em que alvitra que Adão não era o primeiro homem. Não podia ser. Quem era a mulher de Caim? De onde veio ela, se Adão e Eva só tinham gerado Caim e Abel? A resposta de La Peyrère: ela veio de povos pré-adâmicos. Quando Caim fugiu da presença do Senhor e teve medo de ser morto, se não houvesse mais ninguém no mundo, não havia razão de ter medo. Isto quer dizer que havia pessoas no mundo antes de Adão ter sido criado.

Pode-se facilmente contrapor outros argumentos a esta teoria. Adão gerou Sete quando tinha 130 anos, provavelmente logo depois de Caim ter morto Abel (Gn. 4:25). Quando nasceu Caim? Não sabemos, mas possivelmente dentro de um ano ou dois de Adão e Eva terem sido criados, em obediência ao mandamento “multiplicai-vos”. A Bíblia não diz que Adão teve outros filhos nestes 130 anos, fora Caim e Abel, mas também não diz que não teve. É perfeitamente razoável dizer que Adão e Eva tiveram muitos outros filhos que Caim e Abel ao longo de 130 anos! E mesmo Caim e Abel podem ter tido muitos filhos e filhas nesse espaço de tempo. Não havia restrição em casar com irmãos.
Outra objeção à Bíblia tem a ver com a longevidade das pessoas nas listas genealógicas de Génesis. Adão, 930 anos. Sete, 912. Enos, 905. Cainã, 910. Maalaleel, 895. Jered, 962. Enoque, 365, uma exceção. Matusalém, 969. Lameque, 777. Noé, 950.

Uma longevidade de 900, 800, 700 anos é considerada exagerada para ser histórica ou cientificamente provável. Alega-se geralmente um princípio uniformitarista, assumindo que as leis e processos naturais que operam no universo hoje, sempre operaram no passado, da mesma maneira e com a mesma intensidade, e que são suficientes para explicar todas as mudanças geológicas e físicas – noutras palavras, o presente é a chave para o passado. Noutras palavras, se hoje vivemos em média 80 anos, no passado não terá sido muito diferente, mais anos menos anos, de acordo com as condições de vida melhores ou menos boas.

James Barr afirma que se pode dizer que cronologia bíblica é uma espécie de mito ou lenda. É uma forma de contar histórias, popular no mundo antigo, que procurava traçar um retrato da relação de um povo com o princípio do mundo, de um plano divino atuando na história, ou de uma conceção religiosa do lugar da humanidade no universo. A informação dita “cronológica” neste tipo de histórias não é material histórico ou científico, mas é cronologia lendária (Barr, 1987: p.2).

Mas porque não seria possível esta longevidade? Em Gn 6:3 podemos ler que o Senhor limitou a idade do homem a 120 anos quando viu a maldade multiplicar-se. Verificamos que, depois do dilúvio, as idades começam a diminuir gradualmente. Sem, 660 anos. Arfaxade, 503 anos. Salá, 433. Reú, 239. Serugue, 230. Naor, 148. Abrão, 175. Isaque, 180. Jacob, 147. José, 110 anos.

Segundo outros, as listas de Gn. 5 e 11 não fornecem uma cronologia exata, porque, afirmam, existem falhas (gaps é o termo utilizado em inglês) nas genealogias. Baseiam-se na diferença entre Gn. 11 e Lucas 3:36. Lucas insere um Cainã entre Arfaxade e Salá, mas este Cainã não aparece em Genesis 11 (versão hebraica). Se existe uma falha, alegam, não sabemos quantos nomes terão sido omissos nestas listas genealógicas e quanto tempo falta na realidade. Portanto, as genealogias são seletivas e resultado de um arranjo artificial. Como se pode ver neste caso, há dez nomes em cada uma destas listas, e o último nome tem três filhos.

É verdade que, em alguns casos, as genealogias são seletivas. Também, na Bíblia, a expressão “filho de” nem sempre se refere à relação direta filho-pai, mas pode referir-se a um antepassado. Jesus é chamado filho de David, por exemplo. E há nomes que aparecem em certas genealogias, mas são omissos noutras. Por exemplo, na genealogia de Jesus em Mateus 1 são omissos vários nomes de reis, cujas histórias são narradas nos livros de Reis e Crónicas. Há razões teológicas que explicam estas omissões (Jones, p.36-46, dá vários exemplos. Ainda haverá ocasião de voltar a este assunto).

