Texto atualizado publicado em 31-05-2020
Achando-se as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi, para mim, o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome me chamo, ó Senhor, Deus dos Exércitos (Jeremias 15:16)
26/09/2015
Quem é o Artaxerxes de Esdras e Neemias?
24/09/2015
O DECRETO DE CIRO (2)
A questão cronológica da profecia
das 70 semanas de Daniel
A profecia das 70 semanas de Daniel constitui um quebra-cabeça
cronológico, cuja razão principal deriva disto:
o número de anos entre o decreto de Ciro, que constitui o ponto de
partida lógico e natural do período de 70 semanas (490 anos), e que é tradicionalmente
datado 536 a.C. e o batismo de Jesus, no ano 30 d.C.
aproximadamente, que constitui o término da 69ª semana (483 anos),
ultrapassa largamente a duração da profecia (cerca de 83 anos).
Isto teve por consequência a procura de soluções, que passam por
alternativas ao decreto de Ciro como ponto de partida das 70 semanas, ou por
intercalar “lapsos” indeterminados de tempo entre o primeiro grupo de 7 semanas
e o segundo grupo de 62 semanas e/ou entre o fim do grupo de 62 semanas e a 70ª
semana.
Muitos daqueles que consideram que as 70 semanas devem ser interpretadas
à letra rejeitam, por isso, o decreto de Ciro como ordem de saída, e procuram
substituir este por outro decreto alternativo alguns anos mais tarde na história.
Em nosso ver, a interpretação bíblica não deixa margem para duvidar de
que o decreto de Ciro constitui efetivamente a “ordem de saída” para a
reconstrução de Jerusalém e, portanto, o ponto onde se iniciam os 490 anos da
profecia. Apresentaremos argumentos contra aqueles decretos alternativos.
Mas, se tomarmos por correta a data de 536 a.C. para o decreto de Ciro,
ficamos com um problema por resolver. As 70 semanas representam uma indicação
de tempo com conotações meramente simbólicas? Então porquê uma profecia com um
tempo muito específico? Teremos de intercalar lapsos de tempo? Mas como
justificar estes lapsos de tempo?
Por outro lado, se tomarmos por incorreta
a data de 536 a.C. para o decreto de Ciro, toda a história deveria ser revista.
Vários autores (Donovan Courville, Immanuel Velikovsky, David Rohl, Peter
James, Emmet Sweeney, e outros) já fizeram propostas revisionistas, mas não têm
tido aceitação no meio académico (ver artigo de John Crowe, The revision of Ancient history: a
perspective, in: http://www.sis-group.org.uk/ancient.htm
Deixaremos para mais tarde esta reflexão. A nossa abordagem, até agora, nestes
estudos, tem sido a de construir uma cronologia começando do início da história
do homem, e utilizando apenas informação bíblica para estabelecer datas. Não
temos, salvo em alguns casos para termos de comparação, usado datas “a.C.”
(obtidas retroativa e posteriormente) para esta cronologia. Por enquanto,
continuaremos nesta base. Porque é nesta base que Daniel e o povo judeu terão
feito os seus cálculos quanto à data expectada para a vinda do Messias.
O primeiro ano de Ciro era o ano
(aproximadamente) 3468 Anno Hominis, o ano
da saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém.
Sabe, e entende: desde a saída da ordem para
restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e
sessenta e duas semanas: as praças e as circunvalações se reedificarão, mas em
tempos angustiosos (Dn 9:25).
Tudo no texto bíblico indica que o ponto de
partida das setenta semanas – a saída da ordem para restaurar e para edificar
Jerusalém (v.25) – não pode ser outro que o decreto de Ciro autorizando os
judeus a regressarem à sua terra e reconstruírem o seu templo.
Este decreto constitui o ponto de transição
entre o fim do domínio babilónico e a libertação do cativeiro e,
simultaneamente, o começo de um novo período na existência nacional de Israel,
já não como nação soberana e independente, embora na sua própria terra, mas
como um povo unido pela sua religião debaixo da governação de um rei gentio.
O decreto de Ciro foi o decreto que veio em
cumprimento das profecias de Jeremias. “Logo que se cumprirem para Babilónia
setenta anos atentarei para vós”, escreveu Jeremias de Jerusalém aos exilados
na Babilónia (Jr 29:10). Isto significava que quando chegasse o fim do domínio
babilónico, terminaria o cativeiro dos judeus e o povo poderia voltar para casa
(Jr 25:8-12). Foi um decreto de liberdade.
Também 2 Crónicas 36:21-23 estabelece
claramente esta transição:
… para que se cumprisse a palavra do SENHOR,
pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os
dias da desolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram.
Porém, no primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia
(para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias), despertou o
SENHOR o espírito de Ciro, rei da Pérsia, o qual fez passar pregão por todo o
seu reino, como também por escrito, dizendo: Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O
SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe
edificar uma casa em Jerusalém, que está em Judá; quem, dentre vós é de todo o
seu povo, que suba, e o SENHOR, seu Deus, seja com ele.”
O livro de Esdras, que continua a narração
histórica de 2 Crónicas, abre com o decreto de Ciro. É este decreto que
desencadeou a grande viragem na história do povo judeu após o cativeiro na
Babilónia, e que inicia o tempo da restauração de Israel. Os livros de Esdras e
Neemias relatam o regresso a Jerusalém e a reedificação do templo, da cidade e
dos muros no meio de feroz oposição.
Contra
aqueles que afirmam que Ciro apenas deu ordem para reconstruir o templo e não a
cidade, um argumento fundamental, que reforça a tese de que o decreto de Ciro
foi efetivamente a ordem de saída para
restaurar e edificar Jerusalém, é uma profecia de Isaías, que fora dada
duzentos anos antes pelo profeta Isaías, e que menciona Ciro (Koresh em Hebraico) pelo seu nome (Is
44:21 – 45:17). Deus fala:
[Eu sou o Senhor] que confirma a palavra do
meu servo e cumpro o conselho dos meus mensageiros; que digo de Jerusalém: ela será habitada; e das cidades de Judá:
elas serão edificadas; e levantarei as suas ruínas; que digo à profundeza das
águas: Seca-te, e eu secarei os teus rios;
que digo de Ciro: ele é meu pastor e
cumprirá tudo o que me apraz; que digo
também de Jerusalém: Será edificada; e do templo: Será fundado (Is
44:26-28).
Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a
quem tomo pela mão direita, para abater as nações ante a sua face […] eu irei adiante
de ti […] Por amor do meu servo Jacob, e de Israel, meu escolhido, eu te chamei
pelo teu nome, e te pus o sobre nome, ainda que não me conheces (Is 44:1-4)
Deus falou
diretamente a Ciro, a quem chama o seu “ungido” (Is 45:1). Esdras 1:2 relata o
que Ciro disse de si próprio: Assim diz
Ciro, rei da Pérsia: o SENHOR, Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra;
e Ele me encarregou de lhe edificar uma casa em Jerusalém. E ainda em
Isaías 45:13, Deus diz de Ciro: Eu o despertei em justiça e todos os
seus caminhos endireitarei, ele edificará a minha cidade e soltará os
meus cativos não por preço nem por presentes. Ciro, como o “ungido” do
Senhor, prefigura Jesus, o Messias. O Messias é aquele que salva e liberta o
seu povo, edifica o seu templo, a sua Igreja (Mt 16:18), e a sua cidade
celestial.
Babilónia,
na qualidade de cabeça da estátua dos impérios gentios no sonho de
Nabucodonosor (Dn 2), é representativa de todos os impérios seguintes. Por
isso, a libertação do cativeiro da Babilónia prefigura a libertação definitiva
por Cristo. Ciro, o libertador, é figura de Cristo, em que ele liberta o povo
do cativeiro, edifica Jerusalém e o templo (Is 44:48) e inaugura uma nova era
na história de Israel. Porque Babilónia é representativa dos que guardam Israel
cativo, a libertação e restauração é frequentemente falada em termos de
libertação do cativeiro da Babilónia. Por exemplo, o capítulo 40 de Isaías, que
anuncia consolo para o povo de Deus e a “voz que clama no deserto”, que Mateus
3:2-3 aplica a João Baptista, está diretamente relacionado ao cativeiro da
Babilónia. No trecho imediatamente anterior (Is 39:5-8), Isaías dissera ao rei
Ezequias que Israel seria levado para Babilónia.