Porém, mesmo que os nomes na genealogia sejam seletivos, nada disto altera a cronologia e a duração do tempo. Vejamos.

Sete viveu 105 anos e gerou a Enos… Enos viveu 90 anos e gerou a Cainã ….Cainã viveu 70 anos e gerou Maalaleel … Maalaleel viveu 65 anos e gerou a Jerede ….  (Gn 5)

O tempo é medido pelo número de anos entre um evento e outro evento. O texto dá a idade de um patriarca quando o próximo nasce. Assim, entre o nascimento de Enos e o nascimento de Cainã, há 90 anos. Entre o de Cainã e o de Maalaleel, 70 anos. E entre o de Maalaleel e Jerede, 65 anos. Etc. É só adicionar para saber quantos anos passaram. Este procedimento fixa as vidas de dois homens um em relação ao outro, e fornece assim uma cronologia contínua e exata.

Mas, dirão alguns, se é acrescentado um nome, como aconteceu com Cainã na LXX, aumenta-se o número de anos.

Mas isto não se aplica aqui, se aceitamos o TM como texto verdadeiro, bem como o texto recebido do Novo Testamento.

O Novo Testamento, em Judas 14, confirma que não há inserção de nomes adicionais na lista de Gn 5 ao dizer que Enoque é o sétimo depois de Adão, exatamente na posição onde aparece no Velho Testamento. Por isso, mesmo que noutro texto do TM ou do Novo Testamento, um nome adicional venha referido numa qualquer genealogia, nada disto altera a relação temporal entre um patriarca e o seguinte.

Assim, a inserção, em Lucas 3:36, de Salá entre Cainã e Arfaxade não altera nada à relação temporal entre Salá e Arfaxade: Viveu Arfaxade 35 anos e gerou a Salá …. Viveu Salá 30 anos e gerou a Héber …. (Gn 11). Entre Arfaxade e Salá haverá sempre 35 anos.

A possibilidade de faltarem nomes nas genealogias registadas não alteraria a duração do período. Independentemente de nomes ou descendentes terem sido omissos entre dois nomes, as vidas de dois patriarcas são matematicamente interligadas e existe uma relação fixa. Não falta tempo, embora possam faltar nomes.

Além disso, a relação Matusalém-Noé no período de Adão ao dilúvio demonstra o rigor do cálculo e os princípios matemáticos na base da cronologia. O cálculo é feito por anos inteiros.

Está escrito que Matusalém tinha 969 anos quando morreu (Gn 5:27), mas na realidade ele não completou estes 969 anos, tendo morrido no ano do dilúvio, que começou no ano 600 da vida de Noé, no dia 17 do segundo mês (Gn 7:11), do ano 1656 a contar desde o princípio/criação do homem. (ver quadro na mensagem anterior).

O primeiro ano da vida de Adão é o Anno Hominis (AH) 1. O ano em que morreu é AH 930.

Portanto, viveu 929 anos inteiros e um número desconhecido de meses e dias. Partes de um ano são contadas como um ano inteiro. Não é sugerido que todos nasceram no mesmo dia ou mês do ano, mas os anos são integrais. O 131º ano de Adão é o 1º da vida de Sete. Daí podemos concluir, diz Anstey, que Noé tem 600 anos no princípio e não no fim do seu 600º ano.

Os valores nesta lista genealógica são precisos. Isto ainda é confirmado pelo facto de que desde o bispo Ussher (Annals of the World, 1650), nenhum cronologista que utilizou os números do texto hebraico como base do seu cálculo falhou em fixar o dilúvio no ano 1656 AH.

Isto não explica a razão por que o segundo Cainã foi omisso em Genesis 11, ou acrescentado em Lucas 3. Várias hipóteses são oferecidas por diversos autores, mas a questão de quem foi Cainã não se nos apresenta como relevante aqui (Jones, pp.34-35, apresenta vários cenários possíveis. Ver também JORDAN, J. The Second Cainan Question. Biblical Chronology Newsletter, Volume II, No. 4, April 1990)

Parece-me poder concluir com Anstey (p.66-67) que o objetivo do autor destas genealogias era, de facto, cronológico, o que pode ser inferido do cuidado, da precisão e da forma cronológica das declarações relativas às idades dos patriarcas.

Contra os críticos a esta posição perguntamos: Se Deus deu estes números tão precisos e esta cuidadosa interligação entre dois nomes, não terá sido o Seu propósito datar estes eventos? Permitir que leitores posteriores dos escritos bíblicos possam contar o tempo?

Se o tempo é lendário ou mitológico, como afirma James Barr, porquê valores pormenorizados? Porque não números redondos e elevados como dados por Berosus ou na Lista de Reis Sumérios? Porquê sequer mencionar números?

Aliás, gostava de fazer uma breve referência a James Barr (1987), como exemplo de uma interpretação que procura um compromisso entre a Bíblia e a cronologia secular académica.

A Bíblia fornece uma cronologia da criação até à cruz. É o que defendem cronologistas como Anstey, Jones, Jordan e muitos outros. E é o que estamos a analisar neste blogue. Mas esta cronologia bíblica não tem qualquer ponto de sincronia com a cronologia que está a ser usada no meio académico. Parecem duas histórias diferentes. O problema está principalmente na história do antigo Médio Oriente. A cronologia secular baseia-se numa cronologia do Egipto compilada por Maneto (300 d.C.) que apresenta uma duração muito longa para o período egípcio. A cronologia bíblica não é considerada aceitável por ser demasiado curta. O dilúvio a ocorrer cerca de 2350 a.C. não permite dizer que a civilização egípcia nasceu cerca de 4000 a.C. como defendem os historiadores académicos que se baseiam em Maneto.

Portanto, há, no meio cristão, não podendo ou querendo contrariar a cronologia secular, quem procure soluções de compromisso.

Diz Barr que há, na Bíblia, material que se parece muito com datas históricas (por ex. 1Rs 15:1), e é possível que o sejam. Mas há outras datas que, se não forem de natureza mitológica, podem ser uma construção esquemática e teórica. É o caso, segundo Barr, de 1Rs 6:1, onde está escrito que Salomão começou a construção do templo no ano 480 depois do êxodo do povo do Egipto. Um número demasiado redondo para poder ser real. Barr apresenta uma explicação muito estranha quanto à cronologia bíblica:

Barr faz distinção entre a intenção literal do autor e a verdade histórica e científica. Os números não são, para ele, historicamente, cientificamente ou factualmente verdade, isto é, alguns são de natureza mítica ou lendária. Mas em fornecer estes números, a intenção do autor era literal. Os autores bíblicos pensavam que estes números correspondiam ao facto. Do ponto de vista do autor bíblico e seu público, no que diz respeito a dados cronológicos, estes eram intencionados como cientificamente verdade. As datas e números não teriam qualquer uso ou significado se esta não fosse a intenção.

Citamos:

 “The figures do not correspond with actual fact, that is, they or some of them are legendary or mythical in character, but the biblical writers in overwhelming probability did think that they corresponded to actual fact”… “from the point of view of the biblical writers and their public, as far as concerns the chronological data, it was intended as scientifically true, and the dates and figures do not have any use or any meaning if they were not so intended” (Barr, 1987: p.5).

Uma interpretação no mínimo estranha… e que põe em causa a verdade bíblica.

17/10/2013

De Adão ao dilúvio


As diferenças entre o texto hebraico (massorético) e o texto grego (Septuaginta). As alterações no texto grego apresentam-se intencionais. Como se explica esta intencionalidade.

Fizemos um pequeno exercício de cronologia de Adão até ao dilúvio (ver quadro), adicionando o número de anos fornecidos em Genesis 5, usando a nossa tradução João Ferreira de Almeida. Na segunda coluna, colocámos as datas da Septuaginta (LXX).