É evidente
que Ciro não agiu por si próprio. Deus despertou o seu espírito; Deus está no
controlo de todas as coisas (Dn 11:1). É a palavra de Deus que dá a ordem. O
termo que é traduzido como “ordem” é, literalmente, “palavra” (DABHAR).
É isso que o
anjo Gabriel viera anunciar a Daniel: no
princípio das tuas súplicas, saiu a ordem (DABHAR) e eu vim para to declarar,
porque és mui amado. O anjo viera anunciar que a libertação estava próxima.
A ordem (palavra) da saída do povo já fora dada por Deus em resposta à oração de
Daniel.
É nossa
opinião que as Escrituras não deixam lugar a quaisquer dúvidas quanto ao
decreto de Ciro como ponto de partida das 70 semanas. Ainda mais porque, contra
a oposição que se levantara à construção, os judeus sempre se defenderam
recorrendo à permissão dada por Ciro no seu primeiro ano (Ed 3:7; 4:3;
5:13-17). Assim também a autorização de Dario, no segundo ano do seu reinado,
de retomarem as obras fundamenta-se no decreto de Ciro (Ed 6:1-3).
As praças e as circunvalações se
reedificarão em tempos angustiosos
A seguir à
ordem de Ciro, uma parte do povo judeu voltou à sua terra. Sob a direção de
Zorobabel e Jeshua iniciaram as obras de reedificação do templo, da cidade e
dos muros, quando se levantou oposição e a obra cessou. Embora os adversários
conseguissem fazer parar a obra durante vários anos, esta foi retomada e
terminada com sucesso.
Sete
semanas, isto são 49 anos, seriam necessárias para reedificar a cidade, as
praças e circunvalações, em tempos angustiosos. Os livros de Esdras e Neemias,
e dos profetas Ageu e Zacarias, dão conta dos tempos difíceis da reconstrução
da cidade, do templo e dos muros. À luz de Daniel 9:25, os acontecimentos
descritos nestes livros decorreram dentro dos limites das primeiras 7 semanas da
profecia.
As praças,
ou ruas, encontram-se dentro da cidade; fazem parte dela. As circunvalações, por
vezes traduzido tranqueiras, fosso ou muros, referem-se ao sistema de
fortificações em redor da cidade. A Septuaginta usa a palavra grega τειχος, que
significa muro, muralha. Trata-se obviamente dos muros da cidade, cuja
reconstrução foi conduzida por Neemias. Tanto a reconstrução do templo, que
sofreu forte oposição e mesmo interrupção durante vários anos, como a restauração
dos muros, que foi levada a cabo com as armas na mão, decorreram em tempos angustiosos. A finalização da
obra, a aliança que foi assinada (Ne 9:38; 10) e a festa de dedicação dos muros
(Ne 12:27-43) representam o fim das primeiras sete semanas. Numa próxima
mensagem, trataremos pormenorizadamente da cronologia destas 7 semanas, ou 49
anos.
Alternativas ao decreto de Ciro
À luz do
texto bíblico, é natural concluir que a ordem de saída para edificar Jerusalém
é o decreto de Ciro, e que a cidade e os muros foram, de seguida, reedificados
em 49 anos (isto é, nas primeiras 7 das 70 semanas).
Mas o desfasamento
cronológico de 80 anos já referido, não obstante as manifestas provas bíblicas
a favor do decreto de Ciro, parecem colocar obstáculos a esta interpretação,
conduzindo a que se procurassem soluções alternativas para funcionar como
“ordem de saída”.
Para facilitar a
compreensão, juntamos a seguinte lista dos reis persas que interessam ao nosso
estudo e as datas da cronologia consensual:
Ciro reinou (538 a 530) 9 anos
Cambises 529 a
522) 8 anos
(Entre Cambises e Dario I,
Smerdis/Gaumata usurpou o poder até que Dario o conseguiu derrotar em 522.
Reinou apenas 7 meses.)
Dario I Histaspes (521 a 486) 36 anos
Xerxes (485 a 465) 21 anos
Os livros de
Esdras e Neemias referem vários documentos oficiais, posteriores ao de Ciro,
que estão todos, de alguma maneira, relacionados com a reedificação de
Jerusalém e/ou do templo. Entraram em consideração os seguintes:
1. O decreto de
Dario Hystaspes no segundo ano do seu reinado.
Desde o tempo de
Ciro começaram as tentativas das gentes locais para parar a construção (Ed
4:5). A oposição levou à interrupção das obras durante vários anos, até que no
segundo ano de Dario, o profeta Ageu incitou o povo a retomar o trabalho.
Quando recomeçaram a edificar, Tatenai, o governador daquém do Eufrates, foi
logo inquirir quem os autorizou a reedificar a casa e restaurar o muro, e
escreveu a avisar Dario. Dario mandou procurar nos arquivos, onde se encontrou
o decreto de Ciro. Nesta sequência, Dario, no segundo ano do seu reinado, autorizou
o recomeço das obras do templo. A história está contada em Esdras 4-6 e Ageu 1.
2. O decreto de
Artaxerxes, alegadamente Artaxerxes I Longimano, no sétimo ano do seu reinado.
Passadas a
construção e dedicação do templo no sexto ano de Dario, Esdras, o escriba,
subiu a Jerusalém com uma carta do rei Artaxerxes (Ed 7:11-26), autorizando que
ele fosse a Jerusalém, juntamente com quem quisesse do povo de Israel, para
levar prata e ouro oferecido pelo rei, e ofertas do povo para a casa de Deus,
para comprar com esse dinheiro animais para o sacrifício, para recolocar no
templo os utensílios e para nomear magistrados e juízes. Conclui Esdras assim: Bendito seja o Senhor Deus de nossos pais,
que deste modo moveu o coração do rei para ornar
a casa do Senhor, a qual este em Jerusalém (Ed 7:27-28).
3. O decreto de Artaxerxes,
alegadamente Artaxerxes I Longimano, no vigésimo ano do seu reinado.
Depois de tomar
conhecimento que em Jerusalém os muros ainda estavam derribados e suas portas
queimadas a fogo, Neemias solicita ao rei autorização para ir a Jerusalém com a
missão de reconstruir os muros. Esta autorização é-lhe dada mediante cartas
dirigidas pelo rei aos governadores dalém do Eufrates e a Asafe, guarda das
matas do rei, para fornecerem aos judeus madeira
para as vigas das portas da cidadela do templo, para os muros da cidade, e para
a casa em que deverei [Neemias]
alojar-me (Ne 2:8). Estas últimas cartas são uma autorização específica para
a reconstrução dos muros da cidade, que estavam ainda derribados e com as
portas queimadas, e para o fornecimento dos respetivos materiais necessários
(Neemias 1 e 2).
Este último
“decreto” é pela maioria aceite e defendido como “ordem de saída”, isto porque
em termos cronológicos é o que se enquadra melhor no tempo literal da profecia
de Daniel e tendo em conta as datas da cronologia consensual.
Em primeiro lugar,
podemos rejeitar todas estas “ordens de saída” alternativas, mesmo à luz da
cronologia consensual. Mau grado todos os cálculos e tentativas, nenhum destes
alegados decretos se enquadra exatamente nos 490 anos. Os primeiros dois são
demasiado próximos de Ciro, tendo também anos a menos e o último é demasiado
tarde, ultrapassando o tempo do batismo de Jesus, que é o término da 69ª semana (ver mensagens sobre a profecia das 70 semanas de Daniel). Existem cálculos que utilizam
um subterfúgio: uma medida de tempo a que chamam de “ano profético” e que teria
uma duração de apenas 360 dias[1].
Deste modo "acertam" no tempo, contudo, o uso de um “ano profético” não tem
fundamentos bíblicos. Não nos adianta aqui debater a validade do “ano
profético”, porque há outros argumentos bíblicos através dos quais podemos
rejeitar todos estes alegados decretos, inclusive o do vigésimo ano de
Artaxerxes I Longimano.
Argumentos
contra os decretos alternativos
O mais óbvio
argumento contra qualquer das alternativas avançadas é ser por demais estranho
que a “ordem de saída para restaurar e
edificar Jerusalém” tivesse sido dada quando Jerusalém, o templo e os muros
já estavam a ser edificados.