Ano
TM
Genesis 5
Ano LXX
O dia (= ponto 0) em que Deus criou o homem (Adão)
Idade quando gerou:
130
Adão viveu 130 anos e gerou Sete
230
230
235
Sete viveu 105 anos e gerou a Enos
435
205
325
Enos viveu 90 anos e gerou Cainã
625
190
395
Cainã viveu 70 anos e gerou a Maalaleel
795
170
460
Maalaleel viveu 65 anos e gerou a Jerede
960
165
622
Jerede viveu 162 anos e gerou a Enoque
1122
162
687
Enoque viveu 65 anos e gerou Metusalém
1287
165
874
Metusalém viveu 187 anos e gerou a Lameque
1454
167 (outras versões 187)
930
Morte de Adão. Viveu 930 anos
987
Morte de Enoque. Viveu 365 anos
1042
Morte de Sete. Viveu 912 anos
1056
Lameque viveu 182 anos e gerou Noé
1642
188
1140
Morte de Enos. Viveu 905 anos
1235
Morte de Cainã. Viveu 910 anos
1290
Morte de Maalaleel. Viveu 895 anos.
1422
Morte de Jered, Viveu 962 anos.
1556
Era Noé da idade de 500 anos e gerou a Sem, Cão e Jafé
2142
500
1651
Morte de Lameque. Viveu 777 anos.
1656
Morte de Metusalém. Viveu 969 anos.
1656
No ano 600 da vida de Noé, aos 17 dias do 2º mês, as águas do dilúvio inundaram a terra (Gn 7:6, 11)
2242
dilúvio
Genesis 11
2256
morte de Metusalém??
1658
Sem era da idade de 100 anos quando gerou a Arfaxade 2 anos depois do dilúvio
2342
100
1693
Viveu Arfaxade 35 anos e gerou Salá
2477
135
2607
Cainã, 130 anos
1723
Viveu Salá 30 anos e gerou a Héber
2737
130 anos
1757
Viveu Héber 34 anos e gerou Pélegue
2871
134 anos
1787
Viveu Pélegue 30 anos e gerou Reú
3001
130
1819
Viveu Reú 32 anos e gerou a Serugue
3133
132
1849
Viveu Serugue 30 anos e gerou Naor
3263
130
1878
Viveu Naor 29 anos e gerou a Terá
3342
79
1948
Viveu Terá 70 anos e gerou a Abrão, Naor e Harã.
3412
70 anos

Olhando bem, parece bastante óbvio que as variações não são acidentais ou devidas a erros de escriba, mas são intencionais, o que é visível da maneira sistemática em que foram introduzidas. 100 anos foram adicionados à idade de cada patriarca quando gerou o seu filho. No Texto Massorético (TM) Adão tinha 130 anos quando gerou Sete, na LXX, 230 anos. O mesmo acontece com Sete, Enos, Cainã, Maalaleel e Enoque.
Jerede e Matusalém fazem exceção a esta regra. Jerede, no TM, tinha 162 anos quando gerou Enoque. A sua idade mantém-se igual na LXX por apresentar um valor consentâneo com os outros.

A maior parte das versões da LXX atribui 167 anos a Matusalém quando gerou Lameque (no TM é 187), o que faz com que Matusalém teria sobrevivido 14 anos ao dilúvio. O que é absurdo e não concordante com o que a Bíblia diz em Genesis 7-11 e 2Pedro 3:20. Apenas 8 pessoas, isto é Noé, a sua mulher, os seus três filhos e respetivas noras entraram na arca e sobreviveram ao dilúvio. Para remediar a isto, possivelmente, outras versões da LXX restauraram o número 187.

O caso de Lameque é diferente. Seis anos foram acrescentadas à sua idade quando gerou o seu filho, e 30 anos foram deduzidos do restante, de modo que o número total de anos de vida é menos 24 do que na versão hebraica.

Estas alterações fizeram com que, na LXX, o dilúvio ocorre no ano de 2242 (ou 2262, dando 187 anos a Matusalém quando gerou Lameque), enquanto na versão hebraica, no ano de 1656. Uma diferença de 586 (ou 606) anos.

A irregularidade dos números hebraicos, mais consentânea com a incerteza da duração da vida do que a sucessão de números mais regular da LXX é, para Anstey, mais uma razão para aceitar o TM como genuíno original. Os números da LXX parecem fabricados a partir da versão hebraica. É mais difícil invocar o contrário.

O mesmo esquema de adicionar 100 anos é aplicado na lista de Genesis 11, nos patriarcas após o dilúvio. Onde o TM diz que Héber tinha 34 anos quando Pelegue nasceu, a LXX diz 134, e assim por diante.

Além disso, a LXX acrescentou uma personagem entre Arfaxade e Salá: Cainã. Este segundo Cainã (o primeiro aparece entre Enos e Maalaleel) é outro grande problema colocado aos cronologistas da Bíblia.

Se as alterações introduzidas na LXX são propositadas e não acidentais, a questão é: qual a razão por que os tradutores o fizeram?

Primeiro, verificamos que, destas alterações, resultou uma maior antiguidade do mundo, da humanidade. Ao avançar de 100 anos a data de nascimento do herdeiro, a cronologia é alongada, a origem do homem mais antiga.

Está há muito reconhecido que sempre houve entre os homens um desejo de exagerar a antiguidade da sua origem. Provas disto podem ser encontradas nas lendas e escritos mais antigos (Crowe, 2001).

Refere-se frequentemente a Lista de Reis Sumérios, que diz que “quando o dom da realeza desceu dos céus”, o primeiro rei, em Eridu, reinou 28.800 anos e o seguinte 36.000. Segue-se uma série de oito reis, num total de 241.000 anos, quando veio o dilúvio sobre a terra. A série continua depois do dilúvio, quando a duração de vida diminui abruptamente para valores de cerca de 1000 anos ou menos.

No século V a.C. o historiador grego Heródoto escreveu que lhe foi contado que a história do Egipto remontava a 382 gerações, cerca de 11.000 anos antes do seu tempo. No nosso calendário atual isto seria cerca de 13.500 a.C., mas os egiptólogos atualmente têm dificuldade em encontrar nos escritos algo que permita datas anteriores a 3000 a.C. (Crowe, 2001).

No século III a.C., o Velho Testamento chegou à Alexandria, no Egipto, na época dos Ptolemeus e foi traduzido em grego, a Septuaginta. Em Alexandria, provavelmente pela primeira vez, os eruditos da Grécia, Egipto e Mesopotâmia foram confrontados com provas detalhadas da antiguidade do povo judeu. Outras nações conquistadas pelos Macedónios (Alexandre o Grande) sentiram-se também compelidas a competir na luta pela antiguidade. Maneto, um sacerdote e escriba de Heliópolis, e Berosus, sacerdote caldeu, ambos do tempo de Ptolomeu Filadelfos (285-247), compuseram relatos em grego da história das suas respetivas nações. Nos escritos dos vencidos aos conquistadores, ambos procuraram demonstrar que os vencidos eram descendentes de civilizações muito antigas (Crowe, 2001).

Berosus escreveu a história da Babilónia desde a criação até ao seu tempo, alegadamente usando arquivos astronómicos. A sua história da criação do mundo, das dez gerações antes do dilúvio e das dez gerações depois, tem alguma correspondência com a narrativa mosaica no livro de Genesis. Os dez reis antes do dilúvio ocupam um período de 1200 anos, de 360 dias cada, ou seja um total de 432.000 dias, valor que os caldeus magnificaram para 432.000 anos a fim de reforçar a sua antiguidade (Anstey, p.17).

Maneto revindica uma história egípcia de 30 dinastias, com 113 gerações, totalizando 36.525 anos, um pedigree que fez os Gregos parecer crianças insignificantes pelo contrasto. W.G. Waddell, na sua tradução das obras de Maneto, diz que as obras de Berosus e Maneto devem ser vistas principalmente como expressões de rivalidade entre Ptolomeu e Antíoco, cada um procurando proclamar a sua civilização como a mais antiga (Crowe, 2001).

Eratóstenes (ca.275-194 a.C.), bibliotecário da biblioteca de Alexandria várias décadas depois de Maneto, juntou-se no jogo da antiguidade por parte da Grécia (Crowe, 2001).

O mesmo desejo de alongar a cronologia pode explicar os valores da LXX. Os tradutores da LXX viviam no Egipto, cerca de 250 a 180 anos antes de Cristo. Estavam familiarizados com as afirmações extravagantes dos sacerdotes egípcios, que reivindicavam ser os primeiros da humanidade (Barr, 1987: p.4). Alexandria era de longe o maior centro de população judaica no mundo de fala grega. Desejavam modernizar a visão bíblica da antiguidade da origem e raça humana e transformá-la mais em conformidade com a noção prevalente dos eruditos na Alexandria (Anstey, p.15), acrescentando várias centenas de anos à cronologia hebraica antes do dilúvio bem como ao período do dilúvio a Abraão. Para Anstey, o método e motivo das alterações é perfeitamente claro.

A este respeito, é interessante fazer referência ao ensaio histórico de Flávio Josefo (séc. I d.C.), historiador judeu no Império Romano, intitulado «Contra Apion», que é uma defesa da antiguidade e historicidade do povo judeu contra Apion, que afirmava que os Judeus eram recém-chegados na cena da história mundial, e por isso sem status ao nível cultural e civilizacional, contrariamente aos Gregos.