No ano do seu
regresso à terra, no sétimo mês (que é Tishri, setembro/outubro), edificaram o
altar, estando já os filhos de Israel nas cidades (Ed 3:1-6), e celebraram a
festa dos tabernáculos. Mas ainda não
estavam postos os fundamentos do templo do Senhor (v.6). Naquele mesmo ano,
deram dinheiro aos pedreiros e aos carpinteiros, e comida e azeite aos sidónios
e tírios, para trazerem do Líbano madeira
de cedro ao mar, para Jope, segundo a permissão que lhes tinha dado Ciro, rei
da Pérsia (Ed 3:7). A madeira de cedro serviria para a construção do templo
certamente, e a permissão fora dada por Ciro.
No segundo ano da
sua vinda à casa de Deus em Jerusalém, diz Esdras 3:8, começou a obra da casa
do Senhor.
A obra de
reconstrução e restauração começou, portanto, logo após o regresso. Já foi
referido que um dos argumentos contra o decreto de Ciro e a favor do decreto de
Artaxerxes é que Daniel 9:25 diz que a “ordem de saída” era para restaurar e
edificar Jerusalém, não falando
expressamente do templo.
Contrapomos aqui o
que diz Deus através de Isaías: digo de
Ciro: Ele é meu pastor, e cumprirá tudo o que me apraz; que digo também de
Jerusalém: Será edificada; e do templo: Será fundado (Is 44:28).
Que é um templo
sem a cidade e o povo? O templo é o lugar onde Deus habita, no meio do seu
povo. O povo, ou pelo menos uma parte dele, habitava em Jerusalém (1 Cr 9:1-3).
Também, antes de se iniciar a construção do templo, havia que construir casas
para habitação e outras infraestruturas necessárias à vida diária. Tudo isto,
juntamente com o templo, constitui a cidade. Portanto, pode dizer-se que
Jerusalém começou efetivamente a ser reedificada desde o dia em que o povo
regressou, a seguir à ordem de Ciro.
Isto prova a carta
escrita por Reum e Sinsai (Ed 4:7-16) que dizia que os judeus estavam reedificando aquela rebelde e malvada
cidade, e restaurando os seus muros, e reparando os seus fundamentos
(v.12). Esta carta deu origem à proibição de continuar com a edificação da
cidade (Ed 4:17-24). Cessou pois a obra até
ao segundo ano do rei Dario. O rei “Artaxerxes” a quem a carta era endereçada
é, portanto, um rei anterior a Dario, possivelmente Cambises (voltaremos mais
adiante à questão dos nomes dos reis persas). Assim, antes de a obra do templo
ser interrompida, a cidade estava a ser reedificada, bem como os muros.
No segundo ano de
Dario, quando Ageu incitou o povo a retomar as obras do templo que estavam
paradas, ele disse: Acaso é tempo de habitardes
vós em casas apaineladas, enquanto esta casa permanece em ruínas? (Ag 1.4).
Mais uma prova de que a cidade estava a ser edificada com as suas casas, embora
as obras do templo estivessem paradas.
Todos os
argumentos utilizados pelos judeus para refutar a oposição do inimigo à
edificação fundamentam-se no decreto de Ciro: Esdras 3:7; 4:3; 5:13-14. A autorização de Dario no
segundo ano do seu reinado para recomeçar as obras do templo remete
peremptoriamente ao decreto de Ciro. Isto invalida totalmente a possibilidade
de o decreto de Dario ser a “ordem de saída”.
Nenhum argumento
pode ser trazido a favor das cartas dadas pelo rei Artaxerxes a Esdras, no 7º
ano do seu reinado. Não se trata de todo de uma ordem para a reedificação de
Jerusalém, nem do templo, que já estava construído e dedicado. Esdras foi para
Jerusalém especificamente com a finalidade de ornar o templo com a prata e o ouro e os utensílios que levava com
ele.
Cerca de 11 anos
depois de Esdras ter ido para Jerusalém, é a vez de Neemias regressar a
Jerusalém. A missão de Neemias, que começou no 20º ano do mesmo Artaxerxes de
Esdras, era, basicamente, reconstruir os muros da cidade e colocar as portas.
Os trabalhos estão descritos em pormenor em vários capítulos do livro de
Neemias. O colocar das portas e a dedicação do muro mete um ponto final à obra
de reconstrução de Jerusalém. Terminado o trabalho, Neemias volta a Susã no 32º
ano do reinado de Artaxerxes.
A reconstrução dos muros foi apenas a última fase da restauração de
Jerusalém. Esta reconstrução teria começado 92 anos depois do regresso à terra
com o decreto de Ciro. Em tantos anos, a cidade já devia estar edificada e
bastante desenvolvida. E ainda, dificilmente a última fase da obra de reconstrução
poderá ser considerada uma “ordem de saída para restaurar e reedificar
Jerusalém”.
--- ---
Além dos
argumentos acima apresentados, a adoção do decreto de Artaxerxes I Longimano como
ordem de saída para edificar Jerusalém tem outros defeitos.
Primeiro, distorce completamente
a cronologia das 7 primeiras semanas (49 anos) da profecia que, de acordo com
Daniel 9:25, era o tempo que havia de durar a reedificação da cidade e dos
muros em tempos angustiosos.
De acordo com o
relato de Esdras, os tempos angustiosos começaram muito cedo após o decreto de
Ciro, com a oposição à reconstrução do templo (Ed 4), e duraram cerca de 17
anos até ao segundo ano de Dario, ano em que recomeçaram as obras. Também foram
12 anos de tempos angustiosos quando se restauraram os muros sob a direção de
Neemias (Ne 2-6), desde o 20º até ao 32º ano em que Neemias voltou
para Babilónia, tendo terminado a sua missão. E será lícito pensar que o
intervalo (presumivelmente de 70 anos) entre o terminar da obra do templo e o
começo do restauro dos muros também foram tempos angustiosos, de outro modo os
judeus teriam certamente continuado as obras. Teríamos assim um período de
cerca de 104 anos angustiosos.
Portanto, se
optarmos pelo decreto de Ciro como ordem de saída e a dedicação dos muros no
32º ano de Artaxerxes I Longimano como o ponto final da restauração de
Jerusalém em tempos angustiosos, ultrapassamos largamente os 49 anos preditos
por Daniel.
Um outro problema
é que a idade de Esdras e Neemias, que estavam entre os que vieram primeiro com
Zorobabel, não permite identificar este Artaxerxes com Artaxerxes I Longimano.
Por isso, se
tivermos em consideração que a reedificação da cidade, incluindo os muros
(porque estes fazem parte integrante da cidade), devia ter lugar em 49 anos, vamos
ter de provar que a identidade do rei Artaxerxes de Esdras e Neemias não é
Artaxerxes I Longimano, como é assumido por muitos.Será o tema da mensagem seguinte.
05/09/2015
A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (6) – A desolação
E o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e
o seu fim será como uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão
determinadas assolações (v.26b).
Sobre a asa
das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está
determinado será derramado sobre o assolador (v.27b).
O povo do
príncipe destruirá a cidade
Esta passagem
prediz sem sombra de dúvida o juízo de Deus sobre a cidade de Jerusalém,
executado pelos exércitos romanos, no ano 70 da nossa era. Como acontecera no
tempo de Nabucodonosor da Babilónia, aconteceria novamente uma grande
destruição, agora muito concretamente em consequência de Israel ter rejeitado o
seu Messias. Jesus veio para o que era
seu, e os seus não o receberam (Jo 1:11). O próprio Jesus confirmou em
várias ocasiões que o juízo viria sobre Jerusalém porque não reconheceram o
tempo da sua visitação; nas suas parábolas (Mt 21: 33-46; 22:1-7; Lc 20:9-16;
Is 6:8-13), no sermão profético (Mt 24), quando chorou sobre Jerusalém.
Pois sobre ti virão dias em que os teus inimigos te cercarão de
trincheiras e, por todos os lados, te apertarão o cerco; e te arrasarão e aos
teus filhos dentro de ti; não deixarão em ti pedra sobre pedra porque não
reconheceste a oportunidade da tua visitação (Lc 19:43-44).
Israel não deu
ouvidos aos servos de Deus, aos profetas, que em seu nome falavam aos reis, aos
príncipes e a todo o povo da terra, como confessara Daniel (Dn 9:6). Jesus
disse aos fariseus:
Sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de
vossos pais […] eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns
matareis e crucificareis; outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis
de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado
sobre a terra, desde o sangue do justo Abel […] (Mt 23:31-35)
As autoridades de
Israel julgaram e condenaram Jesus através de meios falsos. Não foi um processo
justo. Eles foram, de facto, homicidas. Vós
o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos (At 2:23), afirmou Pedro aos
judeus reunidos por ocasião da festa de Pentecostes. Na lei, o castigo do
homicida era a morte (Nm 35:30-31).
O fim de Jerusalém
foi num dilúvio, que nos faz lembrar o dilúvio que sobreveio ao mundo no tempo
de Noé.
Foi um tempo
atribulado, uma grande tribulação, antes da destruição final. Houve uma guerra
sangrenta entre os judeus e os ocupantes romanos. Os exércitos romanos sitiaram
a cidade durante três anos e meio. Por causa do cerco grassou uma fome terrível
na cidade. E como se não bastasse, havia guerras internas, dentro da cidade,
entre facções judaicas rivais, pilhagens e assassinatos entre irmãos judeus.
Flávio Josefo descreve com muito realismo os horrores desta guerra.
O príncipe (aqui
também NAGIYD), cujo povo havia de
destruir a cidade e o santuário, é geralmente identificado com o general Tito,
comandante daquelas legiões e filho do então imperador Vespasiano.
Paralelamente, podemos ver naquele príncipe romano destruidor uma
correspondência com o quarto animal (besta) das visões de Daniel: o animal
terrível, que devorava e pisava aos pés (Dn 7:7-28), porque Roma foi o quarto
império. Numa interpretação histórica, foi efetivamente o general Tito e as
suas legiões que levaram a efeito a destruição de Jerusalém.
Mas, atendendo ao
contexto e à simbologia bíblica, não seria mais exato dizer que este príncipe
que vem com o seu povo é o mesmo príncipe que o do v.25? É, no fim de contas,
Jesus que vem como Senhor dos Exércitos para executar vingança, juízo e justiça
sobre os rebeldes e inimigos. É a Deus que pertence a vingança e é portanto Ele
que a lidera os povos que usa como o seu instrumento: Assíria, Babilónia, … e Roma.
… O Senhor levanta a sua voz diante do seu exército; porque muitíssimo
grande é o seu arraial; porque é poderoso quem executa as suas ordens; sim,
grande é o dia do Senhor e mui terrível! Quem o poderá suportar? (Joel 2:1-11)
É o próprio Deus
quem destrói o seu santuário (este princípio continua válido nos tempos do Novo
Testamento; ver 1 Co 3:17, se alguém
destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá), mesmo se para este efeito
usa outros agentes.
Na visão de
Ezequiel relativa à matança na cidade de Jerusalém (Ez 9), e no capítulo que
descreve a saída da glória de Deus do templo (Ez 10), Deus falou ao homem
vestido de linho para encher as mãos de brasas acesas e espalhá-las sobre a
cidade. As brasas vinham de entre os querubins (Ez 10:2, 7). Esta é uma
referência a Deuteronómio 13:12-16, que descreve como deviam ser julgadas as
cidades idólatras. Ajuntarás todo o seu
despojo no meio da sua praça, e a cidade e todo o seu despojo queimarás por
oferta total ao Senhor teu Deus, e será montão perpétuo de ruínas; nunca mais
se edificará (v.16). A cidade apóstata era oferecida em holocausto. O fogo
utilizado para queimar ofertas e holocaustos era o fogo do altar e este fogo
tinha origem em Deus. Quando o tabernáculo e o templo de Salomão foram
consagrados, fogo saiu de Deus para consumir o holocausto no altar (Lv 9:24; 2
Cr 7:1). Este fogo era mantido aceso pelos sacerdotes e usado para começar
outros fogos. Unicamente o fogo do altar era autorizado para acender outros
fogos sacrificiais[1].
É evidente que
Deus está no controlo da destruição, mas o versículo diz que é o povo do príncipe que destrói a
cidade. Na interpretação histórica, o povo era o exército romano, mas na
interpretação espiritual, é o povo de Deus, os santos. O Apocalipse mostra-nos
este aspecto. Foram as orações dos santos, a clamar por vingança, que
provocaram a destruição da cidade que se tinha tornado prostituta e que estava
cheia do sangue dos santos. Até quando, ó
Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas nem vingas o nosso sangue dos
que habitam sobre a terra? (Ap 7:10). As orações dos santos foram
oferecidas com incenso sobre o altar de ouro diante do trono, e o fumo do
incenso subiu a Deus com as orações dos santos. Mas a seguir, o anjo tomou o
incensário, encheu-o do fogo do altar e atirou o fogo à terra. E houve trovões,
vozes, relâmpagos e terramoto (Ap 8:3-5), imagens proféticas características
que ilustram o derramar do juízo do Senhor (por ex. Is 13:6-13; Is 29:6; Jl
2:10-11). A destruição de Jerusalém foi um dia de juízo. O fogo do altar, para
destruir a cidade apóstata, vem do céu e é atirado à terra em resposta às
orações dos santos[2].
A destruição de
Jerusalém aconteceu no ano 70 d.C., portanto, 40 anos depois da morte de Jesus.
O versículo 26 não diz que a destruição de Jerusalém devia acontecer na 70ª
semana, mas depois das [sete e]
sessenta e duas semanas. O Ungido foi morto depois das (7 e) 62 semanas, e pelo
v.27 sabemos que isto aconteceu no meio da 70ª semana: na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares.
Mas se o julgamento sobre Jerusalém não aconteceu dentro do quadro das 70
semanas, podemos, contudo, dizer que a causa e o motivo dessa destruição se
encontra nos acontecimentos da última semana, mais especificamente na rejeição
do Messias pelo seu próprio povo.
O castigo final
fora adiado 40 anos. Novamente vemos a história bíblica repetir-se. Israel,
quando saiu do Egipto e o povo recusou entrar na terra prometida depois do
relatório negativo dos espias, andou 40 anos pelo deserto. Ao longo destes 40
anos, o tempo de uma geração, pereceram todos os incrédulos e a geração
seguinte tomou posse da terra (Nm 32:13). Reconhece-se na época entre o ano 30
e 70 d.C. o mesmo padrão. Deus providenciou salvação e libertação para o seu
povo e a promessa de uma nova terra, um novo Reino. Mas, para aqueles que
recusaram, o seu fim foi destruição. E não entraram no Reino prometido.
Nesse tempo … haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que
houve nação até àquele tempo; mas naquele tempo será salvo o teu povo, todo
aquele que for achado inscrito no livro (Dn 12:1). A
desolação veio sobre a Jerusalém terrena, sobre o símbolo da Velha Aliança,
dando fim definitivo àquela dispensação. Mas havia salvação para quem cresse em Jesus. Todo aquele
que invocar o Senhor será salvo (At 2:21).
Sobre a asa
das abominações virá o assolador
Sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e
o que está determinado será derramado sobre o assolador.
O assolador (ou
destruidor) veio sobre a asa das abominações; isto é, veio por causa das
abominações. Há que definir então o que são abominações.
A palavra hebraica SHEKETS (em
grego, ‘bdelygma’), geralmente traduzida “abominação”, refere-se a
transgressões abomináveis e detestáveis trazidas para dentro do santuário. São
atos de idolatria que profanam o santuário[3].
Abominações não são ações cometidas por estranhos à aliança, mas são
cometidas na presença de Deus pelo próprio povo de Deus, representados pelos
seus sacerdotes. Porque os filhos de Judá
fizeram o que era mau perante mim, diz o Senhor: puseram os seus ídolos
abomináveis na casa que se chama pelo meu nome, para a contaminarem (Jr
7:30). Quando estava no exílio, Ezequiel viu em visão as abominações cometidas
no santuário pelos sacerdotes (Ez 8) e viu a glória do Senhor sair do templo
por causa da presença daquelas abominações (Ez 9:3; 10:18). Foram as
abominações cometidas no templo pelos sacerdotes de Israel que contaminaram o
lugar santo e resultaram na primeira destruição de Jerusalém e do templo de
Salomão por Nabucodonosor (Jr 4:1;7:30; 13:27; Ez 5:9,11;6:11; 8:1-18; 2 Cr
36:14-17).
Não era a presença dos exércitos de Nabucodonosor no templo que
constituía abominação, mas o facto desta presença e ação do inimigo era a
consequência visível da abominação cometida por Israel. A abominação trouxe
juízo, executado mediante o exército de um povo estranho. Daniel tinha plena
consciência disto como podemos ver na sua oração.
Assim também na segunda destruição de Jerusalém (no ano 70 d.C.), o
assolador viria por causa das abominações. Nos evangelhos, Jesus inspecionou
duas vezes o templo e expulsou os vendilhões, uma primeira vez no princípio do
seu ministério (Jo 2:13-17) e a segunda no final (Mt 21:12-13), acusando os
judeus de terem feito dele um covil de salteadores. Pouco depois Jesus disse
aos fariseus: a vossa casa vos ficará
deserta (Mt 23:28). Momentos depois, Jesus saiu do templo (Mt 24:1), à
semelhança da glória do Senhor que Ezequiel viu sair do templo, para nunca mais
lá voltar, deixando-o deserto e “desolado”.
É um facto
que os judeus continuaram a oferecer sacrifícios no templo enquanto este ficou
de pé (até ao ano 70) mas, legalmente, a obra de Cristo na cruz aboliu o
sistema sacrificial, fazendo com que a oferta de qualquer tipo de sacrifícios
deixasse de fazer sentido para sempre. Rasgou-se o véu do templo e abriu-se o
acesso ao santo dos santos, pelo sangue de Jesus (Hb 10:19).
A
continuação dos sacrifícios e das ofertas significava a rejeição do Senhor e do
seu Messias e era, por conseguinte, idolatria (estabelecimento da sua própria
religião e justiça). Idolatria é abominação.
A expressão sobre a asa das
abominações está relacionada com Números 15:37-41:
Fala aos filhos de Israel, e
dize-lhes que nas bordas (literalmente: asas) das suas vestes façam franjas pelas suas gerações … serão para que,
vendo-as, vos lembreis de todos os mandamentos do Senhor, e os façais. Eram
asas de santidade para lembrar os israelitas de guardarem a lei. Através de
Ageu, Deus mandou perguntar aos sacerdotes: Se
alguém leva carne santa na aba (asa) da sua veste e com a sua aba tocar no pão,
ou no guisado, ou no vinho, ou no azeite, ou em qualquer outro mantimento,
ficará este santificado? … Não … Se alguém, que se tinha tornado impuro pelo
contacto com um corpo morto, tocar nalguma destas coisas, ficará isso imundo? …
Ficará imunda. Então, respondeu Ageu e disse: Assim é este povo, e assim é esta
nação diante do meu rosto, disse o Senhor; e assim é toda a obra das suas mãos;
e tudo o que ali oferecem imundo é (Ag 2:11-14). Em vez ser de asas de
santidade, asas de abominação traziam destruição.
Assolações estavam
determinadas (v.26), e isto até à
consumação (v.27). A consumação
de quê? De todos os vestígios físicos relacionados com a aliança da lei, a qual
estava simbolicamente representada pelo templo e a cidade (terrena) de
Jerusalém, onde Deus fez habitar o seu nome. Com a Nova Aliança Deus mudou a
sua habitação para outro lugar, já não a Jerusalém terrena, mas a Jerusalém
celestial, o templo espiritual, a Igreja (Jo 14:23; 1 Co 3:16; Ap 21:2-3). É
como Jesus disse à mulher samaritana: a
hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai … mas os verdadeiros adoradores adoram-no em
espírito e em verdade (Jo 4:20-24). A Velha Aliança tornou-se obsoleta,
deixou de ter utilidade e o que restava dela devia ser destruído. Quando Ele diz Nova, torna antiquada a
primeira. Ora, aquilo que se torna antiquado e envelhecido, está prestes a
desaparecer (Hb 8:13), escreveu Paulo aos Hebreus um par de anos antes da
destruição de Jerusalém. Não havia qualquer esperança de que aquela Jerusalém
terrena continuasse a existir como lugar da habitação de Deus.
Resta identificar
o assolador. Em geral, considera-se que o assolador é o “povo do príncipe”
(v.26) que destruiu a cidade e sobre o qual no futuro seria derramado “o que
está determinado”. Deus usava povos estranhos como instrumento para trazer os
seus juízos sobre Israel, mas isto não significava que eles eram inocentados. O
julgamento sobre Babilónia é disto um bom exemplo (Is 47; Jr 50-51). Se o
assolador é Roma, o quarto animal, o juízo também foi derramado sobre ele.
Por outro lado,
visto que foram as abominações dos sacerdotes e do povo de Israel a verdadeira
causa da assolação, pode-se dizer que estes são o verdadeiro assolador. Como
cabeça espiritual de Israel, o sumo-sacerdote seria o principal responsável da
abominação, e sobre ele e sobre o povo seria derramado o que está determinado, e o que estava determinado era a maldição
da lei (Lv 26). A última maldição (Lv 26:32-39) foi cumprida à letra no término
da guerra entre judeus e romanos. No dia 10 de Av fogo foi posto ao santuário e
o mês seguinte, no dia 8 de Elul, Jerusalém caiu totalmente nas mãos dos
Romanos, segundo o relato de Flávio Josefo[4].
Aqueles que não foram mortos no cerco, pela fome ou pela espada, foram vendidos
como escravos e dispersos por todo o mundo.
[1] A história do grupo de Coré em Números 16 é um
bom exemplo do uso de fogo estranho, que não tinha origem no altar. Moisés e
Arão resolveram a questão com fogo do altar (v.46).
[3] Há
duas palavras hebraicas que são variavelmente traduzidas abominação ou coisa
detestável: SHEKETS e TO’EBAH. TO’EBAH são atos detestáveis que ocorrem na vida
diária, que estão em conflito com a lei moral e resultam em julgamento e
expulsão da terra (exemplo: Lv 18:19-25). SHEQETS é usado para atos detestáveis
que ocorrem no contexto do templo e que entram em conflito direto com o
santuário, e que resultam em expulsão do santuário. Ver: James B. Jordan, The abomination of desolation, Part 1, 2, 3, 4a, 4b, in:
Biblical Chronology, nº 25, 26, 31, 32 (1991).
A Guerra dos Judeus,
Livro VI, cap.4 a 10.
Foi editado em 2007, pelas Edições Sílabo, a
primeira tradução completa em Português de A
guerra dos Judeus.
28/08/2015
A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (5) – Ele confirmará a aliança
Ele confirmará a aliança com muitos por uma
semana.
Em primeiro lugar
convém dar a tradução correta do verbo empregado nesta frase, porque várias
versões têm traduzido “ele firmará um
concerto”, induzindo em erro quanto ao seu significado. A tradução correta
do verbo GABAR não é firmar no
sentido de assinar ou de fazer ou cortar uma aliança, mas “confirmar” ou “fazer
prevalecer”[1]
um concerto. É a única vez na Bíblia que é dito que uma aliança prevalece.
Quem é o “ele” que
confirma a aliança?
Uma vista de olhos
à estrutura (ABCD ABCD) dos versículos 26 e 27 facilitará a compreensão:
A. Depois das sessenta e duas semanas será morto o Ungido
B. E já não estará
C. O povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário
D. O seu fim será num dilúvio, até ao fim haverá guerra; desolações são
determinadas.
A. Ele fará firme aliança com muitos por uma semana
B. Na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta
C. Sobre a asa das abominações virá o assolador,
D. Até que a destruição, que está determinada, se derrame sobre ele.
As frases A e B dos
vs.26 e 27 dizem respeito ao Ungido. E dentro do contexto da profecia, tudo
indica que quem confirma a aliança só pode ser o Ungido, o Príncipe. Não
devemos esquecer que é o Messias a personagem proeminente e central desta
profecia! Ele é manifestado no princípio da 70ª semana e no meio da semana é
morto, fazendo cessar o sacrifício e a oferta. Tendo sido “cortado” (KARATH) ele “confirmou” a aliança. E
confirmando a aliança no meio da semana, fez cessar o sacrifício e a oferta de
manjares.
O “ele” do v.27
que confirma a aliança não pode ser o príncipe do povo que vem destruir a
cidade do versículo anterior, como afirmam certas interpretações. Na frase C do
v.26, a cláusula principal não é o príncipe, mas o povo, e então seria o povo a
confirmar a aliança. A frase A do v.27 vai buscar o seu sujeito à frase A do
v.26: o Ungido.
A aliança prevalece. É uma nota de esperança: a
aliança prevalece, apesar de a transgressão do povo conduzir novamente à
destruição de Jerusalém, e apesar da “eliminação” do Ungido que fica
aparentemente sem descendência.
Deus fez
sucessivas alianças com Israel, mas todas tinham em vista o cumprimento da sua
promessa a Abraão que ele seria pai de muitas nações e que na sua semente
seriam abençoadas todas as nações da terra. Isto é a promessa de ser herdeiro
do mundo, como diz Paulo em Romanos 4:13.
Quem são os
“muitos” com quem ele veio confirmar a aliança?
No entendimento de
Daniel, os “muitos” seriam provavelmente os que estavam incluídos na aliança
abraâmica através da circuncisão, visto também que a oração de Daniel dizia
respeito especificamente ao seu povo, os judeus. E como profetizou Simeão
quando Jesus foi levado ao templo pelos seus pais para ser apresentado ao
Senhor: Eis que este menino está
destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel (Lc
2:34). Os judeus no tempo de Jesus, mesmo os discípulos, tardaram em
compreender o alargamento da aliança aos gentios.
Por outro lado, é
perfeitamente bíblico declarar que Jesus morreu por muitos, não apenas judeus. … o meu Servo, o Justo… justificará a
muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si (Is 53:11-12). O filho
do homem veio dar a sua vida em resgate por muitos (Mt 20:28). Isto é o meu sangue da aliança derramado em
favor de muitos (Mt 26:28). Jesus morreu por todos, mas nem todos recebem
os benefícios da sua salvação. Assim, o seu sangue foi derramado para “muitos”.
Dentro do contexto
da profecia, contudo, faz mais sentido identificar os “muitos” com os judeus
(os da circuncisão). E assim já podemos compreender como Jesus fez efetivamente
“prevalecer” esta aliança com os judeus por
uma semana. O ministério de Jesus durou três anos e meio, o que corresponde
à primeira metade da 70ª semana, assumindo que tenha começado com o batismo de
Jesus. A pregação de Jesus e o anúncio da proximidade do reino de Deus
destinava-se primeiramente aos judeus. Jesus afirmou: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt
15:21-28). Quando enviou os seus doze
discípulos, deu-lhes as seguintes instruções: Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas,
de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 10:5-6).
Uma especial paciência foi conferida aos judeus: o viticultor que havia três
anos vinha procurar fruto na figueira, mas não achou, quis, porém, dar mais um
ano para que a árvore desse fruto. Se depois não desse fruto, cortá-la-ia (Lc
13:6-9).
Ainda na segunda
metade da semana, isto é durante os três anos e meio a seguir à morte de Jesus,
os discípulos dirigiam-se sempre em primeiro lugar e quase exclusivamente aos
judeus. No dia de Pentecostes, Pedro dirigiu-se aos varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém (At 2:14), aos varões israelitas (At 2:22), e por
ocasião da cura do coxo, aos israelitas
(At 3:12). Também Estêvão falou assim antes de ser apedrejado: Varões irmãos e pais, ouvi (At 7:1).
Não há nenhum
evento específico na profecia de Daniel que identifique o fim da 70ª semana,
mas é possível que esteja relacionado com a completa abertura do evangelho aos
gentios. Poderá coincidir com a morte de Estêvão e a primeira grande
perseguição aos seguidores de Jesus, em consequência da qual os judeus
convertidos saíram de Jerusalém e começaram a anunciar o evangelho nas regiões
da Judeia e Samaria (At 8:1, 4, 14-17), e a conversão de Saulo que ocorreu na
mesma altura e que fora escolhido para levar o nome de Deus perante gentios e
reis, bem como perante os filhos de Israel (At 9:15). Da mesma época data
também o episódio da visita de Pedro à casa do centurião Cornélio (At 10), onde
pela primeira vez o dom do Espírito Santo foi derramado sobre os gentios. E os fiéis que eram da circuncisão, que
vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o
dom do Espírito Santo (At 10:45; 11:1).
“Confirmar”
subentende que esse concerto já existe, e que os seus termos e condições se
tornam agora efetivos. “Confirmar” é fazer prevalecer os termos de uma aliança
previamente concedida.
Ele confirmou a
aliança prometida, duplamente, como está na lei (Lv 26 e Dt 28): com a bênção e
com a maldição. Primeiro, ele fez cessar o sacrifício e a oferta, assegurando o
perdão e uma nova aliança para os eleitos de Israel.
O Messias confirmou, no seu sangue, a Nova Aliança
há muito anunciada e prometida (Jr 31:31; Ez 11:19-20; 36:25-27).
Eis aí vêm dias, diz o Senhor, e firmarei nova aliança com a casa de
Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz com seus pais, no
dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egipto; porquanto eles anularam
a minha aliança, não obstante eu os haver desposado, diz o Senhor. Porque esta
é a aliança que farei (KARATH) com a
casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor. Na mente lhes imprimirei as
minhas leis, também no coração lhas inscreverei: eu serei o seu Deus, e eles
serão o meu povo (Jr 31:31-33).
Por outro lado, a
maldição também estava inscrita na lei e Jesus disse assim: não cuideis que vim destruir a lei ou os
profetas; não vim abrogar, mas cumprir […] até que o céu e a terra passem, nem um
jota ou um til se omitirá da lei sem que tudo seja cumprido (Mt 5:17-18).
E o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e
o seu fim será como uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão
determinadas assolações (v.26b).
[1] Alguns exemplos da ocorrência de GABAR: Gn 7:18 (as águas prevalecem
sobre a terra); Ex 17:11; 1 Sm 2:9; Is 42:13 (prevalecer contra o inimigo). GIBBOR (guerreiro, homem forte) vem da
mesma raiz.
23/08/2015
A PROFECIA DAS 70 SEMANAS DE DANIEL (4) – o Ungido
Sabe e entende: desde a saída da ordem, para
restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Ungido, o Príncipe, sete semanas e
sessenta e duas semanas (Dn 9:25).
Até ao Ungido
Desde a saída da ordem para restaurar e edificar
Jerusalém até ao Ungido passariam um total de 69 semanas (7 + 62). O Ungido
apareceria no começo da 70ª semana. A questão cronológica será abordada proximamente.
Primeiro, importa-nos identificar quem é o Ungido, o Príncipe.
Se até agora
tudo o que o anjo anunciou dizia respeito aos tempos messiânicos, o Ungido não
pode ser outro do que Jesus, o Cristo. Messias, em Hebraico, traduzido Cristo,
em Grego, significa “ungido”.
“Até” é um
indicador de tempo. Portanto, para saber quando começou a 70ª semana,
devemo-nos colocar a seguinte questão: a partir de quando o título “Messias” se
pode aplicar a Jesus? Havendo algum momento específico na sua vida em que Ele
foi efetivamente “ungido”, este momento pode ser considerado o ponto de
passagem da 69ª para a 70ª semana.
Na Velha
Aliança, quem era ungido para desempenhar o seu ofício eram os sacerdotes e os
reis. No seu batismo, Jesus foi ungido para desempenhar os dois ofícios.
Jesus tinha cerca de trinta anos ao começar
o seu ministério (Lc 3:23).
Aos trinta anos de idade os sacerdotes eram contados para o serviço pleno no
templo[1] (Nm 4:3,
23, 30; 1 Cr 23:3). Todos os evangelhos descrevem como Jesus foi ungido com o
Espírito Santo (Mt 3:16-17; Mc 1:10-11; Lc 3:21-22; Jo 1:31-34). Este evento
marcou oficialmente o princípio do seu sacerdócio e ministério público. A
partir daquele momento Jesus começou a anunciar o Reino, a pregar, curar e
expulsar demónios.
A unção do
Espírito Santo no batismo de Jesus, além de ser uma unção de sacerdote, era uma
unção de rei. A voz de Deus que clamou Este
é meu filho amado, em quem me comprazo, expressa o reconhecimento solene e
público da filiação que lhe dava direito ao trono. A base legal para ter
direito a uma herança (neste caso o direito a um trono e uma dinastia
continuada como prometida a David) é a filiação, a relação pai-filho (nós
reinamos com Cristo e herdamos com Cristo, porque temos a adoção de filhos, Ef
1:5). Deus estabeleceu esta relação com o filho de David, Salomão, adotando-o como
filho (2 Sm 7:13-14): eu estabelecerei
para sempre o trono do seu reino. Eu lhe serei por pai, e ele me será por
filho.
Mas Salomão
e seus descendentes transgrediram a lei e foram afastados do direito ao trono
de Israel; não agradaram a Deus e quebraram a linha de herança. A Acaz, rei de
Judá, que colocou a sua fé em Tiglate-Pileser, rei da Assíria, para se proteger
contra o inimigo sírio aliado com o rei de Israel, e que por isso tomou a prata
e o ouro que se achavam na casa do Senhor e os mandou de presente ao rei da
Assíria (2 Rs 16; Is 7; 2 Cr 28:16-25), a esse Acaz, Deus deu um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um
filho, e lhe chamará Emanuel (Is 7:14). Não seria da descendência física de
Salomão que viria aquele que tinha direito ao trono; mas este viria através de
uma virgem. No batismo de Jesus, o Pai declarou publicamente Este é meu filho em quem me comprazo,
afirmando que dele se agradava, restabelecendo assim o direito ao trono de um
descendente da casa de Judá. Do último rei no trono de Judá, Jeconias, disse o
Senhor: “Registai este como se não tivera
filhos, homem que não prosperará nos seus dias, e nenhum dos seus filhos
prosperará para se assentar no trono de David, e ainda reinar em Judá” (Jr
22:30).
Efetivamente,
Jesus só ocupou o seu trono à direita do Pai quando ascendeu ao céu depois de
ressurreto. Mas não há qualquer incongruência nisto. Também David foi ungido
pelo profeta Samuel e só depois de vários anos, de facto, aclamado rei e
entronizado. Algumas interpretações consideram que a entrada triunfal de Jesus
em Jerusalém, em cumprimento de Zacarias 9 (Mt 21, Mc 11, Lc 19, Jo 12), é o final
das 69 semanas - até ao Messias, o
Príncipe (NAGIYD) (príncipe, não rei). Contudo, não é a sua aclamação como
rei que está em causa, mas a sua unção, a qual aconteceu cerca de três anos e
meio antes, no princípio do seu ministério.
E, ainda, o
propósito com que João Baptista batizou Jesus com água foi a fim de que Ele fosse manifestado a Israel (v.31). O batismo de
Jesus foi o momento da sua manifestação ao seu povo, a sua manifestação como o
“Ungido”. Quem quisesse, podia reconhecer este facto, como o comprovam os dois
discípulos que, ao ouvir João dizer que Jesus era o Cordeiro de Deus, saíram a
correr contar aos outros: Achámos o Messias
(Jo 1;41, 45), achámos o Ungido.
O próprio
Jesus aplicou a si mesmo, logo nos primeiros dias do seu ministério, na
sinagoga de Nazaré, o trecho no livro de Isaías onde está escrito: O Espírito do Senhor é sobre mim, pois me ungiu para... pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o
ano aceitável do Senhor, afirmando no fim da leitura que Hoje, se cumpriu esta Escritura em vossos
ouvidos (Is 61:1-2; Lc 4:16-21). Naquele momento, Jesus declarou, para quem
quisesse ouvir, que ele era o Ungido da profecia. À mulher samaritana, Jesus
disse sem rodeios que era Ele o Messias (Jo 4:26).
Concluímos
então que a partir do seu batismo e manifestação a Israel, Jesus é o Messias, o
Ungido de Deus na plena acepção do termo. Não há outro momento mais tarde em que Ele é mais ungido do
que o era no seu batismo. 69 semanas era o tempo de espera até à manifestação
do Ungido, a contar da ordem de saída para restaurar e edificar Jerusalém.
O Príncipe
O Ungido é
também chamado “o príncipe”. A palavra hebraica aqui utilizada é NAGIYD, e significa chefe, líder. Para
Daniel, no contexto messiânico da profecia, o NAGIYD não podia ser outro que o líder que viria da descendência de
Judá de que falara Jacob aos seus filhos antes de morrer: aquele a quem os
filhos de Jacob se inclinariam, aquele que seria o detentor do cetro, aquele a
quem os povos obedeceriam (Gn 49:8-12).
A palavra NAGIYD é aplicada a outros líderes, como
Saul, Salomão, Jeroboão e outros oficiais com cargas de liderança no templo.
Mas é principalmente aplicada a David, que Deus escolheu especialmente para
apascentar o seu povo e para ser chefe (NAGIYD)
sobre Israel (1 Sm 13:14; 2 Sm 5:2; 6:21; 7:8; 1 Cr 11:2). De Judá veio efetivamente
o príncipe, o NAGIYD (1 Cr 5:2). O
primeiro NAGIYD de Judá foi David.
O Senhor Deus de Israel me escolheu de toda
a casa de meu pai, para que eternamente fosse eu rei (MELEK) sobre Israel; porque a Judá escolheu por príncipe (NAGIYD), e a casa de meu pai na casa de
Judá (1 Cr 28:4).
Inclinai os vossos ouvidos, e vinde a mim;
ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que
consiste nas fiéis misericórdias prometidas a David. Eis que eu o dei por
testemunho aos povos, como príncipe (NAGIYD)
e governador dos povos (Is 55:3-4).
David era a
figura, o protótipo do líder que Deus prometera levantar e que reinaria com
justiça e para sempre (Is 9:7; Jr 23:5; 30:9; 33:15; Ez 34:23-24; 37:24-25).
Pela sua
linhagem, Jesus era descendente do rei David, príncipe (NAS’I)[2]
da casa de Judá, como se pode comprovar pelas genealogias nos evangelhos de
Mateus e Lucas. Era ao Renovo da raiz de Jessé que o trono do Senhor estava
prometido (Jr 23:5; 33:15). A Maria, o anjo Gabriel disse do filho que ela iria
conceber: Este será grande e será chamado
Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de David, seu pai; ele
reinará para sempre sobre a casa de Jacob, e o seu reinado não terá fim (Lc
1:32).
“Príncipe”
funciona, nesta frase da profecia, como uma espécie de qualificativo, que
identifica – sem que restem dúvidas – quem é este Ungido. O Ungido é o Príncipe
de Judá, da casa de David.
Será cortado o Ungido e não tem nada
Depois das [sete e] 62 semanas será cortado o ungido, e já não estará
(ou, e não terá nada) (v.26).
A manifestação do Messias
ocorre no término de 69 semanas. À 69ª semana, logicamente, se lhe segue a 70ª
e última semana da profecia. Foi na 70ª semana que o Messias foi tirado ou
morto (como aparece em várias traduções) ou, literalmente, “cortado” (KARATH). Foi na metade da semana que fez
cessar o sacrifício e a oferta de manjares (v. 27), pelo sacrifício de si
próprio. Após um ministério de três anos e meio (metade de uma semana), Jesus
foi cortado da terra dos viventes.
Além de nos fazer lembrar imediatamente Isaías 53:8, também nos faz lembrar as
palavras de Jeremias 11:19. Eu era como
manso cordeiro, que é levado ao matadouro; porque eu não sabia que tramavam
projetos contra mim, dizendo: “Destruamos a árvore com o seu fruto; a ele
cortemo-lo (KARATH) da terra dos viventes, e não haja mais memória do seu
nome”. Os homens de Anatote procuravam a morte de Jeremias, como se com
isto desaparecesse a palavra do Senhor contra eles. E este episódio faz lembrar
a parábola do senhor da vinha (Mt 21). O herdeiro foi morto na tentativa dos
lavradores para se apossarem da herança.
Jesus foi
morto pela condenação do Sinédrio. Foi julgado e condenado, tendo sido
falsamente acusado de blasfémia (Mt 26:64-66), cuja consequência era a pena de
morte (Ex 22:28; Lv 24:15-16). O sumo-sacerdote achou que Jesus amaldiçoou o
príncipe (nas’i) do povo, quando
declarou que desde agora vereis o Filho
do homem assentado à direita do Todo-poderoso e vindo sobre as nuvens do céu
(Mt 26:64). A vinda do Filho do homem sobre as nuvens significava julgamento
sobre Israel.
Mas o verbo KARATH usado por Daniel implica mais do
que simplesmente a pena de morte. KARATH
expressa a excomunhão, o corte definitivo da comunhão com Deus e da pertença à
comunidade da aliança. Uma alma que não cumpria a circuncisão, ou que profanava
o sábado, ou que comesse sangue, ou fizesse certas outras coisas definidas na
lei, era eliminada (KARATH) do seu povo (Gn 17:14; Ex 12:15,
19; 31:14; Lv 7:20, 21, 25; 17:4, 9; 20:18). Portanto guardareis o sábado, porque é santo para vós; aquele que o
profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado (KARATH)
do meio do seu povo (Ex 31:14).
O Ungido
foi, de facto, eliminado, como o dá a
entender o uso do verbo KARATH. Mas
como é isto possível se Ele era sem pecado?
Todos nós andávamos desgarrados como
ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a
iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca;
como cordeiro foi levado ao matadouro […] Por juízo opressor foi arrebatado (Is
53:6-7)
Sendo
“cortado”, Jesus ficaria sem nada, sem descendência, sem nome. Mesmo Deus o
desamparou naquela hora (Mt 27:46). Aos olhos dos judeus, daqueles que não
perceberam o que estava a passar-se diante dos seus olhos, Jesus não tinha
nada.
Pela opressão e pelo juízo foi arrebatado; e
quem dentre os da sua geração considerou que ele fora cortado [3] da terra
dos viventes, ferido por causa da transgressão do meu povo? (Is 53:8)
De sua linhagem, quem dela cogitou? Quem
pode falar dos seus descendentes? (outras versões de Is 53:8).
Verdadeiramente,
Jesus foi eliminado e excomungado como se fosse um transgressor da lei, e
achado sem descendência quando levou sobre ele todas as nossas transgressões.
Mas ele venceu. Tanto que Isaías 53:10-11 diz que verá a sua posteridade e o
fruto do penoso trabalho de sua alma e prolongará
os seus dias. A Igreja, que é o seu corpo, é a sua posteridade, o fruto do
seu trabalho.
Cortar a
aliança: a circuncisão de Cristo
O verbo KARATH, que significa simplesmente
cortar, como cortar uma árvore, cortar com uma faca, é especialmente usado na
expressão “cortar uma aliança” (alguns exemplos: Gn 15:18; Ex 24:8; Dt 4:23; Jr
34:8, 18; 2 Cr 21:7; Is 55:3). Certamente que o “cortar” do Ungido está também relacionado
com o “cortar” da aliança.
Na cruz,
Jesus “cortou” a aliança no seu próprio sangue. O cálice que Jesus entregou aos
seus discípulos para beberem na última ceia representava o seu sangue, o sangue
da Nova Aliança, derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados (Mt
26:28).
Na morte do
Ungido está, essencialmente, o cumprimento da promessa da aliança de Deus com
Abraão: Por pai de numerosas nações te
constitui (Gn 17:5).
Deus
prometera a Abrão uma posteridade como as estrelas do céu. Embora ele não
tivesse filhos, Abrão creu (Gn 15:1-6). Mais tarde, Deus converteu a sua
promessa numa aliança (Gn 17):
Farei uma aliança entre mim e ti, e te
multiplicarei extraordinariamente […] Quanto a mim, será contigo a minha
aliança; serás pai de numerosas nações. Abrão já não será o teu nome, e, sim,
Abraão; porque por pai de numerosas nações te constitui. […] Guardarás a minha
aliança, tu e a tua descendência no decurso das suas gerações. Esta é a minha
aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência: todo macho entre
vós será circuncidado. Circuncidareis a carne do vosso prepúcio; será isso por
sinal da aliança entre mim e vós (Gn 17:2-11).
O ato ritual
da circuncisão, executado por Abraão e a sua casa, expressava fé na promessa de
Deus. A circuncisão era uma aliança de fé (Rm 4:11). Daí que o incircunciso era
eliminado (cortado) do seu povo (Gn 17:14).
Abraão recebeu o sinal da circuncisão como
selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai
de todos os que crêem, embora não circuncidados, a fim de que lhes fosse
imputada a justiça (Rm 4:11).
Ismael foi
concebido antes da instituição da circuncisão; Ismael é o filho segundo a
carne. Isaac nasceu depois da instituição da circuncisão. Então lhe deu a aliança da circuncisão; assim nasceu Isaac (At
7:8). Isaac é o filho da promessa, que nasceu segundo o Espírito (Gl 4:23, 29). Através dele, Deus cumpriria a sua palavra
(Gn 18:21; 21:12), mas não sem antes pôr à prova a fé de Abraão, para ver se,
mesmo ordenado de sacrificar o seu filho no altar – aquele filho especial há
longo tempo desejado e através de quem a promessa seria realizada –, Abraão
ainda continuaria a crer. Abraão passou a prova e as promessas foram
confirmadas (Gn 22).
Porque
escolheu Deus o ritual da circuncisão para ratificar a sua aliança?
Antes de
mais nada, o rito da circuncisão – como qualquer outro rito de “cortar aliança”
– representa um juramento, em sinal de submissão ao Senhor, aos termos da sua
aliança e a sua autoridade judicial. Era a parte que o homem devia fazer como
expressão da sua fidelidade e fé na promessa de Deus. Era o sinal de ratificação
da aliança por parte de Abraão e de todos os que depois seriam circuncidados.
Além disso,
o tipo de ritual praticado para fazer uma aliança evoca as sanções no caso de
quebra da aliança. A ação ritual de cortar retrata a maldição da aliança: a
morte. No caso da circuncisão, o corte feito no órgão através do qual filhos
são gerados, significa que é sobre o descendente que vai recair o castigo do
julgamento. Paulo, em Colossenses 2:11, interpreta a circuncisão como morrer e
sofrer a ira de Deus. Entende a crucificação de Cristo como a circuncisão de
Cristo:
Nele também fostes circuncidados, não por
intermédio de mãos, mas no despojamento do corpo da carne, que é a circuncisão
de Cristo (Cl 2:11).
A
circuncisão era um ato simbólico de passar debaixo do julgamento, do juízo de
Deus. Ele sofreu a maldição. Ele passou debaixo do julgamento. Nele foi
aperfeiçoada, ou completada, a circuncisão, não por um corte simbólico, mas
pelo corte de todo o corpo da carne, objetivamente, na morte.
Mas Jesus
venceu e ressuscitou, porque a morte não o podia reter. Praticada ao oitavo
dia, a circuncisão é também sinal de ressurreição e nova vida. Foi no oitavo
dia que Jesus ressuscitou.
[1] Nm 8:23-26 diz que os levitas são entregues por
Deus para fazer o serviço na tenda da congregação a partir dos 25 anos, mas só
a partir dos 30 anos de idade são contados. Este período de 5 anos era
possivelmente um período de preparação antes de entrar no serviço pleno.
[2] Nas’i, também traduzido príncipe, é mais frequentemente utilizado
para os príncipes do povo, os príncipes das tribos de Israel. Em Ezequiel 44 a 48, nas’i é aplicado ao sumo-sacerdote que oficia no templo visionário.
At 23:3-5, ao referir-se a Ex 22:28, indica que nas’i é utilizado para o sumo-sacerdote.
O termo nagiyd é utilizado para oficiais e sacerdotes encarregados de
determinadas tarefas no templo ou sobre determinados grupos de pessoas, mas não
é aplicado ao sumo-sacerdote naquela qualidade, pelo que é afastada qualquer
interpretação que vê no Príncipe da profecia Daniel algum sumo-sacerdote
descendente da casa de Aarão.
[3] O verbo nesta passagem não é KARATH mas GAZAR. É um verbo muito menos frequente do que KARATH, mas tem um sentido semelhante: separado, excluído.
Subscrever:
Mensagens (Atom)